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08/07/2006

Os Locutores de Rádio

Nesses tempos de Copa do Mundo, estava ouvindo um CD de Morengueira da Silva, e em um dos sambas de breque ele menciona Oduvaldo Cozzi. Não sei se você se lembra dele. Eu nunca o ouvi, mas era uma lenda no futebol de rádio na minha infância. E aí me dei conta de que, naqueles tempos de rádio rabo quente, sem acesso à televisão –pelo menos lá no interior—os radiolocutores de futebol eram semi-deuses para nós.

Quando entrei na idade da razão, lá pelos 6 ou 7 anos de idade, as rádios do Rio de Janeiro ainda pontificavam em todo o Brasil, especialmente a rádio Nacional e a Globo. A gente acha que o Sistema Globo começou com a televisão ou com o jornal, mas naqueles tempos o grande veículo do grupo era a rádio Globo.

Em toda emissora havia a dobradinha comentarista-analistas. Os mais famosos, naquele meu início de aprendizado, eram os da rádio Nacional, Jorge Cury (irmão de Ivon Cury) e, acho, Oswaldo Cordeiro. Eram famosos por conta da rádio Nacional, mesmo, porque sua lembrança se perdeu no tempo.

Sobreviveu muito mais forte a de Ary Barroso e sua “gaitinha”, que nem sei em qual emissora se apresentava.

O grande locutor da história do rádio talvez tenha sido Pedro Luiz, que narrou um dos tempos do jogo Brasil e Suécia na final da Copa de 1958. O outro tempo foi narrado por Edson Leite. Foi uma dupla de fazer história. Pedro Luiz tinha uma capacidade de descrever detalhes que só vi, anos depois, em José Silvério, da Jovem Pan. Os especialistas dizem que Pedro Luiz foi o maior da história.

Mais tarde, fez dupla memorável com o comentarista Mário Moraes, um ranzinza autor de imagens clássicas, como o famoso “aquele jogador só usa a perna esquerda para subir no ônibus”. Mário Moraes se deu bem com a televisão, Pedro Luiz, menos. Como já tinha o suporte da imagem, a televisão precisava de mais show e menos detalhes. Por isso mesmo, o primeiro grande nome exclusivamente de televisão foi Geraldo José de Almeida, o pai do modo Galvão Bueno de ser, com seu estilo retumbante, fundamental na consolidação da TV Globo naquele início dos anos 70.

No rádio, o grande nome que surge nos anos 60, para nós lá do interior, foi o de João Saldanha, um ídolo imbatível, tanto no rádio quanto, mais tarde, na televisão. Ainda mais depois que deu a garra à seleção que conquistou a Copa de 70. Como técnico das eliminatórias criou a imagem das “feras de Saldanha” e acabou com o início de complexo de inferioridade ao qual estávamos sendo jogados depois do desastre da Copa de 1966.

Conheci o mestre em meados dos anos 70, quando o Juca Kfoury convocou um grupo de jornalistas, a maioria do antigo partidão, e uns independentes, como eu, para auxiliar o prefeito de Piracicaba, João Hermann, que estava sendo massacrado pela "burguesia" da região. Além do Saldanha, na reunião estavam ainda o Henfil e o frei Betto, se não me engano. Quando foi solicitado que o Hermann descrevesse o teor da campanha insidiosa que lhe moviam, sacou um jornal com a manchete bombástica: “Prefeito morde a omoplata da secretária em festa de reveillon”. “Aconteceu?, indagou Saldanha. E o acusado, cabisbaixo, “aconteceu”. O grupo achou que era caso perdido.

A carreira de Saldanha encerrou-se quando comentou o jogo Brasil e Holanda, na Copa de 1974. De tão nervoso com a qualidade do adversário, Saldanha comentou o jogo de pileque. Há quem diga que estava sob efeito de remédios Está desculpado. Ninguém agüentaria aquela tensão de cara limpa.

O rádio permaneceria dividido entre os locutores narradores e os locutores show. No segundo grupo, Fiori Gigliotti foi um nome portentoso. Participei de um programa com ele há um mês, uma semana antes de sua morte.

Mas o grande nome de locutor-show mesmo foi Osmar Santos. Suas transmissões ainda hoje ecoam nos ouvidos de todos aqueles que tiveram o prazer de viver os últimos momentos de predomínio dos locutores de futebol no rádio.


Escrito por Luis Nassif às 18h57

Dalida, uma vida trágica

Dalida foi uma mulher belíssima, nascida em 1933 no Egito. Em 1954 tornou-se Miss Egito e mudou-se para a França. Tornou-se cantora logo em seguida, estreou no Olímpia e em 1957 ganhou o Disco de Ouro, pela venda de 300 mil discos da música "Bambino".

Em 1967, no Festival de San Remo, Dalida anuncia seu casamento com Luigi Tenco, cantor e compositor italiano. Mas Luigi não suporta a derrota no festival e se mata. Alguns meses depois, Dalida tenta se matar com barbitúricos, mas escapa. Em 1970, seu ex-marido Lucien Morisse também se suicida.

Em 1973 tem seu maior sucesso, “Parole, Parole”, gravado com o galã francês Alain Delon. Em 1976, gravou "Tico-Tico no Fubá" (veja na nota abaixo). Em 1980, Dalida recebe um Disco de Diamante, pelos 80 milhões de discos vendidos em sua carreira. Em 1983 outro velho amigo, Richard Chanfray, se suicida em Saint Tropez.

Em 1987, Dalida se suicida, tomando barbitúricos. Há uma praça em Montmartre com seu nome.

Clique aqui, e veja a interpretação de “Bambino”, o primeiro sucesso de Dalida, em gravação de 1977.

Clique aqui para assisti-la cantando "Ciao Amore Ciao" em homenagem ao amado Luigi Tenco.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 12h18

Sete preciosidades de Villa-Lobos

Assista algumas preciosidades de Villa-Lobos em vídeo:

1.      Estudo 6, por Abel Carvelaro (clique aqui). Carvelaro foi um mestre uruguaio, autor de um método de violão consagrado mundialmente. Faleceu alguns anos atrás. Aqui se tem uma interpretação dele, já bastante idoso.

2.      Prelúdio número 2 de Villa-Lobos, pelo próprio (clique aqui). Na verdade, algumas imagens de Villa tendo como fundo sonoro o Prelúdio.

3.      Estudo número 1 em mi menor, de Villa, interpretado por André Segovia (clique aqui).

4.      O belíssimo Prelúdio número 5, por John Williams (clique aqui), com seu estilo rápido, mas de baixa pulsação.

5.      O Estudo número 1, com Julian Bream (clique aqui), de estilo mais próximo do brasileiro e, antes de John Williams, considerado por muitos o melhor violonista do mundo.

6.      A lindíssima Cantilena da Bachiana número 5, interpretada por Marília Vargas (clique aqui).

7.      Os irmãos Assad, em vídeo da TV E de 1981 (clique aqui)


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 10h26

07/07/2006

Tico-Tico no Fubá

Não me canso aqui de elogiar a prodigalidade musical do Rio de Janeiro. Essa caixa de ressonância, no entanto, acabou jogando para segundo plano músicos fantásticos que se formaram fora da sua órbita de influência.

É o caso de Zequinha de Abreu, pianista contemporâneo do grande Ernesto Nazareth e que logrou construir uma obra enorme de valsas singelas, menos sofisticadas que a do mestre carioca, mas de choros clássicos, com influência maior sobre a formação do ritmo do que o próprio Nazareth.

Zequinha é de 1880, paulista de Santa Rita do Passa Quatro. Dentre as suas valsas, existem clássicos eternos da música brasileira, como “Branca” e “Tardes de Lindóia”, que todos conhecem, e “Último Beijo”, que minha mãe conhecia, e que foi pouquíssimo gravado (“quando eu te beijei a última vez / me lembro claramente era noite de luar”). Com todas as lembranças que a música me traz, não ousaria dizer que pudessem se equiparar aos clássicos “choppinianos” de Nazareth. Mas no choro, meu amigo, sai de baixo: “Os pintinhos no terreiro”, “Não me toques”, trouxeram uma contemporaneidade ao choro que nem o próprio Nazareth foi capaz.

É de Zequinha um dos clássicos brasileiros do século, um dos clássicos da música internacional, uma das músicas mais gravadas do mundo em todos os tempos, executada em todos os ritmos e sotaques: o “Tico Tico no Fubá”.

Experimente baixar no seu microcomputador um desses programas de “download” de música, e terá uma pálida idéia do que estou lhe dizendo. Se der sorte, conseguirá a gravação extraordinária da organista Ethel Smith, de 1941, com sucesso tão retumbante, que acabou por ser incluído na trilha sonora de cinco filmes norte-americanos da época, alguns com enorme sucesso como “Escola de Sereias”, “Alô Amigos”, “A Filha do Comandante”, “Kansas City Kity” e “Copacabana”.

Poderá conseguir a gravação de Carmen Miranda, de 1945, uma interpretação portentosa, ou de Dalida (veja o vídeo), de 1976. Depois de Carmen, é a melhor gravação de cantora que ouvi. No vídeo, além do balanço, Dalida está maravilhosa, uma cantora de vida trágica (leia mais sobre ela no post acima).

Poderá ouvir “Tico Tico” orquestrado por Michel Legrand e Mantovani, Roberto Inglez e Ray Conniff, Perez Prado em mambo, Orquestra Tabajara em frevo, e Henry Mancini. Ou “swingado” por Stan Kenton, Charlie Parker e Tommy Dorsey. Pensará que é uma peça flamenga, com Paco de Lucia (veja o vídeo). Ou um jambo alucinado, com Desi Arnaz. Ouvirá em bandolim de diversos sotaques, como Les Brown e David Grisman, um norte-americano fantástico, ou os cavaquinhos de Waldir Azevedo e Garoto. Ouvirá com pianistas célebres, de Daniel Barenboim, Moreira Lima, Jacques Klein a Liberace. E até um hip-ho divertidíssimo de Lou Brega.

Dentre minhas gravações favoritas estão quatro clássicos, do argentino Oscar Aleman, uma insuperável do Paquito de Rivera, a de Raphael Rabello, Armandinho e Paulo Moura, e a de Pixinguinha e Benedito Lacerda.

E, no entanto, essa música que ajudou a consagrar o choro brasileiro no mundo, é de 1917. Naquele ano nasceu como “Tico Tico no Farelo”, mas como tinha música com esse nome do Américo Jacomino (o “Canhoto”, do “Abismo de Rosas”), virou “Tico Tico no Fubá”. Ganhou letra de Eurico Barreiros em 1931 e só naquele ano recebeu a primeira gravação, da Orquestra Colbaz, do histórico maestro Gaó. Parte da história foi contada no filme “Tico Tico no Fubá” de 1952, devidamente romanceado. Zequinha era vivido por Anselmo Duarte, o maior galã da época.

Zequinha morreu cedo, em 22 de novembro de 1935, aos 55 anos. Teve tudo para uma vida tranqüila. Tocava na histórica Casa Beethoven, ali na rua Direita, em bares da noite, tinha seu conjunto, recebia um salário mensal dos Irmãos Vitale, em troca de lhes entregar uma composição por mês. Mas tinha alma de artista.


Jimmy Rosenberg

Se você é fã desses guitarristas ultra-rápidos, que tocam limpo, eis aí um gênio à altura de Yamandu: o cigano Jimmy Rosenberg, uma reencarnação de Django Reinhardt com influência da música instrumental brasileira. A gravação em questão é de 1993, ele ainda um menino, mas já um gênio. Veja aqui. Ou então nesse documentário (clique aqui).


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h01

Dante de Oliveira e FHC

A morte do ex-governador de Mato Grosso, Dante de Oliveira, priva o país de um nome histórico, pela emenda que serviu de mote para a campanha das diretas.

Anos atrás, Fernando Henrique Cardoso presidente, o governador me ligou de um táxi de Brasília. Tinha estourado a crise de energia e ele tinha ido levar ao presidente uma sugestão de criação de uma espécie de título público visando captar recursos para o setor. Me ligou oferecendo a notícia em primeira mão, entusiasmado com a reação da FHC, que na frente dele ligou para o presidente do Banco Central Armínio Fraga solicitando que analisasse imediatamente a sugestão.

Sem querer cortar o entusiasmo de Dante, indaguei se algum dia ele tinha dado alguma sugestão para FHC. Ele disse que não. Sugeri-lhe, então, que aguardasse algumas semanas antes de divulgar o feito.

Dois meses depois ele me liga novamente. Disse que tinha estado de novo com FHC cobrando um retorno da sua sugestão. Na sua frente, FHC ligou para Armínio e lhe passou um sabão, solicitando urgência na análise.

Perguntei: “Governador, tem certeza de que havia o Armínio no outro lado da linha?”. Aí caiu a ficha de Dante sobre o estilo FHC de fazer políica. Por via das dúvidas, nunca mais mencionou a sugestão que, acredito eu, jamais saiu da sala de FHC para Armínio.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 18h05

O ego e a guerra urbana

Escrevi o blog abaixo antes da explosão da bomba no trem-metropolitano. A insensatez está se abatendo sobre São Paulo. A falta de estratégia das autoridades, a selvageria do olho-por-olho, para poder livrar a cara das autoridades após o ataque do PCC, começa agora a expor a população a essa guerra sem quartel.

A luta contra o PCC é muito difícil e espinhosa, para ficar em mãos tresloucadas. É uma organização criminosa bem montada, comandada por assassinos frios. Ao ordenar a retaliação indiscriminada ao ataque do PCC, as autoridades paulistas passaram a expor a população à retaliação dos criminosos. As vítimas não são mais policiais e agentes penitenciários. Agora, é a população como um todo.

Seria importante que, como demonstração de solidariedade, as autoridades do sistema de segurança paulista, abrissem mão do carro blindado, da escolta e dos seguranças. Para ganhar aplausos de desinformados, expõem toda a população a uma insegurança sistêmica.


Escrito por Luis Nassif às 17h02

Codesp e a Bunge

O loteamento do porto de Santos não se restringe à área doada à Santos-Brasil. No governo passado teve início processo de doação de 500 mil m2 para o grupo Bunge, com pretextos semelhantes aos utilizados para presentear o grupo Opportunity.

A história começa com a privatização da Ferronorte. Embora fosse uma concessão ferroviária, que não passava pelo porto, foi doada uma área de 500 mil m2 a uma terceira empresa, a TGG, do grupo Bunge. Feita na gestão anterior, foi endossada pela atual.

Vai se tornar o maior terminal do porto, sem ter pago um centavo pelo espaço.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h06

Araraquara e Guantanamo

Marlene Bergamo/Folha Imagem

 

São Paulo sofreu duas humilhações nas últimas semanas. A primeira, a invasão comandada pelo PCC. A segunda, as cenas da Penitenciária de Araraquara, com 1.400 presos seminus amontoados no pátio de uma penitenciária onde cabem 160 pessoas, com portas lacradas e comida sendo atirada pelo teto.

É ignominioso, covarde. Enquanto Secretários e comandantes policiais dão ordens protegidos por seguranças e carros blindados, presos são fuzilados na penitenciária e agentes penitenciários fuzilados em suas casas. Como se uma retaliação covarde pudesse varrer para baixo do tapete a incompetência geral dos poderes públicos paulistas de combater a criminalidade.

O governador Cláudio Lembo continua insistindo que a culpa é da minoria branca e dos presidiários que destruíram a penitenciária, e endossando as práticas mais vergonhosas e ineptas de repressão. Caiu uma bomba em seu colo, mas ele precisa parar de fingir que não é com ele.

Como ele, um advogado preparado, uma pessoa intelectualmente refinada, comete uma generalização dessa ordem, de atribuir essa situação de campo de concentração aos presos genericamente, dando o aval para a brutalidade? Culpados são sempre os chefes, dos dois lados. E do lado dos cara-pálidas há um chefe que endossa um tratamento que nem em guerra é permitido, uma Guantanamo em pleno período de paz.

E para quê? Vai enfraquecer o PCC ou vai reforçá-lo? Todos os prisioneiros avulsos, vítimas dessa brutalidade, vão se escorar onde? No PCC, óbvio, porque a organização tem poder de retaliação e de intimidação dos agentes penitenciários.

O governador está permitindo a eclosão de uma guerra. Qualquer estratégia minimamente inteligente trataria de reduzir a panela de pressão dos presídios e combater ferreamente o crime fora das penitenciárias. Aqui nada se fez. Permitiu-se a super-lotação dos presídios, não houve trabalho de inteligência policial em cima dos prisioneiros e agora se vai à forra da maneira mais covarde, enlameando o nome do país em todo o mundo civilizado.


Escrito por Luis Nassif às 11h01

06/07/2006

Lembo e o cálice amargo

O caso do “grampo” descoberto na Secretaria da Administração Penitenciária ainda vai dar muito pano para manga. O telefone grampeado era do Secretário Adjunto Clayton Alfredo Nunes, que saiu com o Secretário Nagashi Furukawa. O telefone grampeado servia para ligações privativas e para comunicação com a Secretaria de Segurança, de Saulo de Castro Abreu, inimigo de Nagashi.

Na transição para o novo Secretário, permaneceu o Delegado Oswaldo Arcas Filho com a linha  do ex-adjunto; e Nagashi foi substituído pelo procurador Antonio Ferreira Pinto, ligado a Saulo, que divulgou o “grampo” e atribuiu  à disputa entre as duas Secretarias. Supõe-se que a vítima seja aquele que teve o telefone grampeado. Mas não foi o que ocorreu.

Já na nova gestão, o delegado Arcas pediu uma varredura nos telefones de sua sala, que eram utilizados por Clayton. Descobriu que um deles estava grampeado. Em vez de investigar a outra ponta, para saber onde o grampo iria dar, ordenou ao técnico que inutilizasse o aparelho, matando qualquer possibilidade de investigação.

Em seguida, o ex-dono do telefone grampeado foi apontado pelo Secretário de Segurança Saulo Abreu como autor do auto-grampo, antes mesmo da conclusão do inquérito policial.

O governador Cláudio Lembo não tem como afastar mais dele esse cálice. Ao acusar um funcionário público pelo “grampo” Saulo revelou um crime de Estado: do acusado, se ele tiver provas; dele próprio, se sua acusação não foi baseada em fatos e evidências.


Escrito por Luis Nassif às 18h10

O Opportunity e o PT

Quem julgava que o PT tinha entrado em divórcio litigioso com o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, poderá conferir que o casamento continua em bom estado.

A Codesp (Companhia Docas do Estado de São Paulo) está prestes a conceder à companhia Santos-Brasil, de Daniel Dantas, 100 mil m2 de área no porto, de graça, depois de ter passado 200 mil m2 em meados de 2003.

Assim como no governo passado, a Codesp é um condomínio de indicações políticas. O presidente atual José Carlos de Mello Rego foi colocado por Waldemar Costa Neto; o Diretor Comercial Fabrício Piero Domenico por Telma de Souza; o retor de Engenharia Arnaldo Barreto, pelo deputado Vicente Cascione e Mauro Marques indicado por Paulo Frateschi, presidente PT SP.

O agente da doação é o Diretor Comercial.


Escrito por Luis Nassif às 17h50

O pai do "choque de gestão"

Candidato a vice-governador de Minas Gerais, na chapa de Aécio Neves, o Secretário de Planejamento Antonio Anastásia é o grande implementador do “choque de gestão” de Minas Gerais.

No momento, Minas tenta definir algo inédito em termos de gestão pública: avaliação individual dos funcionários. É desafio para gestor nenhum botar defeito porque, ao contrário do setor privado, a avaliação não poderá se dar em torno do que o trabalho individual agrega ao lucro da empresa.


Escrito por Luis Nassif às 16h46

A CTEEP e as aposentadorias

A privatização do setor elétrico paulista foi coordenada pelo então vice-governador Geraldo Alckmin e pelo atual presidente da Eletropaulo, Eduardo Bernini. A idéia, na época, foi tirar os passivos das empresas privatizadas e transferir para as remanescentes.

O correto seria dirimir todas as pendências antecipadamente, para impedir perda de valor. No caso da CTEEP (Transmissora Paulista), além da pendência com a Eletrobrás (em torno de dívidas que presumivelmente seria da Eletropaulo), há um passivo potencial de R$ 1,5 bilhão, referente a compromissos com aposentadorias. O cálculo é em cima do valor presente dos fluxos de aposentadorias a serem bancados pela empresa.

Esses dois fatores é que espantaram os investidores no último leilão.

Apesar do Secretário de Planejamento de São Paulo garantir que a ação da Eletropaulo (tentando passar para a CTEEP dívidas junto à Eletropaulo) não traz risco nenhum, um dos grandes candidatos ao leilão consultou três grandes escritórios de advocacia. Opinião unânime: é caso perdido, a dívida terá que ser assumida pela CTEEP. Lembre-se que o beneficiário dessa ação –a Eletropaulo—é dirigida por Eduardo Bernini, que foi o responsável pela modelagem do setor elétrico paulista. 


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h43

A Embraer e o novo Boeing

O sonho da Embraer de, em breve, passar a disputar mercado com os grandes players – Boeing e Airbus – esbarra em um paredão que vem pela frente. O novo modelo da Boeing, o 787, é um “arrasa-quarteirão”, com um conjunto inédito de inovações em todas as etapas.

A Embraer terá que aumentar substancialmente seus investimentos em pesquisa, se quiser continuar no páreo.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h40

05/07/2006

A Musa de São João

Em janeiro, Leilah Assumpção me liga para informar o falecimento de Lúcia Azevedo Costa. Vocês não imaginam quem foi ela. Morreu aos 90 anos em Mococa, para onde se mudou há dez anos, para morar com uma irmã. Voltou para ser enterrada em São João da Boa Vista.

Nos anos 30 a 60 não houve mulher mais cobiçada em São João, Poços, São Paulo e arredores. Quem me falou pela primeira vez dela foi o banqueiro Walther Moreira Salles. No auge do seu poder, um dos homens mais influentes do país, Francisco Campos, o Chico Ciência, pai da “Polaca” (a Constituição do Estado Novo) veio a Poços de Caldas a passeio. Rodando pela cidade conheceu Lúcia. Enlouqueceu. Imediatamente incumbiu seu chefe de gabinete, o jovem Aloysio Salles, de ir a São João com uma proposta irrecusável para Lúcia. Campos era casado com uma mulher com problemas mentais, não existia o divórcio no Brasil, mas ele assegurava que, se ela aceitasse casar com ele, promulgaria uma Lei do Divórcio. Qualquer outra mulher casaria até com um bode, para ser merecedora de tal demonstração de poder. Aloysio voltou com um sonoro NÃO na orelha.

-- Ninguém resistia à beleza da Lúcia, me dizia o embaixador Walther, completando o causo.

-- Nem o senhor?, provoquei.

-- Eu? Fiquei profundamente apaixonado, mas ela também não me quis.

Lembrava-se de Lúcia na minha adolescência em São João, nas rodadas musicais que fazíamos com as filhas e sobrinhas do Teófilo de Andrade. Ela já era uma senhora, bonita, atenciosa, mas já sem chamar a atenção. E eu sem sequer ter idéia da lenda que estava à minha frente.

Depois que o Dr. Walther me contou as maravilhas de Lúcia, fui atrás de minhas fontes poços caldenses para recolher mais histórias. Não existe melhor fonte que o professor Antonio Cândido. Que as poços caldenses não nos ouçam, mas o professor costumava dizer que as poços caldenses de seu tempo eram admiráveis, educadas, simpáticas, sabiam receber como ninguém. Mas a beleza das sanjoanenses era insuperável.

Em uma das conversas com ele, perguntei da deusa Lúcia. Ele me contou que, professor da Faculdade de Filosofia e Letras, certa vez foi entrevistar uma aula que se candidatava ao curso. Deu de cara com a Lúcia.

-- Para mim, foi uma revanche!, me contou o mestre.

Indaguei a razão, o que a deusa poderia ter cometido contra ele:

-- Me desprezou quando eu era adolescente!

Também o professor apaixonou-se perdidamente por ela, com um agravante: devia ser uns quatro anos mais novo.

Lúcia saiu de São João, fez Filosofia, Pedagogia, Psicologia. Escreveu um livro, o “Quem é Você”. Mas sua única paixão foi a Igreja e as obras sociais. Quando passou por São João Dom David Picão, um bispo revolucionário e bastante sedutor, tornou-se sua assistente quando foi transferido para Santos. Mas a sedução de Dom Picão foi para outras belas mulheres de São João. Para Lúcia, interessava apenas as obras sociais.

Trabalhou na Caetano de Campos e em inúmeras obras sociais e evangélicas vida afora.

Deixou uma multidão de fãs, de Plínio de Arruda Sampaio, cuja mulher Marieta era sua prima, ao prefeito de São Paulo José Serra.

Porque jamais se casou? Nos cursos que dava, Lucia deixava transparecer que casamento era responsabilidade muito grande. Cuidar do mundo, pelo visto, era tarefa mais leve.


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 21h08

Desafios da Saúde 2005 - 2006

A gestão da Saúde Pública em um país de dimensões continentais e com as características sociais do Brasil é complexa e demanda esforço de todos os governos. Mas o não cumprimento da lei por parte das últimas administrações federais compromete eventuais conquistas e prejudica o atendimento à população.

No trabalho intitulado “Desafios da Saúde 2005 & 2006”, o médico Gilson Carvalho reconhece os avanços do atual governo, como formação profissional, combate à corrupção, mais recursos para estados e municípios, entre outros, e aponta os principais erros cometidos pela gestão Lula que ferem a legislação:

  • Débito de cerca de R$ 2 bilhões da União com a saúde por descumprimento da Emenda Constitucional 29 (EC-29);
  • Programa Farmácia Popular fere a Constituição Federal, pois cobra por medicamentos que deveriam ser gratuitos;
  • Transferências financeiras para estados e municípios são feitas de forma ilegal.

O documento mostra que problemas encontrados em 2003 na gestão da saúde ainda permanecem sem solução e aponta as possíveis saídas legais para resolvê-los. Em entrevista ao Projeto Brasil, o médico sugere que as mudanças devem passar por cinco pontos básicos: Aumentar recursos, coibir a corrupção, mudar o modelo da saúde, buscar a eficiência nos gastos e transformar o País.

Veja mais detalhes no site do Projeto Brasil e envie sua contribuição para a Plataforma Aberta de Governo.


Escrito por Luis Nassif às 12h36

O grampo na Secretaria

Por Clayton Alfredo Nunes 

Você está certo neste artigo, na parte que se refere ao grampo na SAP. Manifestei, na CBN,indignação com a postura imprevidente do Secretário Saulo.

A matéria saiu no "ESTADÃO" de 2ª feira. Eu, Procurador do Estado, (ex)corregedor geral,  chefe de gabinete, diretor do departamento penitenciário nacional; secretário adjunto da SAP, fui acusado de mandante de eventual grampo. É um absurdo!

Pelo mesmo jornal tentei espaço para a resposta - foi diminuto. Obtive tempo suficiente na entrevista ao vivo para o Milton Jung - CBN, ontem. Na segunda-feira protocolizei pedido de providências junto ao Ministério Público. O Procurador Geral de Justiça já designou um Promotor para acompanhar o Inquérito Policial.

Estive ontem no 9º DP e obtive cópias do I.P. A acusação do egocêntrico e irresponsável Saulo será reparada mediante a representação, com base na Lei de Imprensa,que por mim será ajuizada no TJ/SP e ação por danos.


Escrito por Luis Nassif às 11h28

03/07/2006

Os móveis e o Brasil

Em resposta ao artigo “Os móveis e a China”, publicado na Folha de São Paulo, o leitor Idaulo J. Cunha enviou algumas considerações sobre o setor moveleiro no Brasil. Ele aponta que o país deveria ter superado em 2005 a casa dos US$ 1,2 bilhão em exportações de móveis, se tivesse mantido o crescimento das exportações obtido entre 2003 e 2004. Mas para isso deve resolver alguns desafios:

  • De um lado, o governo Federal trabalha contra a competitividade dos aglomerados e das empresas moveleiras exportadoras, sobretudo no curto e médio prazo com a adoção do dólar sub avaliado, o que compromete a manutenção dos mercados já conquistados e inviabiliza a expansão  no dinâmico mercado global;
  • De outro lado, como nossos aglomerados não conseguem quebrar o domínio das cadeias globais de distribuição de móveis, salvo em pequenos mercados de países em desenvolvimento, a acentuação no mercado global de móveis gera o que o leitor denominou de paradoxo da inserção internacional;
  • Destaque para os efeitos deletérios da atual forma de inserção dos aglomerados de móveis, considerados prejudiciais: 1. Exigência de abdicação, tanto da marca da empresa quanto do próprio design. Entre os impactos assinalam-se os que afetam a imagem da empresa e a sua capacidade de gerar inovações, mesmo que incrementais, para o aprimoramento da sua capacitação técnica;
  • Fraca competitividade em nível meso, como a decorrente da frágil malha de transportes multimodais.

Veja mais detalhes no site do Projeto Brasil


Escrito por Luis Nassif às 17h45

Câmbio e tarifas de importação

A discussão no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio) sobre redução tarifária dos produtos industriais dos países emergentes é extemporânea – pelo menos em relação ao Brasil. Só a apreciação cambial dos últimos anos praticamente tornou negativas todas as tarifas de importação praticadas antes da valorização.

Com o dólar a R$ 2,90 e uma tarifa de importação de 35%, um produto que custasse US$ 1.000,00 sairia, aqui, por R$ 3.915,00. Se a tarifa caísse para 25%, o preço cairia para R$ 3.625,00 – redução de 7%.

Com o dólar a R$ 2,10, o mesmo produto sairá a R$ 2.625,00, uma redução de 33%. Se não se mexesse no dólar, mas apenas na tarifa de importação, significaria substituir a alíquota de 35% por uma de -2%.

Se a tarifa de importação fosse cair de 25% para 10%, só a mudança do câmbio significaria uma tarifa negativa de 9% no período.

Reduzir tarifas sem corrigir o câmbio é suicídio.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 12h55

Desdobramentos do caso Varig

Sob a ótica da Nova Lei de Falências (11.101, de 2005), o caso Varig apresenta inúmeros desdobramentos. As conseqüências aos acionistas e até que ponto vale a pena investir nas ações da companhia em um momento de tantas incertezas, apesar das altas significativas registradas nos últimos dias, são os principais pontos geradores de dúvidas. De que lado, por exemplo, ficariam as ações se a empresa for desmembrada em duas, uma livre de dívidas e outra herdeira dos ativos trabalhistas, tributários e previdenciários? Quais os prejuízos aos detentores de ações preferenciais caso fiquem do lado considerado “podre”?

As respostas, juridicamente falando, dependem da circunstância analisada: em caso de recuperação judicial – atual estágio em que a empresa se encontra –, recuperação extrajudicial ou falência. De acordo com a lei, na ordem de quitação de débitos, os acionistas sequer aparecem, o que na prática, significa que são os últimos a serem pagos. Eles amargam o prejuízo da aposta perdida, mas não arcam com os custos da falência. Em caso de cisão, aqueles que se sentirem prejudicados com a decisão e venda da Varig podem ingressar com medidas judiciais para terem os seus direitos garantidos. O próprio artigo 50 da lei prevê que a divisão só é válida se respeitados os direitos dos sócios.

Leia mais no site da Agência Dinheiro Vivo


Escrito por Luis Nassif às 10h32

02/07/2006

A "inteligência policial"

Há duas informações preciosas na reportagem de Marcelo Godoy, no “Estadão” (clique aqui) de domingo, com o novo Secretário de Administração Penitenciária Antonio Ferreira Pinto.

A primeira, a de que encontrou um “grampo” na Secretaria de Administração Penitenciária, e que a maior probabilidade é que seja fruto das disputas com a Secretaria de Segurança. Note-se que o novo Secretário é aliado de Saulo Abreu, o Secretário de Segurança e, segundo o repórter, passou a infoirmação sem sequer se dar conta dda gravidade do que estava dizendo.

O governador Cláudio Lembo certamente pedirá que afastem dele esse cálice. Mas, se confirmado, como ignorar crime dessa gravidade, de uma autoridade estadual contra outra?

A segunda informação é a de que o novo Secretário pretende restabelecer o “princípio da autoridade” nos presídios, a maneira mais rápida de restabelecer a panela de pressão. Assim como o massacre dos 13 integrantes do PCC em São Bernardo, passa a falsa impressão de eficiência, atende aos anseios de vingança. Como estratégia de combate ao crime organizado, é ineficaz. Mostra apenas que a polícia tem autorização para matar: o que não a faz mais eficiente; apenas, tão selvagem quanto os criminosos.


Por essas e outras, há quem questione o termo “inteligência policial” para qualificar as ações que vêm sendo tomadas contra o crime organizado.

Recebo e-mail de leitor chamando a atenção para a página 17 do “Globo” de 14 de junho passado. Para investigar uma quadrilha de motoqueiros, a própria polícia informa que “podem ser usados policiais disfarçados de motoboys no meio dos bandidos”. Dizem isso em jornal de grande circulação, isto é, avisam os bandidos como eles serão espionados.

No dia seguinte à chacina dos 13 supostos membros do PCC em São Bernardo, o “Globo” informava –com base em fontes da própria polícia— que as ações foram possíveis pela delação de presos que são oposição ao PCC nos presídios”. Só faltou o nome, a alcunha e o RG.  Para todos os efeitos decretou sentença de morte para todos aqueles de quem o PCC desconfiar.

Como falar em inteligência policial se se divulgam táticas, ações de infiltração, quem delata, modus operandi da investigação, isto todo o dia nos jornais? Parece que o objetivo é mostrar à população o serviço que a policia vai fazer, e não alcançar resultados.

Lembra o Serviço Secreto português das piadas, onde os agentes usam uniforme.


Escrito por Luis Nassif às 23h31

Quando Zidane era nosso

Do leitor Alexandre Lemos

Lembranças são versões. Seguem as minhas.

1966 - Era criança. Lembro de ouvir pelo rádio jogos transmitidos em inglês, ao lado de meu avô paterno. Ele fez todos os seus estudos na Inglaterra, ficou feliz com a vitória deles.

1974 - Jogador por jogador, tínhamos os melhores defensores e meio-campistas daquela Copa. Não fomos tetra na Alemanha por uma ironia do destino: o país que mais fabricou artilheiros não tinha ataque !!! Jairzinho ficara velho, Edu estava gordo, Leivinha machucado, Zico e Dinamite eram jovens demais pra serem convocados e Pelé e Tostão tinham abandonado o futebol. Mesmo assim jogamos com coragem, sempre ofensivos, ao contrário do que se disse na imprensa daqueles tempos. Em tempo: aquele time não tinha sequer um cabeça-de-área, o meio-campo era toque de bola puro.

1978 - Uma seleção treinada por um oportunista, que virou técnico às custas da ditadura militar. Um pseudo-estudioso, que inventou o Edinho como lateral esquerdo, o Toninho como ponta direita e deixou de levar o Falcão pra convocar o Chicão, um dos brucutus de mais triste memória do futebol brasileiro. Nada funcionou, Zico e Reinaldo fracassaram, Rivelino se machucou logo de início e ainda fomos roubados. Uma Copa pra se esquecer.

1982 - A história brasileira está cheia de "roques santeiros" , cheia "daqueles que foram sem nunca terem sido" . Um bom exemplo, no âmbito esportivo, foi o Telê Santana. Técnico de sofrível capacidade tática, é exaltado por ter sido defensor do futebol sem violência, mas preferia o Vitor ao Andrade, e foi campeão pelo São Paulo escalando botinudos como Dinho e Ronaldão. Na Espanha, "distribuiu camisas" em vez de montar um time. No jogo em que ser bom de bola não bastava, nos fez falta o esquema de jogo que Telê jamais deu àquele time. Perdemos a copa apesar de termos, disparado, os melhores jogadores. O grande culpado: Telê Roque Santeiro Santana.

1986 - Craques envelhecidos treinados pelo mesmo Telê. Perdemos nos pênaltis pro time do Platini. Mas nosso time não venceria aquela Copa mesmo que tivesse passado pela França, não teríamos passado por Maradona.

1990 - Um time ruim, um técnico pior ainda e, paradoxalmente, a desclassificação mais injusta da nossa história. Jogamos infinitamente melhor que a Argentina, mas não fizemos o gol. Talvez tenha sido o presságio dos tempos sombrios de mau futebol da era Dunga.

1998 - Um acidente, nada mais. Dois gols de escanteio, numa final de Copa do Mundo ? Só mesmo em Paris, a terra do "exotique" ...

2006 - Jogamos mal sempre, mesmo quando jogamos bem. Contra a França, uma apatia de dopados, impotentes. Mas fica o consolo de podermos assistir ainda a mais dois jogos do Zidane. Aliás, sinto muita falta do tempo em que os "zidanes" jogavam no nosso time."


Escrito por Luis Nassif às 22h09

As derrotas na Copa

do leitor Bento Bravo

Acompanho futebol, e Copas do mundo, desde 1958. Já ví o Brasil ganhar bem, ganhar mal, perder bem, perder mal mas, uma derrota como a de ontem, foi uma novidade para quem pensava já ter vivido todas as emoções no futebol.

Saí de São Paulo por volta de 14 horas para assistir o jogo em Campinas, na casa do Rodrigo, meu filho, que insistiu para que acompanhássemos mais uma vitória da nossa seleção juntos; uma Copa do mundo, para os brasileiros, é equivalente ao Natal ou o Thanks Giving para os americanos, é um evento que confraterniza a família. A idéia era sairmos para comer uma pizza após o jogo para comemorar.

Acho importante ressaltar que, a exemplo de Pelé, eu também estava com um mau presságio para este jogo. A França era a primeira seleção de verdade que iríamos enfrentar nesta Copa e vinha de um excelente jogo contra a Espanha que era uma das surpresas da Copa. Começa o jogo, a França se retrai e observa e, a partir dos 10 minutos o que se vê é uma partida de Copa envolvendo o Brasil que, certamente, entrará para a história pelo bizarro da situação.

Como mencionei no início pensava já ter visto de tudo no futebol. Com relação às desclassificações brasileiras em Copas anteriores tenho ainda frescas na memória meus sentimentos que divido com vocês:

1966 - Decepção. Vínhamos do bi-campeonato, uma seleção confusa, veteranos e novatos, a derrota para Portugal apenas confirmou o que todos desconfiavam, não era uma Copa para não-europeus. Garrincha em final de carreira, Pelé machucado e caçado, enfim, quem conhece futebol não poderia esperar muito mais do que foi feito.

1974 - Conformismo. Após o sucesso de 1970, chegamos à mesma Alemanha com uma certa empáfia, o mesmo Zagallo como técnico, que, me lembro bem, antes do jogo contra a Holanda, perguntado se tinha visto o time deles jogar, disse que eles é que deveriam se preocupar conosco. Deu no que deu, mas, mesmo inferior tecnicamente, fomos derrotados lutando.

1978 - Revolta. Após um começo caótico (lembram? Tiveram que chamar o Roberto Dinamite para nos classificar) a seleção foi se ajustando, quase bate a Argentina na casa deles e teve que se contentar com o 3o lugar graças a um critério duvidoso de saldo de gols (jogos em horários diferentes) que favoreceu os donos da casa.

1982 - Frustração. A mais triste e sentida das desclassificações porque o time era ótimo e merecia ter tido melhor sorte.

1986 - Raiva. Desclassificados pela mesma França, que não tinha Zidane mas tinha Platini, nos pênaltis em um jogo que poderia ter sido decidido no tempo normal se Zico não tivesse perdido aquele pênalti.

1990 - Tristeza. Desclassificados pela Argentina num jogo em que fomos melhor o tempo todo apesar daquela Seleção não ter, efetivamente, um elenco que pudesse impressionar.

1998 - Orgulho. Perdeu a final para os donos da casa num jogo anormal. Mas perder uma final é do jogo.

E chegamos à desclassificação de ontem.

Confesso que nunca em minha vida tive uma reação tão estranha como quando o juiz apitou o final do jogo. Não senti raiva, não senti tristeza, não fiquei puto. Nada. Nem frustração. Na verdade o time do Brasil não nos permitiu sequer torcer. Fiquei anestesiado no sofá, sem reação, sem emoção, apenas observando o inacreditável, ou seja, uma seleção, com os melhores jogadores do mundo, sem vida, sem vontade e sequer com lampejos de que em algum momento poderia entrar no jogo.  

Ao final, continuamos todos sentados, vendo e ouvindo os comentários tradicionais, as explicações de praxe, ninguém alterado, triste, revoltado, nada. Acho que o Parreira, e os nossos jogadores, são táo geniais que ontem inovaram de uma maneira que só o futebol brasileiro consegue. Eles inventaram a derrota perfeita. Aquela que não tem explicação, não gera emoções e que, de tão brochante, tira até a vontade de protestar.

Até a próxima Copa, guys.

PS 1 - Ah, esqueci de mencionar que cancelamos a pizza...

PS 2 - É bom esclarecer também que não tomo Lexotan e nenhuma outra marca de tranquilizante...

Escrito por Luis Nassif às 18h06

A Copa e a Economia

Um fracasso em Copa do Mundo suscita muitos comentários, muitas interpretações. Não se trata de uma mera competição esportiva.  A Copa do Mundo tem influência marcante sobre o imaginário nacional, sobre a auto-estima.

Grosso modo, há dois tipos de interpretação sobre a falta de garra dos jogadores, algumas no plano esportivo, outras no plano psicossocial.

No plano psicossocial, as explicações abordam o excessivo mercantilismo dos jogadores, sua formação supra-nacional, uma certa perda da identidade nacional, o que os levaria a tratar um jogo de Seleção da mesma maneira que um jogo de seu clube. É uma possibilidade sim. A cena de Roberto Carlos arrumando a meia, na hora do gol da França, é de um simbolismo atroz.

No plano tático-administrativo, vejo no fracasso da Seleção vícios de Carlos Alberto Parreira muito presentes no campo político e administrativo brasileiro. Há semelhanças claras entre Parreira e o comando da política econômica –embora não haja nenhuma relação de causalidade entre os dois.

A Seleção de 1994, com menos estrelas, era um primor de arrumação tática. Raramente os adversários chegavam ao gol. Porque a de 2006, com tantas estrelas, não conseguiu se encontrar em campo, se o mesmo Parreira treinava as duas?

A primeira característica comum em Parreira, e em sucessivas equipes econômicas, é a incapacidade de adaptar seus princípios táticos ao mundo real. Ambos montam sua tática e não tem flexibilidade suficiente para adaptá-la a cada circunstância. É como se a tática fosse a chamada invariável da equação. Às vezes dá certo, às vezes não.

A segunda, prima-irmã da primeira, é o predomínio da inércia, o receio de correr o risco da inovação. Ficou evidente para todos, desde o início, que muitos dos jogadores consagrados já não tinham muito a contribuir para a Seleção, pelo peso da idade, pelo desinteresse de quem está em final de carreira. Cafu e Roberto Carlos são exemplos evidentes, desde o primeiro jogo.

Periodicamente, treinadores e gestores são submetidos ao desafio da renovação, mas tremem na hora da decisão; do mesmo modo que gestores de política econômica, quando percebem o esgotamento de determinada política, mas não querem correr o risco de mudá-la, mesmo sabendo que a mudança será inevitável em um ponto qualquer do futuro. Empurram com a barriga e passam a responsabilidade para os sucessores. É por isso que, em ambos os casos, a mudança só vem depois do desastre consumado.

A lógica é a mesma nos dois casos. Se não der certo com o convencional, o risco de crítica é menor do que se falhar com a mudança. Nesse caso, ele seria crucificado pelo experimentalismo. Alguma diferença com a tática de redução gradativa de juros adotada pelo Banco Central?

A terceira característica é a incapacidade de estimular o “espírito animal” –no caso da política econômica, dos empresários em empreender; no caso de Parreira, dos jogadores em jogar. Todo o intervalo de jogo vale para os ajustes táticos e para uma lufada de auto-confiança nos jogadores. Provavelmente (isto os especialistas poderão dizer melhor), Felipão tem menos conhecimento de tática de jogo que Parreira. Mas sabe injetar sangue na veia de seus jogadores.

A quarta característica é a ausência do “agente político” na Seleção, o líder -- técnico ou jogador-- capaz de levantar a bandeira e tirar os jogadores do marasmo. Foi o que Didi fez em 1958, o que Gerson e Pelé fizeram em 1970 e o que Dunga fez em 1994. E o que Zidane fez maravilhosamente no jogo contra o Brasil.

Parreira-Zagallo não diferem muito do espírito burocrático de FHC-Lula. A crise que se encarregue de providenciar as mudanças.


Escrito por Luis Nassif às 15h19

Copa do Mundo - 2

Do leitor André Araújo

A derrota do Brasil, como todas as derrotas, traz algumas lições. O mercantilismo excessivo destruiu os últimos sinais de jogo pela camisa e a Seleção perdeu a identidade nacional afogada no mar de grifes e interesses que exploram até o ultimo limie o futebol mundial e especialmente o futebol brasileiro. Naquele time já ninguém mais joga pelo Brasil enquanto sentir coletivo nacional.

As transferências de jogadores para o exterior acabam por esgarçar os laços patrióticos que se presumem representados pela cor da camisa. A formação de uma seleção de jogadores que moram e ganham no exterior levou à um time onde falta o cimento que une o grupo em torno de um objetivo comum, a pátria agora já longínqua.

Todos estão preocupados com seus contratos publicitários, negócios, contas e clubes. Essa seleção foi uma síntese desse mercado persa em que se transformou o futebol brasileiro.

Em cima dessa matéria prima falsa cavalgou uma mídia alucinada pelo faturamento que a Copa poderia representar, com exageros de todo tipo, apontados pela imprensa europia, principalmente a britânica.

Financiando a mídia um excesso de publicidade concentrada no futebol, como se esse fosse o único tema de um País importante. Uma publicidade cansativa, monotrilho, abusada e sem equilíbrio, minerando até o ultimo veio esse futebol já descaracterizado pela mercantilização.

O que se viu no campo foi um time apático, frio, sem nenhuma vibração, retrato final e acabado dessa teia de interesses  de empresários, publicitários, negociantes de jogadores, cartolas, refletindo a mesma vibração emocional que uma acompanhante de boate tem ao encontrar um freguês da noite.

Como no Retrato de Dorian Grey, certos traços fundos de comportamento se refletem no físico e ao se transformarem em máquinas de ganhar dinheiro nossos atletas perdem alguma coisa, aquilo que o povo mais simples chama de raça ou amor à camisa.

Pode-se contestar dizendo quem outros países se dá o mesmo. Temo todavia que a escala no Brasil é maior, tanto do mercantilismo, como dos exageros da mídia, como da importância do futebol para o povo.

Das lições a aprender talvez a de ter na seleção mais jogadores radicados no Brasil ao invés dos canelas de vidro que faturam em euros e que não vão arriscar muito pela Seleção do País que ficou para trás.


Escrito por Luis Nassif às 02h31

Copa do Mundo - 1

Do leitor Josiano Gomes Chaves

Eu acredito que como a maioria dos brasileiros, fiquei indignado com a derrota do Brasil pela França, não que ela fosse injusta, uma vez que eles jogaram muito melhor do que nós, mas pelo fato de termos o melhor time, se bem que uma boa parte dele estava no banco, e não saber armar a estratégia adequada, não saber usar as opções que temos.

Eu fiquei imaginando se isto não seria também um problema crônico do Brasil. Até hoje eu não consigo entender como conseguimos ser tão medíocres em gerar oportunidades para os nossos concidadãos, em fazer a economia crescer, com todos os recursos naturais que temos, temos grupos de pesquisa razoavelmente capacitados em várias áreas, não temos guerra, não temos inimigos. Nós somos excessivamente emocionais, temos governos que sobrevivem mais de marketing político do que de ações concretas, de resultados (todos eles PT, PSDB, e tantos outros P's que habitam a ceara partidária brasileira). Eles não possuem planos concretos, portanto, lhes carece também rumo, além de governança e governabilidade na maioria das vezes.

É duro assistir a campanhas políticas de uma forma geral, mas especialmente quando elas se resumem a de um lado ter um presidente candidato com auto elogios e inauguração (agora só visitas) de obras inacabadas e de outro, ver como estratégia do principal oponente chamar o presidente candidato de cínico, de mentiroso, sem apresentar nenhuma proposta concreta, simplesmente sem comentários. Nossos empresários e a sociedade de uma forma geral ficam esperando que o governo/governante façam alguma coisa para sanar o mal de todo dia que nos aflige e com isso se tornam reféns do estado, que por sua vez joga na lata de lixo mais de 70% da capacidade intelectual do país, considerando que este é o percentual de pessoas que não atingem o grau de educação adequado para explorar as suas potencialidades.

Como você já escreveu estamos com a oportunidade dos biocombustíveis batendo a nossa porta, mas nenhuma estratégia decente para utilizá-la além mar. O que nos falta? Visão? Maestro? Disciplina? Cidadania? Ou uma mistura de tudo isto.

 Acredito que uma frase que se aplica perfeitamente ao nosso país no momento é a frase título deste email.

 "Quem não cresce, diminui enquanto os outros crescem" - Fitche.

 Na realidade eu só queria, pelo ao menos tentar, te contagiar um pouco com a minha indignação e quem sabe escrever um pouco sobre isto. Pois de toda a mídia, te acho um dos articulistas mais consistente e contundente.

Eu sou farmacêutico, atuo na área de planejamento, gestão e análise de mercado e leitor assíduo da sua coluna, que freqüentemente repasso à várias pessoas, sendo que duas delas inclusive já encaminharam trabalho recente para o Projeto Brasil por seu intermédio, Marina Lima e Luiz Marinho.


Escrito por Luis Nassif às 02h29