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25/09/2006

Despedida

Pessoal,

Encerro, agora, minha parceria com a UOL.

A partir de amanha estarei de casa nova. Gostaria de agradecer a equipe da Marion, sempre prestativa, profissional, com um senso de camaradagem e de equipe raros nos dias de hoje.

Quem quiser continuar acessando o Blog, clique em www.luisnassif.com.br. A partir de amanhã estará com um novo direcionamento, mas com o mesmo layout e divisão temática. Muda apenas a hospedagem.

PS -- Alguns leitores indagam se a saída tem algo a ver com artigos que escrevi. De forma alguma. Os Blogs são individuais, disponíveis a todos os assinantes da UOL. Nunca houve nenhuma pressão aqui, na UOL. A mudança tem a ver com projetos profissionais e a decisão foi comunicada à UOL há duas semanas.


Escrito por Luis Nassif às 17h06

Clichês de campanha

Pessoal

Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Comparar o desempenho econômico do país de Lula ao de Fernando Henrique é contrapor ao roto, o esfarrapado. Não há crescimento há 12 anos. Nos dois governos, as reformas micro-econômicas caminharam a passo de tartaruga – embora no de FHC tivesse sido aprovada a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e definido o modelo das agências reguladoras. Foram bons passos. Mas se deixou uma infra-estrutura em frangalhos, contas públicas claudicantes, setor externo sofrível. De Lula para cá só mudou o setor externo por conta da explosão dos preços das commodities e a desvalorização cambial de 2002. Na verdade, Lula jogou pela janela a desvalorização cambial.

Por outro lado, tem sido repetido à exaustão que o “Bolsa Família” não exige contrapartida dos beneficiários. Exige sim e há um monitoramento muito bem feito, inclusive com o auxílio do MEC, do IBGE da FGV-RJ e do economista Ricardo Paes de Barros – considerado o “papa” dos “focalistas”, defensores de políticas sociais focadas, que sempre foi apresentada como a alternativa racional às políticas universais.


Escrito por Luis Nassif às 16h35

O Sr. Crise

João Sayad propõe um desafio instigante no seu artigo de hoje na “Folha” (clique aqui). Diz ele que a história é acaso. Às vezes, nos momentos mais imprevistos, surge o fato a marcar o início da nova era. Mostra que às vezes personagens centrais são marionetes, às vezes é a sorte que determinada.

De certo modo, é continuação da bela discussão que tivemos no DNA Brasil, quando expus as conclusões de meu livro “O Cabeça de Planilha”. No dia,   o que Sayad propôs para discussão era se os desastres do câmbio no Real, com todas suas implicações posteriores, foi obra de indivíduos, decorrência da história, azar.

Pegando o mote de Sayad, em relação à história recente do país, os anos 80 são considerado a década perdida, e neles se moldou o novo país que deveria nascer nos 90. No auge do desencanto com Collor, estava sendo parido o novo Brasil. No auge do encantamento com o Real, estavam sendo plantadas as raízes para a estagnação da economia na década seguinte.

E hoje? Da crise nascerá um novo país ou um novo caos que levará a um novo país? Digo o seguinte: nenhum país passa incólume pelo volume de discussão gerado pela crise.

Já escrevi várias vezes que o maior estadista do Brasil é o Sr. Crise. Pois ele está presente, com uma intensidade (em termos de discussão) poucas vezes vista.

Que o país não será o mesmo, definitivamente não será. O que vem pela frente, se o que for, será elemento crucial para romper a inércia da estagnação, ou por bem ou por mal.


Escrito por Luis Nassif às 16h19

Frei Betto e Deus

Uma pequena maldade com Frei Betto, lendo sua homilia de domingo na “Folha” (clique aqui), “Valoriza o Teu Voto”:

 “Nas eleições deste ano, não te submetas ao desencanto, à inércia, à frustração, fraudando o teu voto como moeda sem valor."

Certa vez, Frei Betto chegou para o romancista Raduan Nassar e perguntou: “Raduan, o que eu faço para escrever como você?”. E Raduan: “A primeira coisa é parar de falar em Deus nos seus escritos”.


Escrito por Luis Nassif às 16h04

Um jogo de perde-e-perde

Vamos a algumas considerações sobre Lula vs mídia, do ponto de vista exclusivo do posicionamento de mercado dos veículos.

Emir Sader, que é militante assumido, julga que, com a constatação da semelhança de estilos entre o editorial de domingo da “Folha” e Carlos Lacerda, eu estaria provando que o editorial é “lacerdista” e quer derrubar Lula. Ué, é evidente que, neste momento, ocorre uma competição entre praticamente todos os grandes veículos da mídia para saber quem derruba Lula primeiro.

O que vou tentar analisar, nesse post, é visão de competição na mídia.

Momentos de catarse são fundamentais para permitir a consolidação (ou a queda) de veículos. A campanha das diretas e do impeachment são provas cabais do potencial desses momentos.

Vive-se, agora, um novo momento de catarse e existe uma ânsia para se aproveitá-lo e garantir espaço junto ao público nos próximos anos. É uma competição para saber quem se diferencia em torno do mesmo objetivo.

Independentemente do conteúdo, o editorial inspirado no estilo de Lacerda, o maior carbonário da história da imprensa brasileira, faz parte da busca dessa diferenciação.

Na semana passada, o “Globo” colocou na primeira página as perguntas de Lula, em relação à compra de dossiê, e a resposta do jornal: pergunte ao seu companheiro A, que fez isso; pergunte ao seu companheiro B, que fez aquilo. Foi um recurso muito bem sacado, com impacto efetivo.

Um recurso forte, mas que deve ser utilizado com moderação, é o editorial na primeira página. O editorial da “Folha” contra Collor, depois da invasão do jornal e do processo contra jornalistas, foi um dos pontos altos do jornalismo dos anos 90.

O erro da competição atual, em minha opinião, é que todos os veículos caminham praticamente na mesma direção, fazendo uma aposta na qual não se tem possibilidades de vitória.

O jogo, hoje em dia, é muito mais complexo do que na campanha contra Collor. Na época, havia na classe média um sentimento anti-Collor forte, porém ainda difuso; e um temor reverencial que deixava a imprensa relutante em cruzar o Rubicão. Por isso mesmo, na época o editorial da “Folha” foi um divisor de águas. Captava o sentimento do leitor no justo momento da virada, enfrentava riscos, desnudava o poderoso.

O momento agora é outro. A imprensa não é mais um poder em ascensão, mas um poder consolidado e temido. Não há entre os formadores de opinião o mesmo consenso que havia contra Collor. Lula tem erros enormes, como o “mensalão”, mas acertos enormes como a “Bolsa Família” e a incorporação definitiva das classes C e D às políticas públicas. É odiado por uma parte da opinião pública, amado por outra; e há um terceiro grupo que tem a estabilidade e a legalidade como valores maiores. Mais que isso: embora o PT e o governo sejam pródigos em dar motivo para o prosseguimento de campanhas anti-Lula, a catarse não é elemento auto-sustentável. Campanhas baseadas na catarse têm vida curta, cansam, esgotam.

Nesse contexto, jogar todas as fichas na queda de Lula é uma dupla armadilha, da qual não se tem como sair vitorioso. Se Lula fica, a mídia é derrotada. Se Lula cai, a mídia é derrotada. O fogo se alastra, e todos os problemas que o país enfrentar, a partir dali, serão tributados aos que derrubaram o governo, seja mídia, sejam lideranças políticas.

Depois de janeiro, os que estão crescendo, agora, com a exacerbação e a catarse, tendem a cansar. E os negociadores tendem a crescer. Leia a excelente entrevista de Elizeu Resende (candidato ao Senado em Minas pelo PFL) à "Folha" de hoje, comprovando o enorme potencial pós-eleições do "pacto mineiro".

Está-se tentando repetir a história, quando o momento seria propício para o veículo que se colocasse acima das paixões, recuperasse a técnica jornalística e se comportasse como magistrado, duro, inflexível, porém justo, colocando a preocupação com o país acima das conveniências de momento. A diferenciação teria que ser no enfoque, não no estilo. Mas, para isso, a mídia teria que sair desse ambiente auto-referenciado.


Escrito por Luis Nassif às 09h56

24/09/2006

Cenas de Lacerda

Na biografia que estou escrevendo, sobre Walther Moreira Salles, há um capítulo inteiro dedicado a Lacerda, um furacão descontrolado. Mas, certamente, o mais brilhante jornalista brasileiro da história.

Suas críticas à política econômica de Roberto Campos são peças de uma racionalidade e objetividade fulminantes.

Certa vez perguntei a Campos se as críticas não o afetavam. E ele me disse: “Apenas uma. Quando Lacerda disse que minha política econômica matava os pobres de fome e os ricos de vergonha”.


Escrito por Luis Nassif às 22h18

Lacerda e a vó Martha

Aliás, vou fazer uma revelação histórica. Quando ocorreu o atentado da Rua Toneleros, a última pessoa que Lacerda cumprimentou, no seminário dos Maristas, foi meu futuro professor, Irmão Gregório, o Rosa Branca.

Depois do atentado, a primeira pessoa para quem ele telefonou foi minha avó Martha. Agradeceu o “Salmo 90” que ela tinha escrito para ele, e que Lacerda guardava na carteira. Disse-lhe que tinha sido salvo pela oração.

Quando comecei no jornalismo, minha avó escreveu o mesmo “Salmo 90” com a letrinha redonda dela e me deu de presente.

Na biografia de Lacerda, atribui-se erroneamente a um bispo de Minas o “Salmo 90” -- que ele guardou na carteira até morrer.


Escrito por Luis Nassif às 22h15

O estilo de Lacerda

Houve quem estranhasse a virulência do editorial de hoje da “Folha”, “Degradação”.  O estilo foi claramente inspirado em Carlos Lacerda, inclusive no ritmo das frases e nas expressões, similar ao que Lacerda adotava quando radicalizava o discurso.

“Compra-se, com dinheiro sujo, um dossiê capaz de incriminar oposicionistas. Após o flagrante policial, jorram lágrimas de crocodilo. Conspiradores sem escrúpulo se dizem vítimas de conspiração. Mafiosos acusam quem os indicia. Intelectuais se tornam militantes da mentira. Como nos tempos de Stálin, setores de esquerda se esfalfam em condenar os que não ficam cegos aos desmandos do tirano” é puro Lacerda.

Não se está desqualificando o texto comparando-o a Lacerda, apenas registrando o estilo. Mesmo porque meu avô era amigo dele.


Escrito por Luis Nassif às 20h47

Herivelto

 

Estou ouvindo agora a Rádio Funarte (clique aqui) com um repertório do grande Herivelto Martins, nas vozes de Elizeth Cardoso (com o timbre mais grave que chegou no final da vida), do próprio Herivelto, já sentindo o peso dos anos, e de seu filho Peri Ribeiro. Uma beleza!


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 20h33

Crimes da paixão

O Orkut tem sido utilizado para a apologia de crimes variados, de racismo e pedofilia à organização de linchamentos por torcidas organizadas. Com bela cobertura do “Globo” (clique aqui), policiais da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática prenderam a perigosa Michele de Araújo Nogueira, de 23 anos. A criminosa montou um grupo de discussão no Orkut ensinando os internautas a montarem “gatos” em TV a cabo.

Seu incitamento ao crime está à altura de um Bin Laden ou de um Marcola: “Esta comunidade se destina a todos os que adoram se divertir com os benefícios da TV a cabo, mas que odeiam pagar por ela! Viva a tecnologia! Viva a TV a cabo! E viva aquele dinheirinho que sobra no pagamento da Gatonet e que dá pra comprar pipoca para deliciar a programação! Ô vidinha mais ou menos”. A Bin Laden da Baixada Fluminense será indiciada por incitamento ao crime.

Sou assinante Net e testemunha de como melhoraram os serviços da empresa. Hoje em dia, tem um dos poucos serviços de atendimento ao cliente que funciona – embora outro dia tivessem me ligado de lá oferecendo 8 MB de linha até dezembro, e não tivessem retornado.

Mas, meu Deus!, tratar dessa maneira uma fã de carteirinha da TV a cabo, é demais. Cadê o foco no cliente, cadê a conquista do futuro cliente? Se eu fosse presidente da Net, sabe o que faria? Contrataria a Michele como “gerente de inclusão digital da Net”. Só se propõe o “gato” onde existe rede a cabo e clientes que não podem pagar ou não querem, por questão de princípio. Se existe a infra-estrutura pronta, e as limitações de renda para ampliar a freguesia, um trabalho inteligente ajudaria a juntar as duas partes.

Nesse papel, ela ajudaria, numa ponta, a identificar fanáticos pelo cabo que não conseguem pagar e usuários da rede “gato”, e trazê-los para a formalidade, com planos subsidiados, sim. Há vários modelos de negócio capazes de viabilizar essa proposta. Na outra ponta, a simpática “criminosa” ficaria incumbida de ampliar seu fórum de discussões no Orkut, para buscar alternativas para o “gato” e garantir sua pipoca.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h07

O violão de Alessandro

Terminar o livro “Cabeça de Planilha” não está apenas acabando com meus fins de semana, como me fazendo perder espetáculos imperdíveis. Um deles foi ontem, o lançamento do CD de Alessandro Penazzi, multi-instrumentista (bandolim, cavaquinho, sopro mas, especialmente, violão). Penazzi já faz parte do Olimpo dos instrumentistas brasileiros de nível internacional. Tanto assim que, a primeira vez que o ouviu, Yamandu Costa o convidou para fazerem um show juntos. Aliás, a personalidade generosa, o talento, a liderança que está firmando no choro, a vontade de descobrir talentos, tornam Yamandú cada vez mais parecido com o grande Raphael Rabello.

Alessandro faz parte do conjunto “Choro Rasgado”, em minha opinião o melhor conjunto instrumental brasileiro da atualidade. Seus diálogos com o violão sete cordas do Zé Barbeiro são para entrar para a história.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 09h53

23/09/2006

A familia Office

Com todas as críticas que se faça à Microsoft, a nova família Office, pelo menos o que eu experimentei – Word e o Excel, porque o Outlook do programa Beta que instalei explodiu com minha caixa postal – é porreta. Um baita programa, com inúmeras facilidades, muitas delas incorporadas do Open Office. Na revista em que estava o Beta, a “PC Magazine”, um dos colunistas diz que o problema da Microsoft é que seus produtos são tão bons que dificilmente podem ser aperfeiçoados. Duplo exagero. O OpenOffice tinha chegado a um estágio similar ao Word, e com funcionalidades adicionais muito boas.

Mas a nova família Office é campeã, apesar do desastre que aprontou no meu Outlook.


Escrito por Luis Nassif às 21h40

J'accuse

Na operação Anaconda, o hábito de aceitar indiscriminadamente as acusações fez com que parte da imprensa crucificasse o juiz Ali Mazloum. Publiquei uma coluna contra o massacre no dia 28 de dezembro de 2004. Bastava conferir as acusações que saíam na mídia para perceber que não tinham consistência. Havia um trabalho exemplar das procuradoras em muitas frentes, mas uma acusação inconsistente contra Ali. Mas o que importava era o show.

Na semana passada o Supremo Tribunal Federal resolveu por unanimidade retirá-lo do processo. Unanimidade! No entanto, quando começou o efeito-manada, nada segurava.

Abaixo, a coluna que escrevi

J’accuse

O capitão do exército Alfred Dreyfus foi acusado de ter acobertado ações de inimigos do estado em 13 de outubro de 1894. O juiz Ali Mazloum foi acusado de integrar uma quadrilha de manipulação de inquéritos policiais em 13 de outubro de 2004. A primeira defesa do capitão foi o artigo “J’Accuse”, de Emile Zola, publicado no jornal “L’Aurore”. A primeira defesa do juiz foi do desembargador aposentado Américo Lacombe, em 13 de outubro, na “Folha”, jornal do grupo “Folha da Manhã”. Zola tinha 57 anos na época; Lacombe, 67 anos, mas a idade saiu, por engano, como 57. A principal testemunha de defesa de Dreyfus foi o Grande Rabino da França Zadoc Kahn. A principal testemunha de Ali é a procuradora federal Karen Kahn. E há enorme possibilidade de que, assim como Dreyfus, Ali seja inocente.

O juiz foi apanhado pelo vendaval da Operação Anaconda, um marco na história das investigações do país, devido a um grampo, no qual teria feito ameaças a três policiais rodoviários para que lhe entregassem a íntegra de uma escuta realizada em Brasília em sobre o empresário Ari Natalino, um dos mentores da chamada “máfia dos combustíveis”. O caso estava sob sua jurisdição. Ali havia solicitado escutas em cinco estados, decretou a prisão de Natalino em fevereiro e o condenou em agosto a quatro anos de prisão.

Pressões vieram de todo lado, inclusive do deputado federal Luiz Antonio Medeiros –que foi ao STJ pedir o afastamento de Ali. Depois, descobriu-se que uma das empresas de Natalino figurara como financiadora da campanha de Medeiros.

No dia 4 de setembro o Ministério Público enviou uma fita sobre Natalino, fruto de grampo autorizado por um juiz de Brasília. A interceptação dos telefones incriminava o delegado Alexandre Creniti –cuja prisão temporária havia sido determinada por Ali. Só que a escuta tinha durado dez meses, e Ali  só recebeu trechos selecionados de uma semana. Solicitou todo o material para análise, assim como a procuradora federal regional Karen Kahn, que oficiou o procurador federal Guilherme Schelb e o juiz de Brasília. Nada conseguiram.

Como os policiais rodoviários persistissem em não enviar a íntegra da escuta, Ali telefonou a um deles exigindo o material. Essa ligação, interceptada, foi tratada como abuso de autoridade pelo inquérito Anaconda e tentativa de acobertamento de suspeitos.

Depois que Ali foi afastado, o juiz que o sucedeu constatou a existência dos grampos ilegais e oficiou o juiz de Brasília. O procurador Cristiano Valois de Souza, que sucedeu Karen, conseguiu mais elementos. Quando as investigações caminhavam, o inquérito foi trancado no TRF de São Paulo por uma liminar impetrada por dois procuradores federais regionais, Mário Luiz Bonsaglia e Marcelo Moscogliato.

Está na hora de abrir as cortinas e mostrar o que está acontecendo. Pode ser apenas excesso de zelo, de não se querer macular a Operação Anaconda com um erro clamoroso. Pode ser algo mais grave. E existe uma provável inocente sendo massacrado, sem direito a defesa.


Escrito por Luis Nassif às 20h36

Mídia, governo e hipocrisia

Para os que consideram que a luta da mídia contra Lula é ideológica, remeto à coluna que escrevi em 29 de julho de 2000, sobre a campanha contra Fernando Henrique Cardoso (clique aqui).

É um conjunto de manchetes e matérias sobre o caso Eduardo Jorge. O movimento de manada é o mesmo. A intenção quase explícita é a de derrubar o presidente.

Fica claro que há uma disfunção institucional na mídia, uma gana de derrubar presidentes, herança de Watergate e da campanha do impeachment de Collor.

No dia em que se escrever a verdadeira história da cobertura do impeachment, se verá uma sucessão infindável de manipulações grosseiras, roubos de matérias de repórteres por chefes, uso indiscriminado de dossiês, mentiras das mais inverossímeis. Tudo isso, independentemente das inúmeras falhas e culpas de Collor –as maiores jogadas, aliás, não foram levantadas.

Só que a campanha consagrou jornalistas e elevou a grande imprensa à condição de maior poder nacional. Em meados dos anos 90, jornais e revistas de opinião conquistaram os maiores índices de tiragem da história.

De lá para cá, a curva se inverteu por inúmeras razões. Algumas são estruturais, ligadas à entrada das novas mídias, não apenas a Internet, como o avanço da TV a cabo e do rádio – que ganhou status de formador de opinião. Mas outras razões foram decorrência da perda de foco do jornalismo de opinião, que de tanto buscar o espetáculo abriu mão de algumas qualidades intrínsecas do produto: credibilidade, rigor na apuração. Show por show, a TV, a Internet  e os jornais populares levaram.

De lá para cá, a imprensa escrita não se inovou. Sem inovações e criatividade, os únicos momentos de destaque são nas grandes catarses nacionais, em casos como o da Suzane, Wilma, Lalau. Mais ainda, quando os escândalos permitem atingir o poder e tentar recuperar a glória perdida dos tempos do impeachment de Collor.

No segundo governo, Fernando Henrique não caiu devido apenas à sua habilidade política. A reconciliação da grande imprensa com ele se deu após sua saída, mas porque ele era ex, e o alvo era o próximo.

Com esse modelo político em vigor, qualquer presidente estará exposto aos humores da imprensa ao primeiro sinal de vulnerabilidade. Pela relevante razão que o país é ingovernável se o governante não “sujar as mãos”, como colocou o ator Paulo Betti, cometendo esse crime inominável de expor a hipocrisia em público.

É certo que a lambança promovida pelo PT foi ampla, típica de quem chega pela primeira vez ao poder, bem diferente da tolerância discreta do PSDB. Mas é certo, também, que a maior parte desses operadores de Estado começou a atuar muito antes. E foram moedas de troca para assegurar a governabilidade. A grande habilidade política de FHC consistiu em entregar ministérios aos aliados, e fechar os olhos aos operadores. O grande erro de Collor e Lula foi tentar monopolizar os operadores e dar o troco aos aliados -- como, aliás, muito bem colocou o ex-deputado Roberto Jefferson.

Sem reforma política, qualquer governante estará permanentemente exposto aos humores seletivos da mídia. Ou ao exercício permanente da hipocrisia. Aliás, a hipocrisia é elemento essencial de governabilidade.


Escrito por Luis Nassif às 19h17

Eduardo Falú e Ariel Ramirez

Outro gigante do violão sul-americano, o grande argentino Eduardo Falú, tocando “De primas e bordões” (clique aqui).

Veja que preciosidade: um trecho pequeno da “Missa Criolla”, de Ariel Ramirez, uma das obras mais sublimes já compostas na América Latina. Dá para ver Ramires bem de passagem, tocando seu piano. Clique aqui.

Aqui um trecho mais longo, de uma audição de “Misa Criolla” em Toronto, Canadá, este ano (clique aqui).


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 16h14