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05/08/2006

FHC e os temas complexos

Há um ponto em que há unanimidade sobre Fernando Henrique Cardoso, a ironia afiadíssima e o jogo de cintura excepcional, mesmo quando desafiado a falar sobre temas torturantes. Por exemplo, sobre o que pensa do candidato Geraldo Alckmin.

Confira na entrevista concedida a David Friedlander e Guilherme Faria, na cada vez melhor revista “Época” (clique aqui)

(...) ÉPOCA - Lula não é um líder?

FHC - Ele é. Foi o que aconteceu no PT. Sobrou o Lula, porque ele é líder. O Lula é grande tático, mas não é um estrategista. A liderança dele é tática. Ele sempre se sai bem taticamente, mas vai para onde? Ele é muito intuitivo. Mas, no mundo moderno, é preciso mais que intuição.

ÉPOCA - E o Geraldo Alckmin?

FHC - Ele tem tudo o que é necessário para ser presidente, ponto.

ÉPOCA - O senhor afirmou recentemente que José Serra era o mais preparado para ser presidente e pegou mal.

FHC - Não pegou mal. Todo mundo sabe que eu acho isso. O Geraldo também sabe. O Serra está preparado para ser presidente. É experiente. O Geraldo também tem experiência. Foi deputado e se saiu bem como governador. O mais difícil era o Lula, que tinha menos experiência e pagou um preço por isso. Agora, existem vários tipos de liderança. O Geraldo consegue, sem ter o carisma do Lula, manter uma boa conversa com a sociedade. (...) O grosso da população está mais interessado no jeitão da pessoa que no discurso. Você tira o som do Lula e vê que ele fala. A Heloísa Helena fala também. O Geraldo fala. Ele não fala com os mesmos públicos que ficam entusiasmados com a Heloísa Helena, mas fala.

Quando o assunto é complexo, com toda sua habilidade publicamente FHC fala. Mas não diz. Em particular, fala e diz.


Escrito por Luis Nassif às 20h48

O homem que fez JK

Um dos personagens símbolos da época de ouro do Rio de Janeiro foi o empresário Horácio Carvalho Jr.. Elegante, amante da boa mesa e das mulheres bonitas, nos anos 40 dominou a cena do Rio, junto com sua esposa Lilly, com Walther Moreira Salles e Helene, Aloysio Salles e Peggy.

Cedo, se aproximou de José Eduardo Macedo Soares, até o advento de Carlos Lacerda e Samuel Wainer considerado o “príncipe dos jornalistas brasileiros”. Homem de coragem épica, Macedo Soares era homossexual, morava sozinho em um apartamento, e foi pai de Lotta Macedo Soares que, no governo Carlos Lacerda, faria grandes obras na cidade, como o aterro do Flamengo. Bem mais velho que Horácio, Macedo Soares o adotou como o filho que não teve.

Juntos, José Eduardo e Horácio deram início a uma empreitada jornalística que produziu um dos jornais mais influentes da República, o “Diário Carioca”. O jornal era francamente pró-Dutra e anti-Vargas. Quando Vargas foi reeleito em 1951, a dupla se desfez do jornal. Depois, o recomprou de Danton Jobim.

Horácio teve papel decisivo na eleição de Juscelino Kubitscheck. De JK, Délio Mattos (não confundir com o brigadeiro), executivo de empresas de Horácio, ouviu uma frase reveladora: “Eu devo a esse homem o governo de Minas e da República”.

Foram duas as contribuições de Horácio. JK tinha como vice-governador Clóvis Salgado, do PRM (Partido Republicano Mineiro), liderado pelo ex-presidente Arthur Bernardes. Se não houvesse acordo com o PR, JK sairia para a campanha presidencial deixando em seu lugar, no seu próprio estado, um adversário político.

Coube a Horácio costurar a aliança, que consistiu em JK apoiar a candidatura de Arthurzinho Bernardes (o filho do Arthurzão) para o Senado.

O segundo grande movimento de Horácio foi em uma conversa com Jango, que lhe comunicou que estava saindo para convidar Oswaldo Aranha para ser o candidato à presidência pelo PTB. Horácio foi incisivo:

-- Então você, como político do Rio Grande do Sul, estará liquidado, porque a liderança será do Aranha. Porque não se liga a JK?.

Jango respondeu não ter a menor intimidade com Juscelino. Horácio resolveu na hora:

-- Podemos marcar um encontro de você com ele. Vou ligar para Belo Horizonte e perguntar se Juscelino pode vir para cá imediatamente.

JK atendeu imediatamente ao chamado do amigo e, na seqüência, acertou a dobradinha com Jango, que lhe garantiu a eleição. JK deixou uma carta com Horácio, autorizando-o a compor com Jango o ministério que caberia ao PTB. Depois, ofereceu o Ministério da Agricultura e a embaixada de Paris para Horácio, que recusou ambos, alegando que a embaixada era cargo para gente rica.

Nos anos seguintes, se não era rico, rico Horácio se tornou. Junto com Raimundo Mello Vianna, adquiriu a Mineração Morro Velho, envolta em grandes problemas trabalhistas e, depois a CBMM. Foi um momento histórico, aquele da nacionalização de um símbolo nacional, a mina de ouro mais profunda do mundo.

Passado o governo Vargas, Horácio se voltou novamente para o “Diário Carioca”. Foi para a Europa, comprou uma rotativa alemã e abriu escritório na Avenida Rio Branco 25, Sobre Loja. Fez uma revolução, com uma equipe onde pontificavam Danton Jobim e Pompeu de Souza. Lançou o estilo das notas curtas, próprias para os novos tempos, em que as pessoas liam os jornais enquanto tomavam ônibus e bonde, lançou o Suplemento Literário e o Carioquinha, um suplemento infantil.

Quando veio a Revolução, constatou que o jornal não poderia sobreviver sem um clima de liberdade. Chamou Délio, mandou-o quitar todas as dívidas, pagar as indenizações, dispensar os funcionários e fechar o jornal. O DC tinha 35 mil assinantes espalhados por todo o Brasil.

No dia 31 de dezembro de 1966, data do fechamento do jornal, os jornalistas do Rio acorreram em massa à redação do jornal e choraram, juntos com os que saíam, a morte de parte da história da imprensa.

Horácio morreu em 1983.

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Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 19h03

O CD de Bonfá

As principais faixas do CD “Luiz Bonfá, Solos in Rio”, são:

  1. “Night and Day”, uma versão soberba da canção de Cole Porter.
  2. “Sambolero”, de Bonfá: uma melodia inesquecível, das mais belas já compostas menos conhecida. mas à altura de “Manhã de Carnaval”.
  3. “Calypso Menor”, de Bonfá: outra demonstração da capacidade melódica de Bonfá.
  4. “Bonfabuloso”, de Bonfá: uma valsinha linda, que depois assume o sincopado do jazz com uma classe à altura de Barney Kessel.
  5. “Quebra mar”, de Bonfá: samba ao estilo clássico de Garoto, pré bossa nova, mas no formato assimilado pelo novo gênero.
  6. “Luzes do Rio”, de Bonfá, mostra um balanço que em nada fica a dever a Baden.
  7. “Perdido de Amor”, de Bonfá: um dos mais belos sambas-canções já compostos, consagrado por Dick Farney. Aqui, Bonfá canta e se acompanha.
  8. “Amor sem Adeus”, com Tom Jobim.
  9.  “A Brazilian in New York”, de Bonfá, gravação inédita, uma gravação inédita de uma obra impressionantemente densa.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 18h51

O violão soberbo de Bonfá

Um estupendo relançamento da gravadora MCD, o “Luiz Bonfá Solo in Rio”, com gravações de 1959 da  da Emory Cook Collection, é a comprovação definitiva porque Bonfá é considerado dos maiores violonistas da história.

O CD traz 31 gravações doadas pelo engenheiro de som americano Emory Cook para o Smithsonian Institution. Constam dele as 17 faixas gravadas no LP  “O Violão de Luiz Bonfá” mais meia hora de material inédito, com algumas composições jamais gravadas antes. E é a comprovação definitiva do gênio de Bonfá.

Acompanha uma introdução impecável de Anthony Welles sobre Bonfá. É nela que me baseio nessa crônica.

Assim como outros grandes violonistas que revolucionam o instrumento no Brasil e na América do Sul, Bonfá vem da formação erudita para a popular. Nasceu em 17 de janeiro de 1922, filho de brasileira com italiano imigrante. Começou a aprender violão aos onze anos de idade. Em uma festa no Rio de Janeiro conheceu o grande mestre do violão brasileiro erudito do século, o uruguaio Isaías Sávio (1902-1977) que freqüentava nossa casa em Poços de Caldas. Assim que ouviu Bonfá tocar, Sávio ofereceu-se para ser seu professor.

Sávio fora aluno do catalão Miguel Llobert, o mais destacado aluno de Tarrega. Por ele passaram grandes nomes do violão clássico, como Carlos Barbosa-Lima (apresentado por Bonfá), Paulo Bellinatti e Marcus Pereira, além de meu primo Oscar que, não fosse a Física, teria sido um dos grandes. Sávio permitia flexibilidade no aprendizado, não amarrava o aluno em métodos inibidores da criatividade.

Bonfá começou a ter aulas com Sávio aos 18 anos de idade. O mestre previa que Bonfá se tornaria um dos maiores violonistas clássicos do mundo, mas o apoiou quando decidiu se enveredar pelo violão popular.

Aí, Bonfá foi beber nas águas dos Cassinos e da evolução de música instrumental brasileira no pós-guerra, um período de extraordinária fertilidade, que forneceria as bases harmônicas para a futura revolução do samba-canção e da bossa nova. Foi violonista e cantor do Quitandinha Serenaders, sendo substituído depois por João Gilberto. Nesse período compôs “Ranchinho de Palha”, “Sem esse Céu”, “Canção do Vaqueiro” e “De Cigarro em Cigarro”.

Também caiu de cabeça nas composições para violão, com o “Sambolero” – uma homenagem a um ritmo que larga influência no que de melhor a música brasileira produziu no período, mas relegado a segundo plano por acadêmicos preconceituosos que tentaram se apossar das avaliações sobre a bossa nova--, “Uma Prece”, “Batucada” e “Dança Índia”.

Em 1946 Bonfá conheceu o pai de todos, o homem que reinventou o violão, o bandolim e o cavaquinho brasileiro, Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, sete anos mais velho do que ele. Foi Garoto que, além de influenciar no estilo de Bonfá, proporcionou-lhe o primeiro emprego na Rádio Nacional.

A primeira gravação-solo de Bonfá foi em 1945. Depois, mais 19 compactos até chegar ao LP de 1959.

Nas canções, Bonfá foi filho direto do samba-canção. Junto com João Gilberto, Tom Jobim, Carlos Lyra, Laurindo de Almeida e, logo depois, Baden Powell, integrou o primeiro time realmente internacional de instrumentistas e compositores brasileiros.

Em 1956, uma de suas músicas integrou a trilha sonora de “Orfeu da Conceição”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que depois tornou-se filmes de Marcel Camus, vencendo a Palma de Ouro em Cannes, em 1959. Era “Manhã de Carnaval”, que depois se tornaria uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos.

Em 1957 seguiu para Nova York, antes da bossa nova se firmar. Um encontro casual com Mary Martin, estrela e cantora da peça “Peter Pan”, na Broadway, abriu-lhe caminho para uma excursão por sessenta cidades norte-americanas. Nos EUA, sua composição “The Gentle Rain”, para o filme do mesmo nome, segundo Weller, tornou-se um marco na história do jazz.

Em 1971, Bonfá retornou ao Rio para ficar. Sua última grande gravação foi o LP “Introspection”, de 1972. Voltou em 1980 para os Estados, tocando em vários clubes.

Suas melhores gravações não foram lançadas em CD. Agora, graças a Emory Cook, falecido em 2002, parte da legenda de Bonfá vem à tona.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 18h44

O Manifesto Protestante

Recebo de Gildo Marçal Brandão, enviado por Derlei Catarina de Lucca, o “Manifesto Protestante”, de um conjunto de igrejas evangélicas protestando contra a situação atual da política, das próprias igrejas e seus políticos.

À sociedade brasileira,

Nós, membros do grupo de discussões Cristãos Reformados, evangélicos de várias confissões protestantes, por meio deste manifesto, expressamos publicamente a nossa indignação quanto ao recente escândalo da "CPI dos Sanguessugas" que envolve parlamentares da bancada evangélica. (...) Pedimos às autoridades competentes que exerçam, com justiça e responsabilidade, a punição dos indiciados. Esperamos também que, com o mesmo rigor, sejam disciplinados em suas igrejas.

Por isso, é preciso que a sociedade brasileira tenha conhecimento de que muitos dos herdeiros históricos da "Reforma Protestante" não observam passivamente essas denúncias (...)

Lamentamos que, assim como o cristianismo do século XVI estava em decadência, manchado pela imoralidade de seu clero, escândalos de simonia, venda de indulgências, sede de poder, distorção doutrinária e podridão espiritual, as igrejas evangélicas brasileiras padeçam, hoje, de males semelhantes ou até piores que aqueles. (...)

1.      Sola Scriptura – somente pela Bíblia

(...) Reafirmamos que somente a Bíblia deve ser nossa única regra de fé e prática, a "carta magna" dos evangélicos. (...) Hoje, muitos evangélicos pregam, não a Bíblia, mas o personalismo, o materialismo, o curandeirismo, o profetismo, a auto-ajuda e o misticismo. (...)

2.      Solo Christo - somente por Cristo

(...) Reafirmamos que a salvação de cada homem ocorre somente por meio da obra infalível de Jesus, o Cristo. Muitas igrejas evangélicas brasileiras não mais anunciam "somente Cristo", mas sim a salvação mediante exorcismos, dízimos e uma obediência cega aos líderes, os quais, na verdade, são falsos mestres (...)

3.      Sola Gratia – Somente pela graça

(...) Protestamos contra as mais variadas barganhas em troca de favores divinos. (...) Protestamos contra uma igreja que se preocupa mais com o marketing e outras formas de agradar sua clientela, do que proclamar a simples mensagem da maravilhosa graça por meio de Cristo Jesus aos pecadores. (...)

4.      Sola Fide - Somente pela fé

(...) Protestamos contra a ressurreição de novas formas de indulgências que obscurecem a salvação somente pela fé. Exemplo disso é a compra de “objetos abençoadores”, aquisição de produtos ungidos e pregação de fórmulas de prosperidade financeira e emocional. (...)

(...) Reafirmamos que toda glória seja dada somente a Deus. Protestamos contra evangélicos que glorificam suas próprias obras, suas igrejas, seus templos, seus líderes e seus fiéis, mas não glorificam com suas vidas ao Deus Único e Verdadeiro. (...)

Final

(...) Suplicamos a Deus que tenha misericórdia de nossas igrejas, pois sabemos que o julgamento do Supremo Juiz começará na Sua própria casa. Suplicamos pelo Brasil para que tenha governantes dignos da imagem de Deus que carregam – sejam eles evangélicos ou não. (...)

A Deus somente toda a glória!

Respeitosamente ao povo brasileiro,

Cristãos Reformados

Brasil, Julho de 2006.


Escrito por Luis Nassif às 13h34

A visão governista das pesquisas

A análise abaixo foi coletada em conversa com alto integrante do Palácio do Planalto:

1. O fato de Lula ter 45% das indicações e 37% das espontâneas significaria consolidação de eleitores. Há um percentual alto que não trocaria Lula por nenhum candidato. Repare que, no caso da análise de Fátima Jordão, ela se baseia na pergunta “e se não votasse em Lula”.

2. Como os demais candidatos são fracos ou tendem a se desidratar, a candidatura de Alckmin só decolaria se tivesse um discurso suficientemente forte não apenas para conquistar os indecisos, mas para convencer o eleitor do Lula a não votar em Lula.

3. Escândalos não motivarão os eleitores – afirmação que coincide com a da Fátima. E Alckmin não dispõe desse discurso e, por suas alianças, não pode avançar sobre um ponto nas críticas à política econômica – porque herdada de FHC e porque nos setores do empresariado que o apóiam maciçamente, a política econômica é vista como virtuosa.

 


Escrito por Luis Nassif às 10h47

04/08/2006

O eleitor e as propostas

Fátima Pacheco Jordão se recorda de um episódio bem ilustrativo da importância que é, para o candidato, passar o recado para o leitor.

Em um dos debates nas eleições passadas, José Serra perguntou a Lula qual o seu programa para a saúde. Lula respondeu com menosprezo, e disse que ia entregar o programa para Serra ler em casa.

O marqueteiro Duda Mendonça tinha montado cinco grupos de telespectadores para monitorar o debate. Na mesma hora sua filha lhe telefonou alarmada: os cinco grupos tinham se indignado com a resposta de Lula. Que ele não respondesse a Serra, tudo bem, mas ele tinha obrigação de dizer ao eleitor.

No bloco seguinte, orientado por Duda, Lula deu um jeito de retomar o tema, e apresentar suas propostas.


Escrito por Luis Nassif às 20h37

A leitura das pesquisas

Fátima Pacheco Jordão é uma das principais analistas de pesquisas de opinião do país. Pela sua análise, há grandes possibilidades de segundo turno tanto em São Paulo quanto nas eleições para presidente da República. E, segundo ela, Geraldo Alckmin pode chegar ao segundo turno com condições competitivas. Fátima e seu marido, Fernando Pacheco Jordão, atuaram como analistas da campanha de ALckmin ao governo do Estado.

Sua leitura:

1.      Na pesquisa Folha, deu Lula com mais de 40% e, na indicação espontânea, com 37%. Mas a pergunta chave é outra: se não fosse votar em Lula, você votaria em outro candidato? Nesse caso o índice de respostas afirmativas foi superior a 60%, o que denotaria, segundo ela, a grande volatilidade potencial do eleitorado.

2.      Segundo suas análises, nem a questão da corrupção prejudicará Lula nem a da segurança a Alckmin. Os eleitores estarão muito mais focados nas propostas dos candidatos.

3.      O ponto fraco de Lula é o centro-sul; o de Alckmin, o nordeste. Lula é forte entre os homens, mas enfrenta enorme resistência entre as mulheres. E há ainda um grande potencial de migração do voto feminino para a candidatura alternativa a Lula.

4.      Parte relevante do eleitorado tende a definir seu voto nos dias finais da campanha. E os debates entre candidatos são cruciais. Na sua opinião, Lula foi derrotado por Fernando Collor não em função de uma suposta conspiração na edição do debate pela Globo, mas porque perdeu o debate mesmo. Nos dias anteriores, tinha se metido em uma maratona massacrante de viagens, e chegou ao debate completamente exaurido.


Escrito por Luis Nassif às 20h33

A reação americana

Do leitor André Araújo

Nassif,

Estão se formando vários comitês antiguerra nos EUA. Este cujo site retransmito é chefiado por Paul Craig Roberts, que foi editor associado do Walll Street Journal e Subsecretario do Tesouro dos EUA.  É também colunista do Business Week. O texto é impressionante.

Ele mostra o dano à nação americana causado pelo alinhamento dos EUA com Israel e a falácia da alegação que o Hezbollah usa escudos humanos e por isso a culpa da morte de civis é do Hezbollah.  Segundo ele, o Hezbollah por razões de segurança opera longe de agrupamentos civis porque teme ser delatado por espiões israelenses infiltrados na população. A principal arma do Hezbollah é a invisibilidade e a mobilidade e exatamente por isso fica longe das aldeias. Faz sentido.

 Os ataques israelenses a alvos civis, segundo ele, visam mesmo atingir a população civil em um processo de limpeza étnica, no sul do Líbano, parecido com o que os sérvios usaram na Bósnia, destinado a limpar a área.

O texto é muito bem articulado é consistente, principalmente porque produzido por um americano de elite, que nada tem a ver com árabes.

 Atalho para: http://www.antiwar.com/roberts/?articleid=9381


Escrito por Luis Nassif às 06h55

03/08/2006

O FED e a planilha

Do leitor Carlos de Brito,

Alan Blinder, que trabalhou no Fed durante o período Greenspan já mostrou que um Banco Central não deve seguir uma regra única, para evitar que a previsibilidade da sua ação facilite a ação dos demais agentes, que têm interesses próprios (lucro) e não necessariamente estão preocupados com o bem público (dever de um BC)(ver "Bancos centrais: teoria e prática", de 1999). Blinder discute longamente a questão de como usar vários modelos econométricos simultaneamente -- daí as reuniões da diretoria do Fed serem tão importantes. Estranho que o BC brasileiro siga modelos facilmente perceptíveis pelos agentes. Donde a conclusão inevitável: falta imaginação aos cabeça de planilha.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h41

O BC e as expectativas

Hoje, no “Valor” (clique aqui), o economista Antonio Prado retoma um tema que levantei em julho de 2003, na coluna que cunhou a expressão “cabeça de planilha”.  Minha coluna de 11 de julho de 2003:

Cabeça de planilha

(...)  Na política econômica, é fundamental a boa sinalização para as expectativas dos agentes econômicos. Quando o BC aumenta ou reduz os juros, quanto mais rápida for a adesão do agente aos sinais da política monetária, mais eficaz será a política.

vem o economista de planilha do BC –o sujeito que monta o “modelito”—, define um objetivo (a meta de inflação) e correlações entre ele e a taxa de juros básica da economia. (...) Definido o modelo, cada departamento econômico de instituição monta a sua planilha. E sua competência consiste em acertar os resultados da planilha do BC, paraadivinhar” os próximos passos dos juros. (...) Na gestão Armínio Fraga, o dono da planilha era Ilan. Ele saiu, mas a planilha ficou. (...)  Mas quando o modelo é colocado em marcha, cria uma corrente de apoio que nada tem a ver com sua consistência. Não se trata de analisar se o nível dos juros e câmbio está correto para o equilíbrio da economia, mas se reflete a planilha do Ilan. Porque os analistas de mercado ganham dinheiro quando acertam o resultado da planilha do Ilan, e perdem quando erram.


Escrito por Luis Nassif às 15h03

O Chile e a planilha do Ilan

Cunhei pela primeira vez a expressão “cabeça de planilha” me referindo à planilha do Ilan Goldfajn, diretor do Banco Central na gestão Armínio Fraga. Ilan é quem controlava as expectativas do mercado com sua planilha. Apesar de ser muito mais sofisticado que seu sucessor Affonso Bevilacqua, Ilan faz parte do time das análises seletivas – que, em cada modelo bem sucedido, só levanta os aspectos que interessam às suas teses.

No seu último artigo, no Estadão de terça (clique aqui) Ilan tece loas ao modelo econômico chileno. Ele menciona o sistema anti-cíclico do Chile, de economizar quando o cobre está em alta para gastar quando o cobre está em baixa. Mas há uma regra de ouro que impede aumentos permanentes de despesa em períodos de alta da arrecadação.

Sustenta que o regime tem se caracterizado por uma menor intervenção no mercado de câmbio. E aí mistura análise e ideologia:

“Não obstante, a taxa de câmbio não se tem apreciado mais que nos outros países da região. Isto reforça a convicção no país de que políticas mais intervencionistas não teriam tido eficácia em suavizar os movimentos de apreciação cambial. Mas a verdadeira razão para o comportamento do câmbio é que o Tesouro tem acumulado o excesso de arrecadação com as vendas de cobre num fundo externo”.

Ou seja, sustenta que o governo intervém menos no câmbio, e como não houve apreciação da moeda local, isso prova que políticas mais intervencionistas não são eficazes para controlar o câmbio.

Em seguida, no mesmo parágrafo, explica que “a verdadeira razão” para o comportamento do câmbio é que o Tesouro tem acumulado o excesso de arrecadação com as vendas de cobre num fundo externo. Quer mais intervencionismo que isso?

Não menciona que o cobre continua estatizado, que o governo fica com suas receitas para utilizar no fundo de estabilização. E que, a qualquer sinal de aumento da inflação, o BC aumenta as taxas de 4,25% para 4,5% -- e não esses saltos mortais da política monetária brasileira.

Ilan acaba de sair da sociedade com Armínio Fraga na Gávea Investimentos. Ele está sendo preparado para presidir o Banco Central, em caso de vitória de Geraldo Alckmin. Em caso de vitória de Lula, fica o inefável Henrique Meirelles.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h34

Chico de Oliveira e Kujavsky

A respeito dos temas política, internacionalização e nova opinião pública, dois artigos imperdíveis, para serem lidos e meditados, de dois grandes intelectuais, pensadores instigantes, de posições políticas diametralmente opostas. Para ler, meditar e reduzir a influência da campanha eleitoral nos comentários dos amigos leitores do Blog:

A primeira é a entrevista bastante pessimista de Chico de Oliveira à Folha (clique aqui), bem conduzida pelo Fernando de Barros e Silva e Rafael Cariello, falando do fim da política com o atrelamento das decisões de política econômica à economia internacional.

A segunda, o contraponto de Gilberto de Mello Kujavsky em seu artigo no Estadão de hoje (clique aqui).

Os dois são exemplos notáveis de pensadores independentes, muito distantes das panelinhas que se formam na Universidade.

Aliás, tenho eliminado apenas os comentários ofensivos, mas seria interessante, dentro do ambiente do Blog, que fosse reduzido o nível de maniqueísmo. Todos aqui têm cabeça feita. Nenhum lulista vai convencer o anti-lulista a mudar de lado; e vice-versa. Por isso, seria muito mais produtivo que a discussão focasse o conceitual, em vez de cair pelo maniqueísmo.


Escrito por Luis Nassif às 14h21

02/08/2006

Sem plano de vôo

Nem Lula nem Alckmin têm plano de vôo algum. Do lado de Lula, há dois grupos tentando lhe fornecer a bússola. Um, o Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) da Presidência. Outro, o Ministro Tarso Genro com as conclusões do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Mas Lula é uma esfinge. O pobre do Coronel Oliva, do NAE, que faz um trabalho excepcional, fala com as paredes e seus assessores. Tarso tenta sistematizar as conclusões do CDES.

O que Lula pensar, ninguém sabe; se ele pensa sobre o tema, ninguém diz. A conseqüência é que mesmo os círculos palacianos acabam por recorrer à técnica dos analistas políticos, de se basear em discursos, frases soltas, declarações, para tentar adivinhar para que lado o Imperador vai.

É o resultado desse presidencialismo imperial torto que o país tem. Na disputa entre ortodoxos e não ortodoxos do PSDB, a decisão pessoal e intransferível de dar força aos ortodoxos foi de FHC. Não havia programa partidário, nem nada.

Com Lula, o quadro é pior porque sua figura despregou-se totalmente do PT. Fica, assim, o país inteiro nas mãos de uma pessoa, sem nenhuma forma de compromisso programático formal.

O mesmo ocorre com a oposição. Quem definirá a política econômica de Alckmin, a Casa das Garças, que pretende matar os pobres de fome e os ricos de vergonha (parafraseando o que Carlos Lacerda  disse a respeito do programa de estabilização de Roberto Campos); ou a linha não-ortodoxa de São Paulo. Quem irá arbitrar é.... o próprio Alckmin, que levou quatro anos pensando se o Rodoanel deveria ter ou não pedágio. E não conseguiu decidir.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 23h17

Os novos cidadãos

Um dos fenômenos mais interessantes do atual momento é o que o jornalista Franklin Martins chama de fim do efeito “pedra na lagoa”.  A opinião pública brasileira moderna começou a se formar nos anos 80. Nos anos 90 ganhou músculos e criou-se o efeito “pedra na lagoa”. Começava-se um movimento na chamada opinião pública midiática que, depois, ia se ampliando como as ondas da lagoa, até atingir o povão. Aí se tornava irresistível, e o impeachment de Fernando Collor é a prova maior.

Franklin ouviu do Montenegro, do IBOPE, e do Marcos Coimbra, da Vox Populi, que esse efeito-onda acabou nessas eleições.

O fato suscita boas indagações.

Nos últimos anos, as classes C, D e E ascenderam ao mercado de consumo e de cidadania. Hoje em dia, fazem parte da estratégia de venda de qualquer empresa moderna, da Nestlé ao Pão de Açúcar. Ao mesmo tempo multiplicaram-se os pontos de acesso à informação. A própria Internet já tem cada vez mais usuários da classe C.

Mas esse fenômeno passou despercebido da grande mídia, especialmente daqueles que apostaram no impeachment. Saíram atrás das primeiras denúncias – que procediam – e foram ampliando cada vez mais o fogo, certos de que comemorariam a queda de um presidente em seu currículo.

Nem sei se se pode atribuir a resistência ao fato das classes C e D terem acesso a outras fontes de informação. Mais provável é que sua ascensão ao mercado de consumo e cidadania coincidiu com a de Lula, visto como seu representante genuíno. Quando a campanha ganhou forte conotação elitista e preconceituosa, quebrou-se a magia da crença cega na mídia.

Aparentemente, depois de se incorporarem ao mercado de consumo, as classes C e D passaram a navegar no mercado da opinião. E é bobagem considerar que têm menos discernimento que a opinião pública midiática. O efeito-manada é similar. Habemus uma sociedade mais sofisticada, ainda que com duas pontas mal informadas, o que aumenta a responsabilidade do combate incessante à corrupção dentro das regras da legalidade.


Escrito por Luis Nassif às 23h10

Bush pai x Bush filho

Para quem acompanha a politica americana no Oriente Médio este artigo de hoje do New York Times é muito interessante. Demonstra a profunda divergência de pontos de vista e ação diplomática entre os Presidentes Bush pai e filho com relação à Israel.

O primeiro Presidente Bush jamais daria apoio integral à Israel em qualquer operação militar que pusesse em risco a estabilidade do Oriente Médio e isso está bem claro nas pesadas críticas que ex-Ministros de Bush pai fazem agora, conforme está no artigo, à atitude que consideram desastrosa do atual Presidente,  em dar cobertura ao ataque de Israel ao Líbano.

Para ler, clique aqui.


Escrito por Luis Nassif às 14h00

Delação premiada

O instrumento da delação premiada é um avanço no sistema de investigações do país. Mas precisa ser tratado com cuidado. O "delator premiado" é um criminoso, que atuava em quadrilha e quer ver sua pena reduzida. Ele é dono do seu depoimento, razão para que tudo o que diga seja devidamente apurado antes de ser divulgado e, de preferência, venha documentado. O que não for documentado serve como pista de investigação e, por isso mesmo, não deve ser divulgado antecipadamente, para não dse cometer injustiças e para não se atrapalhar as investigações. O que impede um criminoso, sem ter que provar suas declarações, envolver adversários na história e poupar aliados?

Lembre-se que o famoso caso das fitas envolvendo Sérgio Motta (o caso das compras de votos) juntava dois picaretas, um grampeando o outro, que nunca tinham estado com o Ministro. Apenas comentavam entre si sobre a possibilidade de Sérgio Motta estar por trás das propostas feitas pelo governador do seu estado.

 


Escrito por Luis Nassif às 13h01

Onde nasceu o Hezbollah

Do leitor André Araújo

Candente e tocante à manifestação do leitor Daniel sobre judaísmo e sionismo. A manifestação é mais que oportuna.

Sempre existiram judeus nos paises árabes e sempre foram bem  tratados. Em Alexandria, no Egito, até  a Revolução Nasserista de 1952, existia uma sólida comunidade judaica, mais de 150.000 pessoas, que lá estavam há séculos. No Cairo, até 1952, das seis principais lojas de departamentos, cinco eram de tradicionais famílias judaicas, como os  Cekurel.

A colônia judaica em Bagdá era importante e também secular, liderada pela família Sassoon. Aleppo, na Síria, foi o berço dos Safra, Safdié, Duek, Hariri, famílias judaicas de idioma árabe, tradicionais na cidade.

Tudo mudou depois da criação do Estado de Israel. Iniciou-se uma guerra que dura até hoje e parece nunca acabar.

Afinal, porque existe o Hezbollah? Porque o General Sharon entrou no Líbano em 1982 e autorizou um massacre nos acampamentos palestinos de Sabra e Chatilla, onde pereceram 17.000 homens, mulheres e crianças, famílias inteiras foram massacradas em três dias, numa área cercada por tanques israelenses. Desse massacre nasceu o Hezbollah, formado pelos sobreviventes.

Da mesma origem é o Hamas, fruto da degradação e miséria dos palestinos, hoje confinados como gado doente em uma estreita faixa perto da qual a favela da Rocinha é o paraíso.

O problema eterno dos judeus, já conhecido pelo Imperador Adriano  é a arrogância. Quando a atual Ministra do Exterior de Israel diz que a principal razão da guerra libanesa não é tão somente a volta dos dois soldados mas sim liquidar quem teve a audácia (ela dizia  how they dare?) de quem ousou lançar mísseis contra Israel, está nessa expressão uma extraordinária atitude de arrogância.

Dessa atitude vem o resto. Toda a ação de Israel no Líbano é movida pela arrogância. Por isso eles não tem cuidado com os alvos civis, nem se incomodam em destruir um prédio de dez andares com gente dentro, como fizeram no dia 26 passado em Tiro.

Como então Washington reclama do Hezbollah, da Síria, do Irã, do Bin Laden? Todos são movidos pelo sentimento de vingança, uma atitude emocional cujo gatilho foi disparado pela extraordinária arrogância de Israel e de seu parceiro americano.

A tragédia é não entender o Oriente Médio e não entender o povo árabe, um povo que cultua a paz e a sabedoria, que acolheu os judeus fugidos da Península Ibérica no século XV (são os  safaradis) e recebeu em paga essa bofetada histórica de ingratidão e crueldade.

Quanto aos Estados Unidos, eram até a Segunda Guerra o País mais admirado pelos árabes. A nata da elite árabe estudou na Universidade Americana de Beirute e o prestigio dos americanos era enorme na região. Tudo jogado no lixo, talvez para sempre.

Não foi sempre assim.  Os EUA apoiaram Israel desde a criação do Estado judeu, mas não incondicionalmente.  A inflexão pela aliança total veio com os neocons, o núcleo ideológico do Governo Bush filho, formado por oito intelectuais, todos judeus, liderados por Richard Perle.

O Governo Bush queimou as pontes com o mundo árabe e dificilmente serão reconstruídas. Será uma enorme perda para os EUA, perda de um papel arbitral e imperial, posições que exigem não só reverência mas também admiração.  

Por essas ironias da história, uma crise grave como essa tem no comando do Governo de Israel um Premier sem experiência e um Ministro da Defesa lombrosiano, ambos sem qualquer liderança nas forças armadas.

O General Sharom, que não era nenhuma flor, dificilmente teria executado um plano tão insensato confirmando o velho adágio de que os militares em geral são menos belicistas do que os civis, eles conhecem a o cheiro da pólvora e a dor da bala na carne.

Felizmente para a humanidade existem judeus civilizados que estão abominado essa aventura louca. Pena que não sejam a maioria, mas talvez essa guerra aumente seu contingente.


Escrito por Luis Nassif às 00h10

01/08/2006

Judaísmo não é sionismo

Do leitor Daniel, judeu e filho de imigrantes.

Penso que os judeus devem urgentemente fazer o seu dever de casa. Sou filho de imigrantes judeus e fiz o meu. Rabinos e estudiosos judeus SÃO CONTRA O SIONISMO. Só não são contra aqueles que são reféns do poderoso e temido movimento sionista, ou aqueles que não se deram ao mínimo trabalho de pesquisar a história recente de seu povo, e principalmente, compreender que estes massacres efetuados pelas forças de "defesa" de Israel são motivados por crenças que não são não judaicas e que por razões óbvias não são divulgadas na imprensa.

Recomendo a todos aceitar a IGUALDADE. Qualquer pensamento de superioridade é puro engano cultural. Recomendo ver FOTOS e VÍDEOS de pessoas reais, crianças reais mortas sem qualquer sentido militar ou político. Vejam de coração aberto, compreendam a humanidade que existe em todos nós, e também a monstruosidade de uns poucos que usam a todos nós para avançar seu domínio mundial. Judaísmo não é sionismo, e este é o maior e mais perigoso engano de todos. 


Escrito por Luis Nassif às 19h35

A diplomacia derrotada

De um leitor do Blog que vem acompanhando atentamente a cobertura da imprensa árabe:

Um balanço da imprensa árabe de hoje, somado à mídia européia e americana, dá uma idéia das conseqüências que advirão do conflito Israel-Libano. Existe hoje uma imprensa árabe de alto nível técnico e profissional, especialmente o Kuwait Times, Khaleej Times (Emirados), o Middle East Times (Egito). A TV Al Jazeera tem em Washington um bureau com mais de 100 jornalistas e é hoje respeitada até nos EUA. 

 As cenas on line das TVs árabes e da CNN (que está cobrindo o conflito com razoável neutralidade) e o que se pode razoavelmente deduzir do ponto de vista de hoje é:

1º Israel não conseguiu e não conseguirá vencer totalmente o Hezbollah, como era seu objetivo tático e estratégico. A milícia tem muita mobilidade, muda de lugar facilmente, pode ir para o norte do Líbano ou para a Síria e já demonstrou capacidade inesperada de enfrentamento  do poderoso Exercito israelense.

2º Israel já perdeu a batalha de relações públicas. Fora dos EUA e das comunidades judaicas, a ação israelense é hoje universalmente condenada, não importa quais as razões de Israel.

3º A ação inconclusiva após três semanas de luta violenta está causando sérias fissuras na elite israelense e já começa a produzir tensões inesperadas em Washington, onde um dos Senadores de maior prestigio do Partido Republicano fez ontem à noite um violento discurso rompendo com Bush por causa da "loucura" da ação israelense. Segunda imprensa americana e britânica, a Secretaria de Estado Condolezza Rice ficou extremamente irritada com a quebra do compromisso israelense de trégua humanitária de 48 horas. A palavra dela ficou desmoralizada e Israel aparentemente não toma conhecimento de qualquer conselho de Washington.

4º O desastre humanitário está agravando a situação no Líbano e vai imediatamente atingir ainda mais a imagem de Israel. No Sul do Líbano esta faltando água de beber, comida, medicamentos, colchões e abrigos. Os caminhões com ajuda humanitária da Europa não estão conseguindo chegar de Beirute ao sul do Líbano porque Israel não respeita nenhum caminhão e não dá garantia de passagem nem para ambulâncias da Cruz Vermelha, das quais onze foram atingidas por projeteis diretos israelenses.  Registre-se que até o Exército alemão garantia esse direito aos comboios e ambulâncias da Cruz Vermelha durante a 2ª Guerra.

5º Por ultimo, a situação geopolítica no Oriente Média vai ser profundamente alterada por causa da pressão da rua árabe sobre os governos considerados pró-ocidente, especialmente o trio Egito - Jordânia - Arábia Saudita, o que por sua ver esta deixando nervosos os respectivos governos. Alem disso o conflito vai afetar a situação do Irã que agora, mais do que nunca, vai manter seu programa nuclear, com o apoio dos paises árabes, pois ninguém vai aceitar que no Oriente Médio só Israel possa se defender.

6º O ataque israelense vai afetar e muito as relações entre sunitas e xiitas, entre o Hezbollah e a população cristãos libanesa, entre a Al Qaeda e o Hezbollah. Vai também aumentar o fosso entre a oposição e o Governo na Inglaterra e desgastar em todo o mundo  a imagem dos Estados Unidos.

Esse é um senhor conflito, de aparente escala regional, mas com efeitos geopolíticos mundiais.


Escrito por Luis Nassif às 17h47

A (i)lógica do massacre

Aos que, nesse Blog, consideraram que o assassínio de civis, mulheres e crianças era fruto da falta de alternativas de Israel:

No “Globo” de hoje (clique aqui) há uma boa matéria da correspondente em Israel, Renata Malkes, sobre a falta de rumo da ofensiva bélica israelense. Mostra a divergência clara entre o caminho diplomático e os falcões. E trata o Exército israelense como “uma máquina de guerra desgovernada”.

Segundo a correspondente, nem mesmo o apelo nacionalista da guerra consegue ocultar a falta de rumos e de saída da atual ofensiva militar.

O jornal “Haaretz” acusou a ofensiva militar de comprometer os esforços diplomáticos. “Com a diplomacia atropelada pela manutenção das agressões mútuas, analistas questionam se a guerra obscura é fruto de determinação política ou de um planejamento infeliz”.


Escrito por Luis Nassif às 12h09

Ministros em campanha

A visão do Ministro da Fazenda Guido Mantega – em sua palestra no Seminário da Escola de Economia da FGV-SP -- é diferente do ex-presidente do BNDES Guido Mantega. Elogiou as virtudes da política monetária e fiscal. Sustentou que o câmbio é fixado pelo mercado e que o Banco Central faz o possível para intervir, constituindo reservas cambiais. Avisou que o aumento da confiança no Brasil vai tornar o câmbio cada vez mais apreciado.

Ele sabe que quando cai o risco Brasil, se a taxa básica de juros não cai, o resultado automático é o da apreciação do câmbio.

Em sua apresentação, usou o manual da campanha (que serve para situação e oposição): relacionou dez pontos a favor da política econômica, apresentou um futuro radioso. E não mencionou nenhum ponto negativo da política econômica. Descartou a idéia de planos de desenvolvimento.

Quanto à decisão de permitir o registro de capital estrangeiro não considerado capital externo, valeu-se do mesmo expediente. Disse que facilitaria o controle, que regularizaria uma situação cinzenta há tempos, que permitiria a saída de dólares. Mas e a lógica macro-econômica da medida? O Ministro passou ao largo. O mais provável é que os dólares saiam como remessa de lucros e retornem como investimento externo – obrigando a constituir mais reservas ainda.

Campanha é para essas coisas.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h37

De pombos e falcões - 2

O respeitado colunista Gideon Levy.  do jornal mais importante de Israel, o Haaretz,  em longo  artigo reproduzido na edição de ontem do The Guardian, o jornal de maior influência hoje na Grã-Bretanha, analisa os efeitos do massacre do Líbano sobre a segurança futura dos israelenses.

Ele demonstra com raciocínio impecável o enorme erro estratégico, político e diplomático do Gabinete Olmert nesse ataque insensato ao Líbano. Sempre houve alternativas. O problema são as forças que não tem interesse nas alternativas, os falcões, que perdem espaço em períodos de paz.

A opinião publica em Israel é altamente politizada, culta e diversificada, uma luz nas trevas dessa deformação ensandecida dos ideais dos primeiros sionistas. O artigo no The Guardian foi aberto para comentários. Recebeu milhares deles, a maioria de Israel, apoiando o ponto de vista de Levy.

A destruição do Líbano é injustificável, nada tem a ver com a defesa de Israel e vai fabricar milhares de terroristas, exatamente aqueles que perderam a família, a casa, o emprego e tudo o que tinham na vida, exatamente como o Hezbollah é o resultado cronológico dos massacres de 1983 em Sabra e Chatila.

O atual ataque ao Líbano formará uma nova fornada e como diz Levy, os novos líderes são mais talentosos, mais aguerridos e mais ousados do que os anteriores.

Portanto o confronto está longe da simplicidade articulada por alguns leitores do blog pró-massacre, a questão é bem mais controversa, mesmo dentro da sociedade israelense e a solução vai custar muito caro aos envolvidos de todos os lados.

É uma tragédia sem vencedores.


Escrito por Luis Nassif às 09h43

31/07/2006

A planilha de uma célula só

Em sua coluna de hoje no “Valor” (clique aqui), o economista Fábio Giambiagi, do IPEA, se excede. Todos os males do país não vêm mais da saúva, mas dos gastos correntes. E comete esse primor de visão histórica:

“Tivéssemos sabido controlar a evolução do gasto corrente nos últimos 15 anos e hoje estaríamos crescendo como a Coréia”. É inacreditável as baboseiras que se escrevem para conseguir escapar da repetição infinda de clichês. No ano passado, não conseguia entender como esse povo insensível não via melhoras na economia (ainda não se tinha o cálculo do crescimento pífio daquele ano). Sua explicação foi a de que havia muita insegurança nas ruas, não por falta de verbas, mas por leis pouco severas. E o povão confundia o mal estar com a segurança com o mal estar com a economia.

O que Giambiagi propõe antes, agora e depois, é a redução de gastos sociais, que, segundo ele, servem apenas “para financiar um assistencialismo de péssima qualidade”. O “assistencialismo de péssima qualidade” é monitorado por seu colega do IPEA, Ricardo Paes de Barros. E se fosse de “ótima qualidade”, valia?

Para Giambiagi, é evidente que não. Seu único ângulo de visão é a solvência das contas públicas, para poder pagar os juros mais altos do mundo.  Em sua série de “recomendações” para o próximo governo, não entram investimentos em infra-estrutura, educação, saúde, não entram estratégias comerciais ou diplomáticas, não entra inclusão social. Só a solvência das contas públicas. É o dono da planilha de uma célula só.


Escrito por Luis Nassif às 22h40

A Regência e a Industrialização

Do interessante “paper” de Luiz Alberto Moniz Bandeira, apresentado no Seminário da Escola de Economia da FGV-SP:

Um primeiro ensaio de política industrial ocorreu com a vinda de Dom João 6º ao Brasil. Além da abertura dos portos, criou a siderurgia nacional e fundou o Banco do Brasil em 1808. Em 28 de abril de 1809 concedeu direitos aduaneiros às matérias primas consumidas pelas fábricas brasileiras, isentou de impostos a exportação de produtos manufaturados e passou a utilizar produtos brasileiros no fardamento das tropas.

Fez mais, introduziu os primeiros conceitos de patente, garantindo privilégios por 14 anos os inventores ou introdutores de novas máquinas, e garantiu 60.000 cruzados às manufaturas com dificuldade, especialmente as de lã, algodão, ferro a aço. No arsenal da Marinha, construiu a fábrica de pólvora, a tipografia régia, bem como criou o Colégio Militar e o Naval.

Em fins de 1809, o engenheiro Friedrick Ludwig Varnhagen chegou ao Rio de Janeiro com a missão de estudar a possibilidade de construção de uma siderúrgica no morro de Araçoiaba, perto de Sorocaba.

Em 1812, com o apoio de Dom Manuel de Assis Mascarenhas Castelo Branco da Costa Lencastre, conde de Palma, Dom João 6º construiu outra usina siderúrgica, a Fábrica Patriótica, perto de Congonhas do Campo. Ao mesmo terreno, começava a antiga tradição mineira de fabricação de ferro gusa, através de Manoel Ferreira de Câmara Bittencourt e Sá.

Segundo Moniz Bandeira, a Inglaterra não queria a abertura dos portos no Brasil. O que pedira fora apenas um porto exclusivo em Santa Catarina, que Dom João 6º não concedeu. Como não conseguisse o monopólio, os ingleses pressionaram-no para que firmasse o Tratado de 1810, concedendo às manufaturas inglesas uma tarifa preferencial de 15% ad valoren, menor até que as de Portugal, que eram de 16%, e de 24% para as demais nações.

O esforço por ver a Independência reconhecida, fez com que, no final da década de 1820, o Brasil assinasse inúmeros tratados comerciais desiguais com a própria Inglaterra, França, Prússia, Áustria, Dinamarca, Países Baixos, a Liga Hanseática e com os Estados Unidos. Esses tratados acabaram atrasando o processo de industrialização interno.

Apenas entre 1842 e 1844, quando os tratados expiraram, o Ministro da Fazenda Manuel Alves Branco deu início a uma política de proteção da indústria infante, elevando a tarifa de importação de 3 mil produtos, para uma faixa entre 20 a 60%.

Esse período se estendeu de 1844 a 1876. Em 1877, já havia no Brasil fábricas de produtos químicos, instrumentos óticos, calçados, chapéus, tecidos de lã e algodão.

Em meados do século 19, o cônsul geral da França em Montevidéu chegou a chamar o Brasil de “Rússia Tropical”, que tinha a “vantagem da organização e da perseverança em meio dos Estados turbulentos e mal constituídos” da América do Sul.


Escrito por Luis Nassif às 21h46

De pombas e falcões

Conforme escrevi dias atrás, a disputa é entre pombas e falcões. Meu amigo Carlinho Brickmann provocou várias vezes nos posts, perguntando qual a alternativa de Israel. Ele sabe a resposta: a via diplomática. Quando o caminho diplomático começou a avançar, falcões e hienas se lançaram alucinados sobre civis libaneses. Os diplomatas perderam momentaneamente espaço, e os guerreiros-terroristas de ambos os lados voltaram a recuperar terreno político em seus respectivos territórios.


Escrito por Luis Nassif às 21h12

Tucanos, garças e petistas

Eleitoralmente, é mais cômodo os tucanos colocarem todos os petistas no mesmo baú; assim como os petistas considerarem todos os tucanos neoliberais.

Como aqui estamos em um ambiente supra-partidário, é importante notas as diferenças entre os diversos grupos que compõem o PT e o PSDB.

No plano econômico, há um grupo de pensadores, basicamente lotados em São Paulo, com uma visão extremamente crítica em relação à política monetária e cambial desde o início do Real. Fazem parte o Luiz Carlos Bresser Pereira, os irmãos Mendonça de Barros, o Yoshiaki Nakano, tendo como liderança máxima o José Serra.

Na outra ponta tem os economistas da Casa das Garças, instituição fundada por Edmar Bacha e que congrega os economistas “mercadistas”. Hoje eles possuem um discurso agressivo, fazem um lobby feroz pela manutenção do status quo financeiro.

Do mesmo modo, há o PT de José Dirceu e uma nova geração que começa a subir agora, em cima do vácuo que deixou. Entre eles, o governador Jorge Vianna, do Acre, o Fernando Pimentel, prefeito de Belo Horizonte, mais um grupo de políticos não maculados pelos escândalos, tendo como guru o Ministro Tarso Genro.

As indiferenciações pertencem ao discurso político ou às simplificações enganadoras da cobertura diária.


Escrito por Luis Nassif às 17h57

Falta estado em São Paulo

Principal especialista do PSDB na área das contas públicas, um dos pais da Lei de Responsabilidade Fiscal, o economista José Roberto Affonso acha que falta estado em São Paulo.

Depois de descobrir um êxodo de professores da rede estadual para a do município de São Paulo, constatou que o estado de São Paulo paga muito menos do que a prefeitura. Na área de segurança, paga um dos piores salários do país.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h56

Seminário da Escola de Economia FGV - 5

Clichês e estereótipos

O momento mais animado dos debates do seminário da FGV foi quando a professora Eliana Cardoso, comentarista do primeiro bloco, tentou caricaturizar os chamados heterodoxos, na figura de Luiz Fernando de Paula, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Criou uma caricatura:

-- Os heterodoxos pensam em um Estado como o de antigamente, grande e ineficiente.

Avançou na cantilena do “em todo lugar (não) é assim”:

-- Em nenhum lugar do mundo controles de capitais funcionaram.

Os demais debatedores – Luiz Carlos Mendonça de Barros e Paulo Rabello de Castro – não pouparam críticas à tentativa da professora de estereotipar a discussão e apresentaram exemplos de controles bem sucedidos. Na sua resposta, Luiz Fernando foi duro:

-- Me recuso a discutir a partir dessa caricatura criada pela professora. O debate tem que ser mais sério.


Escrito por Luis Nassif às 14h32

Seminário da Escola de Economia FGV - 4

Luiz Carlos Mendonça de Barros

O Brasil tem um equilíbrio externo desproporcionalmente melhor do que a dívida interna.

Divida externa pública é negativa. Em 2009 a divida externa brasileira total será menor do que as reservas. Enquanto que a interna tem papel demais para dinheiro disponível.

O desequilíbrio entre a situação interna e externa será arbitrado de duas maneiras:

1. Prevalece o desequilíbrio interno, destruindo ao longo prazo o equilíbrio externo.

2. Ou vice versa

O investidor externo irá preferir comprar título em real, 10% real ao ano. Se acontecer e não for administrado, haverá outra rodada de valorização do câmbio, porque volume do dinheiro muito grande. Quando começar o efeito-manada, se não se prevenir, o desequilíbrio interno será corrigido do lado errado.

Luiz Carlos sustenta que, finalmente, se tem uma economia que começa a responder aos estímulos corretos de política econômica. Mas há que se ter capacidade de entender problemas corretos.

Até hoje o problema fiscal foi enxergado de forma míope, olhando só do ponto de vista da solvência do credor. Por isso se utilizou como balizador o superávit primário. O que levou vários ortodoxos a falarem com toda pompa: o governo tem uma política fiscal conservadora, sem avaliar que o governo aumentou a carga tributária de forma extraordinária, afetando a economia real.


Escrito por Luis Nassif às 12h51

Seminário da Escola de Economia FGV - 3

Paulo Rabello de Castro

O Plano Real é a estabilização mais prolongada e eficiente da história econômica do mundo. 12 anos para estabilizar e manter taxas de juros desse nível

Nos últimos 12 anos, em nove deles ativos tidos sem riscos tiveram rentabilidade ajustada a risco indecentemente maior que os ativos ditos de risco. Em país algum do mundo empreendedor, vai-se empreender coisa alguma enquanto ativos de risco continuarem rendendo sistematicamente menos do que os sem risco.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 12h43

Seminário da Escola de Economia FGV - 2

Yoshiaki Nakano

Considerado um dos conselheiros econômicos do candidato Geraldo Alckmin, o professor Yoshiaki Nakano apresentou os seguintes dados e análises em sua palestra:

O que deveria ser uma política monetária desenvolvimentista:

1. Taxa de juros como instrumento para equilibrar contas e capital, evitando volatilidade e contágio, respeitando a paridade de juros. Isto é, o Copom não pode fixar uma taxa de juros que seja maior do que a taxa internacional mais risco Brasil.

2. Metas de inflação declinantes ao longo de anos até chegar a algo entre 2 e 4% ao ano. Prudentemente, Nakano não define prazos.

3. No caso de uma pressão de demanda capaz de aumentar a inflação, o Banco Central deverá subir os juros. Mas, nesse caso, deverá utilizar instrumentos transitórios de controle dos capitais de curto prazo, como tempo de permanência ou taxas de equalização.

4. Desconectar a política de dívida pública da monetária e efetuar mudanças em algumas regras operacionais do BC.

Na transição para o novo modelo, há dois problemas a se contornar:

1.      Num quadro de incerteza, pessoas têm que tomar decisões, que criam convenções que se cristalizam. Tem que quebrar algumas convenções.

2.      Ter apoio político para dar prosseguimento.

Nos diversos casos de ajuste bem sucedido, houve as seguintes características:

  1. Ajustes fiscais bem sucedidos e persistentes:
    1. Ter magnitude, ser relativamente grande.
    2. Não pode se basear em aumento de impostos
    3. Política monetária mais expansionista, expandindo crédito para setor privado.
  1. Mudança na taxa de câmbio: melhora preços dos tradables. Ajuste fiscal forte reduzindo pressão dos non-tradables.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 12h21

Seminário Escola de Economia GV - 1

Palestra Delfim Netto

Condições recebidas pelos economistas do plano Real, após o trabalho deixado por Fernando Collor, com todos os indicadores caminhando para o equilíbrio:

1.      Crescendo a 5,5% com equilíbrio em contas correntes, demonstrando se ter taxa de cambio em equilíbrio.

2.      Relação dívida/PIB: 30%.

3.      Carga tributária bruta 26%.

4.      Inflação de 1.000% ao ano, o único problema a enfrentar.

Depois do plano:

1.      Redução ritmo de crescimento.

2.      Déficit em contas correntes: primeiros quatro anos de US$ 100 bi, apesar da venda de US$ 100 bi em patrimônio nacional.

3.      Carga tributária bruta em 36%  do PIB.

4.      Dívida pública a 56% do PIB, caindo agora a 50%.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h03

30/07/2006

A morte de seu Isaac

Faleceu neste domingo em Guaxupé, Isaac Ribeiro Ferreira, o seu Isaac, que projeto a Cooxupé como um exemplo de cooperativa no país. Nos anos 90, enquanto as principais lideranças do setor disputavam migalhas do governo ou o controle do Funcafé, Isaac se lançava em uma aventura empresarial que tornou a Cooxupé uma potência internacional.

Morre quando seu exemplo já frutificou, levando à modernização da cafeicultura brasileira.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 21h59

Guerra de dissuasão

Um exemplo de guerra de dissuasão, modalidade bastante eficiente de combate à guerrilha, empregada pela Alemanha contra a Polônia na Segunda Guerra Mundial

Da Folha Online

Pelo menos 56 pessoas morreram nos bombardeios de Israel contra o vilarejo de Qana, sul do Líbano, na madrugada deste domingo. Dentre as vítimas, 37 eram crianças, segundo fontes da polícia libanesa e das equipes de resgate ouvidas pelas agências internacionais de notícias.

Um prédio de três andares situado em uma colina de Qana, o qual servia de abrigo a famílias que haviam fugido de outras cidades do sul do Líbano bombardeadas nos últimos dias pelo Exército israelense, desabou. De acordo com um sobrevivente, 63 pessoas estavam no edifício no momento do ataque.

"Havia poeira por todas as partes. Não se via nada. Consegui sair e tudo desabou. Vários membros da minha família estavam lá dentro e não acredito que existam sobreviventes", afirmou Ibrahim Chalhoub.

"Consegui sair com meu filho e meu marido, que fraturou um joelho, mas quando voltei para tentar retirar minha filha era muito tarde: o edifício desabou", contou, desconsolada, Rabab.

"Não quero que me perguntem sobre números. Todos sabem que servimos de cobaias para as armas deles, as bombas de implosão. É a única coisa que se vê", declarou, entre lágrimas, Naim Rakka, um dos coordenadores da equipe de emergência da Defesa Civil libanesa, com os corpos de duas crianças nos braços.

Esse foi o ataque mais sangrento de Israel ao Líbano desde que começou o combate, em 12 de julho. O estopim do conflito foi o seqüestro de dois soldados israelenses levado a cabo pelo grupo terrorista libanês Hizbollah. A violência já deixou cerca de 490 mortos no Líbano, entre eles mais de 430 civis, 20 soldados libaneses e 35 terroristas, e mais de 52 mortos em Israel, sendo 19 civis. Entre os mortos no Líbano, há sete cidadãos brasileiros, dos quais três crianças.


Escrito por Luis Nassif às 14h53

Lacerda e o Estado de Israel

Estive no Rio de Janeiro na semana passada, colhendo depoimentos para a biografia de Walther Moreira Salles. Ligadíssimo a Carlos Lacerda, Raphael de Almeida Magalhães me disse que, por ocasião da criação do estado de Israel, Lacerda fez um conjunto de artigos prevendo todos os desdobramentos posteriores que deságuam, agora, nessa guerra sem quartel.


Escrito por Luis Nassif às 10h59

Os fatos depois das teses

Do leitor André Araújo

Nassif,

A idéia da Eliana Cardoso exposta na VEJA tem muito a ver com um velho truque que os acadêmicos americanos usam para construir suas teses. Eles primeiro montam a tese e depois procuram os fatos para justificá-la. A tese no caso é da formiga morigerada e da cigarra gastadora. A primeira é a virtuosa e por isso vence e a segunda é a relapsa e por isso fracassa.

Muito bonito se o mundo fosse tão simples como uma aldeia dos sumérios nos primórdios da humanidade. Todavia o mundo atual é complexo e a complexidade não é só questão quantitativa, mas traz consigo alterações qualitativas.

Dois paises que têm muito petróleo, como Venezuela e Kuwait, aproximadamente com a mesma produção em barris dia (2,8 milhões) têm história e geografia completamente diversas. Como construir uma tese com os dois, só porque eles têm petróleo? Fora isso, não tem nada em comum. Os dois maiores produtores de minério de ferro do mundo são Brasil e Austrália. E daí? O que se conclui disso?  Rússia e Arábia Saudita produzem aproximadamente o mesmo volume de petróleo. E daí? Deve-se deduzir o que, a partir desse fato? Absolutamente nada.

Portanto, essas pseudo-teses, como aquela em que se comparam Brasil e Turquia (artigo do prof.Afonso Pastore), não têm valor sequer como exercício de sala de aula. São meras tolices, que ofendem a inteligência e o bom senso. São tão ridículas como achar que têm algo em comum duas pessoas que gostam de empadinha de palmito.

Os paises, como as pessoas, tem particularidades muito especificas e quando se quer fazer alguma relação por afinidade, como no caso do grupo BRIC, o esforço deve ter  utilidade marginal, mas nunca deve ser tomado como assimilação. No caso, Brasil, Rússia, índia e China, tirando o fato de serem paises grandes e continentais, quase nada mais têm em comum.

Qualquer tese montada em cima da conclusão por similitude  aparente cairá no mesmo truque dos acadêmicos americanos e seus livros para basbaques, ramo em que se especializaram charlatões do intelecto do tipo de  Francis Fukuyama e seu fim da história, Samuel Huntington e seu choque de civilizações e tantos outros que produzem livros-teses, arrumando os fatos para que eles se encaixem na tese. Parece que a professora Cardoso aprendeu na fonte e fez a sua arrumaçãozinha para deleite dos leitores de VEJA. Lamentavelmente você desmanchou o brinquedo.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 00h36