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19/08/2006

O Rei da Malandragem

Na relação cinco maiores sambistas da história, não pode faltar Wilson Batista. Dentre todos, nenhum foi tão eclético e com estilo tão pessoal. Apesar das características pessoais de cada compositor, suas linhas harmônicas e melódicas eram previsíveis. Um acompanhante médio de violão saberá intuir o caminho da maioria das composições de Ataulfo (influenciado pela toada mineira), de Geraldo Pereira, Roberto Martins, Noel. Haverá mais dificuldades com as sofisticações harmônicas de Cartola, menos com as de Nelson Cavaquinho.

Mas Wilson Batista compôs alguns clássicos em que as seqüências não tinham o equilíbrio da música convencional. É como se fosse um vôo desconjuntado, em que faltavam acordes, ou aparentemente se demorava demais para mudar o acorde, para a harmonia se definir. Apenas no final da linha se percebia a beleza estranha, o nível de criatividade, o padrão estético diferenciado. O clássico “Meus Vinte Anos” é um exemplo típico. “Nega Luzia” é outro, assim como “Chico Brito” (com Alberto Teixeira), gravado em 1950 por Dircinha Batista, e “Mãe Solteira” (com J.Castro).

O ecletismo de Wilson Batista ia muito além. Compôs obras-primas do samba convencional como “Emilia” (com Haroldo Lobo, “eu quero uma mulher / que saiba lavar e cozinhar”), e “Volta pra casa Emília” (com Antonio Almeida, “ai, ai / quando visto um terno amarrotado, meu Deus / tenho que me lembrar / da Emília que era tão cuidadosa mulher”), um dos meus clássicos prediletos, “Morro de Zinco” (com Nássara, “aquele morro de zinco que é Mangueira”). Ajudou a dar forma ao samba de breque, com “Etelvina, acertei no milhar” (em que Geraldo Pereira aparece na parceria, mas, pelo que se sabe, a música é apenas de Wilson). E fez marchinhas de muito sucesso, como “Balzaqueana” (com Nássara).

Anos atrás, ouvi um samba de breque típico, parceria de Wilson Batista e Sinhô nos anos 20. Não consegui encontrar o CD. É até possível que tenha havido um erro de informação, pois não consta parceria entre ambos no levantamento da obra de Wilson Batista por Ricardo Cravo Albim.

Wilson Batista nasceu em 1913, em Campos. O pai era guarda municipal. Aos 15 anos mudou-se para o Rio e trabalhou como acendedor de lampião. Para não ter que pegar no batente, largou a família e foi morar em uma pensão da Lapa.

Em 1933 envolveu-se em uma polêmica célebre com Noel Rosa. Wilson tinha apenas 20 anos, Noel 23. A polêmica teve duas partes.  Na primeira, Noel Rosa, já consagrado, lançou “Rapaz Folgado”, para provocar Wilson Batista, que fizera a apologia da malandragem em “Lenço no Pescoço”. Wilson respondeu com “Mocinho da Vila” e Noel deu xeque-mate com “Palpite Infeliz”.

A segunda rodada foi quando estourou o “Feitiço da Vila”, de Noel, e Wilson devolveu a provocação com “Conversa Fiada”, com algumas boas passagens, mas longe da qualidade da música de Noel, que rebateu com “João Ninguém”. Wilson apelou com “Frankestein da Vila”, que acabou deixando-o antipatizado com o público.

Na verdade, embora ambos fossem precoces, com 20 anos Noel já era um compositor maduro. Já a curva de maturidade de Wilson Batista atinge a plenitude apenas em 1940, quando tinha 27 anos. Seus sucessos, de verdade, começaram nos anos 40, com “Oh!, Seu Oscar” (com Ataulfo Alves), “Acertei no Milhar” (com Geraldo Pereira), “Emília”, “Bonde São Januário”, o clássico “Meus Vinte Anos”, de 1942, “Louco”, de 1947, “Mundo de Zinco”, “Nega Luzia”, “Deus no Céu, Ela na Terra”.

Teve alguns grandes intérpretes, como Ciro Monteiro e Jorge Veiga. Nos anos 50, já decadente, e com poucos sucessos, encontrou seu maior intérprete, Roberto Silva.

Nos anos 60, Wilson Batista já era um fiapo de homem, consumido pela boemia e pela bebida. Morreu em 1968, aos 55 anos, sem forças sequer para dar o último depoimento do Museu de Imagem e Som, de Cravo Albim.


Se quiser receber a crônica por e-mail, clique aqui, ou então envie e-mail para cronica@dvnet.com.br com a palavra Incluir no Assunto.

 


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h45

O marido de Ira

Do enciclopédico leitor André Araújo

Nassif:

Interessantíssima a matéria sobre o Baby Pignatari. Um adendo: o Principe Alfonso de Hohenole, que foi o primeiro marido da Ira de Furstenberg, também é um personagem muito interessante. Ele foi o descobridor da Costa do Sol espanhola, uma zona turística hoje de grande importância na Europa e onde ele foi o pioneiro. Estive em 989 no hotel dele , o Marbella Club, em Marbella, um lugar encantador. Acabam de sair na Alemanha as suas memórias. O Governo espanhol concedeu-lhe postumamente a mais alta condecoração pelo trabalho que fez em prol do turismo na Espanha.

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Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 17h42

Baby, a celebridade esquecida

Um pequeno livro organizado por Alcy Cheuiche, traz alguns elementos sobre a vida do Hugh Hefner brasileiro, o mais famoso play-boy-empresário brasileiro de todos os tempos, Baby Pignatari.

Neto do Conde Francesco Matarazzo, o fundador das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, Baby foi um personagem singular na vida econômica e social do país.

No início da década de 1910, já industrial poderoso no Brasil, Francesco decidiu retornar à Itália, devido às suas ligações com o Banco de Nápoles. Lá, sua filha Lyidia conheceu o médico Giulio Pignatari. Casam-se em 1915. Em 11 de fevereiro de 1917, nasce Baby, na verdade Francisco Pignatari. Pouco depois, a Primeira Guerra traz a família Matarazzo de volta ao Brasil.

Giulio resolveu se virar por conta própria e, com o apoio do sogro, tornou-se dono da Laminação Nacional de Metais, empresa que cresceu rapidamente.

Durante o carnaval de 1937, perdeu o avô, no dia exato em que Baby completava vinte anos. Um mês depois, morreu o pai. Desde então, a boemia teve que conviver com o trabalho pesado.

Sua vida sentimental foi entremeada de grandes paixões e enormes galinhagens. A era das paixões foi inaugurada em 1939, quando conheceu Marina, a mulher mais bela da Ilha de Ischia, filha do proprietário da Vila Zavota, onde Garibaldi ficara em convalescença quando ferido na campanha pela unificação da Itália. Marina ganharia o apelido de “Mimosa” e lhe daria o único filho, Giulio Cesare, que teria uma vida trágica.

Por aquele tempo, Baby começara a fabricação dos famosos aviões Paulistinha, impulsionado por uma campanha de Assis Chateaubriand, de incentivo à criação de aeroclubes pelo país. Em 1942, foi convidado para uma conversa com Getúlio Vargas, que lhe ofereceu participação na recém-criada Companhia Brasileira de Cobre, para explorar as minas de Caçapava do Sul. Baby aceitou, depositou o valor correspondente à sua parte e tornou e seria, dali para a frente, o rei do cobre no Brasil.

Bem sucedido como empresário, Baby voltaria a investir na carreira de boêmio, tornando-se membro honorário do famoso Clube dos Cafajestes do Rio de Janeiro. O casamento com Mimosa havia acabado. Mas, logo depois, veio a segunda paixão, Nelita Alves de Lima. Para ela, prometeu a famosa casa na Chácara Tangará, depois adquirida pela Bunge para a construção do complexo Panamby. O casamento com Nelita durou até 1957.

Solto novamente, Baby retomou sua carreira de conquistador internacional, tendo um caso rumoroso com Linda Christian, ex-Tyrone Power. Foi um caso tumultuado, com direito a troca de sopapos em público e um fim de caso inesquecível: da suíte de seu apartamento, no Hotel Excelsior, em Copacabana, Linda é acordada por uma passeata de vinte táxis lotados de mendigos, portando cartazes onde estava escrito “Linda, Go Home”.

O grande caso de Baby, que chegarias a se rivalizar com as desventuras do casal Liz Taylor-Richard Burton, foi com a princesa Ira de Furstenberg, filha do Príncipe Tassilo von Furstenberg e de Clara Agnelli. Linda, casou-se muito jovem com o príncipe espanhol Alfonso von und zu hohenlohe Langenburg.

Baby acaba se separando poucos anos depois. Seu último casamento foi com Regina Fernandes, trinta anos mais moça, e que tinha apenas 18 anos quando se casaram.

O fim de Baby foi inglório. Com resistências no regime militar, enfrentou enormes dificuldades com sua mina de cobre em Camaçari, a abertura indiscriminada das importações de cobre. Depois, a doença que o matou com pouco mais de 60 anos.

Morto, a herança foi pilhada. O filho Júlio era dependente de drogas e interditado. Advogados conseguiram levantar a interdição e assumiram a sua guarda, praticamente desaparecendo com seus bens. Pela venda da Chácara Tangará, o filho recebeu o equivalente a um carro Aero-Willys.

Depois, morreu o filho de morte súbita, morreu Regina, de morte estranha, e morreram outros mais, em uma história policial que ainda não foi contada.


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 12h46

As Musas de Baby

Pela ordem:

1. Jackie Lane.

2. Jill Saint-John, disputada por dez entre dez playboys da época, e dando conta dos dez.

3. Linda Christian, a Jane do Tarzan de John Weismuller.

4. A princesa Ira Furstenberg, um sequestro no México.

5. Miiko Taka, par amoroso de filmes com Marlon Brando.

6. Tina Louise, modelo e atriz.

7. Soraya, que foi casada com o Xá do Irã.


Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 11h46

Os "spreads" bancários

Medidas tomadas pelo Banco Central nos últimos anos para baixar os “spreads” bancários:

1.      Sistema de Pagamentos Brasileiro.

2.      A nova Lei de Falências.

3.      Liberdade cambial praticamente absoluta.

4.      Concentração do sistema bancário, para permitir ganho de escala.

5.      Inclusão dos créditos do FCVS utilizados no PROER no cálculo das exigibilidades dos financiamentos ao Sistema Financeiro da Habitação.

E o tal do “spread” ainda não baixou.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h13

A linhagem da INCO

Alguns dados sobre a INCO (a mineradora canadense que a Companhia Vale do Rio Doce quer comprar) enviados pelo leitor André Araújo:

A INCO é grande dama aristocrata do mundo da mineração, fundada há mais de cem anos pela junção de interesses birtânicos, a Mond Nickel Co.Ltda., do mesmo Sir Alfred Mond (depois Lord Melchett) que fundou a Imperial Chemical Industries Ltd. com interesses canadenses da International Nickel Co.of Canada, então controlada pelo grupo do lendário  banqueiro John Pierpont Morgan, padrinho da fusão.

A nobreza é tão antiga que a INCO está listada na Bolsa de Nova York desde 1915 e compõe o seleto grupo de 30 empresas do índice Dow Jones desde 1928.

As minas da INCO no Canada foram visitadas por duas vezes por Reis e Rainhas da Inglaterra.

O pedigree é indiscutivel. Os números, não.

Em 2005, com vendas de US$ 4,7 bilhões  (menos da metade da Vale), a INCO ganhou US$ 868 milhões (a Vale ganhou três vezes mais). Já os ativos da INCO estão avaliados em US$ 12 bilhões, valor próximo da Vale (US$ 15,9 bilhões). Mas no valor de mercado ou de bolsa, a Vale bate a INCO longe (sempre em dezembro de 2005): INCO, US$9,3 bilhões e Vale US$53,2 bilhões.

A  Vale está pagando pela INCO quase o dobro do que o mercado lhe valoriza. E pior, pagando em dinheiro vivo, resultado de um empréstimo de curto prazo.

Nesse ponto há uma discordância de analistas de mercado consultados pelo Guia Financeiro da Agência Dinheiro Vivo. Segundo eles, o lucro da INCO seria equivalente ao serviço da dívida do empréstimo contraído para adquiri-la.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h09

A retórica do terror

Cinco questões levantadas pelo The Guardian sobre a ameaça de terrorismo na Inglaterra, anunciada pelo governo Blair, entre elas:

1. Ainda não apareceu uma evidência desse mega-atentado.

2. Ninguém foi indiciado ainda.

3. As providências de segurança tomadas foram absurdas e levaram o caos aos aeroportos do país.

Nesse mesmo número há uma matéria sobre a declaração da RyanAur, a maior companhia aérea de baixo custo da Inglaterra, que diz que vai processar o Governo britânico pelos prejuízos que teve com os exageros nas medidas de segurança nos aeroportos, que a companhia alega que são desnecessárias e inúteis.

É curioso que, em plena era da informação, ainda se tentem criar Planos Cohens (o plano falso atribuído aos comunistas, em 1937, que permitiu a Vargas dar o golpe do Estado Novo), em uma potência de primeira classe.

Tinham razão os franceses: Blair é um ator político de segunda classe, um semi-Bush.

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Escrito por Luis Nassif às 10h03

Os migrantes e a educação

Reportagem da Folha de 11 de janeiro de 2002, da repórter Gabriela Athias:

Pela primeira vez, desde o final da década de 70, São Paulo registrou um saldo positivo de migração. Ou seja, na década de 90, mais gente chegou ao Estado, vinda de outras regiões, do que saiu.

Na década de 80, para cada mil paulistas, havia dois migrantes vivendo no Estado. Nos anos 90, esse número pulou para quatro.

Para ter uma idéia da dimensão da migração- calculada pela Fundação Seade com base no Censo Populacional 2000-, entre 1980 e 1991 o Estado recebia cerca de 50 mil migrantes ao ano.

Entre 1991 e 2000, o Estado recebeu 147 mil pessoas por ano, o que dá um total de 1,3 milhão em nove anos. As estatísticas de 91 são contabilizadas na década de 80. O ano é citado nas duas décadas por ser uma referência demográfica em razão do Censo de 1991.

Estatísticas populacionais são essenciais para o planejamento público, explica a demógrafs Sonia Perillo, da Seade.

Apesar do aumento de migrantes, a taxa de crescimento populacional do Estado continua caindo (passou de 2,1% ao ano entre 80-91 para 1,8% entre 91-00).

Isso não quer dizer que a população deixou de crescer, mas indica que o crescimento está ocorrendo num ritmo mais lento.

Sonia explica que o fato de a chegada dos migrantes não alterar a redução do ritmo de crescimento mostra que as taxas de fecundidade e de mortalidade (ainda não atualizadas por década) são os fatores que mais influenciam na demografia paulista.

Os últimos dados de fecundidade mostram que em 1980 as mulheres tinham 3,4 filhos. Em 1999, caiu para apenas 2,4. Ou seja: uma queda de 29% no período.

Essa multidão que veio para São Paulo nos anos 90 fixou-se principalmente nos municípios da Região Metropolitana e no interior.

A capital, com seus 10,4 milhões de habitantes, continua perdendo população. No interior, a região de Campinas é a que mais recebeu gente no período. Na Grande São Paulo, Guarulhos é recordista.

O estudo da Seade não informa a origem dos migrantes, mas indica que municípios pobres, onde a população tem baixos níveis de escolaridade- caso de Guarulhos e Itaquaquecetuba-, continuam recebendo cada vez mais gente, o que agrava a miséria.

Para calcular a migração, a Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) comparou os dados do Censo 2000 com os nascimentos e óbitos do Estado. Quem não consta nesses registros, mas figura no último censo, é migrante.


Na verdade, é apenas um argumento a mais para alimentar uma discussão besta. É evidente que migrantes, quando chegam, impactam o nível do ensino. Se vem de uma realidade diferente, com um nível de aprendizado diferente, vão derrubar a média para baixo. Também é evidente que a migração, per si, não é suficiente para explicar toda a queda da qualidade do ensino. A razão maior foi o trabalho do Secretário Chalita, e o fato do ex-governador Alckmin jamais ter aprendido a gerenciar por indicadores, para poder responsabilizar seus secretários e promover mudanças de rumo.

Daqui a pouco, o "politicamente correto" vai considerar preconceito afirmações do tipo "o analfabeto não sabe ler".


Escrito por Luis Nassif às 01h23

18/08/2006

A economia da coca

O renascimento das FARC (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas) tem um histórico curioso, relatado pelo senador colombiano Rafael Pardo no seminário “Terceiro Foro Sul-Americano”, promovido pelo IUPERJ, no Rio de Janeiro.

Até 1994 havia uma estrutura de especializações na coca. 90% da coca e da pasta de coca eram produzidos no Peru e na Colômbia. O refino ficava na Colômbia, que respondia por 90% da produção total e 90% do que entrava no mercado americano. Esse predomínio dos cartéis colombianos prosseguiu até 1995.

Aí teve início uma interferência direta dos Estados Unidos na região. Os cartéis colombianos foram varridos do mercado americano. Em seu lugar entraram novos cartéis, surgidos no México.

Por conta dessas pressões, mudou a geografia da coca e a Colômbia passou a cultivar coca no sul do país. O plantio chegou a ocupar 250 mil hectares. Só que o cultivo da coca determinou a necessidade do controle territorial. A ascensão dos grupos paramilitares contribuiu para o acirramento da guerra interna. O país experimentou deslocamentos populacionais enormes.

O acordo com os EUA permitiu aparelhar o exército colombiano. Foram doados 60 helicópteros e treinados trinta batalhões. As estatísticas indicaram que a área plantada havia se reduzido para 60 mil hectares e, nos últimos tempos, para 50 mil.

Aí a velha economia entrou em cena. Não se via aumento do cultivo dos países vizinhos. O controle da oferta deveria levara um aumento do preço. Mas não havia nenhuma indicação de queda nas cotações no mercado americano, ao contrário

No ano passado um satélite americano vasculhou a região e descobriu erros de medição. A área plantada está em 85 mil hectares, não nos 50 mil. E as últimas medições indicam que a produção continua nas mesmas 800 toneladas/ano.

Donde se conclui que não é apenas a Embrapa que desenvolveu tecnologias agrícolas tropicais eficientes.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h42

O gasoduto aos pedaços

Outras conclusões de Cuevas

Um dos concorrentes do gasoduto é o GNL (Gás Natural Liquefeito). Três dos últimos contratos fechados entre países indicam um preço entre US$ 5 a 8 milhões o BTU.

Segundo ele, o GNL passa a ser mais econômico do que o gasoduto em terra para distâncias superiores a 3.540 km.

Sua proposta é tocar o gasoduto passo a passo.

De um lado, completar o Anel Energético do Cone Sul (Argentina + Brasil + Chile + Paraguai + Uruguai + Bolivia + Peru).

Na outra, o gasoduto Venezuela, Brasil, com duas conexões: uma ao norte, com Amazônia e Nordeste; outra com sul do país, Argentina e Uruguai.

Depois de completados os dois sistemas, se investiria na interconexão entre o Anel Energético do Cone Sul e o Gasoduto Sulamericano.


Categoria: Geral
Escrito por Luis Nassif às 13h56

Objeções contra gasoduto

Na visão de Miguel Cuervo, da Fundación Crear, da Argentina, as maiores incógnitas para o gasoduto da América do Sul são as seguintes:

A Venezuela sequer cubou (mediu suas reservas). Essa cubagem leva de 5 a 7 anos. Como entrar no projeto sem saber o quanto existe de gás?

  • Definição do volume máximo de abastecimento.
  • Bases para a tarifa de transporte.
  • Fixação do preço do gás na boca do poço.
  • Aspectos regulatórios, legais, fiscais e institucionais

As objeções mais freqüentes feitas pelo setor privado são as seguintes:

  • Comprimento e outras condições do traçado.
  • Custo do investimento.
  • Preço do gás nos citigates (a central de distribuição em cada grande centro).
  • Estabilidade da oferta.
  • Impacto ambiental.
  • Proteção contra atos de terrorismo


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 13h50

Integração Energética na AL

Comparações entre integração da União Européia e da América do Sul, adaptada à questão energética, na visão de Ricardo Sennes, da Prospectiva Consultoria, para o seminário “Terceiro Fórum Sul-Americano”, promovido pelo IUPERJ.

Visão Européia: Integração como opção estratégica; Estado patrocinando investimentos e cobrindo riscos; promovendo e instituições regionais

Visão incremental para América do Sul: convergência regulatória focada em destravar negócios; viabilizar mercado atacadista regional; macro-coordenação das políticas energéticas; criação de um instrumento financeiro de suporte aos projetos; eliminação de restrições para livre comércio de serviços regionais e Estado responsável pelo investimento essencial


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 13h24

Sachs e o Piauí

Do leitor Ignacy Sachs, economista francês, com ligações estreitas com o Brasil e uma obra seminal em relação à economia e meio ambiente:

“O seu artigo sobre o Piauí aponta para um tema da maior importância para o Brasil.

Há anos venho perguntando aos meus amigos " quantas Califórnia no Piauí, no Nordeste, no Brasil?", sem obras faraônicas, identificando e aproveitando todas  as oportunidades de pequenos perímetros  de irrigação, usando tecnologias de irrigação poupadoras de água. E, ao mesmo tempo,refletindo como se deve aproveitar os abundantes recursos hídricos da Amazônia  como vantagem comparativa num mundo que vai enfrentar crescentes problemas relacionados  com a escassez de recursos hídricos, principalmente nas regiões que têm  hoje uma agricultura florescente,mas ao preço de bombeamento excessivo dos aqüíferos  explorados como minas de água e portanto esgotáveis.

Saudações cordiais

Ignacy Sachs


Escrito por Luis Nassif às 13h01

O "tucanês" de Marco Aurélio

Um dilema curioso nessa integração latino-americana, é que a bandeira tem sido aprofundada em um momento em que o ponto em comum entre as principais economias – Brasil, Argentina, Venezuela e Bolívia – é o nacionalismo. E o nacionalismo é, em geral, adversário de formas de integração. Na sua forma mais tosca, o nacionalismo é para dentro. O internacionalista é para fora.

O primeiro acredita resolver todos os problemas. O segundo aceita acordos e complementaridades. Só que os internacionalistas brasileiros olham com desprezo a América do Sul, e pensam na ALCA. E os nacionalistas criam problemas permanentes, como Hugo Chaves e Evo Morales.

O assessor especial da Presidência, Marco Aurélio, propõe uma receita zen de relacionamento. Ao melhor estilo “tucanês’, lembra que os Estados Unidos tem um presidente com estilo “peculiar”. E ele e Lula se dão bem. Do mesmo modo, Chaves e Morales têm estilo “peculiar”.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 12h45

Mercosul e opinião pública

Segundo Carlos Álvares, do CEPES (Argentina), a idéia do Mercosul tem apoio integral da opinião pública argentina; ao contrário do Brasil e do Paraguai, onde a opinião é dividida.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 12h32

O Airbus da América do Sul

Um dos grandes fatores de integração da União Européia foi o projeto Airbus, juntando fornecedores de vários países. No caso da América do Sul, há idéia do governo brasileiro de fazer o mesmo com os estaleiros navais. Mas ainda há muitas diferenças entre os parques industriais dos diversos países. Será um grande desafio definir o modelo de cadeia produtiva.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 12h30

Mercado de moedas na AL

Estou no Rio de Janeiro, participando do “Terceiro Foro Sul-Americano” promovido pela IUPERJ (da Universidade Federal do Rio de Janeiro), a Universidad Torcuato Di Tella e a Universidad Central, de Caracas, Venezuela.

Há uma longa lista de participantes, mais de quarenta acadêmicos, analistas e políticos do continente discutindo a integração. A primeira parte do seminário consistiu nas exposições de Marco Aurélio Garcia, Luis Maira e Pavel Rondon.

Embora não tenha sido tema dominante dos debates, a questão mais relevante é a integração financeira do continente. As demais dimensões da integração – infra-estrutura, congresso, cooperação tecnológica – são mais ou menos óbvias. A financeira, não.

As relações comerciais entre os países da região são pautadas pelo dólar. Os Convênios de Crédito Recíproco (CCRs) – conta de compensação entre países, em que as operações têm garantia de pagamento dos governos centrais – são uma gambiarra para melhorar o financiamento do comércio na região.

O grande modelo de integração se daria no momento em que uma BM&F (Bolsa Mercantil de Futuros) se juntasse a outras bolsas do continente e passasse a atuar como uma “clearing” (local onde se fazem os acertos entre comprados e vendidos) das diversas moedas nacionais, permitindo a compensação entre elas. O dólar continuaria sendo uma mera referência nominal – permitindo às moedas serem fixadas em relação à sua paridade com o dólar.  Mas o modelo permitiria a negociação interna apenas com moedas nacionais. E seria a ante-sala para a moeda única do continente.

A exemplo da União Européia, a moeda seria um fator de estabilidade e de identidade continental.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 12h27

O Brasil de André - 4

O ponto focal desse desastre foi a decisão tomada, na partida do Real, de flutuar o câmbio para baixo. Nas discussões preliminares, todas as conseqüências negativas tinham sido identificadas pelos economistas do Real. Todas, do risco do excesso de dólares apreciando o real, do custo fiscal das reservas cambiais excessivas, da necessidade de conter o capital gafanhoto.

Nada foi feito para prevenir os desastres anunciados. André participou diretamente da decisão de apreciar o câmbio, que matou a grande oportunidade de crescimento do país no século. E foi beneficiário direto desse erro. No final de 1994 seu banco estava vendido em quase US$ 1 bilhão no mercado futuro de câmbio. E ele continuava participando diretamente das formulações da equipe econômica.

Nos anos seguintes, tornou-se personagem típico do romance "O Encilhamento", do Visconde de Taunay. Comprou carros de corrida, viajou para Londres transportando cavalos em avião.

Agora, vem com essas considerações de cunho filosófico-político, como se essa deterioração do país nada tivesse a ver com as decisões econômicas?

Deveria se contentar em continuar apenas milionário.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h28

O Brasil de André - 3

Coluna minha, de 29 de maio de 1995, sobre as consequências da política implementada:

1) Empresas pequenas e médias, menos capitalizadas, rodariam, jogando no mercado um exército de desempregados --donos de pequenos negócios e funcionários.

2) Grandes empresas reduziriam sua produção, aumentando o número de desempregados. Mas preservariam lucros porque, sendo líquidas, compensariam seu prejuízo operacional com aplicações financeiras.

3) Pelo simples exercício de trazer dinheiro lá de fora e aplicar nesses inexplicáveis 4,5% ao mês, os bancos de negócios repetiriam os extraordinários lucros do ano anterior.

4) Todo o lucro do setor capitalizado da economia seria bancado pelo Estado, à custa do aumento exponencial da dívida interna. Tudo o que se arrecadasse com a venda de estatais não seria suficiente para bancar o mero crescimento da dívida interna, em função desses juros.

5) Com a queda da atividade econômica, em pouco tempo as receitas tributárias iriam despencar.

 


Escrito por Luis Nassif às 10h21

O Brasil de André - 2

Com apenas 18 meses com a economia de volta às mãos dos pacoteiros, e apenas com sua capacidade de brincar de fliperama com as políticas monetária e cambial, tinha-se:

1) O país em nova crise cambial;

2) a volta de alíquotas super-protetoras em muitos setores;

3) crescimento exponencial da dívida interna, comprometendo o futuro ajuste fiscal;

4) e uma multidão de empreendedores arrependidos até a medula dos ossos por terem apostado no país e programado investimentos.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h20

O Brasil de André - 1

A respeito das considerações politico-filosóficas de André Lara Rezende, na cerimônia em que recebeu o título de “Economista do Ano”.

O Brasil que os economistas do Real, André entre eles, receberam quando FHC assumiu o Ministério da Fazenda

1) Mudanças no comércio exterior, acabando com a parafernália burocrática, e permitindo a mais empresas o acesso a mercados e fornecedores internacionais.

2) Fim de todas as reservas de mercado, especialmente a da informática.

3) Abertura gradual e previsível da economia, induzindo as empresas nacionais a se tornarem mais competitivas.

4) Mudanças na política cambial, acabando com o sufoco histórico das crises cambiais.

5) Lançamento do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade e Produtividade, que tomou de assalto corações e mentes do setor produtivo, apontando o caminho que deveria percorrer para competir com os importados.

6) Interrupção do paternalismo do BNDES.

7) Fim da ciranda financeira, com o bloqueio de cruzados e com o lançamento do fundão, levando as empresas a perceberem que a única segurança de que dispunham era na sua atividade específica.

8) Lançamento do Código de Defesa do Consumidor.

9) Reinserção do Brasil no mercado internacional de capitais, com o levantamento da moratória e a reaproximação com o Japão.

10) Contas internas equilibradas, contas externas equilibradas, dívida pública irrisória.

11) Um furor reformista que permaneceu, mesmo no governo Itamar Franco.

Faltava apenas resolver a questão da inflação.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h18

17/08/2006

O "boom" do Piauí

Coluna de 18/08/2006

Os vizinhos pernambucanos, maiores e mais fornidos, têm por hábito tratar a soma do Piauí com Ceará como “pior serão”. Agora estão mordendo a língua. Quem conta é o Secretário do Planejamento de Pernambuco, Cláudio Marinho, uma das referências nacionais em política científico e tecnológico, durante o Seminário “Caminhos da Inovação”, promovido pelo Projeto Brasil e pela Agência Dinheiro Vivo.

A água jorra no Piauí e até os estrangeiros descobriram que a agricultura capitalista chegou ao nordeste. Depois da colonização do Paraná, da aventura do centro-oeste e do cerrado, a fronteira agrícola migrou pelas costas da Bahia, além do São Francisco e chegou ao sul do Piauí. Não há necessidade de água, de transposição do São Francisco. Recentemente, indianos compraram 100 mil hectares de um empresário cearense. Para efeito de comparação, todo estado de Pernambuco tem 42 mil hectares de terras irrigadas. Na região de Petrolina e Juazeiro, a fruticultura irrigada gerou propriedades com tamanho máximo de 150 hectares, responsável hoje em dia por 90% da produção de manga do país.

Agora, com a explosão do biodiesel, o “boom” da região já é uma realidade. Se não houver preconceito na convivência da pequena propriedade (que esmagará biodiesel) com o etanol, o país poderá aproveitar a oportunidade do século, diz Marinho.

Segundo Alosio Asti, do BNDES, só em Piauí já existem seis usinas de processamento de óleo em construção. Estudos do banco indicam que, em dez anos, o nordeste irá produzir 40% do álcool consumido no país.

Marinho foi um dos responsáveis por ter tornado Recife um pólo de tecnologia de alta qualidade, com o Porto Digital, um parque tecnológico em pleno centro velho da cidade.

Sua preocupação é pelo tamanho do desafio, e pela precariedade dos instrumentos institucionais existentes. “O tamanho da oportunidade é muito maior do que os instrumentos de que o Brasil dispõem para política industrial”, diz ele.

Em sua opinião, haveria a necessidade de uma reforma da política industrial e do Sistema Nacional de Inovação, incorporando o BNDES como principal motor dessa nova etapa.

Se quiserem abrigar o capital externo, os novos centros regionais terão que oferecer escolas em inglês e outros recursos internacionalizados. Em Eliseu Martins, no Piauí, têm executivos indianos e americanos sem escolas onde colocar os filhos. Em Luiz Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, tem duas escolas de inglês para filhos de executivos. No Porto Digital, em Recife, uma das condições para a atração de empresas estrangeiras é a existência de escolas em inglês para os filhos dos executivos.

Marinho considera que essa “territorialização” da política industrial resgata a política de desenvolvimento que foi seqüestrada pelos macro-economistas. O recurso mais escasso nessa nova fronteira não é o capital financeiro, mas o capital humano para gerenciar os empreendimentos, desde o executivo até o chão de fábrica.

Mas já não se tem dúvida, pelo nordeste que a dinâmica da nova economia da bio-energia já iniciou seu processo transformador na região.


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Escrito por Luis Nassif às 22h24

A vez do Piauí

As fronteiras agrícolas, que historicamente se expandiram para o centro-sul e, depois, para o centro-oeste, finalmente começam a bater nas portas do nordeste.

Durante o Seminário de Inovação, do Projeto Brasil, o Secretário de Planejamento de Pernambuco, Cláudio Marinho, mostrou –utilizando os mapas da Google—a invasão do agronegócio sobre o nordeste, a partir oeste da Bahia, passando pelo Piauí.

Convivem desde grandes propriedades modernas, até pequenas propriedades de 100 hectares, utilizadas na produção de frutas para exportação.

O agronegócio, a fruticultura e a agricultura familiar moderna irão modificar em pouco tempo a cara do nordeste, sustenta o secretário.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h55

Pequenas empresas e inovação

O empresário José Ripper, da ASGA, apresentou uma visão bastante crítica dos sistemas de inovação no país.

Primeiro, questionou as estatísticas sobre gastos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) no setor privado. Muitas vezes interessa ao empresário lançar os investimento como despesas.

Discorda também da relevância das patentes depositadas nos EUA pelo Brasil. A patente patente interessa apenas à grande empresa, diz ele. Se invento algo patenteável, tenho que patentear em todos os lugares do mundo onde produto pode ser utilizado. Tenho que ter estrutura para patentear em todos os países e outra para fiscalizar. É impossível para pequenos.

Questionar o desenvolvimento em P&D das multinacionais no país, com incentivos fiscais, mas sem que os resultados sejam apropriados pelo país.

A última Lei de Informática dá um pequeno incentivo para produtos desenvolvidos no país, mas não foi regulamentada. Não adianta P&D genérico nem incentivos à microeletrônica, diz ele, se não houver o principal: mercado.

Ele fabrica produtos de microeletrônica. Tornou-se importador.

 


Escrito por Luis Nassif às 11h50

São Paulo suspende seu provão

Matéria do Estadão de hoje, de Renata Cafardo e Simone Iwasso (clique aqui) informa que o estado de São Paulo cancelou o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar no Estado de São Paulo (Saresp), avaliação que existe desde 1996.

Os motivos não foram explicados.

“Procurada pelo Estado, a Secretaria da Educação informou que o exame não será feito porque não houve tempo para estruturar possíveis mudanças para 2006 nem avaliar os resultados de 2005”, diz a reportagem.

 


Escrito por Luis Nassif às 11h38

As pesquisas nas empresas

Quais as dificuldades para as empresas privadas desenvolveram programas de pesquisa e desenvolvimento. Presidente da Rhodia, Marcos de Marchi aponta a dificuldade de importação de equipamentos, de liberação de equipamentos importados para pesquisa, de exportar amostras.

A Rhodia tem laboratório pronto na França, querendo trazer inteiro para Brasil. Mas existe legislação que protege determinados equipamentos com similar nacional. Nada contra ABIMAQ, diz ele, mas quando é caso de pesquisa, teria que ter tratativa diferenciada.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h26

As políticas de Estado

Do Diretor Científico da FAPESP, Carlos Henrique da Britto Cruz, sobre políticas públicas, no Seminário "Políticas para a Inovação", promovido pelo Projeto Brasil e Agência Dinheiro Vivo:

A partir de 1999 assunto indústria entrou na agenda, surgfiram Fundos Setoriais e criou-se Lei da Inovação.

Na passagem para o novo governo, houve continuidade. Pegaram coisas que foram iniciadas, que foram melhoradas e houve continuidade.

A Lei da Inovação, aprovada em 2004 é praticamente a que foi mandada em 2002, com as melhores que surgiram no debate congressual.

Os fundos setoriais foram criados no segundo mandato FHC, e também foram aprofundados e melhorados em sua operação nos últimos três anos e pouco.

Houve avanços para se reduzir o contingenciamento.

O Brasil passou a ter política de Estado para inovação, assim como tem para Saúde, com o SUS(Sistema Único de Saúde), a pós-graduação (que vem desde os anos 60).

O que demonstra a importante da estabilidade, mesmo que signifique, às vezes, andar de maneira mais devagar.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h16

O MCT na bioenergia

A parte do Ministério de Ciências e Tecnologia no apoio aos programas de de bioenergia está centrado no apoio ao desenvolvimento tecnológico nos seguintes campos:

1º Bioetanol: com professor Rogerio Cerqueira Leite, projeto em rede. Envolve setor industrial, acadêmico, de governo, em uma articulação para identificar gargalos dessa questão. Discussão tecnológica muito séria: a hidrólise.

2º Biodiesel: encomendas e editais este ano, R$ 32 mi voltadas para trabalhar capacitação, melhoria e forma adequada de extração (encomenda direta para Embrapa) para o cultivar: mamona, dendê e outros derivados. Financiamento de R$ 5 milhões. Segundo elemento: o que fazer com resíduo, resultado da extração e do esmagamento. Brasil produzindo montanhas de glicerina, tortas e farelo a partir da mamona. Foi montada uma rede com grande parte das universidades federais e algumas privadas. Provavelmente será coordenada pelo TecFar do Paraná.

3º Capacitação Tecnológica para Armazenamento e Logística do óleo vegetal.

4º Co-produtos: como desenvolver produtos adicionais àqueles que estão  sendo produzidos. Torta e farelo podem servir para ração animal.

5º Certificação: trabalho com ANP (Agência Nacional de Pertróleo) laboratorial. Para que óleo chegue à Petrobrás, tem que ter certificação. Encomenda da Finep de R$ 12 a R$ 13 mi para aparelhar e reapalhar os gargalos em todos laboratórios nacionais que trabalham com derivados ou produtos relacionados a essas oleoginosas.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h07

Os recursos do MCT

Segundo Luiz Antonio Rodrigues Elias, a subvenção do Ministério de Ciências e Tecnologia, deverá se centrar em três formas de atividade, de acordo com a orientação do PAPPE Subvenção. Haverá de R$ 100 a R$ 120 milhões a serem investidos. Os recursos são a fundo perdido mas se exigirão contrapartidas em termos de adensamento da cadeia produtiva e outros indicadores. linhas

1.        Ações horizontais: inovações em empresas para aumento da competitividade, adensamento tecnológico, dinamização de cadeias produtivas.

2.        Opções  estratégicas: semicondutores e software, fármacos e medicamentos e bens de capital.

3.        Atividades portadoras de futuro: biotecnologia, nanotecnologia e biomassa/energia


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h45

Os EUA e a microeletrônica

Para que os ainda acreditam que nos EUA não há um papel ativo do Estado na promoção do desenvolvimento, dados de Britto Cruz:

Em 1962 o governo americano comprou 4 milhões de circuitos integrados, na época, mais caros que as válvulas. Foi o que permitiu construiu a mais poderoa indústria de micro-eletrônica do mundo. O governo não comprou pesquisas, mas um produto.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h34

O ParqTec gaúcho

Segundo Luiz Antonio Rodrigues Elias, Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, o grande parque tecnológico nacional, modelo para todos os demais é o do Rio Grande do Sul.

Como se sabe, os Parqtecs terão um papel relevante no desenvolvimento da inovação, ao colocar em um mesmo ambiente pesquisadores, universidade e empresas.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h31

Onde a tecnologia tem apoio público

Na fase inicial de discussão sobre os diversos agentes de inovação, Britto Cruz ajudou a criar os parâmetros da discussão, ao definir claramente os papéis em torno de três pontos:

Política Científica: pesquisa básica e formação, dada pela Universidade.

Política Tecnológica: pelos institutos de pesquisa

Política de Inovação: pelas empresas.

Todos os modelos de políticas tecnológicas e de inovação apresentados centram foco no papel da empresa como agente de inovação.

Nos Estados Unidos, por exemplo, dos recursos gastos no setor, US$ 20 bi vão para universidade; US$ 20 bi para o governo e US$ 200 bi para empresas.

Não existe essa história de que o Estado não deve apoiar indústria. Nos EUA, em pelo menos quatro áreas o apoio do Estado é justificável e apoiado pela opinião pública:

1.      Defesa. O Departamento de Defesa dois EUA aplica 24% de seus recursos intra-muros, 5% com universidade e 71% com indústria.

2.      NASA: 27% dos gastos são intra-muros, 27% na Universidade e 50% na indústria.

3.      Saúde: é a terceira maneira legítima de interferência do Estado.

4.   Energia: hoje em dia grande parte dos institutos públicos americanos estão sendo dirigidos para energias alternativas. O que comprova a importância do Brasil avançar nessa área.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h22

Fórum de Inovação do Projeto Brasil

Estou mediando o seminário “Políticas para Inovação: uma análise do caso brasileiro à luz da experiência internacional”, promovido pelo Projeto Brasil, da Agência Dinheiro Vivo.

Ao longo do dia trarei as principais conclusões em regime online.

No momento, está falando o Carlos Henrique Britto Cruz, diretor-científico da FAPESP e, hoje em dia, provavelmente o mais importante ideólogo das políticas de inovação no país. Seus estudos ajudaram a clarear o papel das universidades, do governo e da iniciativa privada na geração de inovação.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 09h45

A entrevista de Serra

A íntegra da resposta do candidate José Serra ao SPTV, no quesito educação:

Chico Pinheiro:  Bom, nós temos uma outra questão seriíssima em São Paulo que é a questão do ensino e a baixa qualidade da educação. São Paulo foi reprovada em educação nas provas sobre a educação no país.

Carla Vilhena:  Prova Brasil, no SAEB.

José Serra:  Não chegou a ser reprovado, teve sétimo, oitavo lugar. Não é abaixo da média do Brasil. Agora tem que entender o seguinte, diferentemente dos Estados do Sul, que são os que têm melhor situação, São Paulo tem muita migração, não é? Muita gente que continua chegando, este é um problema. E houve uma expansão quantitativa muito grande do ensino. Eu acho que agora a gente tem que olhar para frente, enfatizar a qualidade.

O que eu fiz na Prefeitura e o que vou fazer no Estado? Botar duas professoras por sala de aula no primeiro ano do ensino fundamental. Isto é crucial para que as crianças aprendam. Eu não quero nenhuma criança passando de ano sem aprender aquilo que tem que aprender naquele ano.

Carla Vilhena:  Candidato permita-me então.

José Serra:  Isso é essencial olhando para a qualidade daqui para frente.

Carla Vilhena: Duas professoras, a gente chega a até ter 50 alunos por sala de aula, a quantidade de dinheiro na educação hoje é a maior parte é para pagar professores, mais de 9 bilhões para pagar os professores que já estão, quer dizer, esse número chegaria a 19 bilhões para pagar esse segundo professor em sala de aula. De onde que vai sair esse dinheiro?

José Serra:  Carla na Prefeitura--

Chico Pinheiro:  Candidato

José Serra:  Eu dei aula toda a semana, eu sou professor, fui a vida inteira professor. Eu fui dar aula todas as semanas para terceira ou quarta série mudando de escola, exatamente para entender o problema. Esta segunda professora é estudante universitária de Pedagogia, de Letras.

Chico Pinheiro:  Como voluntária?

José Serra:  Não é voluntária, ganha, mas é um salário inicial, é uma assistente. A Prefeitura já fez em quase metade das escolas, isso é perfeitamente viável do ponto de vista financeiro. E vou dizer para vocês, é o meu grande desafio, melhorar a qualidade da educação e levar até escola técnica que também é fundamental para oportunidades no mercado de trabalho.


Escrito por Luis Nassif às 09h40

A geopolítica do petróleo

Coluna de 17/08/2006

Esta semana, falei da geopolítica do gás. Vamos à do petróleo.

Nos próximos dez ou quinze anos, haverá grandes reestruturações e definições de projetos de grande porte no setor petrolífero na América Latina. Uma das questões estratégicas mais relevantes, é como ficará especificamente o mapa do petróleo.

O Brasil possui produção crescente e reservas relevantes em petróleo pesado; e produção crescente de refino de petróleo leve. Os dois outros grandes produtores do continente, a Venezuela e o México, também são grandes produtores de petróleo pesado, mas enfrentam problemas da estabilização ou declínios das reservas. Os demais países do continente têm ou produção ou reservas declinantes.

Numa visão de longo prazo, desenvolvida pela Petrobrás, o sistema de produção de petróleo na América do Sul passa por uma aproximação estratégica entre Brasil, Venezuela e México.

O grande problema inicial é que os três países é justamente serem grandes produtores de petróleo pesado, com preço crescentemente abaixo do petróleo leve –já chegou a 19 dólares o barril. O petróleo leve produz derivados cuja demanda de consumo aumenta, como diesel, gasolina, e GLP (gás liquefeito de petróleo). Já o petróleo pesado tem como subproduto o óleo combustível. A diferença de preço entre o diesel e o óleo chegou a 45 dólares o barril. Há a necessidade, então, de investimentos pesados em unidades de conversão de coque, para mudar a estrutura de refino.

Com o aumento da produção de gás natural na América Latina, haverá um deslocamento mais rápido do óleo combustível. E, com a ampliação da capacidade de refino para derivados leves, a América Latina deverá assumir uma importância crescente na geopolítica mundial do petróleo em um horizonte de dez anos – um quase nada, já que entre a descoberta e a exploração de um poço o prazo médio é de oito anos. Com as últimas descobertas, o Oriente Médio continuará dominando o mercado mundial de petróleo. Mas a América Latina, com 100 bilhões de barris de reservas, colou na Europa e na África.

E, aí, há diferenças fundamentais entre a Petrobrás, a venezuelana PEDEVESA e a mexicana Pemex. A Petrobrás atua fundamentalmente no mercado interno. Os investimentos são ligados ao preço internacional do petróleo, e parte dos custos também são internacionais. Mas a dependência do mercado interno impede o repasse das altas do petróleo para o consumo interno – faz parte da contrapartida pelo quase monopólio de que dispõe.

Em futuro breve a segurança energética mundial dependerá de dois fatores:

1.      Da expansão das fontes n tradicionais de petróleo: águas profundas e áreas difíceis de produção. A Petrobrás é líder dessa tecnologia e, em breve, poderá chegar ao Golfo do México.

2.      Da descoberta de alternativas entre os biocombustíveis. O Brasil é o único país do mundo com estrutura de distribuição e logística do álcool. Com o aumento massacrante de vendas dos carros com motores “fluex fuel”, em breve se resolverá um dos principais problemas do biocombustível, que é a paridade do álcool.

Habemus posição estratégica nos dois pontos.


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Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 07h24

16/08/2006

A educação com Chalita

O leitor Marcos envia artigo da Comciência – excelente site de discussão de políticas públicas – com análise indicando migração negativa em São Paulo (clique aqui). Vamos situar direito a discussão iniciada na nota anterior.

O início da deterioração da escola pública paulista ocorreu com a explosão do fluxo migratório nos anos 70, que aumentou substancialmente a demanda sem que o poder público investisse na sua ampliação. Esse é um dado inquestionável a que, provavelmente, José Serra se referiu.

Outra coisa é o desempenho recente da educação paulista – tanto a do estado quanto a do município. No último ENEM, São Paulo ficou em oitavo lugar na prova de matemática, atrás de estados que só recentemente começaram a investir na área, como Espírito Santo e Mato Grosso do Sul. Ou seja, regrediu nos últimos anos, apesar de um gasto per capita expressivo.

Já postei algumas notas aqui indicando que o trabalho do “furacão” Gabriel Chalita ainda não foi suficientemente dissecado.  A Secretaria da Fazenda de São Paulo tem um banco de dados fantástico, implantado na gestão Yoshiaki Nakano. Permite toda sorte de cruzamentos e de geração de indicadores. Segundo técnicos da Fazenda, na gestão Chalita praticamente não foi utilizado -- apesar de ser uma das maiores despesas do estado.

Obviamente a campanha política impede a explicitação da deterioração recente do ensino paulista por parte do candidato da situação. Mas a nova Secretária da Educação tem deixado vazar observações assustadas sobre o que encontrou na Secretaria.

Não deixa de ser curioso que comentaristas que mantinham contato estreito com Chalita jamais tenham trazido a público a real situação de descalabro deixada pelo delfim.


Escrito por Luis Nassif às 20h43

Serra e a migração

É uma falsa discussão, esta em torno da afirmação do candidato ao governo de São Paulo, José Serra, de que a migração foi uma das causas principais da baixa qualidade de ensino do estado.

Foi mesmo, e obviamente não por culpa dos migrantes, mas da queda do investimento na manutenção da qualidade do ensino para enfrentar essa massificação. Não é fenômeno de hoje. Essa grande migração ocorreu no final dos anos 60, provocada por dois fenômenos simultâneos.

O primeiro, o processo de urbanização brasileira que se seguiu à industrialização de JK e ao fato do regime militar ter descuidado de políticas agrícolas compensatórias. Aliás, se reeleito, a grande bandeira de JK era fazer o “cinco anos em cinco” na agricultura.

O segundo fenômeno foi a enorme seca do Nordeste, na segunda metade da década. No começo de carreira, acompanhei o famoso trem dos migrantes, que saía da Bahia, passava por Belo Horizonte e chegava a São Paulo.

Tivesse havido políticas públicas adequadas, investimentos pesados na educação e na área social naqueles anos 70, o país teria dado um salto em termos de inclusão social, ampliação do mercado de consumo e da cidadania.

Sem os investimentos, ocorreu a deterioração gradativa da rede pública de ensino e o inchaço das grandes cidades.

Um pouco de estudo evitaria tanto alarido em torno de uma evidência histórica, e impediria alguns mais ligeiros de tachar de desinformação uma declaração embasada em fatos históricos.

 


Escrito por Luis Nassif às 19h15

A compra da INCO pela Vale

A oferta de compra da canadense Inco pela Companhia Vale do Rio Doce deixou parte do mercado desconfiada. Duas agências de avaliação de risco (Moody’s e Fitch) colocaram os ratings da empresa em observação com possibilidade de revisão para baixo e alguns movimentos no mercado sugeriam que o valor oferecido pela mineradora brasileira seria maior do que a Inco realmente vale. Tudo porque os US$ 17,7 bilhões seriam pagos integralmente em dinheiro e à vista (0,86 dólares canadenses por ação ordinária), prática não muito comum nesses tipos de transação. O valor aumentaria significativamente o endividamento da Vale em dólar.

Em geral, os analistas do mercado consideraram o preço justo e o lance ousado, mas racional. Se o valor oferecido pela Vale for financiado por bancos estrangeiros a uma taxa de juros aproximada de 6% ao ano, a companhia pagaria algo em torno de US$ 900 milhões por ano com serviço da dívida, o que seria praticamente coberto pelo lucro anual da Inco, de US$ 836 milhões (dados do balanço de 2005).

Mais detalhes veja no Guia Financeiro.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 18h49

Depois do expediente

Estou ouvindo “Cais da Esperança” do Tavinho Moura, com ele; e “Dois Rios”, dele e do Sérgio Santos. Mas que compositor e cantor emocionante que é o Tavinho.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 18h42

A Bolívia cai na real

A coluna “Banho de Realidade na Bolívia”, de Sérgio Leo, no “Valor” do dia 14 (clique aqui) comprova o que qualquer mente não ideológica sabia no início das escaramuças de Evo Morales. Tratava-se de um ímpeto inicial, movido em parte pela exploração ancestral da Bolívia, em parte pelas eleições constituintes e, em parte, pela inexperiência de quem acaba de chegar ao poder.

Agora, passado o porre inicial, Morales cai na real e vai se tornar cada vez mais pragmático. O Brasil entrará no próximo tempo mantendo as boas relações com a Bolívia enquanto, prudentemente, busca alternativas ao gás boliviano.

Pergunto: o que teria acontecido se o Brasil tivesse partido para a retaliação? Ter-se-ia um governante inexperiente e, também, isolado e desesperado. Graças ao bom senso na condução da crise boliviana, nenhum dos interesses do país deixou de ser defendido, e não se fechou a porta aos bolivianos. A diplomacia brasileira conseguiu manter sua posição histórica de mediadora de conflitos no continente.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h25

Política industrial e TV digital

Coluna de 16/08/2006

Apenas agora a TV Digital começa a sair do papel. Na verdade, a negociação com os japoneses obedecia à lógica política, não à técnica. Nem se tinha o que pedir em contrapartida, porque o lado brasileiro não tinha se organizado para identificar os pontos de necessidade e de reivindicação. De concreto, havia apenas o furor do Ministro das Comunicações Hélio Costa, de fechar com o padrão japonês a qualquer preço. Ou, de preferência, sem exigência alguma.

Nos últimos dias, sob a batuta da Casa Civil, organizou-se fórum que irá preparar a criação de um Instituto, constituído do pessoal da indústria, da radiodifusão, de software e dos institutos de pesquisa, peça central das negociações com os japoneses e da absorção de tecnologia. O governo entra com recursos, mas também os setores privados, inclusive para aumentar o grau de comprometimento com o instituto.

A idéia surgiu depois dos tropeços iniciais nas negociações com os japoneses. O Brasil não tinha sequer o que pedir, um projeto em cima do qual discutir. A contrapartida colocada na mesa –a fábrica de semicondutores— não avançava porque não se tinha um projeto, um estudo fundamentando as demandas. Não se abre a tecnologia só por pedido genérico, me diz a Ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil. Tem que se dispor de um projeto básico e saber especificamente o que pedir.

O que ocorreu –isso a Ministra não diz-- foi que, inicialmente, o projeto da TV Digital foi atropelado pelas conveniências políticas do governo. A partir daí, se saiu atrás do prejuízo. A intenção era a de impedir que todo o projeto acabasse se resumindo à transferência de tecnologia de matriz para filiais.

Para absorver a tecnologia tinha-se, inicialmente, de montar grupos nacionais que participassem ativamente do processo de discussões. Depois, com o projeto básico, sabendo o que pedir e o que oferecer, e montar um centro de desenvolvimento que desse graus de liberdade e barganha aos fabricantes nacionais.

Decidiu-se, então, juntar as três pontas brasileiras para começar a definir o projeto.

O primeiro passo foi colocar os grupos para conversar com os japoneses. Definiram-se vários grupos temáticos, constituídos por representantes do Japão e de empresas brasileiras. Aí se desamarrou a discussão e as conclusões começaram a fluir com reivindicações estruturadas para cada tema. Onde o Brasil tinha avançado mais com as pesquisas, a conversa fluiu mais facilmente, como foi o caso do grupo da TV Digital e do grupo da colaboração tecnológica.

Assinado o acordo para a criação do fórum, o setor privado começou a se mover. Partiu dele a sugestão de criação do instituto juntando os nove fabricantes nacionais, produtores de software e institutos de pesquisa. Até as emissoras toparam entrar com recursos –o que demonstra a importância política de que o Instituto se revestiu.

Esse instituto vai garantir o laboratório, a pesquisa, permitir desenvolver protótipos e se ter um nível mínimo de barganha. Principalmente: vai ser o primeiro fórum inter-setorial da nova era digital, juntando todas as pontas que participam do processo.

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Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 08h31

15/08/2006

Dos que irão morrer

Do leitor Lino Steffen, a respeito da nota “Pastore e o câmbio” 

Os “mortos e desaparecidos” estão nos setores intensivos de mão-de-obra, de custos inflexíveis, já que seus gastos salariais não são pagos em dólares. Redução de escala, por expulsão do setor exportador, implica em queda na produtividade para os que não conseguem acompanhar essa valorização cambial excessiva. Pastore propõe o inverso: o aumento da produtividade deve anteceder a própria produção.

O professor não deve ter entrado, em toda sua vida, em alguma indústria desses setores. Não conhece chão de fábrica, para entender a batalha pelo aumento da produção, fator primordial para ganhos de produtividade nesses setores. Seu segundo argumento é questão central da “doença holandesa”: o Brasil poderia se tornar grande exportador de combustíveis, valorizar ainda mais o câmbio e prescindir da exportação de muitos dos setores hoje prejudicados. Nessa marcha, os chineses ocupariam espaços até mesmo em setores industriais com exportações crescentes, como o automobilístico.

 


Escrito por Luis Nassif às 19h04

A entrevista de Dilma

A Ministra-Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff, me concedeu uma entrevista na semana passada, abordando, entre outras coisas, a estratégia para o biocombustível.

A entrevista saiu no Agenda Brasil, parceria da Agência Dinheiro Vivo com a APJ (Associação Paulista de Jornais), que congrega 16 jornais do interior de São Paulo com tiragem de 430 mil exemplares aos domingos.

Para ler a íntegra, clique aqui. O acesso é para cadastrados.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 15h14

A pulga do médico

Do Leitor André Araújo

Lentamente, como uma decantação que pinga gota a gota, a opinião publica americana e principalmente a britânica está percebendo que os Governos Bush e Blair parecem esfregar as mãos quando aparece um problema de terrorismo e eles podem criar o clima de pânico, uma onda na qual surfam alegremente. Como na história do médico que vivia da ferida do freguês que nunca curava, esses dois governantes medíocres precisam do clima de tensão para governar. Se não aparece o terrorismo, eles tratam de criar.

O caso das bombas de gel que iriam derrubar dez aviões e que já estão atrapalhando a vida de milhões de passageiros mundo afora, ainda está obscuro, faltam muitos dados, não se sabe até que ponto o plano foi executado, a policia britânica pós-Blair já não tem a credibilidade do glorioso passado.

Na Europa continental nunca esse clima teve o mesmo impacto, os governos são mais céticos e mais práticos,  o pânico não é matéria prima da política.

A dupla Blair-Bush vai espremer até a ultima gota o limão da ameaça de terrorismo, que serve para a política interna e externa, mas o truque já não tem a mesma audiência.


Escrito por Luis Nassif às 12h05

O BC e a análise prospectiva

Vamos a uma pequena avaliação da volatilidade da economia brasileira, tanto para períodos de bonança quanto de crise. Cada vez mais a economia brasileira está pró-cíclica –isto é, quando a economia mundial melhora, é mais beneficiada do que a média das economias mundiais (embora nem sempre se aproveite disso); quando a economia mundial piora, é a primeira a despencar.

Vejamos:

Pelo fato dos títulos da dívida brasileira serem os de maior liquidez no exterior, o risco-Brasil é o primeiro a cair, quando há excesso de liquidez internacional (e situação interna sob controle) e os primeiro a subir (quando reduz a liquidez internacional e há crises internas). Ou seja, é um papel pró-cíclico (que caminha sempre na direção do mercado).

Hoje em dia, com a apreciação do real, a balança comercial brasileira está sustentada por commodities, produtos pró-cíclico. Ou seja, cujas cotações e volume exportado aumentam em caso de aquecimento da economia global; mas também são os primeiros a despencar em caso de recessão.

O Brasil foi dos países que mais foi beneficiado e menos se apropriou desses benefícios na fase de bonança. A não ser no trabalho de redução da dívida externa e da dívida indexada ao câmbio. Mas no quadro comercial, criou espaço para problemas de monta.

É grande a probabilidade de uma reversão do quadro internacional. As apostas, hoje em dia, são sobre quando isso ocorrerá. Aí se terá uma situação complicada.

As exportações brasileiras estão sendo sustentadas pela alta de preços das commodities e de alguns poucos manufaturados. Em caso de crise mundial, caem preço e quantidade.

Há setores em que poderão ocorrer quedas bruscas de exportação. É o caso do setor automobilístico e da soja. O primeiro, porque para exportar há todo um investimento prévio; para sair da exportação, prejuízos à imagem da marca nos países importadores. Por isso relutam um pouco mais em parar as exportações.

No caso da soja, porque ainda se está colhendo a soja que foi plantada com um dólar mais valorizado, mas que não pode ser jogada fora por conta da valorização do real.

Se o Banco Central tivesse ferramentas mais sofisticadas de análise de risco, jamais focaria exclusivamente na inflação gregoriana. De que adianta um ano ou dois atingindo a meta, se às custas de comprometer a estabilidade daqui a dois ou três anos?

Mas a análise prospectiva, presente em vários setores de ponta da economia, ainda não chegou à área econômica.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h50

Pastore e o câmbio

Da coluna no “Valor”, do professor Affonso Celso Pastore e da economia Cristina Pinotti, sobre o câmbio (clique aqui).

Depois de um apanhado da situação da balança comercial, com a competência costumeira, Pastore e Pinotti passam às conclusões:

“Primeiro, o câmbio real valorizou-se sem prejudicar as exportações porque isto foi permitido por uma forte elevação dos preços internacionais, impedindo que se diga que o real está sobrevalorizado. Na realidade, sua valorização foi permitida pelo ciclo de elevação de preços internacionais, que também presenteou o Brasil com o ajuste externo. Segundo, estes são preços médios e não fazem justiça aos exportadores de produtos cujos preços não cresceram nesta proporção. Mas este caso não pode ser resolvido com uma mudança do regime cambial, e, sim, com investimentos que elevem a produtividade e reduzam os custos”.

Porque não pode ser resolvido com mudança do regime cambial? Os mortos e desaparecidos da indústria têxtil, de mobiliário, da soja, de calçados ficaram muito sensibilizados com a sugestão do professor.

Mas, em quadros de mudança brusca de câmbio, não há investimento e ganho de produtividade que resolva. Mesmo porque o impacto sobre o caixa da empresa é imediato, enquanto ganhos de produtividade são de médio prazo. E empresa com apertos de caixa não tem tempo nem de respirar, quanto mais de planejar cortes de custo e investimentos. Aliás, sua capacidade de investimento é a primeira a ser comprometida pela apreciação do câmbio.

Se o professor conseguir montar a equação que permita entender como empresas com o caixa desequilibrado podem preservar capacidade de investimento, terá resolvido o problema do câmbio brasileiro.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h34

A geopolítica do gás

Coluna 15/08/2006

Na próxima semana, o presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, estará participando de uma reunião em Caracas, Venezuela, para discutir o grande gasoduto integrando a América Latina. Há vários grupos de trabalho discutindo as questões regulatória, ambiental, a certificação das reservas, a tecnologia, o preço e a estrutura societária do projeto. O prazo de entrega do documento deverá ser adiado em um ano, para agosto do ano que vem. Mas poderá mudar a face do continente.

Hoje em dia, a oferta de gás vem de três fontes.

Na Venezuela há um potencial grande, identificação de volumes consideráveis de reservas, mas sem certificação – que assegura o tamanho efetivo da reserva. Na Bolívia, há reservas já certificadas de volume bastante significativo, e boas possibilidades de novas descobertas. Finalmente, o Peru tem um potencial crescente de reservas de gás.

Na outra ponta se tem a Argentina, que é o maior mercado consumidor, mas com reservas declinantes; o Chile, que é um consumidor sem gás. E o Brasil, com a mais alta taxa de crescimento de uso do gás no mundo –porque partindo de uma base baixa. E, finalmente, Trinidad Tobago.

Diferentemente do petróleo, o gás não é uma commodity. Depende essencialmente da infra-estrutura para distribuição. Não há como falar de mercado do gás sem estrutura de transporte, ou via gasodutos ou via gás natural liquefeito (GNL).  É um processo que exige capital intensivo, tanto na fase de compressão e liquefação, na de transporte e na de regaseificação.

Trinidad Tobago é importante nessa geografia, porque possui um hub para GNL com plantas de liquefação. A Venezuela ainda vai fazer sua planta, assim como o Peru. A Petrobrás já está construindo duas usinas, uma em Pecem, Ceará, outra no Rio de Janeiro, para entrar em operação em 2008. E o Chile tem planos para uma.

Um dos problemas para os investimentos, é que, com exceção do GNL, o gás não tem preço internacional. No caso do gasoduto (que responde pela quase totalidade do gás na América Latina) o preço é aquele que o consumidor pode pagar. Numa ponta, tem que cobrir os investimentos e os custos operacionais. Mas, na ponta do consumo, o referencial de preço é o combustível alternativo. No caso do Brasil, é majoritariamente o óleo combustível. Justamente por isso não há nenhuma lógica na pretensão boliviana de pautar os preços de seu gás pelas cotações internacionais, ainda mais não tendo GNL.

Há duas limitações para construção do supergasoduto. A primeira, o longo prazo e a baixa taxa de retorno dos investimentos. A segunda, a questão regulatória, em função de passar por vários países de um continente com instabilidade política crônica.

Justamente por isso, a Petrobrás é contra a Lei Rodolfo Tourinho, que pretende regular especificamente o transporte do gás. Sem uma visão integrada, dificilmente haverá investimentos específicos em gasodutos porque, individualmente, ele não dá o retorno desejado.

Obviamente, para controlar todas as etapas do gás, a Petrobrás teria que se submeter a uma regulação forte, para impedir o poder de monopólio.


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Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 08h21

14/08/2006

Castro e a industrialização

O processo de desindustrialização recente da economia, por conta dessa política cambial irresponsável, mudou o pensamento de um dos principais industrialistas brasileiros, o economista Antonio Barros de Castro, vice-presidente do BNDES.

Antes, defensor das políticas horizontais –de criação de ambientes de inovação e de condições de competitividade genéricas para todos os setores— Castro se assustou com a análise dos dados do FIBGE, e com a desindustrialização não planejada. E passou a defender a definição de setores estratégicos, que possam ser preservados dessa razia sobre a indústria brasileira.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 18h27

O papel do TCU

Apesar das críticas, é louvável a ação do Tribunal de Contas da União, de conferir a lógica financeira dos contratos de concessão de rodovias. Há tempos, uma rapaziada fera, dominando ferramentas de informática e conceitos financeiros, tem se debruçado sobre os contratos de regulação, analisando a sua lógica e conferindo sua aplicação na prática.

A isso se chama aumento da governança do Estado.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 18h27

O PCC e a segurança

Vamos analisar a estratégia de combate ao PCC sob a ótica estrita da segurança do cidadão. Esqueçam direitos individuais e toda esse discurso de país civilizado, que só serve para confundir.

Há dois exércitos na rua: um, o das forças de segurança; outro, o do PCC. O PCC alicia seus combatentes dentro do próprio sistema penitenciário. A grande estratégia consiste em combater o PCC fora dos presídios e, dentro dele, reduzir sua influência sobre a massa de condenados.

O primeiro passo, portanto, é saber diferenciar a população carcerária, entre os que pertencem ao PCC e os demais, que podem ser aliciados. Aos membros do PCC o rigor da lei, até do Regime Disciplinar Diferenciado, se for o caso; o isolamento do mundo exterior; o fim da corrupção que permite aos chefes dispor de celulares e comandar a tropa.

É sobre o segundo grupo, da população carcerária de baixa periculosidade, que deve incidir a ação pública, impedindo-a de ser cooptada pelo PCC, reabilitando-a para a legalidade.

De que maneira se faz isso? Uma delas é tornando as penitenciárias seguras e instrumentos efetivos de reabilitação dos presos recuperáveis.  O que leva um preso comum, de baixa periculosidade, a cair nos braços do PCC é a insegurança interna –que o faz buscar a ajuda de quem pode garantir sua vida— e a falta de perspectivas futuras. Transformar os presídios em um inferno, tratando a população carcerária indiscriminadamente, é a maneira mais fácil de aumentar o número de seguidores do PCC. Nesse inferno sem perspectivas, o que ele teria a perder não se aliando ao PCC? Só teria a ganhar.

Obviamente é um trabalho penoso, complexo, que exige, de um lado, inteligência policial, para saber separar o joio do trigo. Depois, políticas de reabilitação, como as empreendidas pelo ex-Secretário da Segurança Penitenciária Nagashi Furukawa. O uso exclusivo da força bruta apenas fortalece o PCC e expõe e população civil que, ao contrário de governadores e secretários, não dispõe de escolta nem de segurança.


Escrito por Luis Nassif às 18h26

Os EUA e Israel

Esta matéria de hoje no The Guardian vai certamente ter desdobramentos. O jornalista americano  Seymour Hersh, que tem longo curriculo de furos, desde o massacre de My Lai no Vietnam até a preparação para invasão do Iraque e o caso da prisão de Abu Ghabi, agora tevela que o ataque de Israel ao Líbano foi longamente planejado em conjunto entre os EUA e Israel.

Os trabalhos de Estado-Maior feitos em Washington por oficiais israelenses e americanos, tudo muito antes do seqüestro dos dois soldados israelenses. Segundo Seymour, a ofensiva no Líbano insere-se no plano americano de neutralização do programa nuclear iranianom sendo parte da estratégia do Governo Bush para atacar o Irã.

Atalho para: http://www.guardian.co.uk/israel/Story/0,,1844021,00.html


Escrito por Luis Nassif às 09h48

Mendonção na "Folha"

Vale a pena ler a entrevista de Luiz Carlos Mendonça de Barros, dada a Fernando Canzian, na “Folha” de hoje.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 09h40

O IPEA e os juros

Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), o arrocho monetário promovido pelo Banco Central em 2004 e 2005 causou muito menos mal à atividade econômica do que outros momentos de arrocho.

Qual o critério de comparação? Em 2003 a inflação estava disparando, obrigando a uma política monetária dura. A partir de abril de 2003, a economia estava derretendo. Os desafios da estabilização, em 2004 e 2005, estavam muito longe de outros momentos de arrocho.

E o próprio COPOM (Comitê de Política Monetária) e o Banco Central iniciaram o período de arrocho com uma expectativa de crescimento do PIB que ficou muito acima do PIB real, demonstrando fartamente o erro de calibragem da política monetária.

Mas o Grupo de Conjuntura do IPEA não conta: custo dos juros não é seu departamento.

Há uma boa matéria no caderno de Economia do “Estadao” sobre as razoes das agências de risco em não conceder o “investment grade” ao Brasil. Juros elevados, pressionando a dívida, falta de dinamismo da economia, convivem com outros elementos, como ausência de reformas.

Os analistas das agências de risco já conseguem fazer um diagnóstico abrangente, em vez de recorrer a essa dicotomia simplificadora, que sempre contrapõe às críticas aos juros o argumento da falta de reformas. Em sua coluna no “Estadão” de hoje, Carlos Alberto Sardenberg recorre ao seu refrão predileto: “São as despesas, estúpido”. O artigo deveria ser: “São as despesas e os juros, estúpido”


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 09h39

Hezbollah e PCC

Os jornais de hoje, “Estado” e “Folha” trazem avaliações internas, de Israel, sobre os resultados da ofensiva sobre o Líbano. Uma avaliação cada vez mais freqüente – antecipada aqui pelo André Araújo – foi a fragilidade dos novos governantes israelenses, que os levaram a agir muito mais radicalmente do que um presidente forte como Ariel Sharon.

Cada vez mais – a julgar pelas matérias de hoje – a avaliação é a de que a ofensiva foi um erro. A violência das retaliações tirou apoio dentro do próprio Israel, não liquidou o Hezbollah, enfraqueceu os moderados libaneses e minou significativamente a possibilidade de uma saída diplomática. Além disso, gestou milhares de futuros combatentes do Hezbollah.

O mesmo acontece com essa escalada irracional entre PCC e Segurança paulista. A cada investida do PCC, as penitenciárias endurecem no trato com os prisioneiros. Pelos relatos da imprensa, os mais poderosos conseguem regalias, em cima da corrupção dos presídios. Colocada contra a parede, a massa de presidiários menos perigosa não terá outra alternativa que não a de cair no colo do PCC.

A guerra é muito importante para ser decidida por militares; a segurança pública é tarefa muito complexa para ser conduzida por guerreiros obtusos.


Escrito por Luis Nassif às 09h39

13/08/2006

O "choque de gestão" em Minas

Aécio Neves  ainda é uma esfinge a ser decifrada, o que pensa, quais suas relações políticas, empresariais, os grupos de interesse que o cercam. Mas o trabalho de Fabrício Augusto de Oliveira -- Secretário Adjunto da Fazenda no governo Itamar Franco, justo quando foi decretada a moratória do Estado – que serviu de base para o questionamento do “choque de gestão” do Estado na “Folha” deste domingo (clique aqui) é inconsistente.

Os dois pontos centrais de argumentação de Fabrício:

  1. Entre 2002 e 2005 a dívida do Estado passou de R$ 32,9 bi para R$ 39,7 bi.
  2. Em 2005, os juros da dívida foram de R$ 4,8 bi. Mas o Estado só contabilizou R$ 1,8 bi. Logo, houve um déficit de R$ 3,0 bi que foi maquiado.

Ora, as dívidas estaduais com a União eram corrigidas pelo IGP-M – índice que explodiu em 2003 e 2004 com a desvalorização do real. Todas as dívidas corrigidas pelo IGP-M ou pelo câmbio explodiram.

Pelo contrato com a União, o Estado deve pagar 13% de suas receitas líquidas. É esse o compromisso a ser registrado. Houve um descasamento entre saldo devedor e pagamento em função do câmbio. Mas o valor que interessa para o orçamento é o pagamento efetivamente devido – e saber se está sendo pago em dia (e está). Se os R$ 3 bi adicionais fossem registrados, seria como “refinanciamento”, não entrariam na conta do déficit, e não serviriam para nenhuma avaliação qualitativa sobre a gestão financeira do Estado.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 23h11

A escolinha do Menescal

Do leitor Edison Bittecourt

Muito interessante, mágico mesmo, ver tal vídeo mostrando a praia ainda deserta , antes mesmo da construção do Hotel Nacional, num local que a gente levava as namoradas: um Drive-in de frente para a praia!

Em 1962 comecei e aprender violão com o Menescal. No começo, as aulas eram em sua residência, na Galeria Menescal. Depois as aulas passaram a ser numa academia de violão, um sobrado numa vila em Copacabana.

Menescal parou de dar aulas: o barquinho estourou! Creio que era uma sociedade dele, Carlos Lyra ( que nunca vi lá) e Otávio Terceiro, empresário de João Gilberto até hoje.

A academia era freqüentada por Nara Leão, Vanda Sá, Nelson Motta , os irmãos Valle, Edu Lobo, todos ensaiando, em começo de carreira. João apareceu lá uma vez apenas. Infelizmente não tive coragem de falar nada. Hehehe . 1962... a praia deserta, e Sampa ainda era o "túmulo do samba".


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 23h03

Bola Sete, o mestre de Santana

Bola Sete foi um dos grandes do violão brasileiro e do jazz. Fez parte do incrível time de violonistas da rádio Nacional, no início dos anos 50. Depois, mudou-se para os Estados Unidos, tornando-se um dos mais requisitados violonistas do jazz.

Dez anos atrás, em entrevista, o guitarrista Santana citou Bola Sete e os Índios Tabajara como suas grandes influências. A apresentação de Bola Sete no Festival de Monterrey, final dos anos 60, é um clássico, assim como susa gravações com o pianista Vince Guaraldi. Clique aqui

E aqui, em uma típica bossa-nova, provavelmente tendo Guaraldi ao piano. Clique aqui


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 14h28

Indio Tabajara, um gênio do violão

O documentário é confuso. Mas permite ouvir e ver Nato Lima, o sobrevivente do Duo Índios Tabajara. Vou escrever sobre ele futuramente. No Brasil, ficaram conhecidos mais como show-men nos anos 50, e, como  intérpretes de boleros, quando saíram do Brasil e iniciaram sua carreira internacional. Sua gravação de “Maria Elena” foi sucesso internacional.

Quem ouviu sua produção clássica (e aprenderam o violão clássico com mais de 30 anos) não tem dúvida em considerar Nato Lima um gênio, com um virtuosismo que se encontra em raríssimos violonistas, como Baden, Raphael e Yamandu no plano popular, e Odair Assad e Eduardo Abreu no plano erudito.

Segundo me contou Odair Assad, um dos irmãos do Duo Assad, o apartamento de Nato Lima, no Central Park, em Nova York, é um sacrário do violão mundial. Os maiores, que passam por NY, fazem questão de visita-lo. Clique aqui


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 13h43

Moacir Santos e Ed Motta

Ed Motta, que dizem ser um extraordinário pesquisador e fuçador de sebos, se apresentando no show em homenagem do grande Moacir Santos, no lançamento do CD “Ouro Negro”. No início do vídeo, uma rápida cena com Moacir aparecendo com o sorriso alegre de um preto velho da nossa infância. Clique aqui


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 13h28

Tom, João e Bonfá

Cenas do filme “Copacabana Pálace”, de 1962, com pequenos trechos de Luiz Bonfá e João Gilberto cantando e Jobim dedilhando o violão, cercados de belas mulheres, diga que colhi na lista de discussão da M-Música. Clique aqui. Para mim, foi um filme inesquecível, mas, em função da minha idade na época, devido, principalmente, às belíssimas Sylva Koscina e Mylène Demongeot. As lembranças de Koscina e Demongeot aqueceram minhas noites de moleque de 12 anos, de uma maneira, até então, inimaginável para mim.

Aproveitem e assistam um vídeo inesquecível, o reencontro de Tom Jobim e João Gilberto cantando “Garota de Ipanema”, com a mesma introdução da temporada na boate Au bon Gourmet, um dos pontos altos de afirmação da bossa nova. Clique aqui

 


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 13h20

Feliz Dia dos Pais

Abri o baú de família. A produção do programa “Ensaio”, da TV Cultura, queria algumas fotos. Revi as fotos de minha mãe quando ela tinha a idade de minha filha mais velha; de meu pai, vinte anos mais moço do que agora estou. Casal bonito, ele elegante, sempre sorridente e charmoso; ela, linda, mas linda mesmo, com seus dentes alvos, o sorriso aberto.

Aí, fui almoçar com as menininhas, a Bibi e a Dodó, filhas de 7 e 8 anos, e a Cacá, neta de 7 anos. À noite, haverá o jantar familiar, de noivado da minha mais velha, a Mariana, por fora uma jovem guerreirinha contemporânea, por dentro, uma madaminha do século 19. Antes, a Luizinha, de 23 anos, me ligou comovida com a irmã mais velha, dizendo que raspou sua poupança para presentear a irmã com uma viagem de lua-de-mel.

Vendo as fotos antigas, de meus pais, meus avós, minhas tias e primas, vendo agora as menininhas e as meninonas, me dou conta de que consegui pegar a noção de família, que me foi passada pelos meus pais, e repassei para minhas filhas. Há algumas mudanças no conceito, dois casamentos, dois núcleos familiares, mas o conceito está cada vez mais consolidado, a ponto das menininhas considerarem “sobrinha” a irmã da Cacá por parte de pai, bem mais velha do que as três.

Por esses dias, estive com uma dama poderosa, com quem converso de vez em quando. Parte da conversa é sobre o Brasil; parte sobre família, mais especificamente sobre tias mineiras, uma instituição que tenho em alta conta, sobrinho que fui de dez tias, e ainda sou de sete.

Falamos do tempo, sempre rápido, cada vez mais rápido, cada vez mais voraz, Internet, placas de comunicação, blogs, webtv. Durante a semana, o tempo se conta em minutos. As celebrações familiares têm o ritmo do fim de semana, e a atemporalidade das lembranças.

Menciono que, entre meus deveres de pai, está o supremo sacrifício de assistir os ensaios das menininhas cantando e dançando como as Rebeldes (um intragável conjunto mexicano que virou febre).  A dama lembra que fazia o mesmo com os filhos, hoje grandes; e eu tinha que aturar a Xuxa com as filhas mais velhas.

E, de filho em filho, de tia em tia, de Minas em Minas, nos damos conta da importância cada vez maior da família nesses tempos contemporâneos, em que idéias, informações, conceitos se estilhaçam e se reconstroem na velocidade da Internet. Nada é eterno, nada é permanente, nem emprego, nem países, nem a rotina do dia anterior. Mas a família é.

Em fase muito pesadas, ia até Vila Maria, com minha avó ainda viva. Ela juntava algumas tias e eu passava horas ouvindo histórias de Poços, de São Sebastião da Grama. Mergulhava no tempo, como quem lava a alma no lago dos sonhos. Era como um mergulho no intemporal, passando por todas as eras, mas tão profundamente que mesclavam-se na conversa e na memória eventos do dia dos pais, eu ainda criança, eventos dos dias dos crianças, eu já pai e avô. E saía do mergulho revigorado, pronto para enfrentar as incertezas contemporâneas.

As lembranças voam para os adultos da minha infância, meu pai Oscar, meu avô Issa, meus tios Léo e João. Para nós, crianças, eram a garantia, a fortaleza. Quantos problemas enfrentaram, quantas lutas contra a instabilidade crônica da economia brasileira, pequenos empresários vulneráveis como uma casca de noz na tempestade. Mas suas fraquezas não chegavam até nós.

De repente, salto para o presente, vejo as minhas meninas e, agora, eu no papel de patriarca. Neste sábado, todas elas prepararam o presente do dia dos Pais, da caçula Dodó à primogênita Mariana. Não sei o que virá. Sempre que me pedem sugestão de presentes, não vario: quero cartas manuscritas, para guardar em uma caixinha, não em um HD, e que me acompanharão pelo resto dos meus dias, enquanto vejo minhas meninas ganhando asas.

Feliz Dia dos pais!

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Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 01h06

Mundell e a desvalorização cambial

De fato, como observa o André, a maioria dos entrevistados pela “Veja” não tem a menor idéia sobre o que é o Brasil e quais os problemas centrais para desamarrar a economia. Limitaram-se a repetir chavões sobre a herança lusitana e problemas institucionais comuns a países emergentes.

Mas chamo a atenção para uma colocação do Robert Mundell. Os três únicos milagres econômicos do pós-guerra imediato foram de nações que desvalorizaram suas moedas e mantiveram o câmbio fixo: Alemanha, Japão e Itália.

Depois do Acordo do Louvre, em meados dos anos 80, o Japão se comprometeu a valorizar sua moeda para reduzir os déficits comerciais dos Estados Unidos. O resultado foi a estagnação da qual não se safou até hoje.

Depois desse trio, foi a vez da Coréia e da China recorrerem à moeda desvalorizada e ao câmbio fixo para turbinar sua economia.

Roberto Campos me disse uma vez (talvez esteja no seu livro de memórias, também) que a maior oportunidade dos anos 50 foi quando, no governo JK, ele, Octávio Gouvêa de Bulhões e Eugênio Gudin, tentaram convencer o presidente a seguir o caminho coreano, da desvalorização cambial.

Quem impediu foi o poeta-empresário Augusto Frederico Schmidt, que tinha grande influência sobre JK.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 00h36

Os Nobel e o Brasil

Do leitor André Araújo

VEJA de hoje apresenta uma matéria sobre o não crescimento do Brasil em comparação com a China e a Índia, com um recheio de declarações de seis Prêmios Nobel de Economia.

 Os Nobel foram escolhidos a dedo. Cinco americanos e um canadense. Nenhum europeu. Não pediram opinião a Joseph Stiglitz porque ele iria fulminar a política monetária, a causa principal da estagnação.

Os escolhidos por VEJA no geral tem escasso conhecimento sobre o Brasil e usaram os costumeiros chavões que servem para qualquer lugar abaixo do Equador.

Gary Becker, ultra monetarista de Chicago atribui a estagnação do Brasil ao capitalismo de compadrio. Curioso. Em comparação com a China e a Índia o capitalismo brasileiro é muito mais moderno. Compadrio mesmo existe na China e na Índia, o que não as impediu de crescer.

Robert Mundell por sua vez atribui o atraso brasileiro ao protecionismo sufocante. Mas como? A Índia é infinitamente mais protecionista que o Brasil. Banco estrangeiro lá não pode abrir agência.

Diz que o Brasil é um dos paises mais fechados do mundo. Aonde? Depois dos EUA o Brasil é o maior importador de jatinhos e de Ferraris do mundo,  o País é o paraíso das lojas de grife, São Paulo é a única cidade do planeta onde há duas lojas Tiffanys, o que não se vê inclusive em New York, a importação de supérfluos e a conta capitais são inteiramente livres no Brasil de hoje, onde está o protecionismo?

Nenhum dos seis sábios fez qualquer crítica  à política monetária. Muito menos ao fato do País não ter uma estratégia econômica de longo prazo, o que pressupõe a ação do Estado, como fazem a China e da Índia.

Os defeitos que eles viram no Brasil são os mesmos que vêem os defensores do Consenso de Washington, a turma da lição de casa.

A matéria é inteiramente ideológica, é a agenda dos sonhos de VEJA e dos interesses e pensamento econômico que a revista representa.

Há muitos anos há uma grande controvérsia sobre os Prêmios Nobel de Economia. Eles não fazem parte do legado original de Alfred Nobel. Foram instituídos na década de 60 pelo Banco da Suécia e seus críticos, inclusive da família Nobel, alegam, com razão, que um prêmio de Economia é essencialmente ideológico e no caso do Nobel de Economia é patente o viés conservador e a agenda do mercado financeiro internacional nos critérios de premiação, chegando ao vexame de se galardoar com o Nobel dois professores americanos (Merton e Scholles) que usaram o cacife para dirigir um fundo de hedge, o Long Term Capital Management, que quebrou com estrondo e só não afundou com Wall Street porque o Fed pilotou uma operação de salvamento às pressas.

Portanto, usar Prêmios Nobel como aval para política econômica é uma tolice sem nome e só engana os crédulos. Por definição um premiado com o Nobel é um teórico e não se conhece nenhum grande País que recorreu a esse academicismo premiado para dirigir sua economia real. Cuidado, portanto, com os conselhos de VEJA, é ideologia pura disfarçada de sabedoria.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 00h30