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02/06/2006

Pedaços de Suzane

Ainda não sei quem é Suzane Richtofen. A jovem fria, que planejou o assassinato dos pais, com a cumplicidade dos irmãos Cravinho para ficar com a herança? A jovem oprimida pela relação familiar que viu no assassinato a única maneira de encontrar a liberdade? Ou uma personalidade psicótica que aflorou da noite para o dia, como costumam aflorar as loucuras imprevistas? Alguns pedaços de Suzane e dos irmãos Cravinho, vão emergindo daqui e dali, através de e-mails recebidos.

Delegado de Polícia, Professor de Direito Penal e especialista em criminologia, Alberto Ramirez concorda que “o crime em questão não está sendo observado sob a ótica criminológica, mas tão somente sob o aspecto policialesco”. É idêntico o desabafo do policial Marcelo Milani, que participou da fase inicial das investigações. “Não existe nenhum exame psicológico realizado, porque infelizmente tanto a Justiça como lamentavelmente no Ministério Público o caso virou uma verdadeira fogueira de vaidades. Como Suzane é ré confessa, não se vai discutir a culpa mas a punição. Portanto, para mim, seria fundamental saber se Suzane deve ser presa ou tratada”.

Milani testemunhou o comportamento dos irmãos Cravinho na reconstituição do crime. Os dois irmãos tiveram um ataque histérico. “Daniel, o namorado, passou mal e teve que ser atendido, tamanha a culpa que neles se instalou”.

Já o promotor de justiça Roberto Tardelli, também em e-mail, me deu a seguinte explicação para seu pedido de prisão preventiva dos irmãos Cravinho, após a entrevista à rádio Jovem Pan: “Partindo de dois autores de assassinatos brutais (...) ao anunciá-lo a milhões de ouvintes, mais do que dizer, um e outro anunciaram seus serviços”.

A essa curiosa visão do “matador delivery”, os-matadores-que-anunciam-seus serviços-pelo-rádio , se soma a do neurologista Célio Levyman, ex-conselheiro do Conselho Regional de Medicina (CRM), que considera que a maioria dos laudos psiquiátricos é uma forma de segregação social, visando encontrar desculpas para os crimes dos ricos.

Afinal, nessa torrente de emoções, de palpites, de indagações, quem é Suzane?

José Fernando conheceu a família Von Richtofen  e conheceu Suzane desde criança. Seus pais eram vizinhos dos Von Richtofen e foram padrinhos de batismo de Suzane. José Fernando tratava Manfred de tio, Marisa de tia, praticamente nasceu em sua casa, e nunca observou um desvio sequer de comportamento, nem deles, nem de Suzane. Não tinham a afetividade derramada de uma família árabe ou italiana, mas eram pais atenciosos, que nunca bateram ou destrataram os filhos.

Em nenhum momento Suzane demonstrou qualquer desvio de comportamento. Discutia com os pais como qualquer adolescente. Nunca brigou com o irmão, jamais manifestou agressividade fora dos limites de uma adolescente.

Depois do crime, José Fernando levou uma amiga psiquiatra para visitar Suzane, presa. Em nenhum momento Suzane aparentou remorso. Na saída, a amiga foi taxativa: a menina padecia de psicopatia, era doente.

Também conviveu com os irmãos Cravinho. Foram influenciados ou influenciaram? Nunca vai se ter a resposta certa. Havia uma química louca, que levou uma moça a planejar a morte dos pais, e dois rapazes a assassiná-los de modo brutal.

Acompanhou o drama de Andrés, o único irmão de Suzane.  Depois do homicídio ele estava completamente abalado. Apenas um mês depois, quando morreu um bichinho de estimação é que houve a catarse, que lhe permitiu abrir as comportas da emoção e chorar tudo o que segurou antes.

No começo, foi divulgado um bilhete imputado a ele, que dizia “Suzane, eu te perdôo, você é minha amiga”. Ele não escreveu o bilhete, e não ficou solidário com a irmã. Ficou apenas em desespero total, aos 16 anos, órfão de pai e mãe, assassinados pela irmã. Assim que a ficha caiu, não se viu em nenhum momento o sentimento de perdão.

Os Richtofen  tinham um bom padrão de vida, mas construído ano a ano, conta José Fernando. Marisa era psiquiatra bastante bem sucedida. Fluente em alemão, sempre atendia a estrangeiros, recebendo em dólar. E Manfred apenas muito recentemente tinha entrado na Dersa, para que se fizesse qualquer ilação entre o emprego e seu padrão de vida.

O advogado que abrigou Suzane em sua casa não era amigo de Manfred, apenas colega de trabalho, e com tão pouca intimidade que seu nome jamais havia sido comentado nas rodadas com os vizinhos.

Leio os e-mails, tento imaginar a vida normal dos Von Richtofen, uma semana antes do crime. Penso nas minhas menininhas, as pequenas e as adultas. E não consigo evitar uma profunda pena de Suzane e dos irmãos Cravinho, do casal Richtofen e de seu caçula Andrés, e do seu Cravinho, pai dos rapazes, que, no seu ofício de escrivão da 3ª Vara de Família da Capital, testemunhou tantos lares assombrados por fantasmas que jamais serão revelados ao mundo, a não ser no instante supremo da tragédia.

Tempos atrás, os jornais noticiaram a história da menina de 12 anos, filha de um pedreiro, que chorou desesperada quando assistiu a prisão de Suzane. No dia seguinte tentou envenenar o pai.


Escrito por Luis Nassif às 16h45

30/05/2006

O Blog

Depois de algum tempo de resistência, resolvi aderir aos blogs. Em parte, por acreditar que o futuro do jornalismo está na Internet. Em parte, devido à enorme e revitalizante interação com o público leitor. Durante alguns anos, em lugar de temas econômicos, publiquei crônicas na minha coluna de domingo na "Folha". Era uma maneira de trazer à tona uma veia literária de juventude, que o jornalismo tinha contido por alguns anos.

Mas também uma forma de passar a mensagem de que um país não se fazia apenas com a vã economia. Havia valores relevantes, que absorvi ao longo da infância e da adolescência, do início da maturidade, que pareciam desaparecidos nessa geléia geral da internacionalização dos anos 90. E havia uma enorme demanda dos leitores por temas dessa natureza.

As crônicas me renderam enorme satisfação e um prêmio de finalista do Jabuti, categoria contos e crônicas, com o livro "O Menino de São Benedito".

Quando a "Folha", por razões editoriais internas, decidiu suspender  a publicação, passei a prospectar a Internet, através de sistemas de mailing, de ferramentas de extração de endereços. E aí e emoção redobrou. Você assistia os e-mails sendo disparados, ía recebendo os retornos, acompanhando os lidos, os não lidos, e o mailing foi sendo enriquecido com pedidos de inclusão que muito me honraram, como os de Ivan Lessa, Jader de Oliveira, Artur da Távola, os incentivos de Moacir Scliar, dentre outros. Apenas uma coisa me incomodava.

Com o fim das crônicas na "Folha", perdi os meus "velhinhos", um público mais velho, pouco afeito à Internet, mais chegado ao papel, mas que aquecia meu coração com suas cartas e bilhetes.

O formato do Blog será o seguinte:

1. Durante a semana prevalecerão os comentários políticos e econômicos.

2. Nos finais de semana, as crônicas e comentários sobre músicas, além de trechos de livros meus já publicados.

Orgulho-me muito do nível de meus leitores. Sempre que levanto um tema polêmico, costumo receber e-mails consistentes, de pessoas com diferentes opiniões. Pretendo abrir espaço para esse tipo de comentário, mais do que para os comentários curtos e impressionistas dos blogs convencionais.

Por isso mesmo, quem tiver comentários maiores a fazer, poderá escrever para luisnassifonline@uol.com.br Os melhores serão publicados, dentros dos limites de espaço do blog.

O Blog será dividido em quatro categorias principais, o Blog propriamente dito, Crônicas, Minhas Músicas e Livros. Todo o material blogado sairá obrigatorimente na página do Blog. Mas ficará armazenado, inclusive para efeito de pesquisa, nas janelas correspondentes a cada categoria.

Em Crônicas pretendo trazer reminiscências, um pouco de historiografia e temas ligados à história da música. Em Minhas Músicas, vou expor pesquisas com músicas marcantes ou com lançamentos de novos autores. Eventualmente, incluirei composições minhas. Em Livros, trechos de livros já publicados, e ensaios de novos livros em que estou trabalhando.

Para temas mais complexos, pretendo exercitar um tipo de cobertura já ensaiada em discussões como a da TV Digital e a da transposição das águas do São Francisco. Haverá uma interação com o site do Projeto Brasil (www.projetobr.com.br) e uma explicação didática dos diversos ângulos envolvidos na discussão, assim como a participação de cada ator trazendo seus argumentos, rebatendo os argumentos da parte contrária, tudo no tempo real que a Internet permite praticar.

Espero poder cumprir um papel dentro desse espaço precioso que o UOL me abriu.


Escrito por Luis Nassif às 23h36

Raio X da Notícia: Segurança Pública

 

Na recente crise da segurança pública em São Paulo, sobrou mais para o Secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, menos para o Secretário de Segurança, Saulo de Castro Abreu.

Nagashi tem biografia. No início dos anos 80 cumpriu um trabalho exemplar de juiz em Bragança Paulista, regularizando os processos de adoção, e investindo corajosamente contra o poder político de Nabi Abi Chedid – cuja família controlava uma creche que vivia de verbas públicas, e tratava mal as crianças. Depois, notabilizou-se por seu trabalho de ressocialização dos presos. Em Bragança juntou-se à sociedade civil e criou uma delegacia modelo, na qual ficavam presos de menor periculosidade aprendendo profissões e a se relacionar com o mundo.

Mais tarde, tornou-se Secretário do ainda governador Mário Covas. No Prêmio Mário Covas de Inovação na Gestão Pública de 2004 – do qual fui jurado – foi, de longe, o Secretário com melhores iniciativas, práticas, criativas, humanas.

Nagashi representava o lado humano da segurança pública, Saulo o linha dura. Mas quem era o mais eficiente ou o menos ineficiente? É importante se deter menos sobre o estilo de ambos, e mais sobre a eficácia de cada um.

Há duas frentes de combate ao crime. No plano penitenciário, duas ações conjuntas. De um lado, descompressão das tensões do sistema carcerário com um trabalho de promoção social que permita a recuperação dos presos de baixa periculosidade, algo que Nagashi executou brilhantemente. De outro, um trabalho sistemático de isolamento das lideranças mais perigosas, o que, obviamente, não foi feito.

A segunda linha de ação é o trabalho de inteligência e de policiamento intensivo, o primeiro atuando sobre o crime organizado ou sobre crimes continuados, o segundo na repressão ao crime não previsto. O primeiro trabalho compete à Polícia Civil, o segundo à Polícia Militar. Para que o conjunto funcione, há a necessidade de cooperação, troca de informações, ação conjunta e sinérgica.

A partir daí, uma avaliação integral do episódio precisaria responder às seguintes questões:

1.    A quem competia acompanhar o crime organizado e a atuação dos líderes presos: a Secretaria de Nagashi ou a de  Saulo? A inteligência policial estava nas mãos de Saulo, não nas de Nagashi. O poder de quebra do sigilo telefônico é da Segurança, não da Administração Penitenciária. O Secretário demissionário alegou ter solicitado várias vezes a Saulo que mandasse policiais para um trabalho conjunto nos presídios, e os pedidos não foram atendidos.

2.    Como era a integração entre ambas as Secretarias? Segundo Nagashi, em quase sete anos de atuação conjunta, não conseguiu mais do que dez reuniões com Saulo. Essa mesma dificuldade de trabalho conjunto com Saulo foi relatada por fontes do Ministério da Justiça. Notícias recentes davam conta de que não existe integração e trabalho sinérgico sequer entre as Polícias Militar e Civil. Aliás, o surpreendente é que, em sete anos de governo, o ex-governador Geraldo Alckmin manteve apenas uma reunião conjunta com os três secretários.

3.    Não ter avisado a tropa sobre a transferência das lideranças do PCC para presídio de alta segurança foi uma imprudência que custou a morte de vários policiais. De quem era a responsabilidade, de Nagashi, que dirigia presídios, ou de Saulo, que tem contato direto com a tropa?

4.    O governo foi derrotado nos dias em que o PCC tomou conta da cidade. O governador Cláudio Lembo foi imprudente em manter no posto os generais derrotados. Mordidos com as ações do PCC, a Secretaria de Segurança e o Comando Geral da PM liberaram geral. São Paulo foi derrotado duas vezes, com os policiais chacinados, e com todos os que foram vítimas das represálias policiais, em um campeonato macabro sobre quem executava mais. 


Escrito por Luis Nassif às 21h16

Pelas Salas do UOL

 

Não sei se por anos, décadas ou séculos,

esperei bater à minha porta

certa mulher

 

A queria altiva, não solene.

Não a queria simples, mas complexa.

Não devia ter a bússola, mas o leme

e com ele perseguir o rumo,

qualquer rumo, por qualquer quebrada,

contanto que em meio à sua caminhada

viesse dar à minha porta,

eu também sem rumo.

 

Não sei se por décadas ou anos,

esperei pela mulher que não chegava.

Onde estava? Talvez escondida

num desvão dos meus vinte e um anos.

no inventário dos meus desenganos,

numa curva daquela estrada abrupta

em que ingressei, quando encarei a vida.

 

Esperei pela mulher que não chegava,

que devia ser altiva, não astuta,

que devia ser paixão, não força bruta,

incendiando a minha existência.

Esperei por muito tempo, muito tempo, muito tempo, muito tempo, muito tempo...

Mas os anos passaram num relance,

e a mulher que eu queria já não era.

 

Ou era apenas o retrato de vinte anos atrás,

dolorido, saudoso, mas retrato.

Agora, dona de casa, compassiva e muda,

sem mais nada a ver, posto que presa à labuta

de    acordar,

cozinhar,

        servir a mesa,

levar os filhos para a escola...

E, à noite, quando o marido se vira para o canto,

Relembrar sonhos perdidos.

 (continua)


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 20h15

 

Lhe abriria as portas e os salões da intelectualidade eloqüente da capital, que, com seus vanilóquios intermináveis, fascina a intelectualidade contida do interior.

Em troca, seria confidente e cúmplice,

incumbida de trazer ao chat

a mulher que um dia idealizei,

para um último papo, duas, três lembranças,

um arremate para a conversa inconclusa

cujo desfecho ficou parado no ar

na noite em que enterrei meus sonhos.

 

A moleca ouviu um tanto intrigada

a proposta descabida e louca,

vinda de quem mal conhecia

-- um nick provocador e debochado

cuja diversão mais ostensiva,

consistia em ironizar sua erudição.

 

Pensou em tratar com desaforo

a proposta que a subestimava,

como se buscasse  o autor, e não a obra,

como se mendigasse sobras de poesia,

como se fosse uma nova rica da cultura...

... mas não resistiu a penetrar, àquela altura ,

na porta que inesperadamente se entreabria.

 

(continua)



Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 20h12

 

Aonde iria dar, em algum louco?

Em algum misógino? Em um fantasma delirante?

Em um alucinado amante? ou, pior, em um gozador?

Ou em um cético contaminado

pelas libações da Internet,

(como aquele médico pirado de Floripa,

que exercitou as armas da conquista...

E, depois,  simulou a própria morte,

deixando-a perdida entre o real e a fantasia).

 

E o que viu a deixou mais intrigada.

 

Quem era aquele desbocado

que inesperadamente

lhe fazia confidências doloridas?

que usava as mensagens reservadas,

não para corte ou cantadas,

ou trepadas virtuais em malcomidas,

mas para confissões de vida?

 

Aceitou de pronto a proposta.

E, montando em conjunto a conspirata,

criou-se total cumplicidade,

entre os dois tipos mais trocistas da sala.

 

Primeiro, matricular-se no curso de inglês

onde a mulher preenchia sua vida vazia

dando aulas comedidas.

Depois, insinuar-se junto a ela,

falar dessa nova invenção que

permitia

a quem buscava, encontrar,

ao romântico, romancear,

ao incuravelmente travado

destravar a declaração reprimida.

 (continua)


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 20h11

Durante semanas teceu-se a urdidura.

E Heddy Lammar, que era rocha pura,

e Salitre de Tal, pura armadura,

esqueceram por instantes de suas lanças,

e do exercício rotineiro do sarcasmo.

E o chat perguntava, o que deu neles?

De certo tramando a grande sacanagem,

a suprema parceria, o trote clássico e fatal,

entre Heddy Lammar e Salitre de Tal.

 

A cada noite, depois do batente,

encontrávamo-nos no ICQ para balanço

e aprimoramento da estratégia traçada.

A cada manhã, antes da labuta,

encontrávamo-nos de novo.

Na hora do almoço, mais uma vez.

E aproveitávamos os intervalos da grande armação

para confidências, revelações discretas,

plantadas distraidamente na conversa

como intervalos comerciais da grande novela.

 

E de revelação em revelação

rapidamente penetramos

nos recantos mais secretos de cada um.

 

Em breve, ela viu em mim um solitário.

Rapidamente a intuí tão só.

E enquanto as comportas se abriam

jorravam torrentes de dor e de agonia,

de dois náufragos navegando ansiosos

pela cósmica solidão de um mundo novo.

Pressentindo Heddy Lammar sozinha,

sentindo em mim a solidão latente,

tornamo-nos hóspedes permanentes

de nossa solidão vizinha:

eu abrigando minha solidão na dela,

ela amparando sua solidão na minha

(continua)

 


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 20h09

 

Aí, houve a necessidade mais premente.

de um mergulho fatal e inquietante

que permitisse decifrar num só instante

a árvore, o fruto, a polpa, a semente.

Não valia mais o grande enigma,

antes fascínio, agora, insegurança.

O que valia era a pronta resposta,

a comprovação de que a grande aposta

em vez de risco, era aventurança

 

E como doeu, meu Deus, como doeu,

desvestir cada véu, cada escama,

revolver cada lençol na cama,

farejar resquícios de paixão.

Como doeu espreitar a energia,

a vitalidade jovem e sadia

de quem aprendeu sem carregar as culpas,

que carregou a minha geração.

Como doeu decifrar as aventuras,

algumas vagas, outras muito duras,

umas antigas, outras invadindo,

o início tenso de nossa paixão.

 

Ao final do processo, eu exaurido,

não exaurido, diria bem mais sábio,

como leitor daqueles alfarrábios

que decifravam a condição humana,

entendi o início e o meio,

comprendi o desfecho e a conclusão.

 

E foi assim que esse amor tão louco,

encontrou-se como o barco ao porto

depois de noite de mil provações.

Hoje, a cada manhã que amanheço

A espreito no leito e me enterneço

Com o reencontro, o reinício.

E recomeço.

 


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 19h56

29/05/2006

Os Meninos Zumbis de São Paulo

crônica de setembro de 1995, do livro "Os Meninos de São Benedito" 

 

 

Eles saíram das profundezas, espalharam-se pelo início da avenida Consolação, pelas imediações da Maria Antônia, e foram ocupando espaços no velho centro bancário de São Paulo, como um exército de zumbis.

Era impossível saber se eram homens ou mulheres. Tinham a assexualidade dos cadáveres. Jovens, eram sem dúvida, vergando macabros uniformes dos condenados à morte.

Os corpos eram tomados de uma fuligem que parecia cravada na pele, própria dos habitantes das profundezas. As faces eram macilentas, os cabelos duros de sujeira e os olhares vagos.  Por dentro, o crack possivelmente já tinha devorado mais da metade de seus organismos de crianças desnutridas.

A maior parte não denotava disposição para assaltos. Pareciam mais personagens de filmes de ficção classe B dos anos 50, aproximando-se lentamente dos transeuntes, pedindo dinheiro e balbuciando palavras incompreensíveis.

Mendigos amadores e profissionais que freqüentam a região, de repente desapareceram. Consta que foram ameaçados. Mais provável é que tenham sido tomados do medo pânico, de quem se defronta com cadáveres ambulantes.

Os meninos-zumbis cometeram violências indescritíveis no cotidiano dos habitantes do centro. Menos pelos assaltos, mais por sua presença incômoda. Quando invadiam cafés bem montados do centro atrás de moedas para financiar o crack, tinham a capacidade de deixar a todos sem fome e sem assunto. Todos sabiam que à sua frente estavam não apenas jovens sem futuro, mas condenados à morte breve.

Quem teria coragem, depois disso, de lamber as próprias feridas, de reclamar da crise, de discutir sobre demanda agregada, sobre ISO-9000 ou de persistir na crendice que está se formando uma grande nação moderna? Se não fosse detido a tempo, aquela exército de cadáveres ambulantes mataria os bons sonhos burgueses que trafegam na região.

E a cidade organizada reagiu. As Associações dos Amigos da Rua Maria Antônia e adjacências se organizaram e contrataram seguranças para expulsá-los das imediações. O Prefeito ordenou à guarda municipal que comandasse uma operação-arrastão, incumbida de devolver o exército de zumbis de volta para as profundezas. Nos dias seguintes, um policiamento ostensivo tomou conta do centro, fazendo com que cada honesto cidadão, pagador de impostos, se sentisse aquecido pela proteção proporcionada pelo poder público

A trezentos metros dali, na Câmara Municipal, vereadores situacionistas discutiam entre si quanto levariam do butim. Uma regional para aquele, um clube esportivo para o outro. Um pouco mais adiante, senhores vetustos do Tribunal de Contas do Município fechavam mais uma vez os olhos a licitações fraudulentas e ao esfrangalhamento das contas municipais.

E o Prefeito finalmente dormia em paz, julgando que a prova do seu crime e de todos seus antecessores—os meninos zumbis do centro—não mais estaria ali para condená-lo com sua presença silenciosa. Assim poderia prosseguir em seu trabalho meritório de levantar pontes e viadutos, estranhas catedrais que, com seu rigor geométrico, com a solidez do cimento e do concreto, eternizariam seu dinamismo—e ajudariam a engordar os cofres do partido para as próximas eleições.

Engano seu. Os vultos dos meninos condenados jamais sairão da retina de todos aqueles que, por algumas semanas, viram de perto a face macilenta da morte. 



Categoria: Livros
Escrito por Luis Nassif às 22h28

28/05/2006

A Morte de um Deus do choro

A morte de Dino Sete Cordas na semana passada me pegou de surpresa. Há tempos se sabia que sua saúde não ia bem. Tinha tido um derrame, deixara de tocar, mas seu nome continuava a referência viva maior do choro, ao lado de Altamiro Carrilho. E sempre fica a sensação de que os deuses não morrem.

Só quem é do mundo do choro saberá avaliar corretamente a importância do Dino para nossa tropa. Ele não foi o inventor do violão de sete cordas, que possui uma corda a mais nos bordões, mas foi o seu consolidador. Em dupla com Meira, produziu o que de melhor o acompanhamento brasileiro já criou, uma inovação de contrapontos que permitiu ao choro chegar perto do jazz, como criação coletiva contrapontística.

Tocando no Regional do Canhoto e, principalmente, no Época de Ouro, acompanhando Jacob do Bandolim, Dino criou uma escola de contraponto que serviu não apenas ao violão. O próprio Jacob, em suas inesquecíveis gravações com Elizeth Cardoso, utilizava os recursos de Dino nos desenhos que bordava ao bandolim.

Até o irascível Jacob se curvava ao talento e à personalidade de Dino. Tanto que, contam as lendas, mantinha duas formações de choro: a titular com Dino; depois, havia um terceiro violão, que aparecia menos, mas que era necessário porque acompanhava Jacob em qualquer sarau, enquanto Dino se restringia às gravações profissionais.

A primeira vez que vi pessoalmente Dino foi no Festival de Choro da Bandeirantes, lá pelos idos de 1977. Fui cobrir pela revista Veja, mas não resisti e pedi seu autógrafo. Ele era a estrela maior, cercado pelos jovens músicos e fãs do choro, atraindo mais gente que outras figuras históricas como K-Ximbinho ou mesmo os conjuntos da jovem guarda do choro da época, como os Carioquinhas (onde pontificava o futuro sucessor de Dino, Raphael Rabello) e A Cor do Som.

Em 1995 lancei um CD de choro, que foi lançado no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Pouco antes, Raphael produziria uma homenagem especial ao Dino, gravando em duo com ele. Sua gravação de “1 x 0”, está entre as maiores da história, de uma música que foi executada ao longo de todo o século.

Meu amigo Pelão, produtor do CD, levou o mundo do choro para lá. Nosso sete cordas, o Zé Barbeiro, estupendo acompanhador, passou a tocar em uma rapidez insuportável. “Calma Zé”, pedi-lhe. E ele, como se tivesse visto a face de Deus: “Mas, bicho, é o Dino lá na platéia”.

Terminado o show, Dino veio até nós e elogiou a interpretação de “A Feia”, valsa de Jacob do Bandolim. Saímos dali, o Conjunto Nosso Choro e eu, como se pisássemos em nuvens.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 18h40