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24/06/2006

Guastavino e o Culto da Gentileza

Quando a babá empurrou a Bibi para me mostrar o trabalho da escola, admito que meu coração mineiro bateu mais forte. Especialmente quando ela se define como uma “menina gentil, que falava bom dia e boa tarde e tinha um porteiro muito amigo dela”.

Conferi ao sair de casa e levar ela e a Dodó à aula de natação. Dobramos a esquina da Rua Pernambuco, entramos na Rio de Janeiro e estava lá, no prédio de esquina, o porteiro abanando a mão para as duas.

Já se tornaram amigas de todas as pessoas que fazem ponto no trajeto da escola à nossa casa. No apartamento anterior, desciam a Rua Sergipe, davam uma entradinha no salão de manicura, cumprimentavam as moças, uma a uma. Andavam mais um pouco, cumprimentavam o “vozinho”, um senhor aposentado que fica sentado em uma banca de revista da esquina da Veiga Filho. Cumprimentavam o jovem dono da banca. Quando chegavam ao prédio, diziam “boa tarde, seu Manuel”, para o porteiro.

Aí caiu a ficha sobre o significado desse valor tão menosprezado nos dias correntes: a gentileza. Meu pai era um poço de gentileza, capaz de conferir o mesmo tratamento ao lixeiro e à personalidade. Seu círculo de amigos era formado apenas por pessoas gentis, de todos os círculos sociais. Trata-se de um valor tão suave que não nos damos conta de seu enorme poder de atração dos iguais. Eram amigos de papai o Dr. Martinho de Freitas Mourão, médico, ex-prefeito de Poços, um poço de gentilezas, como o professor Antônio Cândido, o Chafik Frahya, o ex-Ministro da Cultura Aluízio Pimenta, o Sebastião Menelau, e outras pessoas que freqüentavam diariamente a farmácia, algumas atrás de remédios, todas atrás de bom papo.

A gentileza se manifesta não apenas nos gestos, no cerimonial, mas na voz baixa, na maneira de ouvir o interlocutor, sempre valorizando o que diz, na paciência em ouvir queixas, no princípio sagrado de sempre retribuir outras gentilezas. E me dou conta de que não herdei esses atributos do meu pai. Sou por demais egocentrado, distraído, dispersivo para fazer parte do clube refinado das pessoas gentis.

Mas a Bibi, não. No dia 25 de março de dois anos atrás, mandei-lhe um poema por e-mail:

“Estava sozinho na vida, / Com dores no coração, / Quando um anjo atrevido / Me procurou algo aflito / Com um bilhete esquisito / Trazendo uma predição. / Em breve seriam minhas / A capetinha Dodô / A madaminha Bibi / E Clara, sua sobrinha”.

Bibi não deu sossego à baba Tati. Queria aprender como se faziam poemas. A Tati passou uma receita simples. Que se lembrasse de alguma poesia que lhe contaram na escola, mudasse as palavras e pensasse em alguém para oferecer.

Ela baseou-se nos dois primeiros versos de que se lembrava e me deu esse presente:

E, de gentileza em gentileza, cheguei ao tema da minha crônica: Carlos Guastavino, o mais gentil dos compositores.

Nascido em 1912 em Santa Fé, a mesma cidade em que meu pai nasceu quatro anos depois, falecido em 2000, Guastavino tornou-se internacionalmente conhecido quando Martha Argerich e Nelson Freire arrebentaram com “”Bailecitto”, dele.

Aproveitei minha última ida a Buenos Aires para adquirir tudo o que pudesse de Guastavino. Tem uma obra pianística de primeira. Mas seu pai musical atende pelo nome de Heitor Villa Lobos. Tem um conjunto de peças de piano claramente influenciadas pelas cirandas de Villa Lobos, e algumas canções românticas (como o clássico “La Tempranera”), da  mais genuína escola brasileira da canção, uma peça à altura de Heckel Tavares ou Tom Jobim pré-bossa nova.

Seu romantismo não é piegas, exagerado. Pode ser intenso, como em “La Tempranera”, mas no geral é leve, lírico. E porque essa relação com os amigos de bairro da Bibi e da Dodô? Porque uma das partes mais linda de sua obra são as peças dedicadas aos seus amigos do dia a dia, a “Ludovina”, “Horácio Lavalle”, “Pablo del aeroparque”, “Alina, de la calle Lacroze”, “Cassandra, de la calle Galileo”.

Como diria Chico Buarque, com suas definições definitivas, trata-se de um poço da delicadeza, que me ajuda a entender as raízes santafecinas de seu Oscar.


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 19h14

A visão de Armínio

Vale a pena conferir  visão não dogmática de Armínio Fraga no caderno “Eu&” do “Valor” desta sexta. Leia aqui. Apesar dos erros cometidos em 2002, no fragor da batalha, Armínio mudou completamente o Banco Central, criou uma área de análise econômica influente e lançou as bases de uma política de metas de inflação não dogmática.

Na entrevista, aponta os juros altos como o maior fator de distorção da economia. Foge das simplificações primárias de atribuir a alta taxa de juros à questão fiscal. Critica ao seu modo – educadamente, mas de maneira objetiva – a falta de jogo de cintura da atual equipe do BC de não avaliar o trade-off (a defasagem de tempo) das medidas e dos choques inflacionários.

Critica o fato de se ter estipulado uma trajetória de queda da inflação muito ambiciosa, o que acabou se refletindo no crescimento.

Quando mencionei a primeira vez a expressão “cabeça de planilha”, e mirei Ilan Goldfajn, diretor do BC, Armínio me ligou para dizer que eu tinha sido injusto, que Ilan não era dogmático. Bom, perto de Afonso Bevilacqua, sou inclinado a aceitar a defesa que Armínio fez do amigo.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 00h13

A presença de Radamés

Tudo bem que se comemorem os 250 anos de nascimento de Mozart, patrimônio da humanidade. Mas o descaso com que foi tratado o centenário de nascimento de Radamés Gnattali é significativo do subdesenvolvimento brasileiro.

Radamés não foi apenas um grande compositor e intérprete. Foi um dos músicos fundamentais da história da música brasileira no século 20. Nascido em 1906 em Porto Alegre, filho de imigrantes italianos, desde cedo impressionou pelo virtuosismo ao piano. Junto com a irmã Aída, gravou peças históricas a quatro mãos.

Aos 14 anos entrou no Conservatório de Porto Alegre; aos 16 anos, tornou-se pianista do Cine Colombo. Por falta de recursos não seguiu a carreira de concertista. Tivesse seguido, teria sido um dos grandes pianistas do século. Suas gravações de Nazareth são superiores inclusive às de Arthur Moreira Lima – sem nenhum demérito para Arthur.

Conseguiu algum sucesso no Rio em 1923, mas acabou voltando para Porto Alegre. Em 1929 retornou ao Rio, para uma apresentação com orquestra. Insuflado pelo clima nacionalista trazido pela Revolução de 30, Radamés deu início a uma promissora carreira de compositor erudito da escola nacionalista, com seu “Rapsódio Brasileira”.

A falta de espaço na música clássica acabou por enredá-lo na música popular. Passou a tocar nas orquestras de Romeu Silva – um dos primeiros chefes de orquestra a excursionar pela Europa – e Simon Boutman, maestro judeu legendário.

Nesse período enveredou pelo campo dos arranjos populares. O século terminaria com Radamés sendo reconhecido como o grande arranjador brasileiro, modernizando uma escola de arranjos que tinha em Pixinguinha seu ponto mais alto –mas muito fincado no sotaque dos dobrados. Radamés passou a escrever arranjos para o maior cantor brasileiro, Orlando Silva, incorporando definitivamente o sotaque americano na música brasileira, mas sem deixar de lado nossas características,

Com a inauguração da Rádio Nacional, ficou 13 anos como líder da “Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali”, que se apresentava no programa “Um milhão de melodias”. Praticamente compunha um arranjo por dia. Esse misto de erudito e popular o fez amado pelos músicos populares, e visto com desconfiança pelos eruditos de casaca.

Conheci Radamés quando ele já tinha 80 anos. Um dia veio se apresentar na Funarte, em São Paulo. Fomos apanhá-lo na saída. Nem me lembro quem foi o amigo que me apresentou a ele, provavelmente o Pelão, que conheceu todos os deuses do Olimpo. De lá, saímos para comer uma pizza.

Foi ele quem me informou que o autor da valsa “A Louca” era Chico Neto, palhaço de circo que tocava cavaquinho, e que o arranjo para violão foi de Teodoro Nogueira, paulista que fez carreira no Rio e faleceu poucos anos atrás. Contou também que, ao contrário do que se espalhava no Rio, a primeira esposa de Garoto, o Aníbal Augusto Sardinha –outro dos músicos fundamentais do século--, era uma senhora simples e boa. Problemas terríveis ele enfrentava com a segunda, que queria impedi-lo a todo custo de mandar ajuda para a ex e para o filho. Muitas vezes, Garoto passou dinheiro escondido para Radamés mandar para sua família paulista. Ele e Garoto foram sócios em uma chácara no Rio.

Radamés revolucionou o choro, incorporou no choro do pós guerra os avanços que aconteciam no jazz. Mas, até então, considerava o choro uma escola pobre, comparada com o jazz. A rigor, respeitava apenas Pixinguinha como músico à altura dos americanos.

Pouco saiu na mídia. Mas no coração de cada chorão brasileiro se comemorou o centenário de uma das referências musicais do século.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 00h12

23/06/2006

Do leitor

A ANAC e a Varig

por André Araújo

Estreou mal essa ANAC no caso VARIG. Não se posicionou claramente, não demonstrou ter uma visão global e uma estratégia de longo prazo para o transporte aéreo no Brasil, os dirigentes aparentam estar abaixo do nível necessário para exercer um papel de coordenação de conjunto do mercado. A intervenção da ANAC foi só pontual, vendo pedacinhos do problema, nada macro. Para ter uma entidade meramente cartorial era melhor ter deixado a aviação civil no DAC, pelo menos tinham mais experiência.

Outra besteira é vetar a priori o papel de um sócio estrangeiro na VARIG, como fez a ANAC. É melhor uma filha viva casada com um esquimó do que ela morta. Que mediocridade!

 


Escrito por Luis Nassif às 16h51

22/06/2006

O papel da mídia - 2

Quando topei montar o Blog, sabia de antemão da excelência dos leitores. Agradeço bastante as observações postadas na matéria anterior.

Mas vamos a alguns pontos que não são ainda muito claros. Como muitos leitores observaram, a grande mídia obedece a uma lógica econômico-financeira também. Nos anos 30, Ortega y Gasset já tinha estudos muito interessante sobre esse papel da mídia de massa.

Vamos analisar a notícia, então, como produto. Cada produto, em qualquer campo, pode ter características diversas, inclusive como posicionamento de mercado. Mas possui características intrínsecas, que não podem ser desrespeitadas, sob pena de se perder público.

Há um tipo de jornalismo sensacionalista, há o jornalismo de entretenimento, há o show de TV. No caso do jornalismo de opinião, uma das qualidades intrínsecas é a credibilidade. Não há como fugir disso.  Pode-se mudar a natureza, tornar-se um veículo sensacionalista, e disputar o mercado nessa faixa, não na faixa da opinião.

Uma das características da credibilidade é a sobriedade. E aí se entra no nó: como casar credibilidade/sobriedade com a necessidade de vender o produto notícia? Como evitar que não se transforme em algo chato e insosso.

Eu diria que a fórmula é fácil de definir, e difícil de implementar: com talento, com pauta criativa, com rigor na apuração. “Cria” notícias quem não tem fôlego suficiente para pensar pautas criativas, com texto atraente e enfoques originais.

Por isso mesmo, em plena era da Internet, as armas do jornalismo convencional estão na recuperação do exercício objetivo dos valores jornalísticos.


Escrito por Luis Nassif às 19h59

Organizações Sociais de Saúde

Desde 1998, o Estado de São Paulo emprega métodos diferenciados para a administração de algumas Unidades Hospitalares. O novo modelo diminui os níveis hierárquicos de gerência, aumentando o poder decisório em termos financeiros e organizacionais de acordo com as necessidades específicas de cada estabelecimento. São as chamadas Organizações Sociais de Saúde (OSS), hospitais de governança flexível, que alcançaram reconhecimento internacional.

Um estudo do Banco Mundial mostra que além da redução de custos, o modelo é responsável pela diminuição de óbitos e pelo aumento da qualidade técnica do atendimento à população. Além de analisar prós e contras, o trabalho detalha a organização administrativa das OSS, trata fatores históricos que levaram o sistema de saúde brasileiro à atual situação, traça um panorama das unidades hospitalares do país e mostra a base jurídica que rege a questão da saúde. O modelo das OSS ganhou relevância nacional e chegou a ser “exportado” para Pará, Minas Gerais e Bahia e está em fase de implementação no sistema hospitalar da cidade de São Paulo.

A discussão é atual. No dia 16 de junho, a Prefeitura de São Paulo foi impedida, por ação do Ministério Público Federal (MPF) contra a administração municipal e a União, de firmar novos contratos com Organizações Sociais. O MPF caracterizou as parcerias como parte de um processo de privatização dos serviços públicos. A liminar foi derrubada pala prefeitura e, por enquanto, a relação do Governo com as OSS volta ao normal.

No site www.projetobr.com você encontra a íntegra do estudo do Banco Mundial, além de outras informações relacionadas à Saúde Pública Brasileira.


Escrito por Luis Nassif às 13h11

21/06/2006

O papel da mídia

Como muitos leitores estão discutindo o papel da mídia, coloco no Blog minha coluna do último domingo na “Folha”, sob o título “A Mídia e o Fator Lula”.

NO INÍCIO dos anos 90, a inacreditável entrevista de Pedro Collor para a revista "Veja" inaugurou a era de maior poder da mídia, desde o início dos anos 50. Descobriu-se a notícia-espetáculo, os fatos inverossímeis baseados em fontes suspeitas, mas que atendiam à sede de show.
Denúncias graves não foram apuradas, denúncias vazias viraram manchete, forçou-se a barra, mas o presidente caiu. Ainda que à custa de um pequeno Fiat Elba.

Seguiu-se um longo período de denúncias inverossímeis, ou interessadas. Criou-se até essa obra-prima do jornalismo ficcional, o "roteiro Frankestein", que consiste em juntar pedaços de notícias verdadeiras, porém irrelevantes, e compor um roteiro com denúncias graves, porém falsas.

Ao longo dos anos 90, esse tipo de jornalismo gerou peças de ficção famosas, como a capa de "Veja" sobre Chico Lopes -segundo a qual o lobista amigo de Lopes, ele e o banco que pagava as informações se comunicavam por meio de três celulares, e o banqueiro Salvatore Cacciolla obtinha as informações por meio do "grampo" dos aparelhos; no dia da mudança de câmbio, o "grampo" falhou, por isso Cacciolla quebrou.

Agora, está-se em plena era da globalização e da internet, com dois fenômenos concomitantes, com implicações relevantes para o futuro das democracias. O primeiro, os amplos fluxos migratórios para os países centrais, gerando um novo tipo de cidadão-eleitor, as minorias étnicas, cada vez mais atuantes.

O segundo, a internet trazendo, em um primeiro momento, enorme balbúrdia de informações e, principalmente, de opiniões, catarses, espetáculo. Agora, quando esse tipo de recurso freqüenta intermitentemente a internet, as caixas de e-mails, os blogs, os comentários nos blogs, quando o exercício vazio da indignação pode se expressar de várias maneiras, o papel fundamental da grande mídia é o de estabelecer parâmetros.

É esse o diferencial: o aval à informação. Muito mais do que em qualquer outra época, há a necessidade do rigor da apuração, justamente porque existe uma overdose de notícias, boatos e opiniões exigindo o avalista.

Pergunto: estamos preparados para isso? A cobertura dos escândalos do mensalão e pós-mensalão deixa uma enorme dúvida no ar. Havia uma betoneira de denúncias a serem apuradas. Em vez disso, quando esgotou a fase inicial das denúncias, recorreu-se a uma overdose de denúncias sem comprovação, somada a uma incapacidade ampla de ir atrás de pistas consistentes, de entender a complexidade dos grandes golpes, de separar o escândalo de episódios triviais. Em alguns órgãos, juntou-se uma dose de agressividade, desrespeito e preconceito sem paralelo até na campanha do impeachment.

Chega-se ao final de um ciclo, que começou com a campanha do impeachment, que derrubou um presidente, e termina com a do mensalão, que não foi capaz de abalar a popularidade de outro presidente.

O exercício do jornalismo precisa ser urgentemente repensado. E não se trata de um problema de forma. É de fundo, de conteúdo.


Escrito por Luis Nassif às 22h50

A falsa ciência e a anti-ciência

 

O Brasil de balança entre dois grupos semelhantes, embora aparentemente opostos: Um – que grassa entre muitos economistas – é o de manipular conhecimento técnico em favor de teses pessoais.

Ping

Na coluna da Sonia Racy, no Estadão de hoje há um exemplo claro. O IPEA fez um estudo estimando que o aumento do salário mínimo de 1995 a 2006 custou R$ 250 bilhões ao país. Sônia foi ouvir Julio César Gomes de Almeida, economista exemplar, novo Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Júlio matou a charada: numa jogada de manipulação financeira, os economistas do IPEA corrigiram os gastos pela taxa Selic. Utilize-se uma taxa distorcida e se chegará a um resultado distorcido.

Pong

O segundo grupo é dos anti-cientificistas, dos que julgam que pode-se questionar a ciência usando como fundamento a ignorância. É o caso da procuradora da República Maria Soares Cordioli, indicada pelo Ministério Público Federal para “monitorar” as reuniões da CNTBios (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança).

Segundo o “Valor” de hoje, a procuradora sustenta que “Não é só a CNTBio dizer se um produto será autorizado, mas também tem que avaliar o viés ambiental, trabalhista e dos direitos do consumidor”.

E como é que se vai avaliar? Sem conhecimento técnico, científico? Na base do palpite?


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h51

20/06/2006

Do Leitor

O Ministro e os chineses em lata

Caro Nassif

Em primeiro lugar, o ministro Marinho me pediu para dizer que continua disponível para falar com você quando você quiser, como sempre.

Quanto a nota que lemos em seu blog sobre a vinda de chineses para trabalhar no Brasil, informo que há um equívoco. Na verdade, o ministro Luiz Marinho, não aceitou a vinda de 2 mil chineses para trabalhar no Rio de Janeiro e limitou o número a 300 para garantir a abertura de novos postos de trabalho para brasileiros.

Durante a negociação, o ministro foi absolutamente claro ao exigir que: 1) os empresários chineses cumpram a legislação trabalhista brasileira; 2) que seja garantido aos trabalhadores habitação decente; e 3) que seja garantido, também,  aos 300 chineses o direito de ir e vir, caso contrário, configura-se trabalho em condições análogas à escravidão.

Marinho também deixou claro para os empresários que se o alojamento/habitação dos trabalhadores for degradante, será interditado,  do mesmo jeito que os auditores fiscais do trabalho já fazem no campo. O mesmo rigor será usado quanto às condições de trabalho, cumprimento da legislação e o direito de ir e vir.

Estamos à disposição para quaisquer informações que você precise sobre esta e outras questões.

Atenciosamente,

Fátima Gomes de Lima

Chefe da Assessoria de Comunicação do MTE


Escrito por Luis Nassif às 23h53

Chineses em lata

Autoridades brasileiras que foram negociar com chineses a construção de uma siderúrgica no Rio de Janeiro se assustaram.

Um dos pontos da proposta chinesa era trazer 1.500 trabalhadores em containners. Os containners ficariam no entorno da obra e os chineses ficariam morando neles.

A embaixada queria que o Ministério do Trabalho desse autorização para o trabalho. Resposta do Ministro Luiz Marinho: “Não daria para reduzir para 300?”


Escrito por Luis Nassif às 14h44

Sangue em Pernambuco

A construção de uma fábrica de sangue em Pernambuco, estado natal do ex-Ministro da Saúde Humberto Costa, candidato ao governo, está provocando desconfianças em técnicos de São Paulo.

O mercado está aqui, a maior fonte de captação de sangue também. Durante anos, o mercado de sangue foi dominado pelo polêmico Hemocentro. Agora que começa a se desenvolver, teme-se que a fábrica de Pernambuco acabe sendo montada com equipamentos de tecnologia inferior.


Escrito por Luis Nassif às 10h53

A proposta da TGV

Definitivamente não está clara a proposta da TGV (Trabalhadores do Grupo Varig). Não faz lógica não querer apresentar o nome dos investidores associados. O juiz Ayoub abriu um precedente, convalidando a proposta sob condições: a de pagar a entrada e divulgar o nome dos investidores.

É evidente que o BNDES não irá financiar a empresa sem garantias. Se o TGV não apresentar os financiadores, se configurará o maior blefe da história comercial do país. Se tentou criar a política de fato consumado, não conseguirá ir adiante.

Tomara que tenha cartas para apresentar.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h31

19/06/2006

Do Leitor

A Varig de 1996

por Rubel Thomas

 

Tomei conhecimento de seu artigo publicado na edição da Folha de São Paulo de 16 de Junho.

Após refletir ao longo do fim de semana, julgo necessário esclarecer ao przado jornalista, alguns fatos.

Como é de seu conhecimento, assumi a Varig na função de Presidente em 19 de Abril de 1990, tendo logo após o Governo brasileiro liberado os céus brasileiros e como consequência as empresas americanas promoveram de imediato, um aumento de 80% na oferta para o nosso mercado.

Vale ressalvar que sou totalmente aberto à competição, porém desde que seja feita de uma forma gradativa. Devo ainda acrescentar que enfrentei três planos econômicos que não deixaram nenhuma saudade.

A criação da Rio-Sul deu-se muito antes da minha gestão. Foi em 1976 por decisão do governo brasileiro, em conjunto com a criação das empresas regionais TAM, Taba, Votec e Nordeste.

Deixei a Varig em maio de 1995 após concluir uma reestruturação em conjunto com o Bankers Trust e a Consultoria Booz Allen Hamilton na qual tive que reduzir a força de trabalho em 1994 em 9.000 funcionários com o fechamento de diversos escritórios no exterior. Felizmente prezado Nassif, consegui entregar a empresa a meus sucessores com resultado operacional positivo de US$ 113 milhões no primeiro trimestre de 1995.

Ingressei na TAM em 1996 a convite do saudoso Comandante Rolim e recebi como primeira missão, a tarefa de reestruturar a empresa coligada TAM Mercosur com sede em Assunção. Após seis meses de trabalho, esta empresa passou a dar lucros após 30 anos de prejuízo.

Posteriormente, recebi a incumbência do Comandante Rolim de estudar um plano estratégico para a TAM. A síntese de meu estudo era operar inicialmente, uma freqüência para a Europa em parceria com uma empresa européia, uma freqüência para os Estados Unidos em parceria com uma empresa americana e uma freqüência diária para a Argentina. Implantamos 3 vôos semanais para Paris em parceria com a Air France, um vôo diário para Miami em parceria com a American Airlines e os vôos diários para Buenos Aires. Após um período inicial de maturação do investimento, todos os vôos tornaram-se rentáveis, e são até hoje.

As demais negociações foram devidamente efetuadas através de orientação expressa do Comandante Rolim e do Conselho de Administração da TAM junto à Cernai - Comissão de Estudos Relativos à Navegação Aérea Internacional órgão do DAC (atual Anac), que resultaram na autorização de novos destinos.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 19h53

Plataforma Alckmin

A primeira providência tomada pela equipe incumbida de montar a plataforma de Geraldo Alckmin para a presidência foi solicitar o afastamento do economista Samuel Pessoa, d FGV-RJ, mas com pensamento alinhado com a PUC-RJ. Não queria a campanha identificada com uma ou outra escola de pensamento.

O desafio maior será escolher com qual escola ficar, na hora que se tiver que tomar as decisões. De qualquer modo, a equipe se limitará a preparar resumos sobre as divergências de opinião de cada escola em relação aos temas mais delicados da política econômica.

Enquanto isto, Alckmin continuará no malabarismo que mostrou hoje, na entrevista ao Heródoto Barbero da CBN:

·         O governo Lula foi covarde em não baixar os juros.

·         Mas não se pode baixar os juros sem reformas.

·         Os juros são altos porque o estado brasileiro é grande demais.

E outros clichês de fácil assimilação.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 17h02

A Taxa Externa de Retorno

Em 2005, depois de anos contabilizando todo investimento público como despesa, o Brasil decidiu aderir à proposta de PPI (Programa Piloto de Investimento), pelo qual investimentos públicos produtivos, com rentabilidade, não integrariam os limites de despesas do governo.

Foram incluídos no PPI a maioria dos projetos de saneamento e habitação do Ministério das Cidades. Além disso, o PPI permitiu a retomada dos projetos de expansão do metrô de Belo Horizonte e Fortaleza, sob responsabilidade da CBTU (Companhia Brasileira de Transporte Urbano).

Decano da engenharia brasileira, Plínio Assmann, no trabalho "Uma Nova Macroeconomia para os Investimentos em Infra-Estrutura", propõe uma nova metodologia, a ser implementada especialmente nos projetos de engenharia financiados por bancos de fomento: a Taxa Externa de Retorno.

A idéia é desenvolver metodologias para medir as externalidades positivas dos projetos, o que poderia ser acelerado se o BNDES passasse a exigir dos clientes do setor público estudos de externalidades em seus pedidos de financiamento. A externalidade de interesse do banco se restringiria aos aspectos monetizáveis, na repercussão do projeto na melhoria das contas dos seus agentes promotores.

Mais detalhes, clique aqui


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h54

18/06/2006

Do leitor

O Governo FHC e a Varig

por José Roberto Mendonça de Barros

Escrevo-lhe a propósito de sua coluna de 16 de junho para fazer um reparo à sua afirmação de que o governo FHC fugiu do problema da Varig. Nossa amizade e o respeito que tenho por seu trabalho permitem-me lhe dizer que sua crítica foi injusta, frente aos fatos que passo a relatar.

No início de 2002 iniciou-se mais uma tentativa de encontrar uma solução para o caso Varig. O Arnim Lore, que conhecia muito bem a companhia por ter sido seu diretor financeiro por duas ocasiões, assumiu a presidência da empresa e trouxe o Clóvis Carvalho para a presidência do Conselho de Administração, do qual passei também a participar. Criou-se um Comitê de Credores para negociar o equacionamento  das dívidas e, mais importante, contratou-se a Bain & Company para fazer uma avaliação da viabilidade da companhia e em que condições.

A Bain acumulou larga experiência com o setor aéreo e foi, entre outras coisas, a principal responsável pelo "turn around" da Continental Airlines. Por volta de julho de 2002 a primeira versão do estudo ficou pronta e dizia que com certos ajustes a companhia seria viável. O mais importante era reduzir o custo de vendas que atingia 25% da receita de passagens, recorde mundial. A concorrência nacional tinha custo de 17% e cadente, enquanto o "benchmark" internacional era de 15%, devendo ser reduzido para próximo de 10% com a expansão dos "e-tickets". Alem disto, certamente teríamos que reduzir o pessoal excedente, especialmente pilotos, e fazer um reordenamento de malha, além de um plano de negócios para as subsidiárias, que não seriam vendidas. Na ocasião a Varig detinha mais de 80% do mercado internacional e algo como 60% (se não me falha a memória) do mercado doméstico.

Se a companhia ficasse viável, a partir destas linhas de reestruturação, o passo seguinte seria resolver a questão da base de capital, fluxo de caixa e endividamento. A negociação com os credores encaminhou-se para uma solução clássica: todos eles, públicos e privados, concordaram em capitalizar seus créditos, trocando-os por debêntures  conversíveis em ações e elevando o capital da empresa, sem que a Fundação Rubem Berta acompanhasse o movimento, de sorte que a FRB seria diluída e teria uma participação de algo como 20% do total. O BNDES também participaria da operação e, inclusive, faria um empréstimo ponte para  capitalizar a empresa enquanto todas a assembléias e demais questões jurídicas fossem sendo encaminhadas.

Como você vê, a operação toda era algo clássico em mercado de capitais, sempre partindo-se da premissa que a empresa seria viável depois de reestruturada, incluindo a modificação na governança, ou seja,  a perda do controle por parte da Fundação Rubem Berta, algo que todos os que passaram pela companhia, e não foram poucos, concordam.

Entretanto, a Fundação, na ocasião controlada por um senhor Yutaka, naturalmente não concordou nunca com isto, e tratou de melar o final da reestruturação, aparentemente acreditando na palavra de assessores do novo governo, que teriam garantido resolver o problemas da companhia em 2003, logo após a posse.  Como se sabe hoje, esta foi mais uma das muitas promessas não cumpridas e aí está a Varig em seus estertores finais.

Tudo isto é lamentável. Entretanto, tenho absoluta consciência que em 2002 um número enorme de pessoas competentes e adequadamente posicionadas no grupo Varig, no BNDES e no governo, na Bain, em todos os credores, públicos e privados e outras mais fizeram um enorme esforço para recuperar a companhia, sem perder a liderança do mercado, sem elevar o déficit público e sem a venda de subsidiarias importantes.

Infelizmente faltou a FRB e sua governança a percepção da gravidade da situação, o que parece só aconteceu agora quando a situação se tornou crítica.

 


Categoria: Geral
Escrito por Luis Nassif às 18h55