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09/09/2006

Alfonsina y el Mar

Uma das mais belas canções latino-americanas de todos os tempos é “Alfonsina y El Mar”. Originalmente foi composta para piano pelo grande pianista argentino Ariel Ramirez. Tempos depois, o letrista, poeta, jornalista e historiador Felix Luna colocou letra, em homanagem à poeta Alfonsina Stormi, que se matou se atirando ao mar. Conheci ambos em um único dia, inesquecível, no reveillon do ano passado.

A gravação clássica é de Mercedes Sosa. A seguir, alguns gravações captadas no Youtube.

Gravação do violonista brasileiro Jorge Cardoso (clique aqui).

No violão de Agustín Carvelaro (clique aqui).

Na voz de Romina Maroso (clique aqui).


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 23h02

Carvelaro e outros interpretam Barrios

A propósito do violão latino-americano, veja aqui o grande mestre uruguaio Abel Carvelaro, criador de um método que mudou a forma de interpretação violonística, executando o Prelúdio Op. 5 de Agustín Barrios (clique aqui).

E aqui Dustin Jones interpretando “La Catedral”, peça máxima de Barrios, tão tocada pelos brasileiros que parece ter sido feita aqui (clique aqui).

O leitor Daniel Mendes localizou uma virtuose chinesa tocando Barrios (clique aqui). O nome é Jie Lin. Quase uma criança, mas uma virtuose que ainda vai dar o que falar.

Olha aí que duo, também de jovens chinesas, Wang Yameng e Su Meng (clique aqui). Meu Deus, esses chineses vão dominar tudo. Ouçam a pegada, o andamento que imprimem a Barrios, como reduzem e aumentam a intensidade como se tivessem nascido e vivido no Mercosul. Barrios é universal, mas essa escola chinesa de violão e inacreditável. Posso estar exagerando à luz do entusiasmo da primeira audição, mas me parecem bem superiores a David Russel, o grande nome atual da escola inglesa. Conseguem transmitir o romantismo das peças de Barrios de tal maneira, que fica parecendo que o mecânico frio é Russel.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h46

O violão de Eduardo Falu

O Brasil vive correndo atrás dos ingleses, na descoberta do violão latino-americano. Não falo do paraguaio Agustín Barrios, que faz parte da história do violão brasileiro. Mas o venezuelano Antonio Lauro precisou, primeiro, ser redescoberto por John Williams para começar a freqüentar o repertório de violão brasileiro. Apenas um brasileiro, Marcelo Khayat – grande vocação que o violão perdeu para o mercado financeiro – navegava pelas águas de Lauro.

Outro sobre o qual andei escrevendo na “Folha” é o maravilhoso argentino Eduardo Falu. Violonista, compositor, cantor de primeiríssima, Falu está começando a entrar nas rodas de violão brasileiro pelas mãos de Yamandu Costa.

No vídeo, confira David Russell, o sucessor de John Williams, tocando Falu (clique aqui).

Para mim, o melhor CD de Falu é em duo com Paco Pena, violonista flamengo.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h39

A casa da minha infância

Tem certos dias em que a solidão convoca uma assembléia geral da minha vida. E corro para chegar à cidade antes que amanheça e que o sol espante a magia. Chego ao jardim, espreito os fantasmas que saem da bruma de da noite, e entro na casa que não mais havia.

Lembro-me do quartão do fundo, onde abrigava minha solidão de recém saído da infância buscando ansiosamente o mundo através das ondas curtas de um rádio de rabo quente. Lembro-me especialmente das festas de Natal, em que se juntavam nossa família e a da tia Rosita.

Num dia qualquer de 1974 mudou de mãos, passando para novos donos. Era mês de julho, deixei São Paulo, onde morava desde 1970, subi a montanha e olhei pela última vez a casa, vazia, sem móveis, sem vida, enquanto o caminhão levava a mudança e o desgosto de dona Teresa e seu Oscar rumo a metrópole.

Até alguns anos atrás, quantas noites atravessei com pesadelos, com aquela imagem da casa vazia, sem vida, me atormentando o sono.

Mas é nas sombras das árvores do jardim do Pálace que revejo a casa, meus mortos mais amigos, a minha afinidade mais constante. Vejo dona Teresa mais nova do que hoje sou, e seu Oscar, que deveria ter a idade que hoje tenho. E essa invasão das fronteiras do tempo mistura tudo. E relembro da angústia, da crise financeira da Farmácia Central, da impotência em não poder ajudá-lo mais do que metade do salário que ganhava.

Lembro-me de uns dez anos atrás, em que sonhava com ele, tentando aconselhá-lo a reestruturar a farmácia. E ele, no sonho, me dizendo angustiado que não podia dispensar o Rafael, a Neusa, o Januário. Depois, um tempo depois, encontrei o filho do Rafael que me disse que, pouco antes de morrer, sonhara com o antigo patrão angustiado, pedindo que o ajudasse a sair da crise.

Assim, vou dispondo as lembranças como minha mãe escolhia arroz com as mãos. E limpos o arroz, a alma e a mente, o coração explode finalmente, pacificando as emoções.


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Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 20h57

Solando em Moscou

Saí na hora do almoço para conhecer o novo bar onde toca o Conjunto Paulistano. Recomendo: fica bem na esquina da Estados Unidos com a Augusta. O Paulistano é composto pelo João Macacão ao violão de sete cordas, o Joãozinho Torto no cavaquinho e o Tigrão no pandeiro. O solista varia. Hoje estava lá o Aleh Ferreira, grande bandolinista, compositor e arranjador aqui de São Paulo.

O Aleh lançou um novo CD, “Choros Inéditos”, com composições próprias. Tem um site: www.alehferreira.com.br. E me contou que em maio gravou dois concertos seus com a Orquestra Sinfônica de Moscou. Em breve, os concertos serão lançados por aqui.

Aproveitei e desenferrujei um pouco no bandolim. Hoje à noite, se esse bendito livro que estou terminando permitir, acho que vou aceitar o convite para uma fugida no Magnólia, boteco à antiga perto da Rua Aurélia, na Lapa.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 18h38

A política macro, segundo Nakano

Os princípios macro-econômicos do governo Alckmin, apud Nakano:

1. novo arranjo de politica cambial , fiscal e monetária. Ou seja, trocar a politica repressiva da estabilização por uma politica que estimule o crescimento com corte de despesas correntes

2 a estabilização já se completou, mas a proposta é continuar com a estabilidade para atender ao setor financeiro, mas também atender o setor produtivo, com juros mais baixos e cambio competitivivo

3. a meta fiscal estabalecida em lei, reduzir a dívida publica em até 15 do PIB em 10 anos

4. o corte de despesas é em despesa corrente e é perfeitamente possível

5. o processo de desenvolvimento é a expressão da vontade política de diferentes segmentos de uma sociedade com interesses diferenciados e que precisam ser conciliados e minimamente atendidos.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h19

A gestão, segundo Nakano

Acabei de assistir a um trecho da entrevista de Yoshiaki Nakano ao “Conta Corrente”, na Globo News. Confirma o que escrevi sobre ele há alguns anos: é o mais completo gestor de política econômica com o qual qualquer governo pode contar.

Junta um pensamento racional e não dogmático na economia, com a experiência de quem utilizou as modernas ferramentas de gestão para o grande ajuste fiscal do governo Covas. Além disso, a convivência com o ex-Ministro da Administração Luiz Carlos Bresser Pereira deu-lhe amplo conhecimento sobre experiências de gestão pública e modelos políticos.

Sua proposta de ajuste fiscal é clara e objetiva como a de todo grande gestor:

1.      Não adianta olhar os gastos públicos apenas do lado dos grandes agregados (as grandes contas). Tem que se entrar na gestão, olhar as características de cada despesa, para conseguir o máximo de eficácia.

2.      Apenas o controle de contratos de terceirização, implantado na gestão Mário Covas, permitiu reduzir seus custos em até 2/3.

3.      Mais fácil ainda é a redução dos custos de obras. Na gestão Covas, o Secretário Hugo Marques Rosa substituiu os projetos genéricos nas licitações por projetos detalhados, que davam pouca margem a manipulações. Só com esse procedimento conseguiu reduzir o custo das obras para um terço do valor inicial orçado. O melhor exemplo é o da calha do Tietê. Para a primeira etapa estava previsto um gasto de US$ 850 milhões. Rosa conseguiu reduzir para US$ 350 milhões. Com o que sobrou terminou a segunda fase.

4.      Para o plano federal, a receita de Nakano é transformar parte da estrutura do governo em agências trabalhando com contratos de gestão. Seriam fixadas metas de desempenho, acompanhadas por auditoria externa – não pelo Tribunal de Contas, para evitar qualquer viés político. Os dados seriam públicos e acompanhados pelos cidadãos.

Atenção futuros governadores de Minas, São Paulo, Bahia, Pernambuco, Espírito Santo, Mato Grosso e RIo Grande do Sul –aqueles que podem responder mais depressa aos desafios da gestão pública. O Estado brasileiro exige uma mudança consistente de paradigmas. E o país está à espera do grande reformador. Vicente Fox tornou-se presidente do México depois de promover uma reestruturação radical na forma de gestão de sua província.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h18

Rui e a dívida dos estados

Antes de assumir o Ministério da Fazenda de Deodoro, Rui Barbosa fora um candente crítico do endividamento dos Estados. A legitimação para os escandalosos benefícios concedidos ao Conselheiro Mayrink era a possibilidade de reduzir a dívida pública. A dívida explodiu na sua gestão. E Rui escancarou as portas para o endividamento de estados e municípios.

Em 14 de agosto de 1890, pouco antes de se reunir o Congresso Constituinte, Rui se antecipou e fez Deodoro aprovar um decreto pelo qual o governo federal iria garantir qualquer empréstimo aos estados até o limite de 50 mil contos. A intenção seria favorecer dois intermediários ligados a um grupo de banqueiros ingleses, liderados pela firma Louis Cohen & Sons. Eram João Pereira da Silva Monteiro e Alberto José Pimentel Hargreaves, que articularam essa medida com Rui. Cinco dias depois do decreto ser publicado, um telegrama da empresa Louis Cohen & Sons dava início ao processo de endividamento dos Estados.

O contrato definia as obrigações dos Estados. Os juros seriam de 5% ao ano sobre o capital nominal emprestado e seriam pagos por um fundo cumulativo de amortização de 1%. Para garantir o pagamento, os Estados dariam como garantiam, por lei especial, “as rendas precisas, provenientes da exportação e importação, ou quaisquer outras e que correspondessem aos compromissos contraídos”. O Tesouro garantiria qualquer inadimplência.

Na “campanha civilista” um dos motes de Rui era acabar com a esbórnia do endividamento dos estados.


Escrito por Luis Nassif às 12h45

Rui e a Rua do Ouvidor

Porque Rui Barbosa permitiu que o jogo especulativo do “Encilhamento” fosse tão longe, arrebentando com a política monetária, devido às sucessivas concessões feitas aos banqueiros seus protegidos?

No site da Casa de Rui Barbosa há fotos de dois automóveis com que o cunhado de Rui, Carlito (Carlos Viana Bandeira) presenteou-o e à sua esposa Maria Augusta, ainda no final do século 19 (clique aqui).

Carlito era o testa-de-ferro de Rui em um banco criado de forma fraudulenta com o Conselheiro Mayring (o banqueiro protegido por Rui). Embora economistas como Celso Furtado considerassem que o “Encilhamento” propriamente dito nada tinha a ver com a política econômica de Rui, a ligação era direta. A liquidez que Rui proporcionou a seus banqueiros (direito de emitir moeda) era canalizada quase na sua totalidade para jogadas fraudulentas na Bolsa. As jogadas eram de conhecimento geral, eram divulgadas na mídia. Porque Rui nada fez para contê-la?

Trecho das memórias de Carlito:

"Minhas atividades em torno da Bolsa proporcionavam-me resultados que me faziam nadar em dinheiro. Os sucessos eram expostos na nossa roda como tacadas. De quando em quando, uma de 20, 30. de 50 contos. Vez por outra, uma de 100 ou mais. Agora, sim, apresentava-me como um capitalista. Enchi-me de boas roupas, calçados, chapéus e bengalas".

Nessa época, em que Rui foi Ministro, o cunhado tinha apenas 20 anos.

Muitas vezes a explicação de erros econômicos monumentais –como a apreciação radical do real no segundo semestre de 1994—  podia estar mais próxima da Praça Antonio Prado, em São Paulo, do que da Rua Marquês de São Vicente, campus da PUC Rio.


Escrito por Luis Nassif às 12h42

O brasileiro do século

Uma das armas de que se valia Rui Barbosa para impor suas idéias a Deodoro da Fonseca era recorrer à figura do inimigo externo. Quando os demais ministros contestaram os enormes privilégios concedidos ao banqueiro Francisco de Paula Mayrink (de que Rui Barbosa se tornaria sócios posteriormente), eis trecho da carta que mandou a Deodoro:

“O Banco Nacional (do Conde de Figueiredo, rival de Maytink) já ousa levar os seus emissários até a presença do chefe do Estado e conta abalar-me a confiança dele. Para que eu prossiga, pois, é essencial saber eu definitivamente se o meu velho chefe, a quem pertence a minha dedicação e a minha vida, mantém para comigo o pacto da confiança absoluta e dá-me, na luta contra esse inimigo, a autoridade ilimitada de que eu preciso a bem do Governo, da República e da pátria. Nesta hipótese estou pronto para tudo e irei com o chefe glorioso da revolução até o extremo limite do sacrifício, sem me importarem hostilidades, quaisquer que forem. Mas, não sendo assim, o cálice é amargo demais, e a minha posição não será dignamente sustentável”.

É o brasileiro do século, segundo algumas versões.

Outros post sobre Rui Barbosa neste Blog:

Rui, o Homem e o Mito - 1

Rui, o Homem e o Mito - 2

O jurista Rui

O diplomata Rui

O economista Rui

O intelectual classe média

A obra econômica de Rui

O John Law brasileiro


Escrito por Luis Nassif às 11h47

Mitos econômicos

A discussão política apaixonada é como cobertura de creme de leite: iguala tudo, impede a identificação de nuances dos diversos sabores. É essa a razão para a perpetuação de alguns mitos na história econômica recente do país.

Vamos a alguns deles.

1. A crise cambial de 2002 não foi resultado nem de receios em relação ao governo do PT nem de alertas do PSDB em relação ao risco de uma “venezuelização” do Brasil.

Foi resultado, primeiro, da vulnerabilidade externa brasileira, que continuava deixando o país muito sensível a movimentos do mercado internacional. Naquele ano houve a crise da a crise da Argentina, provocando uma retração global nos fluxos financeiros para os emergentes e contaminando o Brasil. Essa foi a razão primordial. O resto foi decorrência.

Com a gasolina vazando, é evidente que qualquer fósforo aumentaria o potencial da crise. O discurso pré-Carta aos Brasileiros ajudou, assim como as acusações do PSDB. Mas foi secundário. Na época apareceu um cientista social louco nos Estados Unidos, dizendo ter provas de que, se eleito, Lula traria 200 mil guerrilheiros de Chaves e daria o golpe. O mercado tratou como chacota.

Ajudaram também erros do Banco Central, basicamente a imposição da “marcação a mercado” em ambiente de tensão; e a venda de títulos pré-fixados amarrados a “swaps” cambiais.

O BC tentou reduzir a taxa de juros no meio do tiroteio e apostou na colocação de títulos pré-fixados como condição para vender “swaps” cambiais ao mercado. O mercado comprou os dois, ficou com os “swaps” e vendeu os títulos. Embora em pequena quantidade, a venda dos títulos jogou as cotações para baixo e contaminou todo o estoque de títulos do governo.

Os erros arranham, mas não comprometem a enorme contribuição de Armínio Fraga para a modernização institucional do Banco Central. Principalmente sabendo-se do tamanho do abacaxi que precisaria descascar, com os movimentos financeiros internacionais tornando a economia brasileira uma casca de noz no oceano.

2. O segundo ponto de controvérsia é em relação à política monetária do primeiro ano de Lula, tratada como se tivesse salvo o país do fim do mundo. Na verdade, comprometeu por muitos anos a saída do país da armadilha do câmbio.

Até abril, a atuação do Banco Central foi perfeita. Havia a necessidade de uma política monetária rigorisíssima para impedir a propagação da inflação.

Em abril de 2003, contidas as ondas inflacionárias subseqüentes à desvalorização cambial, Lula teve a maior oportunidade de seu governo, a chance de eliminar definitivamente a vulnerabilidade cambial. A inflação estava contida, a economia se derretendo, a nova safra entrando. Bastaria afrouxar a política monetária, deixar o câmbio em patamar competitivo e estimular setores que produziam bens de consumo popular, onde havia grande capacidade ociosa. Nos anos seguintes o PIB brasileiro conseguiria, tranquilamente, romper a casa dos 5% ao ano, talvez mais.

O único que entendeu claramente, na época, as conseqüências dessa loucura foi o vice-presidente José Alencar.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h12

O novo modelo brasileiro - 2

Do leitor Sidney Vieira Carvalho sobre o novo modelo de desenvolvimento brasileiro:

Acredito que um novo modelo deva partir de paradigmas estabelecidos socialmente, baseados na necessidade de bem estar e melhoria de vida das populações em geral e, no Brasil, das populações mais pobres especificamente.

Assumir que o Estado "desenvolvimentista" era paternalista em suas políticas (quais? as industriais, certamente; as sociais, tenho dúvidas) e que um modelo que amplie a escala dessas políticas sem a efetiva participação popular na sua elaboração e controle me parece um equivoco.

Também me causa estranheza quando diz que um Estado Gerencial caminharia para a resolução dos problemas. Penso na constante precarização da vida urbana nos diferentes estados da federação, por exemplo, e vejo que apenas uma ação concertada e ampla nessas áreas (e em muitas outras) para reverter o estado de coisas.

Sem ilusões de que um estado mínimo e uma competitividade empresarial possam resolver problemas que apenas o Estado tem escala e instrumentos (mesmo que precários) para resolvê-los.


Escrito por Luis Nassif às 08h35

08/09/2006

Realidade e discurso político

Outro dia fui a um evento em que havia um deputado do PP de Maringá. Não guardei o seu nome, mas registrei o que falou. Reeleição é plebiscito. Não importa quem é o adversário, mas quem é o candidato à reeleição. Por isso mesmo, qualquer campanha de oposição, para ser eficiente, teria que desconstruir o candidato, levantar as promessas e confrontar com o que foi feito. Como a oposição não avançou nessa direção, Lula ficou dono do discurso e sozinho no campo para enfatizar o que fez.

Se se for avaliar ao pé da letra, foi um governo sofrível. Havia bons ministros em algumas áreas. Em outras, houve loteamento amplo, como nas Comunicações, com Hélio Costa, na Saúde, nos Transportes.

Mesmo o trabalho da banda eficiente do ministério foi fundamentalmente comprometido pela administração desastrosa do orçamento, nas mãos de Antonio Palocci e do Ministro do Planejamento Paulo Bernardo. A política ultra-conservadora do Banco Central elevou a dívida pública, obrigou a superávits crescentes. Alma de qualquer governo, a estrutura de gastos foi arrebentada pelo contingenciamento irresponsável, que comprometeu a inclusão digital, a vigilância sanitária, o combate à aftosa, os fundos setoriais e a política tecnológica.

O governo Lula não avançou em pontos essenciais, como na política de saneamento, nos investimentos em infra-estrutura, na agilização das PPPs (Parcerias Público Privadas), na Saúde,.

Houve uma profunda desorganização inicial do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e a Casa Civil, no tempo de José Dirceu, envolveu-se em dezenas de projetos, e não conseguiu dar seguimento à maioria deles. Embora tenha projetado o país como liderança entre os emergentes, a atuação do Itamarati ainda não mostrou resultados práticos no campo comercial.

Quando se confere os comentários dos blogs, no entanto, percebe-se que os defensores de Lula têm argumentos na ponta da língua em favor de seu governo, quase como se tivessem sido ensaiados, tal a uniformidade deles. Já os adversários não conseguiram avançar nas críticas consistentes à sua gestão. O único discurso uniforme é na questão ética.


Escrito por Luis Nassif às 22h43

Raphael Rabello

Nos seus últimos anos, Raphael Rabello, atormentado pela tragédia que se abateu sobre ele, enveredou por um malabarismo angustiante, correndo demais ao violão, misturando notas.

Mas, quando interpretava, não tinha para mais ninguém. Confira essa preciosidade de interpretação de “Luiza”, de Tom Jobim (clique aqui), e de “Garoto”, também de Tom (clique aqui). O requinte do som, a dosagem da emoção, a capacidade de improviso mostram claramente que, não fosse o destino, Raphael caminharia para ser o maior violonista da história.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h21

Just a Gigolo

Uma de minhas músicas internacionais prediletas é “Just a Gigolo”. Ouvi a primeira vez em um vídeo louquíssimo interpretado por David Lee Roth (clique aqui), aliás um dos melhores vídeos de música que já assisti. Mais tarde, conheci a versão original e descobri um músico portentoso, Louis Prima, um ítalo-americano de Nova Orleans, uma espécie de Louis Armstrong branco (guardadas as devidas proporções), com um balanço fantástico. Não foi possível colocar a gravação no Youtube, mas você pode conferir o balanço dele em outra música (clique aqui). Repare na cara da "crooner" Keely Smith, cantora muito boa e que, nas encenações de Louis Prima, sempre fazia um divertidíssimo ar de saco cheio. A cena dela e Prima esfregando o nariz, em uma das canções, é de rolar de rir.

Tenho mais de uma dezena de gravações da música, uma delas com Marlene Dietrich, voz de idosa, cantando lentamente. Uma das mais curiosas é com a Betty Boop (clique aqui), de 1932, em cima do personagem em quadrinhos. E também uma fraquíssima dos Menudos (clique aqui) com Rick Martin adolescente.

Talvez nenhuma música tenha dado margem a tantas interpretações histriônicas quanto “Just a Gigolo”. Aqui, uma versão do conjunto Leningrado Cowboys (clique aqui).

E aqui um outro clássico de Louis Prima, “Basin Street Blues” (clique aqui).

Outra preciosidade de Louis Prima, “Isle of Capri”, de 1937 (clique aqui).

Essa interpretação de Lou Bega é balançadissíma (clique aqui), meio rumba meio samba. Bega tem outra versão embalada e divertida do “Tico Tico no Fubá”.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h59

Ecos de FHC

Segundo a Folha Online, Eduardo Azeredo acusou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de “desleal”, por seu discurso em que faz a “autocrítica” da defesa que o PSDB fez de Eduardo – cuja campanha se envolveu com Marcos Valério (clique aqui) -- e lembrou que ele sequer compareceu a Belo Horizonte na campanha.

As mágoas de Azeredo vêm de longe. Na época, FHC se permitiu fotografar em Minas Gerais ao lado de Hélio Costa, adversário de Azeredo, e em São Paulo ao lado de Paulo Maluf, adversário de Mário Covas. E, no Espírito Santo, abandonou à própria sorte Paulo Hartung e Luiz Paulo Velloso Lucas.


Escrito por Luis Nassif às 21h24

Presentes Musicais

Vamos a um balanço semanal dos CDs e DVDs que recebi esta semana:

 “Tom Jobim ao vivo em Montreal”: um DVD maravilhoso da Biscoito Fino, com a gravação da inesquecível temporada de 1986. Minha filha Luizinha, hoje mocinha, nunca me perdoou não tê-la levado a esse show, quando aconteceu em São Paulo. Nem adianta explicar que não aceitavam crianças de três anos no show. Conseguir assistir de novo, em DVD, ao maior show que assisti na vida, é um prazer indescritível.

“Suzana Salles, Ivan Vilela e Lenine Santos”: lançamento precioso, cantando clássicos da música caipira. Lenine é tenor, Ivan é violeiro, Suzana é cantora. No repertório, clássicos da música caipira. Algumas inéditas para mim, como o lindíssimo “A Dor da Saudade”, de Elpídio dos Santos. O dueto dos dois cantores é belíssimo, emocionante, de arrepiar, e o violeiro é clássico e discreto. Ou “Beijinho Doce”, de Nhô Pai, cantado à moda de Cascatinha e Inhana. “Flor do Cafezal”, de Luiz Carlos Paraná, que me emociona toda vez que ouço. Imperdível.

“Radamés Gnatalli, por Olinda Allesandrini” – um CD com 23 peças do mestre, cinco choros, dez valsas, uma sonatina com quatro partes, e um batuque com outras quatro. A pianista é muito boa.

“Melosofia”: uma mistura curiosíssima do melô de Luiz Caldas com as letras filosóficas de César Rasec.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 20h09

O novo modelo

A discussão econômica continua presa a dois paradigmas superados: o modelo desenvolvimentista que se esgotou nos anos 80; e o chamado modelo neoliberal, de políticas públicas passivas, que se iniciou em 1994.

Já existe massa crítica de diagnósticos para que se dê um salto nessa dicotomia. Conto com a contribuição de vocês para sugerir temas ou interpretações.

Indústria nacional

Desenvolvimentismo: Protecionismo

Neoliberalismo: Abertura e apreciação cambial

Novo Modelo: Criação de um ambiente competitivo, com câmbio favorável.

Estado Nacional

Desenvolvimentismo: Estatização ampla

Neoliberalismo: Estado mínimo

Novo Modelo: Estado Gerencial

Responsabilidade Fiscal

Desenvolvimentismo: Sem regras

Neoliberalismo: Metas quantitativas de déficit

Novo Modelo: Acompanhamento qualitativo das despesas

Políticas Sociais

Desenvolvimentismo: Paternalistas

Neoliberalismo: Impessoais, mas sem escala

Novo Modelo: Com escala e com indicadores

Capital externo

Desenvolvimentismo: Restrições

Neoliberalismo: Abertura incondicional

Novo Modelo: Ênfase no capital produtivo e na transferência de tecnologia.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 18h52

O PSDB pós-eleições

Passadas as eleições, todos os quadros técnicos do PSDB tenderão a se dividir entre os próximos governadores presidenciáveis, José Serra e Aécio Neves.

Fernando Henrique Cardoso continuará atraindo os intelectuais militantes –Arthur Gianotti, Boris Fausto, Bolívar Lamounier--, e os políticos carbonários –Tasso Jereissatti, Arthur Virgílio, e parcelas do PFL.

Só que programas partidários dependem de propostas objetivas, não apenas da vã ideologia.


Escrito por Luis Nassif às 10h51

O senhor da guerra

O manifesto de Fernando Henrique Cardoso, divulgado hoje pelos jornais, tem três enfoques: nenhuma auto-crítica em relação ao seu governo; “auto-crítica” em relação a erros de terceiros do PSDB; e “fogo no palheiro” contra o governo Lula. Os dois primeiros são típicos FHC; o último é o novo FHC.

Com ele, FHC não visa as próximas eleições, mas o próximo mandato. Não visa Lula, mas José Serra e Aécio Neves. Não visa fortalecer Geraldo Alckmin, mas puni-lo (faz a “auto-crítica” na questão da segurança de São Paulo) por tê-lo esquecido.

Porque o destempero? A partir de 1º de janeiro, o quadro político muda. Em cenário de paz, o espaço político é ocupado pelos governantes estaduais e federais. Na guerra, é transferido para a mídia e para o parlamento.

A pacificação interessa Lula, Serra e Aécio, ao PT e ao PSDB. Para Lula, para garantir condições de governabilidade. Para os governadores, para garantir uma parceria administrativa com o Governo Federal. Esse pacto de governabilidade será favorecido pelo fato de, ao menos por enquanto, o PT não ter um candidato forte à sucessão de Lula.

As parcerias serão relevantes para os governadores porque as próximas eleições presidenciais serão fundamentalmente em torno do que os candidatos fizeram, não do que falaram.

Além disso, a partir do próximo ano o PSDB terá que ser refundado, para perder a cara de FHC. No fundo, a falta de discurso na campanha de Alckmin reflete a falta de definições do PSDB e o incômodo de ter sua imagem associada a um ex-presidente rejeitado por parcelas expressivas do eleitorado.

Em ambiente de paz, Aécio tem a oferecer os valores da gestão e da concórdia; Serra, os valores da coerência, de políticas públicas pró-ativas e mais equilibradas entre eficiência, responsabilidade fiscal e o social. E FHC? A privatização já aconteceu, a estabilidade já ocorreu. De gestão, ele nunca gostou; a reforma administrativa, ele abandonou, assim como não racionalizou as despesas públicas, não definiu estratégias comerciais, não recorreu à diplomacia comercial, foi tímido na criação de um ambiente competitivo --os valores que deverão vigorar, daqui para a frente, na área pública.

Já como comandante da guerra, tem espaço assegurado em parte da mídia, junto aos carbonários do Senado e a uma parcela da elite paulista.

A grande incógnita dessa história é como se comportará Serra nesse jogo. Remeto ao comentário que o leitor Sérgio de Souza colocou em um dos posts, sobre o papel nacional dos novos governadores: “Quércia, como governador, foi pífio em sua inserção nacional. Serra foi submisso a FHC e continua sendo. Não conseguiu liderar nem mesmo seu partido na oposição à Lula. Mercadante tem sido garoto de recados de Lula. Não é liderança (com luz própria) nem mesmo no PT. A última vez que tivemos, nos estados, governadores desse porte, foi na safra de 82 (Tancredo, Montoro, Brizola e outros). Morreram. (...) A mais forte liderança poderá ser, infelizmente, Aécio. Mas isso é outra história”.

No fundo, ou Serra decifra esse enigma, de como se libertar de FHC, ou será devorado.


Em resposta a alguns comentários colocados: o "infelizmente Aécio" é do leitor Sérgio Souza, não meu.


Escrito por Luis Nassif às 09h46

O segundo governo Lula

Coluna Econômica – 08/09/2006

O segundo governo Lula

O que seria um segundo governo Lula? Poderá ser bem melhor que o primeiro, ou ser totalmente amorfo. Tudo será possível, assim como em 1999, o ano que matou nossas esperanças.

O primeiro governo Fernando Henrique Cardoso foi tocado sob um monumental erro no câmbio, estagnação na economia e inércia na gestão –com exceção do Ministério das Comunicações e poucos mais. O governo só se movia com os berros de Sérgio Motta.

Perto da reeleição, reacenderam-se as esperanças em um segundo governo pró-ativo. Sem nova eleição pela frente, FHC poderia recompor o ministério com quadros mais ativos. A ida de Luiz Carlos Mendonça de Barros para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a volta de André Lara Rezende, a ida de Clóvis Carvalho para o novo Ministério do Desenvolvimento, o deslocamento de Pedro Parente para a Casa Civil, tudo indicava uma gestão bem mais eficiente.

O governo acabou atropelado pelo câmbio, que transformou em pó a popularidade do presidente, pela crise política e econômica de dimensões consideráveis que se seguiu. Grampo do BNDES, demissão de Clóvis Carvalho e outros eventos foram conseqüências da perda de fôlego político de FHC. As mortes de Sérgio Motta e Luiz Eduardo Magalhães tragédias imprevistas, ajudando a colocar a pá de cal em qualquer veleidade de mudança.

Assim como FHC, Lula a vantagem do aprendizado nesses quatro anos. Tem a desvantagem da infinidade de escândalos em que o governo se meteu. Tem a vantagem de não ter uma crise cambial no horizonte de curto prazo. E a grande vantagem de, até agora, não haver no horizonte uma candidatura viável para sucedê-lo, o que facilitará propostas de pacificação política.

De certo modo o estilo leninista, implantado por José Dirceu, garantiu ao PT musculatura para chegar ao poder. Mas tornou-se disfuncional quando Dirceu não conseguiu entender o tamanho do país e Lula não conseguiu entender a proposta de Dirceu, de montar a governabilidade em cima de alianças com grandes partidos. Foi politicamente inepto.

Os escândalos que esse estilo provocou, seguidos de uma campanha de mídia pré-impeachment, queimaram o capital político de Lula junto à classe média, mas, por outro lado, permitiram uma mudança significativa no governo. A Casa Civil ganhou eficiência operacional com a ida da Ministra Dilma Rousseff, que se revelou gerente eficiente e operadora política discreta. O clima de permanente conspiração, do período Dirceu, foi substituído pelos discursos de entendimento de Tarso Genro.

Há gestões eficientes no MDIC, com Luiz Furlan, no Itamarati, com Celso Amorim, na Integração Social com Patrus Ananias, na Ciência e Tecnologia com Sérgio Rezende, no Turismo com Walfrido Mares Guia, na Educação com Fernando Haddad.

Mas, assim como FHC, Lula é a grande esfinge. Será um governo desenvolvimentista ou continuará marcando passo? Impressionante como ele e FHC são faces de uma mesma moeda. Assim como com FHC, nem os auxiliares mais próximos saberão responder. No máximo mostrarão algum discurso recente de Lula e tirarão algumas conclusões das entrelinhas.


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Escrito por Luis Nassif às 08h29

07/09/2006

O compositor popular

Ontem fui almoçar com minhas menininhas caçulas. A de sete anos mencionava a toda hora Caetano Veloso. Perguntei onde tinha ouvido falar dele. E ela: “Ué, quando ouço uma música e pergunto de quem é, você e a mamãe falam que é do Caetano Veloso”. Pelo menos pelos próximos 80 ou 90 anos, estará assegurado o público dele, de Gil, Chico.

Salve o compositor popular.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h31

Caetano, segundo o intelectual negro

Do leitor Humberto Miranda do Nascimento, nosso militante negro

Caro Nassif,

criticar a música de Caetano é como cair numa armadilha já armada para desqualificar quem discorde. Mas tenho peito de fazê-lo. Que diria Sergio Buarque de Holanda da letra de O Herói de Caetano Veloso? Depois das declarações de Caetano vamos queimar a célebre obra Macunaíma, que não terá valor nenhum a partir de agora. A pequeno-burguesia morena não gosta de Macunaíma porque ela mostra a faceta do herói que o brasileiro pensa ser. Que diria Castro Alves, um branco encardido que tanto Caetano admira?

Para Sergio, o homem cordial era aquele movido pelas paixões e nada tem a ver com o cordial de sentido dicionário, de educado, gentil, pátria amada Brasil. Sergio está o tempo todo preocupado com as consequencias da ação desse homem cordial. Não é à-toa que seu grande livro virá a ser Visão do Paraíso. O próprio Chico Buarque no filme sobre Sergio chama a atenção para esta obra. É engraçado que muitos leram Raízes e não leram Visão.

Outros tantos acham  que Gilberto Freyre e Sergio Buarque, de Raízes, estão falando a mesma coisa. É isso mesmo. Estou chamando Caetano de burro. Quem ainda não leu Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Oliveira Vianna, Darcy Ribeiro, Sergio Buarque de Holanda, Celso Furtado, Alberto Guerreiro Ramos, Caio Prado Jr, Florestan Fernandes, Manoel Bonfim, Marques de Pombal, Eugênio Gudin, Roberto Simonsen, Raul Presbisch, Anibal Pinto, Paulo Freire e Ferrez, é burro. Eu ainda sou burrinho também porque ainda não li muitos outros. Mas quem não leu Rui Barbosa não perderá nada.

Enfim, Caetano prega a burrice nacional. Eu não entro nessa. "Caetenear o que há de bom" não é bom. É só um querer, não é vero. Viva "Espumas flutuantes", de Castro Alves. Caetano espumaverborragicamente é convenientemente conivente com o que convés, éter-na-mente.

Cordial não é ternal. Eu quero o terno, não quero é terno.
Viva Wilson Simonal !


Escrito por Luis Nassif às 16h38

O John Law brasileiro

John Law foi o financista que criou o Banco da França e, com o poder das emissões monetárias, montou em cima de uma riqueza tão grande que lhe permitiu comprar o território da Lousiana, nos Estados Unidos. Depois, quebrou.

Mas o fantasma de John Law e a miragem do enriquecimento fácil acompanhou, dali para frente, todas as reformas monetárias.

Quando Rui Barbosa empreendeu a sua reforma monetária, pelo menos um jornal francês e o “Rio News”, jornal carioca especializado em café, e tocado por um americano, o compararam a John Law.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h25

A obra econômica de Rui

Os comunicados do Ministério da Fazenda, de 1891, Ministro Tristão de Alencar Araripe, mostram que, no próprio ano de 1890, a política desastrosa de Rui Barbosa já tinha desmoralizado os “papelistas” (os que defendiam a emissão de moeda com lastro em títulos públicos). Ou seja, a obra econômica que marcou a história do país, segundo Gustavo Franco, não resistiu ao primeiro ano. Clique aqui e confira que já temos arquivos digitalizados de documentos históricos relevantes.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 13h44

Gustavo e Rui

Gustavo Franco é um personagem eminentemente ideológico, em tudo o que fez de certo ou errado no Real. E, por ideológico, o mais interessante dos economistas do Real. Aprendeu com Rui a falar A, enquanto perseguia B; a utilizar o conhecimento especializado como arma política; a mover-se nas disputas internas do poder (arte que aprendeu com Rui e com seu pai, Guilherme Arinos, homem de confiança de Vargas). Com esses mestres, impôs-se sobre o conhecimento técnico e a vontade de dar certo que alimentavam Pérsio Arida. Em lugar de uma economia que passasse a funcionar e a se desenvolver, os atos de Gustavo eram movidos pelo objetivo de “refundar” o país, através de modelos de monetização que varressem do mapa o Brasil “velho” (no caso de Rui, os fazendeiros; no caso de Gustavo os industriais nacionais) para implantar o novo, que seria conduzido pelos novos financistas.

O capital financeiro é precioso em períodos de reciclagem da economia. Em geral é antenado com novos modelos de negócio, novos setores que estão se desenvolvendo em países centrais, e tem capacidade de mobilização de poupança para a reciclagem da economia. Mas, para ser produtivo, o ambiente de negócio precisa sê-lo.

A “destruição criativa” de Schumpeter (economista que identificou processos de mudanças tecnológicas que promoviam a destruição do velho para o crescimento do novo), depois que passou a linha do Equador, tornou-se a terra arrasada de Gustavo, em uma inversão extraordinária das relações de causalidade. No caso de Schumpeter, a destruição de empresas e setores seria decorrência da modernização da economia. No caso de Gustavo, a destruição de setores traria a modernização da economia. Nos dois casos, de Rui e Gustavo, trouxe desarrumação, estagnação, aumento da dívida pública e privada e dos tributos, esfrangalhamento das contas públicas.

Tanto Rui quanto Gustavo, por ideológicos, apostavam em um modelo que permitisse a montagem de uma nova hegemonia política, transferindo o poder para uma aliança economistas-políticos-financistas, na qual eles seriam os peões. 104 anos depois do desastre do “Encilhamento”, o fantasma de Rui economista continuou a espalhar estragos pelo país.


Escrito por Luis Nassif às 12h10

O intelectual classe média

Rui inaugurou um padrão de atuação política do intelectual classe média que, armado apenas das suas idéias, ambiciona o reconhecimento intelectual, mas também o sucesso financeiro. Desse deslumbramento não escapou Rui, como não escapou San Tiago Dantas, e não escapariam os economistas do Real.

Como criou muitos inimigos, não se sabe se todas as acusações contra ele procedem. Segundo alguns historiadores, depois de recusar por inúmeras vezes pedidos de demissão de Rui (que sempre utilizou a renúncia como arma para se fortalecer), Deodoro teria aceitado depois que soube que ele tinha vendido a Quinta do Caju por preço vil.

Há versões também de que teria ganhado um palacete de presente do Conselheiro Mayrink e de outros beneficiários de sua política, e só não teria aceitado por resistência da sua mãe ou esposa (meus livros estão no meu escritório, por isso não tenho como consultá-los agora).

Com apenas vinte anos, seu cunhado Carlito se tornou seu testa-de-ferro em inúmeros empreendimentos, inclusive em um banco constituído de forma fraudulenta em sociedade com o Conselheiro Mayrink –que integralizou o capital com uma nota promissória. Anos depois Carlito escreveu uma biografia relatando aqueles anos de esbórnia. Andei fuçando alguns sebos atrás dela, mas ainda não encontrei.


Escrito por Luis Nassif às 11h57

O economista Rui

A política monetária de Rui Barbosa foi uma inovação na época, ao tirar as amarras do padrão ouro –pelas quais um país só podia emitir moeda se tivesse o correspondente lastro em ouro—e permitir a emissão com lastro em títulos públicos.

Só que grande parte do desastre que provocou (e que resultou no “Encilhamento”, o grande movimento especulativo que eclodiu na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro) decorreu da implementação torta do programa, com o claro intuito de beneficiar alguns banqueiros da época –particularmente o Conselheiro Mayrink.

Ao tomar a decisão individual de beneficiar Mayrink, Rui se enfraqueceu politicamente junto à opinião pública e aos próprios colegas de Ministério. Foi obrigado a ceder a Campos Salles, que queria um banco emissor para São Paulo, e a outros colegas.

Vários trabalhos contemporâneos comprovam o levantamento de Raimundo Magalhães Jr, das sucessivas gambiarras a que Rui foi obrigado a recorrer para dar sobrevida a Mayrink –cujo banco sequer tinha capital integralizado. Foi uma série de concessões que alimentou a fogueira do “Encilhamento”

Aos 27 anos, Gustavo Franco –eleitor de Rui na enquete e autor do artigo que fala de Rui economista – produziu uma belíssima monografia sobre ele, vencedora do Prêmio BNDES de monografia. Quem não ler mais nada sobre o “Encilhamento” concluirá, a partir da monografia, que os erros de Rui foram amplos e estavam ligados, no nascedouro, aos privilégios concedidos a Mayrink. Mas Gustavo insiste o tempo todo de que faltou apenas um Banco Central forte para que o plano tivesse dado certo.

Um século e quatro anos depois, Gustavo implementa uma política de remonetização inspirada claramente em Rui, contando com um Banco Central forte e independente. E repete o mesmo desastre de 104 anos antes.

No seu artigo na revista, Gustavo diz que as idéias econômicas de Rui se impuseram no século 20 no Brasil. Qual século? Do Encilhamento à Revolução de 30 vigorou novamente o padrão ouro. De 1930 a 1980, a economia fechada e o controle do fluxo de capitais. Apenas a partir de 1994 a pior parte das idéias de Rui voltou a se impor, no desastre cambial do Real, que expôs novamente a economia brasileira às crises internacionais.  Em comum, se tem economias estagnadas no pós-Encilhamento e no pós- Real.

O desastre do “Encilhamento” matou a primeira grande oportunidade de salto no crescimento brasileiro, na mesma época em que a Argentina se aproveitava dos ventos internacionais para se tornar economia de primeiro mundo. O Real matou a última oportunidade.

Rui saiu do Ministério sócio de Mayrink em três ou quatro empresas fundadas durante o