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29/07/2006

Abundância e desregramento

Na entrevista às páginas amarelas de Veja (clique aqui) a economista Eliana Cardoso refaz de uma maneira polêmica a história de que países sem problemas naturais são propensos ao acomodamento. É a versão pós-moderna da hipótese de que foi  abundância de bananas e mandioca que impediu o brasileiro de ir à luta.

Diz ela:

Eliana – (...) Países sem recursos naturais tiveram de fortalecer e aprimorar suas instituições como única saída para vencer as dificuldades. Por outro lado, os países com recursos abundantes acomodaram-se, satisfeitos com o que a natureza lhes deu, e não viram vantagem em investir em educação, produção de conhecimento ou na construção de instituições fortes. Como resultado, seus governos se tornaram vítimas da ganância, da cobiça e da corrupção. A tendência de a abundância de riquezas naturais enfraquecer as instituições e solapar o desenvolvimento sustentado das nações é tão presente na história recente do mundo que é quase uma maldição.  

Ora, a China é rica em recursos naturais, assim como o Canadá, a Austrália, os Estados Unidos. E será possível relacionar muitos países sem recursos naturais e sem desenvolvimento. Como estabelecer essa relação mecanicista, então? A professora mistura o senso comum (o de que pessoas que nunca passaram por desafios não podem vencer na vida) com a história de países.

Prossegue ela:

Eliana - Quando o preço dos recursos naturais sobe, o fundo acumula recursos, mas eles não afetam o câmbio porque o dinheiro não é gasto. Quando o preço cai, os recursos são usados para contrabalançar as perdas. Mas isso só funciona em países onde há instituições de qualidade, como na Noruega, onde existe um fundo de petróleo, ou no Chile, que também tem seu fundo estabilizador para as exportações de cobre. Em nações onde as instituições são fracas, nem esse fundo adianta.

Olha a confusão. Lá em cima a razão para se ter instituições fracas era a abundância de recursos naturais. Aqui embaixo, diz que os países que têm instituições de qualidade, podem ter abundância de recursos naturais, sem que isso seja problema. Ou seja, na segunda resposta atropelou a relação de causalidade que apresentou na primeira resposta.

Veja a análise dela sobre o Brasil atual:

Eliana –Quando um governo emprega mal o dinheiro obtido com recursos naturais ou com a carga tributária, ele deixa de cumprir o papel que lhe cabe e distorce o funcionamento da economia. O efeito desastroso para o crescimento é o mesmo. O Brasil, é inegável, tem instituições, como o Banco Central, que são eficientes e têm cumprido seu papel. As universidades também têm contribuído com a sociedade formando técnicos competentes. Mas essas são condições insuficientes para mudar o país e levá-lo a um patamar superior de crescimento econômico.

Ué, e se o governo empregasse mal o dinheiro proveniente de produtos industrializados? O problema é empregar mal o dinheiro, não o fato de ser proveniente de recursos naturais.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 20h12

Despedida da "Folha"

Clique aqui para ver o texto em que comunico minha saída da “Folha de S.Paulo”, após quinze anos de coluna.


Escrito por Luis Nassif às 13h57

"Ensaio" da TV Cultura

Na sexta-feira, tive um dos dias mais emocionantes de minha vida. A convite do grande Fernando Faro, gravei um programa “Ensaio”, com composições próprias.

Faro me conheceu nos idos dos anos 60, quando produzia os festivais universitários da TV Tupi. Estava no colegial, mas conseguia na Faculdade de Filosofia de Poços uma declaração de que era aluno de lá.

Dos 16 aos 20 segui a carreira de compositor. Diria que cheguei à maturidade musical aos 20, quando venci uma das etapas da Feira Permanente de Música Popular Brasileira, da Tupi, indo para a final tendo como competidores duas músicas de Jorge Ben (entre os quais o clássico “Domingas”), duas de Paulinho da Viola (“Foi um rio que passou em minha vida” e “Papéis”) e uma da revelação Suely Costa (“Flor da Campina”). Minha música se chamava “Congresso Internacional do Medo”, feita em parceria com João Cleber Jurity. A final acabou não acontecendo, por conta da crise da Tupi.

Acontece que aos 20 me tornei jornalista. E o jornalista matou o compositor. A composição exige concentração em todos os momentos, assim como o jornalismo. Sabia que poderia fazer uma carreira razoável como compositor, mas jamais me ombrear com os maiores. E, apesar do fascínio da música, as palavras sempre foram o meu forte, e o jornalismo, a paixão maior.

De lá para cá, as composições rarearam. Durante logo período compus poucas músicas, duas celebrando o nascimento das minhas duas filhas mais velhas, a Mariana e a Luiza. Há cerca de cinco ou seis anos atrás mergulhei de novo na música, intensamente mas por curto espaço de tempo, inspirado pelo teclado que passei a usar. O teclado abre novas perspectivas para o compositor. O violão deixa a melodia muito intuitiva e próxima da voz e da fala. O piano permite voar para outros limites.

Desse conjunto de composições, houve duas parcerias com Vicente Barreto (ele na música, eu na letra), uma com Jorge Simas (“Restos de Saudade”, magnificamente interpretada pelo Renato Braz e pelo conjunto Flor Amorosa”), com Alexandre Lemos (letristas de duas valsas minhas). Foi composto também um dobrado, gravado pela Banda da Polícia Militar de São Paulo, e um conjunto de valsas.

Foi um período dolorido, de acerto final de contas com fantasmas do passado onde, mais uma vez (a exemplo do período da adolescência) a música e a composição foram minhas companheiras preciosas.

O “Ensaio” contou com a participação da cantora Verônica, uma graça de sambista que se apresenta às segundas feiras no “Ó do Borogodó”, com o “Canto Quatro”, um clássico dos conjuntos vocais dos anos 70, que está de volta com outra formação; acompanhamento do Zé Barbeiro, o melhor sete cordas da atualidade. E duas interpretações antológicas da Fabiana Cozza, para as valsas com Alexandre Lemos. Quando Fabiana terminou, o público (operadores, técnicos, produtores e músicos) ficaram uns dez segundos meio catatônicos, depois explodiram em uma salva de palmas.

Ainda não sei quando o programa vai ao ar, mas, graças ao Faro, atendi a um desejo de dona Teresa, cuja influência me tornou jornalista: a, de um dia, gravar as músicas que compus naqueles tempos que não voltam mais.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 13h14

Lalão, o gênio anônimo de Recife

Lalão, marque o nome. A primeira vez que ouvi falar dele foi na semana passada, pelo Yamandu Costa, em um sarau no Rio de Janeiro. Yamandu despejou uma saraivada de choros impactantes. Perguntei o que era aquela maravilha? E ele me falou do Lalão, um pernambucano de Recife, 50 anos, que tocava tão bem quanto compunha, era pedreiro e nunca tinha gravado suas obras.

Yamandu o conheceu no ano passado, voltou a Recife este ano e gravou doze peças de Lalão interpretando Lalão. Agora está à espera de um patrocinador que viabilize o disco. Me deu o telefone de Lalão e fiquei esperando até agora, sábado de manhã, para telefonar.

Lalão me atendeu, meio “aperreado”, como ele mesmo me disse – o Yamandu já tinha me alertado que o pernambucano era mesmo “aperreado”. Depois, como todo “aperreado”, foi abrindo a guarda e, no final da conversa, já éramos irmãos, com convite para passar uma tarde em sua casa na minha próxima ida a Recife.

Lalão começou com a música aos 8 anos, quando ganhou do pai um vitrola Pionner, um disco do Waldir Azevedo, e um cavaquinho. O pai era muito pobre, muito mais do que Lalão é hoje. Mas lhe prometeu uma gorjeta por cada música que tirasse. Em pouco tempo, Lalão tirou todo o repertório e se tornou atração da Gurilândia, programa infantil da Rádio Clube, acompanhado por um regional de adultos.

No intervalo das apresentações, ficava brincando no violão dos adultos. Teve alguma influência de China, um sete cordas que morreu quando ele era ainda criança. A partir dos 12 anos passou a aprender sozinho o instrumento.

Quando Canhoto da Paraíba já estava entrevado, com um AVC, houve um show em sua homenagem. E Canhoto foi logo avisando que tinha apenas um violonista em Pernambuco capaz de executar sua obra com toda a arte que ela exigia: o Lalão.

Lalão vive de música, mas não da que ele faz. Toca em bailes, em conjuntos de rock, interpretando repertório dos anos 80. Mas sua paixão é o violão, que ele só consegue mostrar em saraus caseiros, em casas que visita. Basta começar a tocar para todos os presentes se encantarem. Mas, termina a noite, ele recolhe suas composições e nada acontece.

Há tempos Yamandu tornou-se reencarnação de fato de Raphael Rabello, meu amigo Raphael, o gênio das sete cordas falecido há doze anos. Não apenas no virtuosismo, na pressa, mas na sede de conhecer a história da música, do choro, na generosidade em compartilhar o palco com novos talentos, em garimpar velhos talentos desconhecidos, e em se tornar o líder de fato da confraria do choro. É um autêntico galtério, correndo o país com seu violão e arregimentando as tropas da música instrumental brasileira.

Foi para o Rio de Janeiro, enfrentou, no início, o bairrismo dos instrumentistas locais, suportou as comparações com Raphael, as críticas ao seu modo de tocar. Hoje, é o líder de fato do mundo do choro carioca. Nas rodas, se impõe não apenas pelo gigantesco talento, mas por uma personalidade galtéria que domina o ambiente.

Anos atrás, Rapahel foi para Recife, anos atrás, pra registrar a obra de Canhoto da Paraíba. Através dele, Lalão foi apresentado a Garoto, o Aníbal Augusto Sardinha, falecido em 1954, homem que revolucionou o violão, o bandolim e o cavaquinho brasileiros.

Yamandu seguiu para Recife e colheu um Lalão mais aprimorado ainda. Suas últimas obras (que ouvi no sarau do Rio) são de uma sofisticação harmônica de gênio, absorvidas das composições de Garoto. Lalão me parece um alquimista. Coloque-se na sua frente o que tem de mais sofisticado e, incontinente, ele assimila o estilo produz aos borbotões composições de primeiríssima qualidade.

E o que Lalão quer da vida? “Não quero dinheiro, não quero glória”, me diz ele. (O “aperreado” já se desarmou e me trata como irmão.) “Não sou pobre como meu pai era, mas às vezes não tenho dinheiro para a gasolina. Mas não é o que importa. O que eu queria era apenas poder tocar meu violão e mostrar minhas músicas”.

Atenção, governador Jarbas Vasconcellos, candidatos a governador Mendoncinha e Eduardo Campos, atenção, amigos do Jornal do Commercio, atenção Paes Mendonça, Pessoa de Queiroz, ficará muito feio para Pernambuco se um gênio desse quilate precisar da ajuda do centro-sul para ser apresentado ao Brasil.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 12h34

O fator Hélio Costa

A reportagem da IstoÉ desta semana (clique aqui) sobre o caso VT1 Produção x Telebrás é escândalo para ninguém colocar defeito, que tem no centro o inacreditável Ministro das Comunicações Hélio Costa.

A VT1 explorava o sistema de disque 900. O sistema foi proibido e a empresa acionou a Embratel (então estatal) alegando não ter recebido parte do que foi arrecadado. A ação caminhou.

No mês passado, uma juíza de Brasília ordenou que a Telebrás pagasse à empresa R$ 253,9 milhões. A Telebrás teria ainda muitas instâncias de recursos. Mas, desde o ano passado, o caso foi tirado das mãos do advogado que tocava o processo e, mesmo ante os apelos da Telebrás, Hélio Costa nada fez para recorrer da sentença. Conseqüência: a sentença transitou em julgado (termo para uma sentença em que a parte derrota não se manifesta). A reportagem apresenta inúmeras evidências de que Hélio Costa era amigo do dono da empresa.

Procurado pela “Folha”, Costa mostrou o que a certeza da impunidade provoca. Disse que a culpa era de governos anteriores, que permitiram acumular aquela dívida. Ou seja, defendeu no mérito a ação cuja ré era a própria União.

Em toda minha carreira só vi um caso semelhante, quando o então consultor geral da República José de Castro, no governo Itamar, desengavetou um processo administrativo do estaleiro Ishikawagima, no qual pleiteava um valor extraordinário de indenização. O pleito tinha sido negado no governo Figueiredo. Castro desengavetou e deu pareceu a favor da empresa. Na época, denunciei a manobra e o governo acabou recuando e transferindo Castro para a presidência da Telerj.


Escrito por Luis Nassif às 10h34

28/07/2006

As terceirizadoras de mão-de-obra

“O Globo” de hoje mostra operação da Polícia Federal para desbaratar conluio de empresas terceirizadoras para manipular licitações (clique aqui). Em 17 de fevereiro passado, descrevi os problemas trazidos pelas terceirizadoras:

O depoimento de Dimas Toledo à CPI do Correio é uma extraordinária demonstração de como é a política brasileira. (...)

Tudo isso se dá à sombra de uma atividade que passou a substituir as antigas empreiteiras, depois que o Estado brasileiro quebrou e escassearam os recursos para investimentos: as terceirizadoras de mão-de-obra.

Essas empresas cresceram à sobra da Lei Camata –uma lei bem intencionada, que pretendia criar limites nos gastos com pessoal na administração pública. A saída foi recorrer maciçamente aos terceirizadores.

Praticamente em cada administração há uma terceirizadora que domina as licitações. Grande parte dos gastos operacionais de Furnas era com uma terceirizadora de mão de obra, a Bauruense, com dois mil funcionários, e que chegou a faturar R$ 800 milhões em três anos apenas com seu contrato de Furnas. A Bauruense é a quarta terceirizadora paulista em tamanho, e cresceu na área pública a partir do governo Álvaro Dias, no Paraná, de onde nasceu sólida amizade do ex-governador com os irmãos Daré, donos da empresa.

Em Brasília, a terceirização na área federal é comandada pela Confederal (do ex-Ministro das Comunicações e Deputado Federal Eunicio de Oliveira). Em São Paulo, pela Tejofram (14 mil terceirizados) e pela Gocil (mais de 8 mil). E são sempre as mesmas. Mesmo sendo um setor altamente rentável, não aparecem concorrentes para disputar espaço e derrubar preços.

Nos Estados Unidos, há 70 anos foi criado um mecanismo eficiente de fiscalização, o General Accounting Office, o GAO, o Escritório Geral de Contabilidade, subordinado ao Congresso. O GAO analisa a relação custo - beneficio do gasto público. Quer se fazer um hospital com dinheiro federal? Eles pesquisam se é necessário, se não é mais barato arrendar um próximo, se não existem leitos disponíveis na região, tudo antes do gasto e não a posteriori, como procedem aqui os Tribunais de Contas.

Mais ainda, o GAO publica e coloca a venda centenas de estudos sobre relação-custo beneficio, tornando públicos todos os seus relatórios de análise do gasto federal. Não se faz gasto federal nos EUA sem um relatório de viabilidade econômico-financeira do GAO. Nos últimos de 20 anos os EUA fecharam 600 bases militares no País e no exterior, a partir de um estudo do GAO que demonstrou serem elas inúteis para a defesa O sistema de Tribunais de Contas é baseado no modelo francês (Cour de Comptes). Ocorre que a administração pública francesa, de reconhecida qualidade, é voltada para um Estado unitário, sem nenhuma semelhança com um Estado Federal de um país complexo e de  baixa tradição administrativa, como o Brasil”.

 


Escrito por Luis Nassif às 08h44

Despedida da Folha

Depois de 15 anos de trabalho conjunto, estou de saída da “Folha”. Domingo será minha última coluna.

As razões estão ligadas ao momento atual da mídia e à minha empresa, Agência Dinheiro Vivo.

No final dos anos 80, a Agência foi a introdutora do jornalismo eletrônico no país. O projeto contava com o desenvolvimento de um clima de parcerias na imprensa brasileira, assim como de capitais de risco voltados para novas tecnologias. O ambiente ainda não estava pronto.

Agora, se entra na segunda grande onda de informações, com as novas tecnologias de convergência digital maduras, e os novos conceitos de parceria e trabalho em rede. Nos próximos dois anos deverá ocorrer uma mudança radical no panorama da mídia brasileira, com as novas ferramentas de convergência digital, além de perspectivas animadoras para empresas com potencial de inovação na área da informação.

Há cerca de seis meses, a Dinheiro Vivo vem trabalhando em novos projetos de tratamentos das informações na Internet, com ferramentas inovadoras. Esses projetos passam, necessariamente, por políticas de aliança com novos atores, que deverão surgir no processo de convergência digital, e também por atração de investidores. É um trabalho que exigirá de mim maior envolvimento e maior liberdade para montar parcerias.

Além disso, o Projeto Brasil (www.projetobr.com.br) de discussão de políticas públicas cresceu e vai exigir cada vez mais minha presença. No momento, conta com parcerias da Unicamp, Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Economia da FGV-SP, GVLaw, a Faculdade de Direito da FGV-SP, a Fundação Nacional de Qualidade, entre outros apoios.

A partir da próxima semana, a Agência passará a produzir duas páginas semanais sobre problemas brasileiros, com base no material do Projeto Brasil (www.projetobr.com.br) para a rede de jornais que constituem a APJ (Associação Paulista dos Jornais), que congrega os 16 mais importantes jornais do interior de São Paulo, perfazendo a tiragem de 413 mil exemplares aos domingos.

 Nesse período da “Folha”, as idéias veiculadas pela coluna conseguir trazer uma contribuição, ainda que pequena, ao nosso país:

·         Foi uma das responsáveis por convencer o ex-Ministro Luiz Carlos Bresser Pereira a introduzir o prêmio de qualidade no setor público federal.

·         Foi após uma série de colunas sobre Arranjos Produtivos Locais que o então Ministro-Chefe da Casa Civil Clóvis Carvalho decidiu enviar uma comitiva à Itália para entender seu funcionamento e implantá-lo no país.

·         Uma série sobre saúde pública serviu de base para o início de trabalhos da gestão José Serra no Ministério da Saúde.

·         As discussões do Projeto Brasil ajudaram a aprimorar a Lei de Inovação em cinco pontos, já no governo Lula.

·         Nesse período, a coluna venceu todas as disputas de que participou do Prêmio Comunique-se na categoria Melhor Jornalista da Imprensa Escrita.

·         A série de crônicas publicada aos domingos na “Folha” foi reunida no livro “O Menino de São Benedito” que mereceu menção honrosa do Prêmio Jabuti, na categoria conto/crônicas.

Foi uma fase muito rica graças à liberdade concedida pelo jornal. A interação com a sociedade civil se deu em inúmeros frentes, entre as quais o convite para integrar o Conselho do Instituto de Estudos Avançados da USP e o Conselho de Economia da FIESP.

A partir de agora, meus escritos se concentrarão neste Blog e nos endereços www.dinheirovivo.com.br e www.projetobr.com.br


Escrito por Luis Nassif às 08h15

27/07/2006

Câmbio para quem não precisa

O sábio recluso com quem converso frequentemente está inconformado com a Lei Cambial aprovada pelo Ministério da Fazenda e Banco Central – que permitirá os exportadores manter no exterior até 30% da receita de exportações, e às multinacionais registrar como capital externo ativos que não haviam sido registrados.

As alterações em alguns mecanismos de câmbio têm a dimensão do Ministro da Fazenda  e a cara da política econômica da ortodoxia burra que trava o Pais há doze anos, me diz ele. São paliativos, retoques cosméticos para quase nada porque não ajudam quem mais precisa de um real  desvalorizado, que são os médios e pequenos exportadores, a faixa que realmente está perdendo ou desistindo com a exportação.

Antes de produzir, os pequenos vendem o câmbio através dos ACCs (Adiantamento de Contratos de Câmbio) que são recursos baratos. Dificilmente vão ter 30% para deixar lá fora.

Ele se lembra que na década de 70 Delfim Netto criou o Cartão de Exportação PROEX, causando um boom na exportação de máquinas e equipamentos. O sábio se lembra da euforia do pessoal de Santa Bárbara do Oeste, Piracicaba, Limeira, exportando para  valer com o Proex, que dava crédito fácil e barato, no limite do Cartão (que era por sua vez fixado pela média de exportações anteriores).

As mudanças atuais vão na mesma linha de assistir os grandes e assistidos. Vai atender apenas Vale, Cargill, Bunge, Embraer, as siderúrgicas e mais uma dúzia de grandes exportadores, concentrando mais ainda a exportação.

É essa mesma lógica essa absurda autorização para que multinacionais possam registrar novos ativos como capital estrangeiro, escancarando a janela para a saída de divisas, sem nenhuma visão estratégica, sem nenhuma clareza sobre as contrapartidas. Os US$ 90 bilhões em captação que entraram no país não menos de 7 a 8% ao ano (os Global chegaram a apagar 14% nas primeiras emissões lideradas pelo Goldman). Já o estoque de capital estrangeiro no Brasil remete em torno de 5% de sua base de remessa.

Na contrapartida o BC e a Receita não acham nada demais que todo essa capital brasileiro exportado, esses 90 bilhões de dólares e picos, não rendam ao País praticamente nada,  meros 0,95% ao ano  sobre o estoque, calculados entre julho de 2005 e maio de 2006 (dados da Sobeet). Então para que o BC deixa exportar, isto é, disponibiliza dólares da reserva sobre os quais pagamos 7 a 8% ou até mais para que vão embora e em troca receber de retorno  menos de 1%?

Essa política está na linha do arremedo de reforma cambial, privilegiando os grandes exportadores, que também são os mesmos que exportam capital, à custa da coletividade produtora nacional e ao fim sem beneficio algum ao Pais.

Já a  possibilidade de pagar os free-shops com reais parece ser o fecho da piada, constata ele, desalentado.  Alem da Brasif (agora suiça) o que ganha o Brasil com isso?


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 20h44

O modelo Palocci-Bernardes

Ainda falta na atual campanha os estragos que o modelo de gestão orçamentária do governo Lula – Palocci-Paulo Bernardo—causaram na qualidade dos gastos públicos. Contingenciamentos na boca do caixa, falta de planejamento para a constituição do superávit fiscal, alocação de recursos em programas de difícil viabilidade nos ministérios, tudo isso contribuiu para piorar ainda mais um serviço público precário.

O mal que causaram ao setor de tecnologia, contingenciando os fundos setoriais, à infra-estrutura, ao modelo das agências reguladoras, tudo isso foi intencional.

Certa vez, em Belo Horizonte, participei de um debate com o diretor de macro-economia do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), órgão do Ministério do Planejamento. Ele dava exemplos de ministérios que não conseguiram gastar recursos alocados para eles, como prova de que a melhor utilização dos recursos seria para pagar juros.

Tempos depois, um alto Ministro do governo Lula contou um bate-boca que houve em uma das reuniões inter-ministeriais, quando Palocci foi desmascarado. Um dos Ministros fez um levantamento e demonstrou que Fazenda e Planejamento só colocavam dinheiro em projetos específicos de ministérios, que eles tinham certeza de que haveria muita dificuldade em andar (por problemas ambientais, burocráticos ou de outra natureza). Obviamente, com pleno apoio (embora nao total conhecimento) de Lula.


Escrito por Luis Nassif às 10h49

Gestão pública e empreendedorismo

Tabela publicada na última edição online da revista Exame faz parte da série nossa: avaliar governos é avaliar indicadores. Vamos a um deles, que sempre foi visto como um dos principais medidores da competitividade sistêmica e uma economia: o tempo médio para a abertura de uma empresa.

Com seu choque de gestão, em apenas três anos e meio Minas Gerais ficou em primeiro lugar, com o prazo médio de 19 dias. A Bahia tem uma tradição de boa gestão centralizada em Salvador. Às vezes há dúvidas sobre a consistência de seus bancos de dados – já que essa agilidade depende da integração de diversos bancos de dados.

O estado pior classificado, dos 13 analisados, foi São Paulo, com o prazo médio de inacreditáveis 152 dias, mesmo com toda a informatização implantada pelo ex-Secretário da Fazenda Yoshiaki Nakano, atrás de estados como Rondônia, Mato Grosso, Maranhão e Amazonas. O vice-lanterninha é O Rio de Janeiro, com tempo médio de 68 dias.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h29

A década do renascimento abortado

Um dos pontos centrais do meu livro – que já antecipei em coluna na “Folha” dias atrás – é que, ao contrário do que comumente se diz, os anos 80 não foram a década perdida. Pelo contrário, no curto espaço de cinco anos, o país foi preparado para a nova etapa que se seguiria ao da substituição de importações, que havia se esgotado no decorrer daqueles anos.

Foram anos em que surgiram os primeiros conceitos de qualidade total, de respeito ao meio ambiente, o Código de Defesa do Consumidor, a consolidação do Sistema Único de Saúde, o início do novo federalismo e, principalmente, a teoria da integração competitiva, a melhor proposta para a abertura gradativa da economia brasileira.

O controvertido Fernando Collor consegue identificar os principais eixos de inovação e, apesar de gigantescos erros cometidos, é a pessoa que acelera o processo de transição. O ritmo que imprime sobrevive a Itamar.

Depois, tudo é jogado na gaveta quando os economistas do Real tomam a decisão de deixar livre a conta capital (por onde entra o capital especulativo) e apreciaram o câmbio com o aumento paralelo gigantesco dos juros. Lula prosseguiu no mesmo caminho

O livro vai explicar a lógica por trás disso.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 09h00

Na Academia Brasileira de Letras

Pessoal, em breve vou fazer uma síntese de todos os argumentos contra e pró-cotas raciais que foram postados. Acostumem-se que o estilo do Blog cada vez mais será este, embora o modelo de blog não seja tão flexível quanto o de um fórum de discussões.

Só que vão ter que esperar um pouco porque estou no Rio de Janeiro, colhendo entrevistas para meus próximos livros.

Hoje (quinta) às 17 horas haverá um evento na Academia Brasileira de Letras (Av. Presidente Wilson, 203, 1o) do qual participo, e para o qual estão convidados os leitores do Rio de Janeiro. O tema será “A Construção do País e a Música Popular Brasileira”. A mediação será do Ricardo Cravo Albim. Estarão na mesa também o grande violinista pernambucano Cussy de Almeida, o sambista Martinho da Villa e, se não me engano, o historiador Zuza Homem de Mello.

Ao final, haverá a apresentação de uma ala da Mangueira – que, no samba enredo deste ano, celebrou a palavra.

Posteriormente, colocarei no Blog minhas considerações sobre o papel da música popular urbana na criação de uma identidade nacional nos anos 20, caminhando paralelamente ao descontentamento geral das classes médias com a falta de horizontes – e que resultou nas diversas quarteladas do período.

Hoje, julgo estarmos passando por processo similar. Depois do internacionalismo massacrante dos anos 90, há uma gradativa busca da identidade nacional por setores da classe média (vejo isso claramente nos botecos de música que freqüento) e uma insatisfação geral com a condução do país – expressa, desde o segundo governo FHC, em “quarteladas” midiáticas, CPIs e outras coisas mais. Toda essa insatisfação não é sinal de morte, é de vida. Há um leão pronto para ser parido, de um novo país. Esse, aliás, será o tema do meu próximo livro, “Os Cabeças de Planilha”.


Escrito por Luis Nassif às 08h56

26/07/2006

Lalão, o pedreiro

Já escrevi algumas vezes que se houvesse a aplicação de princípios de direito econômico na música, o Rio de Janeiro seria punido por formação de cartel.

Acabo de chegar de uma roda de choro no Flamengo, no Rio, com um conjunto de músicos que brilharia em qualquer palco do mundo. O apartamento é do Rogério Caetano, o Rogerinho Sete Cordas, que o Reco me apresentou no Clube do Choro em Brasília, há alguns anos. Já era dos melhores. E não parou de crescer musicalmente, nem parou em Brasília: seguiu para o Rio.

Comandando a roda o gaúcho Yamandu Costa, que conheci aos 18 anos nos palcos do Tom Brasil. Muitas vezes exagera na velocidade, mas seu talento é ilimitado. A velocidade vem como se fosse um vulcão interno que não consegue parar dentro dele. Saiu do Rio Grande, parou no Rio.

Depois, o Alessandro, do Choro Rasgado, um piracicabano que começou a surgir para o choro há alguns anos no “Ó do Borogodó”. Toca de tudo, de violão a bandolim, e tem um nível quase similar ao do Yamandu. De Piracicaba foi para São Paulo. Vai acabar parando no Rio.

O quarto da roda era Armandinho, o bandolinista que conseguiu promover um corte na era Jacob e criar um novo estilo de tocar bandolim à altura do mestre maior. Tornou-se conhecido quando chegou ao Rio. Depois, chegou meu velho companheiro do Bar do Alemão, o Arismar do Espírito Santo.

E tocaram o paraguaio Barrios, e tocaram o venezuelano Lauro, e tocaram o argentino Eduardo Falú com um virtuosismo que não se vê nem em John  Williams. Inacreditável o que fizeram com a Catedral, de Barrios, com a Valsa Criola, de Lauro, com a Quartelera, de Falú.

No final da minha estada, Yamandu sacou do coldre uma saraivada de choros de primeiríssima linhagem, uma mistura de Canhoto da Paraíba com Garoto, de uma sofisticação harmônica e melódica inacreditáveis. Os choros eram de Lalão.

Quem é Lalão? Lalão é um pedreiro que Yamandu conheceu em Recife há dois anos. Deve ter perto dos 50 anos. Este ano, Yamandu voltou só para gravar o gênio. Me disse que além de compor aqueles choros, Lalão interpreta como ninguém.

Vivo repetindo aos que falam em decadência da música brasileira: hoje em dia se tem a mais talentosa geração de instrumentistas da história. Mas poucos sabem. E menos ainda sabem que lá no Recife existe um pedreiro de nome Lalão capaz de compor choros que deixariam vermelhos de inveja os melhores harmonizadores do jazz.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 23h42

A favor das cotas

Do leitor Eduardo Guimarães

Há momentos em que nenhum indivíduo que se pretenda merecedor de seus direitos como cidadão pode deixar de cumprir com seus deveres, mesmo que estes sejam abstratos como o de que todos devem se posicionar contra injustiças, por isso preciso me manifestar quanto ao editorial As cotas inconstitucionais (23/6).

Primeiro é preciso que algo fique bem claro para os que lerem estas linhas, mesmo que sejam poucos: a base onde está assentado o conceito de escola pública é a da necessidade de que quem não dispõe de meios de pagar a privada tenha onde buscar ensino. E o ensino superior é apenas a última etapa da formação escolar de qualquer pessoa mesmo que a maioria delas jamais consiga concluir os estudos, principalmente porque aberrações como a universidade pública gratuita ser acessível só aos estudantes mais ricos existem neste País.

Sempre que a discussão vem à baila dizem que ela serve para mascarar a má qualidade dos ensinos fundamental e médio públicos, mas a verdade é que argumentar com o problema dessa baixa qualidade da escola pública pré-universitária é que serve, sim, para mascarar a injustiça que é os estacionamentos das universidades públicas contarem com quase tantos carrões quanto elas com alunos: não há perspectiva visível de melhora substantiva nos ensinos públicos fundamental e médio, portanto os que estão fora do ensino universitário, sendo que o Estado teria obrigação de oferecê-lo a eles por não poderem pagar, continuarão fora.

Claro, também, que é absurda a idéia de que quem enxerga o escândalo que é a quase total exclusão de pessoas não-brancas nas universidades públicas, se defender cotas que permitam aos discriminados o acesso a elas é que as estaria discriminando por achá-las incapazes de vencerem por si só. Isso é loucura. O que se prega é que esses discriminados o que não são é super-homens, capazes de - mesmo a despeito de não terem sido preparados adequadamente, de alimentarem-se mal e de serem obrigados a trabalhar para se sustentar - passar em vestibulares onde a disputa com os concorrentes ricos é totalmente injusta.

No debate travado entre o presidente Lula e seus adversários durante o primeiro turno da campanha eleitoral do ano passado, na rede globo, ele se comprometeu com as cotas nas universidades, e esse foi um dos fatores que me levou a votar nele. O que se espera agora do mandatário é que não dê ouvidos a essa cantilena sobre as cotas, que é o que tem mantido os que precisam fora das universidades que para eles foram destinadas, e cumpra com sua promessa.

 


Escrito por Luis Nassif às 01h02

As ondas eleitorais

Pessoal, para não permitir que o blog caia no maniqueísmo que tem caracterizado a campanha política, vamos a algumas explicações sobre a nota abaixo:

1.      Limitei-me a analisar o movimento de ondas que caracteriza as eleições, sem emitir juízo de valor. Estou analisando movimentos de opinião pública que se repetem em cada eleição.

2.      Cada “onda” tem seu potencial de alta, muito ligado ao carisma do candidato mas, também, à estrutura dos partidos que lhe dão sustentação.

3.      Justamente por isso, supus que a “onda” Heloisa teria vida curta. A pesquisa de hoje do IBOPE confirma essa visão.

4.      Muito provavelmente Alckmin subirá até certo limite de alta, depois poderá dar sinais de saturação de novo. Ao avaliar que a “onda” Alckmin poderá crescer com a apresentação dos planos de campanha, não estou dizendo que Alckmin é bom ou mau candidato, se foi bom ou mau governante. O fato da “onda” Alckmin subir, também não significa que irá subir indefinidamente. A “onda” Alckmin tem maior capacidade de se manter justamente devido à estrutura nacional dos dois partidos que lhe dão sustentação. Mas é evidente que falta carisma e currículo ao candidato.

5.      No fim, a eleição será decidida, mesmo, entre o lulismo e o anti-lulismo.


Escrito por Luis Nassif às 00h54

25/07/2006

Caros e baratos

Há uma dinâmica curiosa nas eleições. No começo, há um revezamento de curvas de crescimento de diversos candidatos, até se consolidarem o favorito e seu principal adversário. É um movimento parecido com o mercado de ações, no qual algumas papéis são considerados “baratos” (isto é, custam menos do que a percepção do investidor sobre o que valem), atraem investidores, as cotações se elevam até que eles ficarem “caros” –e aí, começa o processo de venda dos papéis.

Em 2002, Roseana, Garotinho e Ciro Gomes experimentaram seus momentos de elevação. Depois desabaram e a eleição acabou decidida entre Lula e Serra.

Nas atuais eleições, o que se observa é o seguinte (e me baseio apenas no “feeling” de quem tem algum tempo de prática acompanhando as “ondas” do mercado):

1.      Lula foi alvo de uma campanha sem quartel, com o escândalo do “mensalão”. A campanha passou do ponto, e Lula ficou “barato”. Estacionou em um nível alto de aprovação e depois subiu um pouco. Agora, à medida que cessam os ataques indiscriminados, começam a aparecer defeitos reais e Lula está ficando “caro”. O salto alto acentua essa percepção. Isso deve levar a uma queda na sua popularidade nas próximas pesquisas.

2.      Na falta de alternativas atraentes, Heloisa Helena ficou a bola da vez. Irá crescer mais um pouco, inclusive ganhando parte da opinião pública não ideológica, até ficar “cara”. Aí a curva deve se inverter.

3.      Geraldo Alckmin está começando a ficar barato. Começou a campanha “caro”, apresentado como gestor competente. Depois, seu estilo insípido e a análise da gestão em São Paulo derrubaram o encantamento. Agora, ele está ficando “barato”. Quando começar a apresentar seus planos de governo, a tendência será crescer.

Provavelmente todas essas ondas, depois de assentadas, deverão levar a um segundo turno entre Lula e Alckmin.


Escrito por Luis Nassif às 10h00

24/07/2006

As cotas raciais

Como o tema está quente e acabou ocupando o espaço de discussão de outro post, vamos centralizar aqui as discussões.

Porque sou contra as cotas raciais:

1.      Porque eu acho que o problema do acesso à Universidade é um problema social, não racial.

2.      Porque vai criar dois tipos de estigma para os pobres e favelados de outra cor: serão discriminados fora do seu meio por serem favelados; e no seu meio por não serem negros.

3.      Porque não existe o conceito de raça no Brasil. Se temos uma miscigenação, o que vai definir o negro? A parte física, externa? Conheço inúmeros casos de famílias mulatas em que um dos filhos tem traços de branco e outro traços de negro. Qual é a régua que vai medir as diferenças.

4.      Porque investe contra o sentido da meritocracia no ingresso ao vestibular, além de cometer abusos estatísticos. Na Bahia mais da população universitária é negra, mesmo porque a sociedade baiana tem mais negros. Como estabelecer a mesma cota para ela e para uma sociedade em que a maioria dos alunos é branca, como São Paulo.

Por isso mesmo, a melhor solução que vi foi na Unicamp. Lá se fez um trabalho estatístico entre os egressos da escola pública que passaram no vestibular. Constataram que esses alunos tiveram um desempenho bem superior à média, depois de entrarem. A razão é simples: se, em desigualdade de condições, conseguiram passar no vestibular, em igualdade, seu desempenho fica acima da média.

O que a Unicamp fez foi definir pontos a mais no vestibular para todos os egressos do sistema público. E pouca coisa a mais, sobre esses pontos, para minorias raciais.

A medida permitiu um crescimento substantivo das matrículas dos egressos de escola pública, sem atropelar a meritocracia da Universidade, sem criar conflitos raciais e coisas do gênero.

E, tenho certeza, por terem sido forjados na luta, esses alunos em breve constituirão a elite acadêmica do país.


Escrito por Luis Nassif às 16h30

Pombos e falcões

Há uma visão torta sobre as guerras e as radicalizações contemporâneas. Não se trata de uma guerra de Israel contra Líbano; como não se tratava de uma guerra dos Estados Unidos contra o Iraque.

Historicamente há uma clara divisão de poder entre pombos e falcões por ocupação de espaço político. Pombos prosperam em períodos de paz e de construção; falcões em períodos de guerra. Por isso mesmo, a manutenção de um estado permanente de guerra latente interessa tanto aos terroristas de Israel quanto aos terroristas islâmicos. O verdadeiro adversário do radical israelense é o liberal israelense.

Em períodos de paz, o maior dos estadistas da guerra perde expressão. A prova maior é a derrota de Winston Churchill para o governo inglês, nas primeiras eleições depois da vitória na Segunda Guerra.

A questão de Israel é que os radicais conseguiram uma supremacia incontestável. E, para mantê-la, há a necessidade permanente de criar inimigos externos e de radicalizar nas ações.

Israel caminha para ser um estado fundamentalista. E é curioso o fato de, mesmo sendo uma das poucas democracias da região, não logrou deter a selvageria de sua política externa. São selvagens com armamentos de última geração.


Escrito por Luis Nassif às 14h34

"Stock options" e informalidade

Um dos grandes vazamentos tributários no Brasil são os “stock options” – opção do executivo de receber remuneração em forma de ações da empresa. Nos EUA este tema esta sendo investigado pela SEC (a CVM local) e IRS (a Receita).

No Brasil, várias empresas e bancos multinacionais oferecem a seus executivos programas de ações e opções de suas ações no exterior. O problema é que como o ativo subjacente oferecido como remuneração encontra-se no exterior, na maioria das vezes os executivos não declaram os valores recebidos para efeito de IR no Brasil.

Por outro lado, as empresas também não recolhem tributos e encargos sobre esta parcela da remuneração dos executivos. Portanto, o fisco perde dos dois lados.

Também não existe transparência para a CVM quanto à posição que executivos têm em ações e liquidez de recursos “off-shore”. Isso facilita a evasão de divisas e pode levar a outras infrações como investimentos não fiscalizados pela CVM, abrindo as portas para a manipulação de investimentos e “insider trading” (informação privilegiada sobre a empresa).

 A solução para isso seria as autoridades brasileiras exigirem que os empregadores fornecessem demonstrativos de rendimentos consolidados de seus funcionários e que fossem obrigados a recolher na fonte os encargos sobre rendimentos no exterior.

Algumas empresas já estão fazendo isso corretamente, mas a grande maioria ainda atua na ilegalidade e clandestinidade.

Vai ser difícil combater os crimes de sonegação, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e manipulação de mercados, todos eles umbilicalmente ligados e comuns no Brasil de hoje, sem fechar todas as saídas.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h21

23/07/2006

Do leitor André Araújo

A percepção de que a existência de um Estado judaico na Palestina iria criar sérios problemas com os árabes lá residentes já estava clara em 917 quando o Governo britânico emitiu a Declaração Balfour que previa a criação de um lar judeu na Palestina.

A Inglaterra recebeu da Liga das Nações o mandato sobre a Palestina em 1920 e em 1937 propôs a divisão em dois Estados, rejeitada pelos árabes.

Essa é a raiz primeira da atual crise do Líbano e todos os desdobramentos desde 1917 até hoje remetem à mesma origem.

A idéia de que se destruindo o Hezbollah acaba o problema de Israel é falsa. O Hezbollah, assim como o Hamas, são apenas exteriorizações ocasionais de uma revolta latente entre árabes que rejeitam a criação de Israel nas terras deles  e que se acham injustiçados  pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, patronos do nascimento desse Estado.

Liquidado o Hezbolah no dia seguinte aparecerá outro movimento, porque o problema que lhe deu origem permanece.

A capa de terrorismo também é insuficiente. Na história da criação do Estado de Israel existem  raízes terroristas consideradas heróicas, como o Grupo Stern, chefiado por Menachem Begin, posteriormente Primeiro-Ministro de Israel e que explodiu o King David Hotel em Jerusalém matando 245 soldados britânicos, além dos grupos Haganah e Irgum, com longo currículo de explosões e atentados. Israel introduziu o terrorismo no Oriente Médio antes do primeiro árabe puxar um detonador.

O atual ataque ao Líbano tem contornos novos, que não existiram nos anteriores conflitos. Os libaneses maronitas, que são hoje dois quintos da população libanesa, no geral eram anti-muçulmanos, anti-Síria e pro-Israel. O ataque desproporcional e excessivo, que não poupa nem hospitais e ambulâncias da Cruz Vermelha, fez Israel perder apoios nesse grupo.  Parece pouco lógico para Israel atacar em tal extensão a população civil e a infra-estrutura libanesa. Não fica claro qual o objetivo estratégico que será atingido com essa ação. Seria forçar o Governo libanês a expelir o Hesbollah? Mas se não conseguiram isso em momentos de prestigio como fazê-lo após a destruição do País?

A atitude dos Estados Unidos também é uma novidade. O apoio americano a Israel vem desde a criação do Estado, mas geralmente era mais equilibrado. Em 1956 o Governo Eisenhower obrigou Israel, França e Inglaterra a desocuparem o Canal de Suez, apesar do Secretario de Estado John Foster Dulles detestar o Presidente egípcio Gamal Abdel Nasser. O objetivo do Governo dos EUA era manter o equilíbrio regional. Hoje, meio século depois, o mesmo Governo joga na instabilidade regional como estratégia, linha anti-histórica para uma grande potência mundial.

Está claro que este conflito não vai conduzir a uma nova situação de equilíbrio. Ao contrário, o conflito tem todas as condições para aumentar a inquietação, os ódios e a instabilidade no Oriente Médio. Estadistas de maior envergadura como Rabin ou mesmo Sharon não teriam provavelmente jogado essa cartada tão arriscada. Dificilmente vão acabar com o Hezbollah, mas vão liquidar com o Estado libanês, um Estado em geral pró-Israel e importante para o equilíbrio regional, tampão entre a fronteira norte de Israel e a Síria. Por outro lado, na fronteira sul aumenta a instabilidade e a insegurança de Israel. Em Gaza, uma população economicamente destruída, sem perspectivas, confinada em um gueto entre o Exército de Israel e o mar, o que se pode esperar? 

Ao norte, ao invés de acabar com o Hezbollah vão aumentar o seu capital político e prestigio entre as massas árabes. O imaginário islâmico dá grande valor ao heroísmo e ao sacrifício.

As ações do Estado de Israel, com exceções em poucos períodos,  como os de Rabin, têm um componente de desbalanceamento, de paranóia, que em nada tem ajudado a causa judaica. Geralmente os EUA continham esse arroubo, mas agora em Washington há um Governo mais paranóico do que o de Tel-Aviv e que ao invés de moderá-lo,   atiça-o.

Com essa atitude de agressividade e arrogância os israelenses jamais vão acabar com as ameaças terroristas. Se a História pode ensinar alguma coisa, tudo indica que vão aumentá-la e perpetuá-la.


Escrito por Luis Nassif às 20h24

Os dólares de Cuba

A verdadeira história dos dólares de Cuba ainda não foi contada. No sábado, saiu a capa da “Veja” falando dos dólares e do diplomata que os teria trazido em caixas de bebidas: Cervantes. Trata-se do mais conhecido diplomata cubano, com largas ligações com o Brasil desde os anos 80. Dizem ser um sujeito refinado, bom papo.

Na terça-feira, haveria um jantar com Paulo Markun e Marcelo Bairão, do programa Roda Viva, da TV Cultura. A intenção seria conseguir uma entrevista exclusiva com Fidel Castro, tendo como gancho a comemoração dos seus 80 anos.

Os dois jornalistas acharam que Cervantes iria cancelar o jantar. Que nada! No dia e na hora marcado, lá estava ele no restaurante, obviamente negando toda a história publicada. Embora seja figura fácil no circuito jornalístico, de sábado a terça não havia sido procurado por nenhum jornalista para repercutir a história.

Lá pelas tantas, Cervantes resolveu ir ao toilette. Bairão aproveitou e foi também. Lá, Cervantes conferiu que estava sem reais no bolso, e perguntou se Bairão poderia trocar uma nota de cem dólares.

Bairão trocou e levou os dólares cubanos para casa, sem ser incomodado pela Polícia nem pela imprensa.


Escrito por Luis Nassif às 18h33