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27/05/2006

O último galanteio do seu Oscar

É minha irmã Regina quem me conta a história. Somos cinco irmãos, eu mais quatro irmãs. Sou o primogênito, Regina a segunda.

Em 1974, seu Oscar foi acometido de um AVC, que lhe tirou os movimentos do lado direito do corpo. Ainda houve um período em que se submeteu à fisioterapia. Depois, foi gradativamente desistindo da vida, tornando-se mais pesado, ficando mais tempo na sua poltrona e, curiosamente, mais tranqüilo, sem aquela ansiedade que o acompanhou permanentemente nos dez anos anteriores.

Passava horas na poltrona assistindo televisão e só se assustando um pouco quando os netos passavam correndo na sua frente, com medo de um pisão nos seus pés frágeis.

Fora isso, seus dias foram se tornando cada vez mais silenciosos. Quando ia visitá-lo, sentava-me na poltrona ao lado e passávamos muito tempo sem conversar, mas um sentindo a presença do outro. Não sei como era com a Regina. Talvez houvesse mais conversa, porque ela sempre foi uma filha extraordinária desde que, com pouco mais de dez anos, ficava no balcão da farmácia atendendo os fregueses, mas, principalmente, aquecendo o coração do seu Oscar com a sua presença.

Depois do derrame, coube aos dois filhos mais velhos ajudar a segurar a barra de casa. Mas a Regina esteve lá desde sempre, presente desde menininha, com aquelas bochechas lindas, de menina rechonchuda, atendendo os fregueses da farmácia, jamais saindo do seu posto.

Pouco tempo antes do segundo derrame, seu Oscar já não tinha muita noção do que ocorria fora do apartamento. Um dia chamou a Regina e lhe fez um pedido: queria que comprasse o vestido mais bonito que achasse para a dona Teresa. Colocou a mão no bolso e tirou um punhado de notas e moedas, de valor irrisório, tudo o que havia conseguido guardar, mesmo sem ter noção clara sobre o valor do dinheiro.

A Regina foi e comprou um vestido bonito, que devolveu algum viço ao ar cansado da dona Teresa. Nova ainda, com pouco mais de 60 anos, o hipercolesterol tinha judiado de mamãe. Em 1977 fez a primeira cirurgia de ponte de safena. Em 1982, a segunda. Em 1988, o doutor Sérgio Oliveira não lhe deu mais esperanças. O colesterol tinha vencido a batalha e tomado conta de todo o coração.

Dona Teresa continuou lutando pela vida até o final. Mas se deixou abater. A beleza feneceu, o cabelo embranqueceu, ficou com um ar precocemente envelhecido. Seu Oscar sentia o fim se aproximando, mas quis o último reencontro com as lembranças da jovem que, um dia, incendiou seu coração. Queria enfeitar a sua “velha” – “meu velho”, “minha velha”, era como se tratavam.

Dona Teresa usou o vestido em todas as festas e reuniões de família no ano e pouco que viveu, depois daquele dia. Seu Oscar chegou a vê-la de vestido novo, mas por pouco tempo. Alguns meses depois, um segundo AVC acabou com ele. Foi levado à Beneficência. Lá, um raio-x constatou que seu cérebro tinha acabado. Um neurologista ambicioso prorrogou-lhe a vida, contra minha opinião. Durante um ano, vegetou em sua casa, mas sempre assistido por dona Teresa. Mantivemos os almoços de domingo. Algumas vezes, houve reuniões. E dona Teresa, sempre com o vestido bonito.

Agora, Regina me escreve, com seu texto claro e emocionado, lembrando o episódio. Mas não foi esse o último galanteio do seu Oscar. O último, mesmo, foi quando, na cama do hospital, já sem conseguir falar, fez um gesto chamando a Regina. Ela foi até o lado da cama, ele, com esforço, esticou o braço esquerdo e, com a mão fechada, passou o indicador pelo seu rosto e balbuciou: “Bonita”.

Naquele momento, revi a menina de pouco mais de dez anos, responsável desde cedo, no balcão da farmácia, onde eu me recusara a ficar. Depois, me lembrei de sua presença recatada, quase silenciosa, ao longo desses anos todos, sempre apoiando familiares, sem alarde, sempre presente, sem rompantes.

Ao longo desses anos todos, por minha retina cansada passaram cenas inesquecíveis, de filhas, de mãe, de amigos. Mas, por mais que viva, cena alguma conseguirá superar o último galanteio do seu Oscar, no último suspiro da sua consciência.

 


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 01h07

Os Violões Que Se Cansaram

O que deu nesses meninos? Quando eu era adolescente, lá pelos idos de 1969, não se falava de outra coisa no mundo do violão. Os irmãos Abreu eram tudo, o Sérgio com 21, o Eduardo com 20, prestes a serem aclamados os melhores do mundo. Seus LPs eram venerados nos círculos violonísticos do país e da região, de Poços a São João da Boa Vista.

Lembro-me até hoje, fazendo serenata para a namorada na praça de São João, acompanhado pelo jovem violonista Sérgio Assad, que se mudara para o Rio de Janeiro e prometia fazer carreira, junto com seu irmão Odair. Sérgio já impressionava pelo virtuosismo. Mas tudo o que ele queria na vida era chegar perto, apenas perto dos irmãos Abreu, porque suplantá-los, nem ousava sonhar.

Seu Assad, pai dos irmãos, juntou a trouxa e mudou-se para o Rio apenas para que os irmãos pudessem se tornar alunos da mesma Adolfina Raitzin de Távora, que burilara os irmãos Abreu. O grande Isaías Sávio, o maior mestre do violão brasileiro do século, e que freqüentava nossa casa, em Poços, ficou injuriado de não ter os meninos entre seus alunos. Mas o sonho do seu Assad era que os filhos pudessem seguir a trilha dos irmãos Abreu.

O primeiro professor dos irmãos Abreu foi seu avô, Antonio Rebelo, da geração de brilhantes violonistas do Rio, ao lado de Luiz Bonfá, todos discípulos do mestre Sávio.

A segunda mestra foi Adolfina, figura extraordinária, das alunas prediletas do maior mestre de violão do século, o espanhol André Segóvia (1893-1987). Com ela, os irmãos aprenderam técnica e interpretação. Depois, estudaram harmonia com os maestros Florêncio de Almeida Lima e Guido Santorsola. Adolfina não recebia profissionalmente pelas aulas. Mas só dava aulas para os escolhidos. Foi assim com os irmãos Abreu e, depois, com os Assad. Colocava os meninos para tocar, ouvia em silêncio e, depois, dizia se aceitava ou não como discípulos.

Em 1960 Eduardo Abreu recebeu medalha de ouro no Concurso de Arte Infantil, do Ministério da Educação e Cultura. Em 1967, antes dos 20 anos, os irmãos Abreu receberam o primeiro prêmio do Concurso Internacional de Violão promovido em Paris, França, pela O.R.T.F. Em 1972 apresentaram-se no Festival de Windsor, em Londres, Inglaterra, tocando com o violinista Yehudi Menuhin, o maior de seu tempo. Com a English Chamber Orchestra, gravaram os concertos para dois violões e orquestra de Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968) e Guido Santorsola.

O país já tinha um contingente considerável de violonistas populares. Entre os clássicos havia Barbosa Lima, precoce e que cedo se mudara para os Estados Unidos. Havia também Turíbio Santos, Maria Lívia São Marcos, e não muitos outros. Mas o Duo Abreu fora mais longe que todos. Foram os primeiros violonistas eruditos brasileiros que podiam ser considerados os melhores do mundo.
De repente, acabou. O que deu nesses meninos? Até hoje me lembro do meu estupor quando, lá por 1978, informaram que o duo havia se desfeito. Uma chama de incredulidade se alastrou por todos os círculos violonísticos do país. O que ocorrera com nossas duas maiores vocações?

Vieram explicações picadas, porque os jornais estavam distantes do mundo do violão. Disseram para a gente que simplesmente os dois jovens se cansaram da carreira de concertistas, de terem que viajar o ano todo, treinar dez horas por dia, não tomar sol. Assim! Não podia, ora! Eduardo foi o primeiro a parar, em 1975, e passou a se dedicar à engenharia eletrônica. Em 1993 concluiu o doutorado na Universidade de Santa Mônica, nos Estados Unidos. Deixar o violão brasileiro órfão em troca de um diploma de engenheiro eletrônico? Nem que ganhasse o Nobel da área, não supriria a perda deixada no país.

Sérgio continuou tocando até 1981. Depois, abandonou a interpretação e se especializou em construir violões. Tornou-se um dos luthiers mais prestigiados do mundo. Mas e seu som? E o som do duo?

Alguns anos depois, os irmãos Assad recuperariam para o Brasil o cetro de melhor duo violonístico do mundo. Outro dia, os ouvi tocar com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Lembrei-me das serenatas de São João, meu coração brasileiro bateu ao som de cada corda puxada, com cada detalhe de interpretação.

Mas continuei inconformado. O que deu nos meninos Abreu para nos deixarem assim na mão?

No link

http://www.youtube.com/watch?v=lV-ixJQMs5o&search=Abreu , veja uma momento inesquecível do Duo Abreu interpretando a Tocatta K-141 de Scarlatti.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 00h21