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15/07/2006

As mil histórias da Modinha

Prezado Luís Nassif,

Escrevo-lhe esta carta porque, ao contrário do que suas colunas supõem, as músicas não têm histórias únicas, lineares, enfeixadas em si mesmas. A riqueza da música consiste em que há uma história em cada interação, em cada vida pessoal, em cada paixão perdida, em cada saudade evocada, que tinha uma música para eternizar o momento.

Alguns anos atrás, você escreveu que considerava “Modinha”, de Tom e Vinícius, a música mais bela já escrita por Tom, e uma das mais belas da história. Se fosse contar a história da música, do modo tradicional, diria que ela foi composta nos anos 50, gravada por Elizeth Cardoso e Lenita Bruno, primeiro, por Elis Regina, depois. Poderia lembrar – como já o fez — do arranjo extraordinário de Léo Peracchi para o LP de sua esposa Lenita. Ou de Claus Ogerman, para o disco “Terra Brasilis”. E falar ainda da peça “Orfeu da Conceição”, em que os talentos de Tom e Vinícius explodiram de forma tão candente. Poderia lembrar da interpretação magistral do violão de Raphael Rabello, em 1986.

Se quisesse situá-la em contextos musicais, lembraria dos inspiradíssimos compositores que você vive citando e que, sob a paternidade absoluta de Villa-Lobos, aportaram de vários cantos do país ao Rio de Janeiro dos anos 30, 40, início dos 50, e criaram a canção brasileira, da qual Jobim foi o último representante.

Mas a “Modinha” é mais que isso: são milhares de histórias de amor, das quais a minha é apenas mais uma que certamente “Modinha” inspirou, mas que morrerão com os milhares de amantes escrupulosos, ou egoístas, que levarão só consigo sua história de amor.

A história começa na cidade do interior, onde nasci, com um amor de fim de adolescência, que se tornou impossível pelas armadilhas que nossas jovens cabeças politizadas nos armavam. Namorei, terminei em pouco tempo e curti minha dor-de-cotovelo ouvindo a “Modinha”, de Tom e Vinícius, na voz de Lenita Bruno. Depois, foram vinte anos carregando os fantasmas do tempo, e carregando à maneira dos poetas românticos do século 19, cumprindo o ritual dolorido de, uma vez por ano, na data em que os conterrâneos espalhados por todo o país combinavam o encontro no berço natal, cruzar com a musa, olhá-la uma vez, ela retribuir o olhar, e eu voltar para a contemporaneidade da faina desumana da grande metrópole onde me fixei.

Foram vinte anos entremeados de noites solitárias, em que abria a janela do apartamento, olhava a noite impessoal da grande cidade, e colocava “Modinha” ora no vitrolão, depois, no aparelho de CD. Apenas a tecnologia ia sinalizando a mudança das eras e dos tempos, porque a noite continuava fria e intemporal.

Vinte anos depois, em um momento de desatino, procurei a moça, agora mãe de família, um retrato na parede, apenas um retrato, mas que eu precisava exorcizar. Fui para sua cidade, também no interior, tivemos a última conversa. Ela falou das suas mágoas, eu falei das minhas, até que acordamos do sonho e nos demos conta que era uma fantasia, dolorida, porém fantasia. Voltei de sua cidade para uma casa de praia, ouvindo na fita cassete a voz sofrida de Elis Regina, fazendo da “Modinha” o seu réquiem pessoal. Durante quatro dias ouvi aquela fita obsessivamente, como quem crava um punhal na ferida. Depois de quatro dias, apazigüei.

Com a idade, os fantasmas do tempo vão se diluindo, as cicatrizes vão se fechando e cria-se um vazio no lugar da antiga ferida. E eis que, do nada, ou das brumas das novas tecnologias de comunicação, surge uma nova musa. E, conversa vai, conversa vem, fico sabendo que ela morava a dez metros do local onde se deu a conversa derradeira, que enterrou meus fantasmas do passado.

Hoje estamos juntos, temos filhos, criamos uma nova história, com novas músicas e novas emoções. “Modinha” não entra mais na história porque –e ninguém é perfeito— minha nova musa não aprecia a música, talvez por ciúmes da velha história.

Desculpe se fui prolixo ou o aborreci com minha história de amor. Mas foi apenas para enfatizar o que explicitei no início dessa carta. A minha “Modinha” certamente é diferente da sua “Modinha”.

De seu leitor.


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 20h29

14/07/2006

Um Músico Extraordinário

Waltel Branco é o derradeiro integrante de uma seleção brasileira de maestros, contratados da Rede Globo, que tinha em Radamés Gnatalli o Pelé. Quando se decidir a divulgar Waltel, é possível que se descubra um dos mais célebres músicos anônimos do país.

Waltel nasceu em Paranaguá em 22 de novembro de 1929. Seu primeiro professor foi o pai Ismael Helmuth Scholtz Branco, saxofonista e clarinetista. Quando o conheci, me passou a nítida impressão de ser mulato. Na foto do livro, parece mulato. Mas é neto de alemães legítimos.

Uma gravação com o acordeonista italiano Cláudio Todisco, nos estúdios da Odeon, permitiu-lhe conhecer o maestro Radamés Gnatalli. Não levou muito tempo para ser convocado para tocar com o mestre. Depois, passou a ter aulas de regência com dois outros maestros históricos, Alceu Bocchino e Mário Tavares. Conseguiu ser o maestro que ensaiou a orquestra nos concertos de Stranvinsky no Rio de Janeiro.

Aos 20 anos, rumou para Illinois, EUA, atrás de aulas com o guitarrista Sal Salvador, que tocava com Nat King Cole. Dava aulas de violão clássico para sustentar o aprendizado de jazz. Chegou a tocar em um trio com Nat King Cole, além de ter produzido o disco de seu irmão Fred Cole e, mais tarde, o de Natalie Cole, filha de Nat.

Depois, participou de um trio com o baterista Chico Hamilton. Nesse período, conheceu Peggy Lee, cantora que se casou com o maestro Quincy Jones. Waltel se casou com a irmã de Peggy, Lede Saint-Clair Branco, tornando-se, por força do casamento, co-cunhado de Quincy Jones. Com ele tocou muito jazz e música clássica e conheceu o maestro Henry Mancini.

Na época, Mancini promovera uma revolução nos direitos autorais. Até então, os direitos eram todos dos estúdios. Quando sobreveio a crise dos estúdios, aceitou fazer trilhas sonoras para a nova produção, com a condição de ser o titular dos direitos. Estourou na primeira trilha, para o seriado de TV “Peter Gunn”. Ao lado de outros pioneiros, como o argentino Lallo Schiffrin, montou um escritório para atender à nova demanda. Assim que ouviu nosso Waltel tocar, contratou-o. E foi nessa condição que Waltel tornou-se o arranjador de uma das mais famosas trilhas sonoras da história do cinema, do filme "A Pantera Cor de Rosa”.

De volta ao Rio, Waltel pegou o início da bossa nova. Fez todos os arranjos do “Chega de Saudades”, de João Gilberto, seguindo o método peculiar do violonista. João Gilberto o chamava, mostrava a harmonia que desnvolvera ao violão, e Waltel a seguia para o arranjo, como se cada instrumento seguisse uma corda. Depois gravou dois discos solos, “Guitarra em Chamas 1 e 2”, tendo como acompanhador o violão de Baden Powell.

Em 1963, nos EUA, conheceu o jornalista Roberto Marinho, que o convidou a ser crítico musical do jornal “O Globo”.  Quando foi constituída a TV Globo, Waltel foi contratado, indo compor um time de primeiríssima, com Radamés, Guerra Peixe e Guio de Moraes. Compôs e dirigiu as trilhas sonoras, entre outras, de “O Bem Amado”, “Roque Santeiro” e “Morte e Vida Severina”.

Tempos depois, o chileno Zamacois, que ele conhecera em seus tempos no seminário de Curitiba, convidou-o a ir para a Espanha. Lá, estudou mais harmonia e técnicas de violão, venceu o concurso da Rádio Difusora Francesa e, como prêmio, ganhou uma bolsa para estudar com Andrés Segóvia, o maior violonista clássico do século. Fã de Segóvia, que tocava desde criança, Waltel se lembrava de peças das quais o próprio mestre se esquecera. Em vez de aulas, passou a tocar junto com Segovia. Depois, tornou-se músico do rei Juan Carlos Bourbon, com contrato para quatro apresentações por ano.

Tempos atrás, seu amigo Fidel Castro ficou chateado com o “Buena Vista Social Club” de Win Winders, por suas distorções musicais, e incumbiu o maestro Leo Brower (adido cultural da diplomacia cubana e o compositor para violão clássico mais prestigiado da atualidade) de providenciar uma nova versão, mais autêntica. Quem Brower convoca para a empreitada? Entre outros, Waltel Branco.

Em breve, estará em São Paulo para alguns shows. Prometeu-me trazer uma peça para bandolim (já tive a honra de tocar com ele anos atrás).

Algumas gravações suas podem ser encontradas no endereço http://www.buscamp3.com.br/artists_profile_homebr.asp?id=1579


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 20h34

O Exército e o PCC

Não há nada de mais inútil do que a proposta de intervenção do Exército na luta contra o PCC. Não se trata de luta aberta, de batalha campal. Trata-se um esquema de guerrilha, em que os membros da facção aparecem e submergem de acordo com as circunstâncias.

Se o Exército ocupasse as ruas da cidade, os bandidos simplesmente se recolheriam. Como o Exército não pode ficar indefinidamente, indo embora, os bandidos voltariam.

E, para não sair de mãos abanando, Exército e polícia radicalizariam as ações contra terceiros, colocando mais ainda em risco a população civil.


Escrito por Luis Nassif às 17h37

A educação de Rosinha

Nos sistemas de avaliação do Ministério da Educação (MEC), um dos resultados mais surpreendentes foi o programa Universidade Aberta implantado no Rio de Janeiro pela governadora Rosinha Garotinho.

O modelo integra as universidades federais com os professores da rede básica, oferecendo cursos de graduação para quem não tem diploma e cursos de extensão para os diplomados. O modelo está sendo estendido para todo o país.

Também se saíram muito bem nas avaliações Minas Gerais (que já tem tradição de bom ensino público), Paraná. As melhores surpresas foram Espírito Santos e Mato Grosso do Sul, que ficaram à frente de São Paulo nos testes – apesar de São Paulo ter o segundo índice per capita de gasto.

Ainda não se sabe direito qual foi o modelo aplicado no Espírito Santo e no Mato Grosso do Sul, mas já foram encomendados trabalhos para entender o processo.


Escrito por Luis Nassif às 17h26

Download de livros

Há um site precioso, público, e que está prestes a ser desativado por falta de audiência. Trata-se do www.dominiopublico.gov.br/ que possui um enorme acervo de obras em PDF. Aproveite antes que acabe.


Escrito por Luis Nassif às 15h53

13/07/2006

A democracia e o contraditório

Andei liberando algumas mensagens com ofensas contra o PT e o PSDB, para dar idéia do clima de exacerbação que toma conta de parte da opinião pública em períodos eleitorais.

Nos últimos tempos, uma campanha radicalizada da mídia rachou o país em dois – e nenhuma das faces da moeda é agradável. É evidente que nem tudo o que o governo Lula fez é ruim; como nem tudo que o governo FHC fez é descartável. Há avanços em cada governo e há retrocessos. O que de pior pode acontecer com a análise é embarcar no maquineismo do branco-preto, de achar que se está do lado justo e na outra ponta existem “quadrilheiros”, como fazem alguns dos comentaristas do blog.

O governo FHC avançou no enquadramento fiscal dos estados, na Lei de Responsabilidade Fiscal, na profissionalização do serviço público, na montagem das agências reguladoras, no início de uma nova natureza de políticas sociais, no início do processo de inovação, na política de saúde. E fracassou ao interromper a reforma administrativa, ao permitir a formação de uma dívida interna sufocante, ao não dispor de um projeto adequado de país, ao não cuidar da infra-estrutura e do desenvolvimento.

O governo Lula avançou ao aprofundar as políticas sociais, ao preservar parte do sistema de inovação, ao avançar substancialmente na busca do mercado externo, ao implantar uma liderança diplomática brasileira entre os países emergentes. E fracassou rotundamente ao permitir o aparelhamento da máquina pública, ao desmontar o sistema de agências reguladoras, ao retroceder na questão administrativa, ao aumentar substancialmente a dívida pública, não cuidar da infra-estrutura e do desenvolvimento.

A rigor, os dois têm méritos e defeitos. Mas nenhum dos dois dispõe da qualidade essencial do estadista: a vontade de mudar o país, de abrir novos caminhos, de despertar o sentimento de desenvolvimento.

Ambos foram extremamente pragmáticos em assegurar a governabilidade, em um país difícil de governar. Mas não colocaram a governabilidade a serviço de um projeto de nação.

Por isso, nada mais igual do que FHC e Lula no poder; e nada mais igual do que o PT e o PSDB na oposição.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 23h54

O nó górdio da especulação

É ingenuidade acreditar que um segundo governo Lula mudará de alguma maneira a política econômica.

Apesar de discussões sobre políticas estratégicas no âmbito do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e do Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE), a lógica de Lula é a da mera sobrevivência política. E ela passa, de um lado, por concessões menores aos movimentos sociais – como essa tentativa de criar cotas raciais, abrindo espaço para conflitos sérios --, e por concessões maiores aos capitais especulativos.

Assim como no governo FHC, o país fica vivendo de expectativas sucessivas. A cada ano de crescimento razoável segue-se outro de crescimento sofrível. Quando termina o ano sofrível acena-se com o próximo, razoável. E o país não sai do lugar.

A rotina é conhecida:

1. O país sai de uma crise cambial séria. O câmbio se desvaloriza e pressiona a inflação.

2. No momento seguinte, o Banco Central eleva radicalmente os juros.  A desvalorização cambial começa a surtir efeito nas exportações, resolvendo o a questão externa. Os juros altos atraem capitais especulativos, valorizando o real.

3. Como resultado da valorização, de um lado há menor pressão sobre os preços; de outro, se prepara a economia para voltar a ficar vulnerável a choques externos. Os juros começam a cair com a queda da inflação

4. Ao primeiro sinal de choque externo, os capitais especulativos saem do país, provocando nova desvalorização cambial. A desvalorização pressiona a inflação. O BC é obrigado novamente a aumentar os juros, voltando à mesma ciranda anterior.

Enquanto não houver controles razoáveis sobre esse capital-gafanhoto, o país continuará patinando. E Lula do segundo governo será o Lula do primeiro governo, mais fraco ainda por conta da redução da bancada do PT. E mais vulnerável ainda à ortodoxia do BC.

Seja qual for o resultado das eleições, o país precisará esperar quatro anos para encontrar o presidente que se disponha a romper esse nó górdio.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 23h39

A Codesp e o porto de Santos

Encontro o deputado federal Vicente Cascione no aeroporto de Brasília. Cascione foi o responsável pela indicação de um dos diretores da Codesp, a companhia estatal que administra o porto de Santos.

Explica que escolheu um funcionário de carreira, de ficha irrepreensível e que, no último ano, ajudou a desmontar duas operações potencialmente danosas aos cofres públicos:

1.      A Libra, que tem um terminal no porto, ganhou a licitação oferecendo um valor altíssimo por metro quadrado de terreno, e uma projeção irreal de movimentação de carga. Quando as projeções falharam, recusou-se a continuar pagando a Codesp, preferindo depositar em juízo. Hoje em dia, a dívida chega a R$ 400 milhões. No ano passado, segundo Cascione, a Codesp esteve a ponto de acertar um acordo com a Libra, pelo qual ela passaria a pagar um aluguel mais realista, mas sem a exigência de que abrisse  mão da demanda para não pagar os atrasados. Na condição de advogado, Cascione percebeu que seria a maneira mais fácil da Libra conseguir a vitória na ação contra a Codesp. Foi a Brasília, conversou com o Ministro dos Transportes e, segundo ele, conseguiu abortar a operação.

2.      A segunda questão foi a cessão da área de 100 mil m2 à Brasil-Santos sem licitação, a título de “adensamento” da concessão. Cascione reclamou. O diretor comercial da Codesp sustentou que não seria preciso licitação porque o terreno só interessava à Santos-Brasil. Cascione alegou que, se era assim, mais uma razão para haver a licitação que, segundo ele, aparentemente começou a andar.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 18h03

Nagashi e Lembo

Do Leitor Nagashi Furukawa 

Caro Nassif,

Há algum tempo que estou para lhe escrever.

Primeiro, para dizer que nos vários artigos onde analisou a questão da segurança pública de São Paulo, chegou a conclusões irreprensíveis, fruto de seu apurado espírito crítico.

Segundo, para agradecer pelas referências elogiosas e também esclarecedoras que fez a meu respeito.

Eu não vinha abrindo seu blog, por falta de hábito e também porque alguns amigos vinham me repassando tudo o que você escrevia e que poderia me interessar.

Agora, com o tempo que o ócio me permite, estou vasculhando a internet e descobrindo coisas muito interessantes.  

Para minha surpresa, vi hoje que no último dia 30 você escreveu sobre o que teria sido "uma pisada de bola" minha.

Não sei quem lhe informou sobre o episódio.

Porém, esclareço que a informação é completamente falsa. Nunca, em momento algum durante os seis anos e meio que fiquei na secretaria, pedi segurança especial para mim ou para meus familiares.

Só uma única vez falei do meu filho para o Governador, dizendo mais ou menos o seguinte: Governador, minha situação pessoal está bastante complicada. Tive até que pedir ao meu filho juiz que saísse alguns dias de férias para não ficar exposto excessivamente. Ele foi passar uma semana em Buenos Aires, porque é juiz em Mirandópolis, cidade com duas penitenciárias e muito freqüentada pelo pessoal do PCC. O Prof. Lembo não fez nenhuma referência ao fato de ter filha estudando no Mackenzie, sem segurança. Acho até que nem filha ele tem.

Essa conversa se deu no dia 15 de maio pela manhã, no gabinete do Governador, na presença dos três desembargadores membros do Conselho Superior da Magistratura, Drs. Celso Limongi, Canguçu de Almeida e Gilberto Passos de Freitas. Estava presente também o Dr. Cláudio Gracioto, chefe de gabinete da Presidência do Tribunal de Justiça.

Foi isso que aconteceu. Simples comentário, sem nenhum pedido.


Escrito por Luis Nassif às 16h57

12/07/2006

Máximas de Alckmin

Lula sempre foi campeão de foras nas suas declarações públicas. Desde o inesquecível “aqui é tudo limpinho”, sobre uma cidade da África, até a campeã “minha mãe nasceu analfabeta”.

Mas no campo do falou e não disse, o candidato oposicionista Geraldo Alckmin é imbatível.

Vamos a algumas Máximas de Alckmin.

Máximas de Alckmin – 1

Sobre a nova investida do PCC:

“É uma reação a ação da Polícia. E há que se perseverar, não retroceder um milímetro e enfrentar o problema do crime organizado”.

Máximas de Alckmin – 2

Sobre Joaquim Roriz, governador do Distrito Federal:

"Lá, do outro lado, no Palácio do Planalto, tem o governo do faz-de-conta. Faz de conta que não viu, que não ouviu, que não sabia da corrupção. Neste palanque é o governo do dito e feito. Aqui se assume compromisso e se cumpre. É o palanque de quem diz e faz”.

Máximas de Alckmin – 3

Sobre o combate ao crime organizado que atua nos presídios, através dos líderes presos:

“O combate ao crime organizado que atua nos presídios deve ser feita com investigação, inteligência policial e com a prisão dos membros do crime”.

Máximas de Alckmin – 4

Sobre a eleição e Lula:

"Acho que o PT já teve a sua oportunidade. Agora, como o presidente gosta de metáfora futebolística, é hora de ir para a reserva. É hora de time novo, energia nova", afirmou ele.

Máximas de Alckmin – 5

Sobre o reajuste dos aposentados:

“Lamento muito o veto, e é difícil dizer qual a medida que tomaria. Eu procuraria ter trabalhado para criar condições para melhorar a situação dos aposentados."

Máximas de Alckmin – 6

Sobre acordos comerciais:

“Ao invés de partirmos para uma maior competitividade entre os países do bloco caminhamos para maior protecionismo e com inúmeros furos na questão da União aduaneira".


Escrito por Luis Nassif às 22h25

Zidane e Armínio

O livre fluxo de capitais e a dependência de capitais externos criou uma indústria da arbitragem ilimitada no Brasil. “Arbitrar” significa obter ganhos através de diferenciais de rentabilidade.

Por conta dessa dependência, a taxa Selic costumava levar em conta a taxa básica de juros norte-americana, o risco Brasil e a expectativa de desvalorização cambial. A partir daí, tinha-se a taxa de equilíbrio (entre aplicar em C-Bonds brasileiros no exterior ou trazer dinheiro). Quando a taxa interna superava a taxa de equilíbrio, o dinheiro entrava para ganhar aqui dentro. Quando ficava abaixo, saía.

No gráfico em questão, preparado por Gustavo Franco, há um histórico da arbitragem de janeiro de 1998 a abril de 2005. Onde está amarelo significa que havia margens de ganho para o capital que entrava. Onde está em vermelho, arbitragem negativa, levando à saída do capital.

O único período vermelho foi no segundo semestre de 2002, quando o câmbio subiu, o risco Brasil disparou mas a taxa Selic foi mantida baixa por Armínio Fraga. Está aí um dos grandes fatores para a disparada do dólar naquela ocasião.

O episódio não serve para varrer para debaixo do tapete a enorme contribuição de Armínio para o país. Mas, assim como Zidane, ele deu uma cabeçada na parede aos 45 minutos do segundo tempo.

 


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 19h38

O artigo do juiz

O artigo "O Ovo da Serpente" pode ser encontrado no Projeto Brasil (clique aqui)


Escrito por Luis Nassif às 18h15

O BNDES e a Bolívia

O presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) Demian Fiocca nega qualquer financiamento à Bolívia, embora não veja nada de errado em financiar as exportações.

Segundo me falou agora, o que houve na Bolívia foi uma rodada de negócios, igual às que oi Ministro Luiz Fernando Furlan vem promovendo ao redor do mundo. Nesse mesmo período houve rodada semelhante na Argentina – onde foi anunciado financiamento ao gasoduto – e no Paraguai.

No caso da Bolívia, além de não estar presente ninguém do primeiro escalão do Itamarati, e apenas um superintendente do BNDES, nem mesmo vice-presidente. As discussões foram em torno de uma licitação internacional, que nem começou ainda, e nem se sabe se Brasil sairá vencedor. Para participar da licitação, as empresas brasileiras terão que apresentar financiamento.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 18h03

O ovo da serpente II

Recebo o seguinte e-mail do leitor Ari A. Domingues. Seu e-mail, no iG, leva seu nome. Não deu para conferir se sua biografia confere com o que veio escrito. De qualquer modo, publico o e-mail com as devidas ressalvas.

Na condição de ex-presidiário e, portanto conhecedor do sistema prisional Paulista, venho tecer comentários ao seu referido artigo, o qual foi publicado dia 12.07.06 .

O MM. Juiz de Direito da cidade de Tupã, no trabalho com o referido Título, faz diagnóstico sobre o prisma de quem conhece o sistema apenas de longe ou seja, de dentro de seu gabinete. Quando se entra no sistema, não existe a referida adoção do "pequeno infrator", mas sim uma verificação por parte das lideranças criminosa, se o recém chegado não pertence a outra facção. Não é cobrado desse recém chegado, que se filie ao partido.

As caravanas, se devem ao fato de que, os presídios em sua maioria ficam distantes, da residência do condenado, o que por si só fere o Direito de cumprir a pena em conformidade com a Lei de Execução Penal, as entradas de visitas se dão em conformidade com o
que dispõe a Lei, assim é sim, exigido a comprovação da relação marital entre a visitante e o reeducando. Quanto a entrada de aparelhos celulares, posso lhe afirmar que, em um ano e oito meses em que fiquei preso, nunca vi um, aparelho celuler entrar que não fosse dessa forma.
Desta aqui, sai do presídio à quase cinco anos, nunca pertenci ao partido, nunca fui obrigado a nada pela facção, hoje estou cursando o quarto ano do curso de Direito, espero concluir meu curso para poder entrar com representação contra o Estado, onde alegarei as torturas por mim sofridas, torturas praticadas pelos ditos representantes da Lei. Os mesmos que hoje estão desesperados com as mortes injustas de seus pares (agentes penitenciário).

Agentes que na surdina das muralhas, aplicam aos presos toda sorte de tortura, as quais quando você relata aos senhores juizes, obtem a resposta que tudo será apurado, mas nada se faz.... hoje esses agentes colhem o que plantarm ao longo do tempo.

Pena que o tempo é curto, estou num cyber e com pouco dinheiro,
assim espero que o sr. continue com seu relevante trabalho.


Escrito por Luis Nassif às 17h45

BNDES e a Bolívia

Não há lógica nessa grita contra os financiamentos do BNDES à Bolívia. O que o banco está fazendo é cumprindo seu papel de agente financiador de exportações. O financiamento é para que a Bolívia adquira equipamentos brasileiros. O faturamento, o emprego e o lucro ficam aqui.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 12h55

A um passo do terrorismo

Do leitor João Xavier

Meu trabalho de conclusão de curso foi um livro-reportagem sobre o PCC. (que me rendeu um inquérito policial) Deixei meu antigo emprego e dediquei um ano e meio ao trabalho. Por conta disso, fiquei desconcertado ao ler sua coluna de hoje (sobre o trabalho do Juiz de Direito em Tupã, Edmar de Oliveira Cicliati) e constatar algumas informações incorretas.

O PCC realmente "adota" os presos quando chegam ao presídio. Porem, a cooptação é muito mais assistencialista do que intimidatória. Quando os presos saem, não têm qualquer perspectivas de (re)inserção no mercado de trabalho. Procuram as ONGs que também não tem estrutura de encaminhamento. Sem outros meios para sobreviver, recaem no crime. Muitas vezes, por valores ínfimos.

Resposta – o juiz diz que a primeira abordagem é assistencialista mesmo. Mas os que não se comportam, depois, com lealdade em relação ao PCC, são executados

As namoradas são atraídas, por motivos outros que os apontados. Os presos dedicam grande parte do tempo a tratar as possíveis namoradas como “princesas” nas palavras de uma delas. Na visão delas, o preso é o estereótipo do namorado perfeito: forte, protetor, valente, gentil, romântico, etc. Que outro homem escreve cartas de amor para a namorada hoje em dia? Eu vi pessoalmente advogadas de classe média abandonarem casa e família para se unir a presos.

Resposta – no trabalho, o juiz diz que a primeira abordagem é pedir para a namorada do colega de cela trazer uma amiga. A corte se dá obviamente depois do primeiro contato.

Agora chegamos ao ponto realmente preocupante do texto.

Ao contrário do informado, as visitas não são as grandes fornecedoras de drogas e celulares. Claro, que entra uma parte considerável, mas não é o duto principal. As mulheres e mães são obrigadas a se despir e de cócoras fazer movimentos, nuas, para que agentes verifiquem se cai algum objeto da vagina.

Resposta – conversei pessoalmente com um motorista que guia ônibus para visitas a presos. Sua informação é de que a maioria das pessoas é constrangida a efetuar as visitas.

O grosso dos celulares entra mesmo via agentes da SAP. Eles não são revistados, não passam no detector de metais e ganham cerca de 1.200 reais por mês. Dizer que “corrupção interna, é bem mais fácil de identificar e impedir”, infelizmente não corresponde em nenhuma medida à realidade. Essa é, infinitamente, a parte mais difícil do problema.

Resposta – a dificuldade de identificar a corrupção interna decorre do fato de que a entrada de qualquer objeto encontrado nas celas pode ser atribuída às visitas. Sem esse álibi, fica mais fácil coibir a corrupção interna.

De modo que toda aquela discussão de revistar advogados e instalar bloqueadores é inócua.

Outra  informação errada: para se apresentar como mulher do preso é preciso comprovar estabilidade, e a liberação demora alguns meses. Não tenho o número exato agora.

E o governo de São Paulo, demorou a isolar as lideranças por pura e simples miopia. Simplesmente recusava-se a admitir que houvesse facções se digladiando no sistema prisional. Mas mesmo assim, o governo da época, espalhou os líderes pelo sistema.

Na década de 1990, havia outras facções na disputa, e isso impedia o domínio de uma delas, o que acabou ocorrendo com o PCC. Um dos maiores fermentos do PCC é justamente o não-cumprimento da legislação pelo próprio Governo do Estado. Os líderes ocupam esse espaço e formam um exército de miseráveis, cuja única ferramenta de conquista social por eles conhecida é a violência.

É previsível que o PCC vá ampliar sua escalada de violência.

Em algum momento do futuro, próximo ou não, eles vão atacar estações de metrô, centros comerciais como shoppings e matar autoridades.  O ex-líder do grupo, Geleião, defendia explodir a Bovespa.

Será o caos, cansativamente anunciado.


Escrito por Luis Nassif às 12h33

11/07/2006

O colapso do modelo monetário mundial

Uma das discussões que tomará corpo nos próximos anos é sobre um novo Bretton Woods – o sistema que, no pós-guerra garantiu uma coordenação cambial entre as diversas nações, controle de fluxos de capitais, abrindo espaço para uma fase esplendorosa de crescimento mundial.

O modelo se esgotou nos anos 60. Nos anos 70 foi rompido pela decisão de Nixon de descasar o dólar do ouro. Seguiu-se um período de grandes movimentos especulativos de capitais, uma onde sucessiva de crises nacionais e internacionais que logrou concentrar a riqueza, permitir a alguns países crescerem (justamente os que não seguiram a receita do bolo) e a outros, como o Brasil, a patinarem.

A exemplo da década de 1910, quando entra em colapso o padrão-ouro, o mundo caminhará inexoravelmente para um novo movimento pendular, com controle dos fluxos especulativos de capital, movimentos defensivos no comércio exterior e, provavelmente, mudanças competitivas de câmbio.

Só o Brasil ainda não percebeu.

Veja alguns trabalhos sobre o tema:

1. AN ESSAY ON THE REVIVED BRETTON WOODS SYSTEM

Michael P. Dooley

David Folkerts-Landau

Peter Garber

2. THE REVIVED BRETTON WOODS SYSTEM: THE EFFECTS OF PERIPHERY INTERVENTION AND RESERVE MANAGEMENT ON INTEREST RATES AND EXCHANGE RATES IN CENTER COUNTRIES

Michael P. Dooley

David Folkerts-Landau

Peter Garber


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 23h11

O novo Bretton Woods

O atual panorama da relação comercial entre Estados Unidos e os países asiáticos sinaliza a retomada de um comportamento observado no pós-guerra. Falidos na época, o Japão e as atuais grandes economias européias precisavam de recursos para reconstruir sua infra-estrutura e retomar o crescimento. Para isso foi definido um sistema de gerenciamento econômico internacional, com regras definidas para relações comerciais e financeiras entre os países industrializados.

Conhecido como "Bretton Woods", o sistema propunha que o câmbio das nações periféricas seria praticamente fixo nas transações comerciais conduzidas pela chamada nação central - neste caso, os Estados Unidos. Pelas regras, a taxa de variação do câmbio seria menor de 1%.

Por conta do elevado déficit fiscal, tudo leva a crer que a relação se inverteu. Como Europa e o Japão se desenvolveram, o papel de "nação periférica" foi transferido para os países do leste asiático (como China e Coréia do Sul), que concentram suas estratégias de crescimento na exportação.

O economista Roberto Cintra é um dos mais discretos e melhores economistas do mercado, membro atuante do grupo “Tornos e Planilhas”. Veja no endereço Dinheiro Vivo na UOL a entrevista de Roberto à repórter Tatiane Correa.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 23h00

O mercado de carbono

As pocilgas estão com seus dias contados. Com o mercado de venda de crédito de carbono, os dejetos de suínos ficaram valorizados. Mais do que eles, apenas os de bovinos, que têm um poder de poluição 21 vezes maior do que o CO2.

Os contratos de venda de carbono são de dez anos. A empresa prepara um projeto mostrando quanto vai reduzir a poluição. No circuito há uma empresa que desenha o projeto, outra que valida e uma terceira que confere. Com a carta de anuência, encaminha o pedido de venda de créditos de carbono para a ONU. Lá, o processo é validado através de uma auditoria de verificação.

À medida que o vendedor vai comprovando a captação de gases, é ressarcido. Os organismos de medição são certificados pela ONU e pela Comissão Interministerial de Mudanças Climáticas do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Em cima desse mercado, a Sadia resolveu desenvolver um projeto de sítios ecologicamente auto-sustentáveis, junto a seus fornecedores. O projeto começou a ser desenhado no início de 2004. Primeiro, a Sadia fez em quatro granjas próprias, para aprender as melhores práticas. Depois, opfereceram para seus 3.500 fornecedores integrados. Esperavam adesão de 50%, apesar de não ter custo algum. Mas 96% aderiram.

Escolheu os suinocultores e financiou biodigestores para alguns deles. Depois, vendeu os créditos de carbono para a European Carbon Fun, num total de R$ 90 milhões em dez anos. 40% desse valor permitiram pagar toda a estrutura de biodigestores. Os 60% restantes irão para a própria comunidade, para trabalhar matas ciliares, captação de águas.

Com os biodigestores, os suinocultores serão auto-suficientes em energia. A partir daí, abre-se espaço para certificação de origem e desenvolvimento de indicadores locais ligados às Metas do Milênio.

Hoje em dia, os mercados mais organizados são os europeus. Os créditos de carbono começaram com cotação de 3 a 4 dólares a tonelada de CO2 emitido. Hoje, já está em 12 dólares e se fala até em 25 dólares. A Sadia produzirá 12 milhões de toneladas em dez anos dos integrados, mais 800 mil da própria Sadia.


Escrito por Luis Nassif às 19h10

O ovo da serpente

O paradoxo mais inacreditável da consolidação do PCC em São Paulo é que a maior parte de sua liderança está presa. Ou seja, a rede criminosa consolidou sua influência em São Paulo a partir dos próprios presídios públicos. A montagem da rede de influência do PCC se deu utilizando a estrutura dos presídios: esse o aspecto mais chocante da criação do mais influente grupo criminoso já organizado em São Paulo.

Juiz de Direito em Tupã, Edmar de Oliveira Cicliati traçou um quadro patético sobre a maneira como o PCC desenvolveu sua influência, sob as vistas das autoridades paulistas.

Todas as práticas utilizadas pelo PCC são de amplo conhecimento das autoridades. A própria atitude de isolar as lideranças em um único presídio era medida óbvia, mas demorou anos para ser tomada pelo receio do governador Geraldo Alckmin de sofrer o desgaste político pela reação previsível da fação.

Um diagnóstico da situação e do modo de operação do PCC nos presídios está no Projeto Brasil.


Escrito por Luis Nassif às 17h54

10/07/2006

As incertezas da CTEEP

A venda da CTEEP (Transmissão Paulista) tinha mais incertezas do que se pensava inicialmente. Primeiro, o caso dos passivos junto à Eletrobrás. A conta tinha sido debitada à Eletropaulo. Ela recorreu à Justiça atribuindo a responsabilidade à CTEEP. Conseguiram uma sentença inicial favorável. Depois, uma sentença do STJ (Superior Tribunal de Justiça) contrária, mas em uma questão de forma. Advogados que participaram da modelagem da privatização não tem nenhuma dúvida de que a conta será debitada à CTEEP.

Outro esqueleto é o passivo atuarial dos aposentados. O governo de São Paulo fala em R$ 300 milhões, mas há quem calcule em mais de R$ 1 bilhão.

O terceiro fator é o prazo de concessão, que vence em 2015 –e tornaria financeiramente impossível recuperar o dinheiro investido.

O grupo colombiano que adquiriu a empresa decidiu correr os riscos, apostando em uma renovação automática da concessão por mais vinte anos, e desconsiderando os demais fatores de risco. Resolveu pagar para poder entrar no mercado brasileiro.

Grupos com um pouco mais de governança, não ousaram sequer entrar no leilão.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 17h27

O PCC e os Bandidos de Hobsbawn

do leitor André Araújo

Eric Hobsbawn é um dos maiores historiadores britânicos em um País pródigo de grandes historiadores.

Um dos seus livros menos conhecidos chama-se Bandidos, já  publicado no Brasil há muito tempo.

O tema do livro trata de imbricação recorrente na História, entre os excluídos sociais, o crime comum e uma  bandeira política.

Nesse livro Hobsbawn  analisa,  entre outros grupos,  as máfias siciliana, calabresa e corsa como movimentos que nasceram com um sentido de proteção da população contra o opressor e derivaram depois para o crime comum.

Tratou também do cangaço do Nordeste brasileiro, onde Hobsbawn viu muito dos elementos da reação dos excluídos contra os poderosos através do crime de bando.

No nosso ambiente latino americano não é preciso ir muito longe no espaço e no tempo: as FARC e os paramilitares na Colômbia, ,  a guerrilha de  El Salvador, as forças de repressão na Argentina entre 1976 e 1983, constituíram-se entre muitos outros em grupos onde se mesclaram o crime comum e a bandeira política. No passado os milicianos armados formadores da Revolução Mexicana, liderados por Emiliano Zapata ao Sul e Pancho Villa ao Norte,  também tinham essa mescla de componentes.

Na Europa,  entre os primeiros agrupamentos do Partido Nazista,  estavam as SA, bandos de assalto,    considerados criminosos por boa parte da sociedade alemã. , tendo Hitler que dissolve-los na famosa Noite dos Longos Punhais em 1934,  após chegar ao poder. Para conseguir o apoio do Exército e da burguesia, que não podiam admitir a existência daquele bando de celerados ligados ao próprio poder,  Hitler agiu friamente e liquidou a liderança das SA em ação fulminante, onde mais de mil foram eliminados em uma noite. 

Estamos agora observando sob nossos olhos a estruturação de um grupo criminal em busca de uma bandeira política, o PCC. Não vai demorar muito e teremos uma força violenta com motivação legitimadora, já visível em certas atitudes e posturas do grupo.

Para atingir tal estágio o PCC necessita liderança, que aparentemente já tem e uma ideologia coerente, que está em formação. A matéria prima é e será a vasta massa de excluídos, muitos na linha fronteiriça entre a necessidade de sobrevivência e a atração do crime.


Escrito por Luis Nassif às 16h52

O "rombo" da Previdência

Meu amigo Fábio Giambiagi, o mago dos números, certamente jamais utilizaria o raciocínio que menciono a seguir, porque não é adequado às teses que pretende comprovar.

Como se calcula o “déficit” da Previdência? Toma-se o valor das contribuições. Abate-se o valor dos benefícios. O que sobra é “déficit”.

Agora imagine o dinheiro no bolso do aposentado. Suponha uma aposentadoria de R$ 1.000,00. Pelo valor, não vai para poupança, mas exclusivamente para consumo básico. Ao adquirir produtos, o aposentado paga impostos indiretos, dependendo do nível de aposentadoria, paga impostos diretos. Portanto parte daqueles R$ 1.000,00 retorna aos cofres dos diversos governos na forma de impostos.

Mais: ao turbinar as economias regionais, os gastos dos aposentados colocam para funcionar um mercado de consumo de bens populares, gerando um benefício – em emprego e arrecadação de impostos – mais do que proporcional ao que receberam de aposentadoria.

Não significa que se deva permitir aposentadoria aos 50 anos. Mas significa que pinta-se um gato com traços de dragão.

Falta alguém para mensurar o tamanho efetivo do gato.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h50