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09/09/2006

Alfonsina y el Mar

Uma das mais belas canções latino-americanas de todos os tempos é “Alfonsina y El Mar”. Originalmente foi composta para piano pelo grande pianista argentino Ariel Ramirez. Tempos depois, o letrista, poeta, jornalista e historiador Felix Luna colocou letra, em homanagem à poeta Alfonsina Stormi, que se matou se atirando ao mar. Conheci ambos em um único dia, inesquecível, no reveillon do ano passado.

A gravação clássica é de Mercedes Sosa. A seguir, alguns gravações captadas no Youtube.

Gravação do violonista brasileiro Jorge Cardoso (clique aqui).

No violão de Agustín Carvelaro (clique aqui).

Na voz de Romina Maroso (clique aqui).


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 23h02

Carvelaro e outros interpretam Barrios

A propósito do violão latino-americano, veja aqui o grande mestre uruguaio Abel Carvelaro, criador de um método que mudou a forma de interpretação violonística, executando o Prelúdio Op. 5 de Agustín Barrios (clique aqui).

E aqui Dustin Jones interpretando “La Catedral”, peça máxima de Barrios, tão tocada pelos brasileiros que parece ter sido feita aqui (clique aqui).

O leitor Daniel Mendes localizou uma virtuose chinesa tocando Barrios (clique aqui). O nome é Jie Lin. Quase uma criança, mas uma virtuose que ainda vai dar o que falar.

Olha aí que duo, também de jovens chinesas, Wang Yameng e Su Meng (clique aqui). Meu Deus, esses chineses vão dominar tudo. Ouçam a pegada, o andamento que imprimem a Barrios, como reduzem e aumentam a intensidade como se tivessem nascido e vivido no Mercosul. Barrios é universal, mas essa escola chinesa de violão e inacreditável. Posso estar exagerando à luz do entusiasmo da primeira audição, mas me parecem bem superiores a David Russel, o grande nome atual da escola inglesa. Conseguem transmitir o romantismo das peças de Barrios de tal maneira, que fica parecendo que o mecânico frio é Russel.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h46

O violão de Eduardo Falu

O Brasil vive correndo atrás dos ingleses, na descoberta do violão latino-americano. Não falo do paraguaio Agustín Barrios, que faz parte da história do violão brasileiro. Mas o venezuelano Antonio Lauro precisou, primeiro, ser redescoberto por John Williams para começar a freqüentar o repertório de violão brasileiro. Apenas um brasileiro, Marcelo Khayat – grande vocação que o violão perdeu para o mercado financeiro – navegava pelas águas de Lauro.

Outro sobre o qual andei escrevendo na “Folha” é o maravilhoso argentino Eduardo Falu. Violonista, compositor, cantor de primeiríssima, Falu está começando a entrar nas rodas de violão brasileiro pelas mãos de Yamandu Costa.

No vídeo, confira David Russell, o sucessor de John Williams, tocando Falu (clique aqui).

Para mim, o melhor CD de Falu é em duo com Paco Pena, violonista flamengo.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h39

A casa da minha infância

Tem certos dias em que a solidão convoca uma assembléia geral da minha vida. E corro para chegar à cidade antes que amanheça e que o sol espante a magia. Chego ao jardim, espreito os fantasmas que saem da bruma de da noite, e entro na casa que não mais havia.

Lembro-me do quartão do fundo, onde abrigava minha solidão de recém saído da infância buscando ansiosamente o mundo através das ondas curtas de um rádio de rabo quente. Lembro-me especialmente das festas de Natal, em que se juntavam nossa família e a da tia Rosita.

Num dia qualquer de 1974 mudou de mãos, passando para novos donos. Era mês de julho, deixei São Paulo, onde morava desde 1970, subi a montanha e olhei pela última vez a casa, vazia, sem móveis, sem vida, enquanto o caminhão levava a mudança e o desgosto de dona Teresa e seu Oscar rumo a metrópole.

Até alguns anos atrás, quantas noites atravessei com pesadelos, com aquela imagem da casa vazia, sem vida, me atormentando o sono.

Mas é nas sombras das árvores do jardim do Pálace que revejo a casa, meus mortos mais amigos, a minha afinidade mais constante. Vejo dona Teresa mais nova do que hoje sou, e seu Oscar, que deveria ter a idade que hoje tenho. E essa invasão das fronteiras do tempo mistura tudo. E relembro da angústia, da crise financeira da Farmácia Central, da impotência em não poder ajudá-lo mais do que metade do salário que ganhava.

Lembro-me de uns dez anos atrás, em que sonhava com ele, tentando aconselhá-lo a reestruturar a farmácia. E ele, no sonho, me dizendo angustiado que não podia dispensar o Rafael, a Neusa, o Januário. Depois, um tempo depois, encontrei o filho do Rafael que me disse que, pouco antes de morrer, sonhara com o antigo patrão angustiado, pedindo que o ajudasse a sair da crise.

Assim, vou dispondo as lembranças como minha mãe escolhia arroz com as mãos. E limpos o arroz, a alma e a mente, o coração explode finalmente, pacificando as emoções.


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Categoria: Crônicas
Escrito por Luis Nassif às 20h57

Solando em Moscou

Saí na hora do almoço para conhecer o novo bar onde toca o Conjunto Paulistano. Recomendo: fica bem na esquina da Estados Unidos com a Augusta. O Paulistano é composto pelo João Macacão ao violão de sete cordas, o Joãozinho Torto no cavaquinho e o Tigrão no pandeiro. O solista varia. Hoje estava lá o Aleh Ferreira, grande bandolinista, compositor e arranjador aqui de São Paulo.

O Aleh lançou um novo CD, “Choros Inéditos”, com composições próprias. Tem um site: www.alehferreira.com.br. E me contou que em maio gravou dois concertos seus com a Orquestra Sinfônica de Moscou. Em breve, os concertos serão lançados por aqui.

Aproveitei e desenferrujei um pouco no bandolim. Hoje à noite, se esse bendito livro que estou terminando permitir, acho que vou aceitar o convite para uma fugida no Magnólia, boteco à antiga perto da Rua Aurélia, na Lapa.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 18h38

A política macro, segundo Nakano

Os princípios macro-econômicos do governo Alckmin, apud Nakano:

1. novo arranjo de politica cambial , fiscal e monetária. Ou seja, trocar a politica repressiva da estabilização por uma politica que estimule o crescimento com corte de despesas correntes

2 a estabilização já se completou, mas a proposta é continuar com a estabilidade para atender ao setor financeiro, mas também atender o setor produtivo, com juros mais baixos e cambio competitivivo

3. a meta fiscal estabalecida em lei, reduzir a dívida publica em até 15 do PIB em 10 anos

4. o corte de despesas é em despesa corrente e é perfeitamente possível

5. o processo de desenvolvimento é a expressão da vontade política de diferentes segmentos de uma sociedade com interesses diferenciados e que precisam ser conciliados e minimamente atendidos.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h19

A gestão, segundo Nakano

Acabei de assistir a um trecho da entrevista de Yoshiaki Nakano ao “Conta Corrente”, na Globo News. Confirma o que escrevi sobre ele há alguns anos: é o mais completo gestor de política econômica com o qual qualquer governo pode contar.

Junta um pensamento racional e não dogmático na economia, com a experiência de quem utilizou as modernas ferramentas de gestão para o grande ajuste fiscal do governo Covas. Além disso, a convivência com o ex-Ministro da Administração Luiz Carlos Bresser Pereira deu-lhe amplo conhecimento sobre experiências de gestão pública e modelos políticos.

Sua proposta de ajuste fiscal é clara e objetiva como a de todo grande gestor:

1.      Não adianta olhar os gastos públicos apenas do lado dos grandes agregados (as grandes contas). Tem que se entrar na gestão, olhar as características de cada despesa, para conseguir o máximo de eficácia.

2.      Apenas o controle de contratos de terceirização, implantado na gestão Mário Covas, permitiu reduzir seus custos em até 2/3.

3.      Mais fácil ainda é a redução dos custos de obras. Na gestão Covas, o Secretário Hugo Marques Rosa substituiu os projetos genéricos nas licitações por projetos detalhados, que davam pouca margem a manipulações. Só com esse procedimento conseguiu reduzir o custo das obras para um terço do valor inicial orçado. O melhor exemplo é o da calha do Tietê. Para a primeira etapa estava previsto um gasto de US$ 850 milhões. Rosa conseguiu reduzir para US$ 350 milhões. Com o que sobrou terminou a segunda fase.

4.      Para o plano federal, a receita de Nakano é transformar parte da estrutura do governo em agências trabalhando com contratos de gestão. Seriam fixadas metas de desempenho, acompanhadas por auditoria externa – não pelo Tribunal de Contas, para evitar qualquer viés político. Os dados seriam públicos e acompanhados pelos cidadãos.

Atenção futuros governadores de Minas, São Paulo, Bahia, Pernambuco, Espírito Santo, Mato Grosso e RIo Grande do Sul –aqueles que podem responder mais depressa aos desafios da gestão pública. O Estado brasileiro exige uma mudança consistente de paradigmas. E o país está à espera do grande reformador. Vicente Fox tornou-se presidente do México depois de promover uma reestruturação radical na forma de gestão de sua província.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h18

Rui e a dívida dos estados

Antes de assumir o Ministério da Fazenda de Deodoro, Rui Barbosa fora um candente crítico do endividamento dos Estados. A legitimação para os escandalosos benefícios concedidos ao Conselheiro Mayrink era a possibilidade de reduzir a dívida pública. A dívida explodiu na sua gestão. E Rui escancarou as portas para o endividamento de estados e municípios.

Em 14 de agosto de 1890, pouco antes de se reunir o Congresso Constituinte, Rui se antecipou e fez Deodoro aprovar um decreto pelo qual o governo federal iria garantir qualquer empréstimo aos estados até o limite de 50 mil contos. A intenção seria favorecer dois intermediários ligados a um grupo de banqueiros ingleses, liderados pela firma Louis Cohen & Sons. Eram João Pereira da Silva Monteiro e Alberto José Pimentel Hargreaves, que articularam essa medida com Rui. Cinco dias depois do decreto ser publicado, um telegrama da empresa Louis Cohen & Sons dava início ao processo de endividamento dos Estados.

O contrato definia as obrigações dos Estados. Os juros seriam de 5% ao ano sobre o capital nominal emprestado e seriam pagos por um fundo cumulativo de amortização de 1%. Para garantir o pagamento, os Estados dariam como garantiam, por lei especial, “as rendas precisas, provenientes da exportação e importação, ou quaisquer outras e que correspondessem aos compromissos contraídos”. O Tesouro garantiria qualquer inadimplência.

Na “campanha civilista” um dos motes de Rui era acabar com a esbórnia do endividamento dos estados.


Escrito por Luis Nassif às 12h45

Rui e a Rua do Ouvidor

Porque Rui Barbosa permitiu que o jogo especulativo do “Encilhamento” fosse tão longe, arrebentando com a política monetária, devido às sucessivas concessões feitas aos banqueiros seus protegidos?

No site da Casa de Rui Barbosa há fotos de dois automóveis com que o cunhado de Rui, Carlito (Carlos Viana Bandeira) presenteou-o e à sua esposa Maria Augusta, ainda no final do século 19 (clique aqui).

Carlito era o testa-de-ferro de Rui em um banco criado de forma fraudulenta com o Conselheiro Mayring (o banqueiro protegido por Rui). Embora economistas como Celso Furtado considerassem que o “Encilhamento” propriamente dito nada tinha a ver com a política econômica de Rui, a ligação era direta. A liquidez que Rui proporcionou a seus banqueiros (direito de emitir moeda) era canalizada quase na sua totalidade para jogadas fraudulentas na Bolsa. As jogadas eram de conhecimento geral, eram divulgadas na mídia. Porque Rui nada fez para contê-la?

Trecho das memórias de Carlito:

"Minhas atividades em torno da Bolsa proporcionavam-me resultados que me faziam nadar em dinheiro. Os sucessos eram expostos na nossa roda como tacadas. De quando em quando, uma de 20, 30. de 50 contos. Vez por outra, uma de 100 ou mais. Agora, sim, apresentava-me como um capitalista. Enchi-me de boas roupas, calçados, chapéus e bengalas".

Nessa época, em que Rui foi Ministro, o cunhado tinha apenas 20 anos.

Muitas vezes a explicação de erros econômicos monumentais –como a apreciação radical do real no segundo semestre de 1994—  podia estar mais próxima da Praça Antonio Prado, em São Paulo, do que da Rua Marquês de São Vicente, campus da PUC Rio.


Escrito por Luis Nassif às 12h42

O brasileiro do século

Uma das armas de que se valia Rui Barbosa para impor suas idéias a Deodoro da Fonseca era recorrer à figura do inimigo externo. Quando os demais ministros contestaram os enormes privilégios concedidos ao banqueiro Francisco de Paula Mayrink (de que Rui Barbosa se tornaria sócios posteriormente), eis trecho da carta que mandou a Deodoro:

“O Banco Nacional (do Conde de Figueiredo, rival de Maytink) já ousa levar os seus emissários até a presença do chefe do Estado e conta abalar-me a confiança dele. Para que eu prossiga, pois, é essencial saber eu definitivamente se o meu velho chefe, a quem pertence a minha dedicação e a minha vida, mantém para comigo o pacto da confiança absoluta e dá-me, na luta contra esse inimigo, a autoridade ilimitada de que eu preciso a bem do Governo, da República e da pátria. Nesta hipótese estou pronto para tudo e irei com o chefe glorioso da revolução até o extremo limite do sacrifício, sem me importarem hostilidades, quaisquer que forem. Mas, não sendo assim, o cálice é amargo demais, e a minha posição não será dignamente sustentável”.

É o brasileiro do século, segundo algumas versões.

Outros post sobre Rui Barbosa neste Blog:

Rui, o Homem e o Mito - 1

Rui, o Homem e o Mito - 2

O jurista Rui

O diplomata Rui

O economista Rui

O intelectual classe média

A obra econômica de Rui

O John Law brasileiro


Escrito por Luis Nassif às 11h47

Mitos econômicos

A discussão política apaixonada é como cobertura de creme de leite: iguala tudo, impede a identificação de nuances dos diversos sabores. É essa a razão para a perpetuação de alguns mitos na história econômica recente do país.

Vamos a alguns deles.

1. A crise cambial de 2002 não foi resultado nem de receios em relação ao governo do PT nem de alertas do PSDB em relação ao risco de uma “venezuelização” do Brasil.

Foi resultado, primeiro, da vulnerabilidade externa brasileira, que continuava deixando o país muito sensível a movimentos do mercado internacional. Naquele ano houve a crise da a crise da Argentina, provocando uma retração global nos fluxos financeiros para os emergentes e contaminando o Brasil. Essa foi a razão primordial. O resto foi decorrência.

Com a gasolina vazando, é evidente que qualquer fósforo aumentaria o potencial da crise. O discurso pré-Carta aos Brasileiros ajudou, assim como as acusações do PSDB. Mas foi secundário. Na época apareceu um cientista social louco nos Estados Unidos, dizendo ter provas de que, se eleito, Lula traria 200 mil guerrilheiros de Chaves e daria o golpe. O mercado tratou como chacota.

Ajudaram também erros do Banco Central, basicamente a imposição da “marcação a mercado” em ambiente de tensão; e a venda de títulos pré-fixados amarrados a “swaps” cambiais.

O BC tentou reduzir a taxa de juros no meio do tiroteio e apostou na colocação de títulos pré-fixados como condição para vender “swaps” cambiais ao mercado. O mercado comprou os dois, ficou com os “swaps” e vendeu os títulos. Embora em pequena quantidade, a venda dos títulos jogou as cotações para baixo e contaminou todo o estoque de títulos do governo.

Os erros arranham, mas não comprometem a enorme contribuição de Armínio Fraga para a modernização institucional do Banco Central. Principalmente sabendo-se do tamanho do abacaxi que precisaria descascar, com os movimentos financeiros internacionais tornando a economia brasileira uma casca de noz no oceano.

2. O segundo ponto de controvérsia é em relação à política monetária do primeiro ano de Lula, tratada como se tivesse salvo o país do fim do mundo. Na verdade, comprometeu por muitos anos a saída do país da armadilha do câmbio.

Até abril, a atuação do Banco Central foi perfeita. Havia a necessidade de uma política monetária rigorisíssima para impedir a propagação da inflação.

Em abril de 2003, contidas as ondas inflacionárias subseqüentes à desvalorização cambial, Lula teve a maior oportunidade de seu governo, a chance de eliminar definitivamente a vulnerabilidade cambial. A inflação estava contida, a economia se derretendo, a nova safra entrando. Bastaria afrouxar a política monetária, deixar o câmbio em patamar competitivo e estimular setores que produziam bens de consumo popular, onde havia grande capacidade ociosa. Nos anos seguintes o PIB brasileiro conseguiria, tranquilamente, romper a casa dos 5% ao ano, talvez mais.

O único que entendeu claramente, na época, as conseqüências dessa loucura foi o vice-presidente José Alencar.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h12

O novo modelo brasileiro - 2

Do leitor Sidney Vieira Carvalho sobre o novo modelo de desenvolvimento brasileiro:

Acredito que um novo modelo deva partir de paradigmas estabelecidos socialmente, baseados na necessidade de bem estar e melhoria de vida das populações em geral e, no Brasil, das populações mais pobres especificamente.

Assumir que o Estado "desenvolvimentista" era paternalista em suas políticas (quais? as industriais, certamente; as sociais, tenho dúvidas) e que um modelo que amplie a escala dessas políticas sem a efetiva participação popular na sua elaboração e controle me parece um equivoco.

Também me causa estranheza quando diz que um Estado Gerencial caminharia para a resolução dos problemas. Penso na constante precarização da vida urbana nos diferentes estados da federação, por exemplo, e vejo que apenas uma ação concertada e ampla nessas áreas (e em muitas outras) para reverter o estado de coisas.

Sem ilusões de que um estado mínimo e uma competitividade empresarial possam resolver problemas que apenas o Estado tem escala e instrumentos (mesmo que precários) para resolvê-los.


Escrito por Luis Nassif às 08h35

08/09/2006

Realidade e discurso político

Outro dia fui a um evento em que havia um deputado do PP de Maringá. Não guardei o seu nome, mas registrei o que falou. Reeleição é plebiscito. Não importa quem é o adversário, mas quem é o candidato à reeleição. Por isso mesmo, qualquer campanha de oposição, para ser eficiente, teria que desconstruir o candidato, levantar as promessas e confrontar com o que foi feito. Como a oposição não avançou nessa direção, Lula ficou dono do discurso e sozinho no campo para enfatizar o que fez.

Se se for avaliar ao pé da letra, foi um governo sofrível. Havia bons ministros em algumas áreas. Em outras, houve loteamento amplo, como nas Comunicações, com Hélio Costa, na Saúde, nos Transportes.

Mesmo o trabalho da banda eficiente do ministério foi fundamentalmente comprometido pela administração desastrosa do orçamento, nas mãos de Antonio Palocci e do Ministro do Planejamento Paulo Bernardo. A política ultra-conservadora do Banco Central elevou a dívida pública, obrigou a superávits crescentes. Alma de qualquer governo, a estrutura de gastos foi arrebentada pelo contingenciamento irresponsável, que comprometeu a inclusão digital, a vigilância sanitária, o combate à aftosa, os fundos setoriais e a política tecnológica.

O governo Lula não avançou em pontos essenciais, como na política de saneamento, nos investimentos em infra-estrutura, na agilização das PPPs (Parcerias Público Privadas), na Saúde,.

Houve uma profunda desorganização inicial do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e a Casa Civil, no tempo de José Dirceu, envolveu-se em dezenas de projetos, e não conseguiu dar seguimento à maioria deles. Embora tenha projetado o país como liderança entre os emergentes, a atuação do Itamarati ainda não mostrou resultados práticos no campo comercial.

Quando se confere os comentários dos blogs, no entanto, percebe-se que os defensores de Lula têm argumentos na ponta da língua em favor de seu governo, quase como se tivessem sido ensaiados, tal a uniformidade deles. Já os adversários não conseguiram avançar nas críticas consistentes à sua gestão. O único discurso uniforme é na questão ética.


Escrito por Luis Nassif às 22h43

Raphael Rabello

Nos seus últimos anos, Raphael Rabello, atormentado pela tragédia que se abateu sobre ele, enveredou por um malabarismo angustiante, correndo demais ao violão, misturando notas.

Mas, quando interpretava, não tinha para mais ninguém. Confira essa preciosidade de interpretação de “Luiza”, de Tom Jobim (clique aqui), e de “Garoto”, também de Tom (clique aqui). O requinte do som, a dosagem da emoção, a capacidade de improviso mostram claramente que, não fosse o destino, Raphael caminharia para ser o maior violonista da história.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h21

Just a Gigolo

Uma de minhas músicas internacionais prediletas é “Just a Gigolo”. Ouvi a primeira vez em um vídeo louquíssimo interpretado por David Lee Roth (clique aqui), aliás um dos melhores vídeos de música que já assisti. Mais tarde, conheci a versão original e descobri um músico portentoso, Louis Prima, um ítalo-americano de Nova Orleans, uma espécie de Louis Armstrong branco (guardadas as devidas proporções), com um balanço fantástico. Não foi possível colocar a gravação no Youtube, mas você pode conferir o balanço dele em outra música (clique aqui). Repare na cara da "crooner" Keely Smith, cantora muito boa e que, nas encenações de Louis Prima, sempre fazia um divertidíssimo ar de saco cheio. A cena dela e Prima esfregando o nariz, em uma das canções, é de rolar de rir.

Tenho mais de uma dezena de gravações da música, uma delas com Marlene Dietrich, voz de idosa, cantando lentamente. Uma das mais curiosas é com a Betty Boop (clique aqui), de 1932, em cima do personagem em quadrinhos. E também uma fraquíssima dos Menudos (clique aqui) com Rick Martin adolescente.

Talvez nenhuma música tenha dado margem a tantas interpretações histriônicas quanto “Just a Gigolo”. Aqui, uma versão do conjunto Leningrado Cowboys (clique aqui).

E aqui um outro clássico de Louis Prima, “Basin Street Blues” (clique aqui).

Outra preciosidade de Louis Prima, “Isle of Capri”, de 1937 (clique aqui).

Essa interpretação de Lou Bega é balançadissíma (clique aqui), meio rumba meio samba. Bega tem outra versão embalada e divertida do “Tico Tico no Fubá”.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h59

Ecos de FHC

Segundo a Folha Online, Eduardo Azeredo acusou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de “desleal”, por seu discurso em que faz a “autocrítica” da defesa que o PSDB fez de Eduardo – cuja campanha se envolveu com Marcos Valério (clique aqui) -- e lembrou que ele sequer compareceu a Belo Horizonte na campanha.

As mágoas de Azeredo vêm de longe. Na época, FHC se permitiu fotografar em Minas Gerais ao lado de Hélio Costa, adversário de Azeredo, e em São Paulo ao lado de Paulo Maluf, adversário de Mário Covas. E, no Espírito Santo, abandonou à própria sorte Paulo Hartung e Luiz Paulo Velloso Lucas.


Escrito por Luis Nassif às 21h24

Presentes Musicais

Vamos a um balanço semanal dos CDs e DVDs que recebi esta semana:

 “Tom Jobim ao vivo em Montreal”: um DVD maravilhoso da Biscoito Fino, com a gravação da inesquecível temporada de 1986. Minha filha Luizinha, hoje mocinha, nunca me perdoou não tê-la levado a esse show, quando aconteceu em São Paulo. Nem adianta explicar que não aceitavam crianças de três anos no show. Conseguir assistir de novo, em DVD, ao maior show que assisti na vida, é um prazer indescritível.

“Suzana Salles, Ivan Vilela e Lenine Santos”: lançamento precioso, cantando clássicos da música caipira. Lenine é tenor, Ivan é violeiro, Suzana é cantora. No repertório, clássicos da música caipira. Algumas inéditas para mim, como o lindíssimo “A Dor da Saudade”, de Elpídio dos Santos. O dueto dos dois cantores é belíssimo, emocionante, de arrepiar, e o violeiro é clássico e discreto. Ou “Beijinho Doce”, de Nhô Pai, cantado à moda de Cascatinha e Inhana. “Flor do Cafezal”, de Luiz Carlos Paraná, que me emociona toda vez que ouço. Imperdível.

“Radamés Gnatalli, por Olinda Allesandrini” – um CD com 23 peças do mestre, cinco choros, dez valsas, uma sonatina com quatro partes, e um batuque com outras quatro. A pianista é muito boa.

“Melosofia”: uma mistura curiosíssima do melô de Luiz Caldas com as letras filosóficas de César Rasec.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 20h09

O novo modelo

A discussão econômica continua presa a dois paradigmas superados: o modelo desenvolvimentista que se esgotou nos anos 80; e o chamado modelo neoliberal, de políticas públicas passivas, que se iniciou em 1994.

Já existe massa crítica de diagnósticos para que se dê um salto nessa dicotomia. Conto com a contribuição de vocês para sugerir temas ou interpretações.

Indústria nacional

Desenvolvimentismo: Protecionismo

Neoliberalismo: Abertura e apreciação cambial

Novo Modelo: Criação de um ambiente competitivo, com câmbio favorável.

Estado Nacional

Desenvolvimentismo: Estatização ampla

Neoliberalismo: Estado mínimo

Novo Modelo: Estado Gerencial

Responsabilidade Fiscal

Desenvolvimentismo: Sem regras

Neoliberalismo: Metas quantitativas de déficit

Novo Modelo: Acompanhamento qualitativo das despesas

Políticas Sociais

Desenvolvimentismo: Paternalistas

Neoliberalismo: Impessoais, mas sem escala

Novo Modelo: Com escala e com indicadores

Capital externo

Desenvolvimentismo: Restrições

Neoliberalismo: Abertura incondicional

Novo Modelo: Ênfase no capital produtivo e na transferência de tecnologia.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 18h52

O PSDB pós-eleições

Passadas as eleições, todos os quadros técnicos do PSDB tenderão a se dividir entre os próximos governadores presidenciáveis, José Serra e Aécio Neves.

Fernando Henrique Cardoso continuará atraindo os intelectuais militantes –Arthur Gianotti, Boris Fausto, Bolívar Lamounier--, e os políticos carbonários –Tasso Jereissatti, Arthur Virgílio, e parcelas do PFL.

Só que programas partidários dependem de propostas objetivas, não apenas da vã ideologia.


Escrito por Luis Nassif às 10h51

O senhor da guerra

O manifesto de Fernando Henrique Cardoso, divulgado hoje pelos jornais, tem três enfoques: nenhuma auto-crítica em relação ao seu governo; “auto-crítica” em relação a erros de terceiros do PSDB; e “fogo no palheiro” contra o governo Lula. Os dois primeiros são típicos FHC; o último é o novo FHC.

Com ele, FHC não visa as próximas eleições, mas o próximo mandato. Não visa Lula, mas José Serra e Aécio Neves. Não visa fortalecer Geraldo Alckmin, mas puni-lo (faz a “auto-crítica” na questão da segurança de São Paulo) por tê-lo esquecido.

Porque o destempero? A partir de 1º de janeiro, o quadro político muda. Em cenário de paz, o espaço político é ocupado pelos governantes estaduais e federais. Na guerra, é transferido para a mídia e para o parlamento.

A pacificação interessa Lula, Serra e Aécio, ao PT e ao PSDB. Para Lula, para garantir condições de governabilidade. Para os governadores, para garantir uma parceria administrativa com o Governo Federal. Esse pacto de governabilidade será favorecido pelo fato de, ao menos por enquanto, o PT não ter um candidato forte à sucessão de Lula.

As parcerias serão relevantes para os governadores porque as próximas eleições presidenciais serão fundamentalmente em torno do que os candidatos fizeram, não do que falaram.

Além disso, a partir do próximo ano o PSDB terá que ser refundado, para perder a cara de FHC. No fundo, a falta de discurso na campanha de Alckmin reflete a falta de definições do PSDB e o incômodo de ter sua imagem associada a um ex-presidente rejeitado por parcelas expressivas do eleitorado.

Em ambiente de paz, Aécio tem a oferecer os valores da gestão e da concórdia; Serra, os valores da coerência, de políticas públicas pró-ativas e mais equilibradas entre eficiência, responsabilidade fiscal e o social. E FHC? A privatização já aconteceu, a estabilidade já ocorreu. De gestão, ele nunca gostou; a reforma administrativa, ele abandonou, assim como não racionalizou as despesas públicas, não definiu estratégias comerciais, não recorreu à diplomacia comercial, foi tímido na criação de um ambiente competitivo --os valores que deverão vigorar, daqui para a frente, na área pública.

Já como comandante da guerra, tem espaço assegurado em parte da mídia, junto aos carbonários do Senado e a uma parcela da elite paulista.

A grande incógnita dessa história é como se comportará Serra nesse jogo. Remeto ao comentário que o leitor Sérgio de Souza colocou em um dos posts, sobre o papel nacional dos novos governadores: “Quércia, como governador, foi pífio em sua inserção nacional. Serra foi submisso a FHC e continua sendo. Não conseguiu liderar nem mesmo seu partido na oposição à Lula. Mercadante tem sido garoto de recados de Lula. Não é liderança (com luz própria) nem mesmo no PT. A última vez que tivemos, nos estados, governadores desse porte, foi na safra de 82 (Tancredo, Montoro, Brizola e outros). Morreram. (...) A mais forte liderança poderá ser, infelizmente, Aécio. Mas isso é outra história”.

No fundo, ou Serra decifra esse enigma, de como se libertar de FHC, ou será devorado.


Em resposta a alguns comentários colocados: o "infelizmente Aécio" é do leitor Sérgio Souza, não meu.


Escrito por Luis Nassif às 09h46

O segundo governo Lula

Coluna Econômica – 08/09/2006

O segundo governo Lula

O que seria um segundo governo Lula? Poderá ser bem melhor que o primeiro, ou ser totalmente amorfo. Tudo será possível, assim como em 1999, o ano que matou nossas esperanças.

O primeiro governo Fernando Henrique Cardoso foi tocado sob um monumental erro no câmbio, estagnação na economia e inércia na gestão –com exceção do Ministério das Comunicações e poucos mais. O governo só se movia com os berros de Sérgio Motta.

Perto da reeleição, reacenderam-se as esperanças em um segundo governo pró-ativo. Sem nova eleição pela frente, FHC poderia recompor o ministério com quadros mais ativos. A ida de Luiz Carlos Mendonça de Barros para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), a volta de André Lara Rezende, a ida de Clóvis Carvalho para o novo Ministério do Desenvolvimento, o deslocamento de Pedro Parente para a Casa Civil, tudo indicava uma gestão bem mais eficiente.

O governo acabou atropelado pelo câmbio, que transformou em pó a popularidade do presidente, pela crise política e econômica de dimensões consideráveis que se seguiu. Grampo do BNDES, demissão de Clóvis Carvalho e outros eventos foram conseqüências da perda de fôlego político de FHC. As mortes de Sérgio Motta e Luiz Eduardo Magalhães tragédias imprevistas, ajudando a colocar a pá de cal em qualquer veleidade de mudança.

Assim como FHC, Lula a vantagem do aprendizado nesses quatro anos. Tem a desvantagem da infinidade de escândalos em que o governo se meteu. Tem a vantagem de não ter uma crise cambial no horizonte de curto prazo. E a grande vantagem de, até agora, não haver no horizonte uma candidatura viável para sucedê-lo, o que facilitará propostas de pacificação política.

De certo modo o estilo leninista, implantado por José Dirceu, garantiu ao PT musculatura para chegar ao poder. Mas tornou-se disfuncional quando Dirceu não conseguiu entender o tamanho do país e Lula não conseguiu entender a proposta de Dirceu, de montar a governabilidade em cima de alianças com grandes partidos. Foi politicamente inepto.

Os escândalos que esse estilo provocou, seguidos de uma campanha de mídia pré-impeachment, queimaram o capital político de Lula junto à classe média, mas, por outro lado, permitiram uma mudança significativa no governo. A Casa Civil ganhou eficiência operacional com a ida da Ministra Dilma Rousseff, que se revelou gerente eficiente e operadora política discreta. O clima de permanente conspiração, do período Dirceu, foi substituído pelos discursos de entendimento de Tarso Genro.

Há gestões eficientes no MDIC, com Luiz Furlan, no Itamarati, com Celso Amorim, na Integração Social com Patrus Ananias, na Ciência e Tecnologia com Sérgio Rezende, no Turismo com Walfrido Mares Guia, na Educação com Fernando Haddad.

Mas, assim como FHC, Lula é a grande esfinge. Será um governo desenvolvimentista ou continuará marcando passo? Impressionante como ele e FHC são faces de uma mesma moeda. Assim como com FHC, nem os auxiliares mais próximos saberão responder. No máximo mostrarão algum discurso recente de Lula e tirarão algumas conclusões das entrelinhas.


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Escrito por Luis Nassif às 08h29

07/09/2006

O compositor popular

Ontem fui almoçar com minhas menininhas caçulas. A de sete anos mencionava a toda hora Caetano Veloso. Perguntei onde tinha ouvido falar dele. E ela: “Ué, quando ouço uma música e pergunto de quem é, você e a mamãe falam que é do Caetano Veloso”. Pelo menos pelos próximos 80 ou 90 anos, estará assegurado o público dele, de Gil, Chico.

Salve o compositor popular.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h31

Caetano, segundo o intelectual negro

Do leitor Humberto Miranda do Nascimento, nosso militante negro

Caro Nassif,

criticar a música de Caetano é como cair numa armadilha já armada para desqualificar quem discorde. Mas tenho peito de fazê-lo. Que diria Sergio Buarque de Holanda da letra de O Herói de Caetano Veloso? Depois das declarações de Caetano vamos queimar a célebre obra Macunaíma, que não terá valor nenhum a partir de agora. A pequeno-burguesia morena não gosta de Macunaíma porque ela mostra a faceta do herói que o brasileiro pensa ser. Que diria Castro Alves, um branco encardido que tanto Caetano admira?

Para Sergio, o homem cordial era aquele movido pelas paixões e nada tem a ver com o cordial de sentido dicionário, de educado, gentil, pátria amada Brasil. Sergio está o tempo todo preocupado com as consequencias da ação desse homem cordial. Não é à-toa que seu grande livro virá a ser Visão do Paraíso. O próprio Chico Buarque no filme sobre Sergio chama a atenção para esta obra. É engraçado que muitos leram Raízes e não leram Visão.

Outros tantos acham  que Gilberto Freyre e Sergio Buarque, de Raízes, estão falando a mesma coisa. É isso mesmo. Estou chamando Caetano de burro. Quem ainda não leu Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Oliveira Vianna, Darcy Ribeiro, Sergio Buarque de Holanda, Celso Furtado, Alberto Guerreiro Ramos, Caio Prado Jr, Florestan Fernandes, Manoel Bonfim, Marques de Pombal, Eugênio Gudin, Roberto Simonsen, Raul Presbisch, Anibal Pinto, Paulo Freire e Ferrez, é burro. Eu ainda sou burrinho também porque ainda não li muitos outros. Mas quem não leu Rui Barbosa não perderá nada.

Enfim, Caetano prega a burrice nacional. Eu não entro nessa. "Caetenear o que há de bom" não é bom. É só um querer, não é vero. Viva "Espumas flutuantes", de Castro Alves. Caetano espumaverborragicamente é convenientemente conivente com o que convés, éter-na-mente.

Cordial não é ternal. Eu quero o terno, não quero é terno.
Viva Wilson Simonal !


Escrito por Luis Nassif às 16h38

O John Law brasileiro

John Law foi o financista que criou o Banco da França e, com o poder das emissões monetárias, montou em cima de uma riqueza tão grande que lhe permitiu comprar o território da Lousiana, nos Estados Unidos. Depois, quebrou.

Mas o fantasma de John Law e a miragem do enriquecimento fácil acompanhou, dali para frente, todas as reformas monetárias.

Quando Rui Barbosa empreendeu a sua reforma monetária, pelo menos um jornal francês e o “Rio News”, jornal carioca especializado em café, e tocado por um americano, o compararam a John Law.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h25

A obra econômica de Rui

Os comunicados do Ministério da Fazenda, de 1891, Ministro Tristão de Alencar Araripe, mostram que, no próprio ano de 1890, a política desastrosa de Rui Barbosa já tinha desmoralizado os “papelistas” (os que defendiam a emissão de moeda com lastro em títulos públicos). Ou seja, a obra econômica que marcou a história do país, segundo Gustavo Franco, não resistiu ao primeiro ano. Clique aqui e confira que já temos arquivos digitalizados de documentos históricos relevantes.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 13h44

Gustavo e Rui

Gustavo Franco é um personagem eminentemente ideológico, em tudo o que fez de certo ou errado no Real. E, por ideológico, o mais interessante dos economistas do Real. Aprendeu com Rui a falar A, enquanto perseguia B; a utilizar o conhecimento especializado como arma política; a mover-se nas disputas internas do poder (arte que aprendeu com Rui e com seu pai, Guilherme Arinos, homem de confiança de Vargas). Com esses mestres, impôs-se sobre o conhecimento técnico e a vontade de dar certo que alimentavam Pérsio Arida. Em lugar de uma economia que passasse a funcionar e a se desenvolver, os atos de Gustavo eram movidos pelo objetivo de “refundar” o país, através de modelos de monetização que varressem do mapa o Brasil “velho” (no caso de Rui, os fazendeiros; no caso de Gustavo os industriais nacionais) para implantar o novo, que seria conduzido pelos novos financistas.

O capital financeiro é precioso em períodos de reciclagem da economia. Em geral é antenado com novos modelos de negócio, novos setores que estão se desenvolvendo em países centrais, e tem capacidade de mobilização de poupança para a reciclagem da economia. Mas, para ser produtivo, o ambiente de negócio precisa sê-lo.

A “destruição criativa” de Schumpeter (economista que identificou processos de mudanças tecnológicas que promoviam a destruição do velho para o crescimento do novo), depois que passou a linha do Equador, tornou-se a terra arrasada de Gustavo, em uma inversão extraordinária das relações de causalidade. No caso de Schumpeter, a destruição de empresas e setores seria decorrência da modernização da economia. No caso de Gustavo, a destruição de setores traria a modernização da economia. Nos dois casos, de Rui e Gustavo, trouxe desarrumação, estagnação, aumento da dívida pública e privada e dos tributos, esfrangalhamento das contas públicas.

Tanto Rui quanto Gustavo, por ideológicos, apostavam em um modelo que permitisse a montagem de uma nova hegemonia política, transferindo o poder para uma aliança economistas-políticos-financistas, na qual eles seriam os peões. 104 anos depois do desastre do “Encilhamento”, o fantasma de Rui economista continuou a espalhar estragos pelo país.


Escrito por Luis Nassif às 12h10

O intelectual classe média

Rui inaugurou um padrão de atuação política do intelectual classe média que, armado apenas das suas idéias, ambiciona o reconhecimento intelectual, mas também o sucesso financeiro. Desse deslumbramento não escapou Rui, como não escapou San Tiago Dantas, e não escapariam os economistas do Real.

Como criou muitos inimigos, não se sabe se todas as acusações contra ele procedem. Segundo alguns historiadores, depois de recusar por inúmeras vezes pedidos de demissão de Rui (que sempre utilizou a renúncia como arma para se fortalecer), Deodoro teria aceitado depois que soube que ele tinha vendido a Quinta do Caju por preço vil.

Há versões também de que teria ganhado um palacete de presente do Conselheiro Mayrink e de outros beneficiários de sua política, e só não teria aceitado por resistência da sua mãe ou esposa (meus livros estão no meu escritório, por isso não tenho como consultá-los agora).

Com apenas vinte anos, seu cunhado Carlito se tornou seu testa-de-ferro em inúmeros empreendimentos, inclusive em um banco constituído de forma fraudulenta em sociedade com o Conselheiro Mayrink –que integralizou o capital com uma nota promissória. Anos depois Carlito escreveu uma biografia relatando aqueles anos de esbórnia. Andei fuçando alguns sebos atrás dela, mas ainda não encontrei.


Escrito por Luis Nassif às 11h57

O economista Rui

A política monetária de Rui Barbosa foi uma inovação na época, ao tirar as amarras do padrão ouro –pelas quais um país só podia emitir moeda se tivesse o correspondente lastro em ouro—e permitir a emissão com lastro em títulos públicos.

Só que grande parte do desastre que provocou (e que resultou no “Encilhamento”, o grande movimento especulativo que eclodiu na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro) decorreu da implementação torta do programa, com o claro intuito de beneficiar alguns banqueiros da época –particularmente o Conselheiro Mayrink.

Ao tomar a decisão individual de beneficiar Mayrink, Rui se enfraqueceu politicamente junto à opinião pública e aos próprios colegas de Ministério. Foi obrigado a ceder a Campos Salles, que queria um banco emissor para São Paulo, e a outros colegas.

Vários trabalhos contemporâneos comprovam o levantamento de Raimundo Magalhães Jr, das sucessivas gambiarras a que Rui foi obrigado a recorrer para dar sobrevida a Mayrink –cujo banco sequer tinha capital integralizado. Foi uma série de concessões que alimentou a fogueira do “Encilhamento”

Aos 27 anos, Gustavo Franco –eleitor de Rui na enquete e autor do artigo que fala de Rui economista – produziu uma belíssima monografia sobre ele, vencedora do Prêmio BNDES de monografia. Quem não ler mais nada sobre o “Encilhamento” concluirá, a partir da monografia, que os erros de Rui foram amplos e estavam ligados, no nascedouro, aos privilégios concedidos a Mayrink. Mas Gustavo insiste o tempo todo de que faltou apenas um Banco Central forte para que o plano tivesse dado certo.

Um século e quatro anos depois, Gustavo implementa uma política de remonetização inspirada claramente em Rui, contando com um Banco Central forte e independente. E repete o mesmo desastre de 104 anos antes.

No seu artigo na revista, Gustavo diz que as idéias econômicas de Rui se impuseram no século 20 no Brasil. Qual século? Do Encilhamento à Revolução de 30 vigorou novamente o padrão ouro. De 1930 a 1980, a economia fechada e o controle do fluxo de capitais. Apenas a partir de 1994 a pior parte das idéias de Rui voltou a se impor, no desastre cambial do Real, que expôs novamente a economia brasileira às crises internacionais.  Em comum, se tem economias estagnadas no pós-Encilhamento e no pós- Real.

O desastre do “Encilhamento” matou a primeira grande oportunidade de salto no crescimento brasileiro, na mesma época em que a Argentina se aproveitava dos ventos internacionais para se tornar economia de primeiro mundo. O Real matou a última oportunidade.

Rui saiu do Ministério sócio de Mayrink em três ou quatro empresas fundadas durante o “Encilhamento”.


Escrito por Luis Nassif às 11h50

O diplomata Rui

Convidado pelo Barão do Rio Branco a representar o Brasil em Haia, Rui teve, de fato, atuação destacada –apesar de considerado meio verborrágico por parte da imprensa internacional.

Mas –para aqueles que teimam em compará-lo a Thomas Jefferson—cometeu um escorregão imperdoável, mais ainda para quem é considerado um dos fundadores da nacionalidade.. O chanceler argentino apresentou uma moção pela qual países credores seriam proibidos de se valer do poder militar contra nações devedoras. Comprovando suas ligações com a banca inglesa, o grande Rui votou contra.


Escrito por Luis Nassif às 11h36

O jurista Rui

No plano dos direitos civis, Rui foi um gigante. Nos anos seguintes ao desastre econômico que comandou, passou um tempo fora do Brasil. Voltou e embrenhou-se em mil disputas jurídicas, com o objetivo de institucionalizar os direitos individuais no país. Seus discursos e artigos na imprensa ajudaram a moldar uma consciência jurídica no país.

Seu desempenho em Haia foi marcante. Mas Rui tornou-se beneficiário de algumas lendas que depois de revelaram falsas, como a de que teria sido a primeira pessoa a perceber o componente racista do caso Dreiffus (o oficial judeu alvo de uma perseguição da imprensa francesa).

A imprensa inglesa foi a primeira a identificar esse componente racista, no período em que Rui morou por lá, e já estava a pleno vapor quando Rui mandou suas colaborações para jornais brasileiros.

Mas, ao mesmo tempo, era um advogado controvertido. Autor de uma biografia demolidora sobre Rui, o historiador Raimundo Magalhães Jr relata episódios em que Rui abandonou um cliente no meio de uma causa, trocando-o pela outra parte que lhe pagava melhor.

Recentemente saiu um livro relatando seu comportamento algo sórdido no caso Dioguinho –em que uma fazendeira viúva de Ribeirão Preto foi acusada de ter contratado o jagunço para matar adversários.


Escrito por Luis Nassif às 11h33

Rui, o Homem e o Mito - 2

A pesquisa em si vale mais como curiosidade jornalística. Foi montado um júri com 33 personalidades. O escritor Fernando Bonassi votou no escritor Graciliano Ramos, que recebeu o voto do conterrâneo Renan Calheiro. O artista e comunista Ferreira Gullar votou no arquiteto e comunista Oscar Niemayer. O historiador e sociólogo Roberto Da Matta votou no historiador e sociólogo Joaquim Nabuco. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso votou no pensador José Bonifácio, e assim por diante. A escritora Ligia Fagundes Telles no crítico literário Antônio Cândido.  A religiosa dona Zilda Arns votou em Dom Hélder Câmara. O geneticista Fernando Reinach votou na pesquisadora Johanna Döbereiner.

Dos 33 eleitores, quatro votaram em Rui: dois advogados (Dalmo de Abreu Dallari e Miguel Reale Jr.) um sociólogo (Bolívar Lamounier) e um historiador econômico (Gustavo Franco).

Os critérios de escolha não foram muito claros. No fundo, foi uma enquete. Apesar da inegável importância de Machado de Assis como escritor, um Alberto Torres, Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque ajudaram muito mais na compreensão do Brasil.

Que Rui foi um dos arquitetos da nacionalidade, não tem como se negar, assim como os imensos Joaquim Nabuco e José Bonifácio, Dom Pedro 2 e Getúlio Vargas --que recebeu apenas um voto, mostrando que, no fundo, cada jurado escolheu o “seu” brasileiro predileto.

De qualquer forma, é uma boa oportunidade para se voltar a discutir Rui.


Escrito por Luis Nassif às 11h25

Rui, o Homem e o Mito - 1

Em pleno 1890, eclode a crise no gabinete Deodoro. O Ministro da Fazenda Rui Barbosa decide implementar uma nova política monetária. ‘Sem consultar ninguém, elege o Conselheiro Mayrink como o beneficiário, o banqueiro autorizado a emitir moeda com lastro em títulos públicos. Além do controle da liquidez, cumula-o de benesses. Tudo isso decidido individualmente, sem sequer consultar os demais colegas de ministério.

Explode uma crise na mídia e no governo. O gaúcho Demétrio Ribeiro, Ministro da Agricultura, autor da proposta de tornar o estado laico, insurge-se contra a medida e canta todas as peças do jogo. Estouraria um escândalo político; a maneira como se dava a remonetização provocaria uma explosão na Bolsa com uma profunda desvalorização cambial.

Perde a discussão porque Rui se valia de um recurso imbatível nesse país de botocudos: recheava seus argumentos com números, citações de autores estrangeiros e com a retórica de “em todo país moderno é assim”.

Demétrio foi derrotado, mas ouviu uma frase consoladora de um dos colegas de Ministério. Se tudo desse errado, ele entraria para a história como o Ministro que estava certo.

Aconteceu tudo da forma prevista por Demétrio. Alguém sabe quem é ele? Esta semana, mais uma revista, a Época –antes dela, a IstoÉ--, fez uma enquete sobre o brasileiro mais relevante da história. Deu Rui Barbosa.

Ah, Rui também entrou para a história como autor da proposta de laicização do Estado brasileiro. Que originalmente era do pobre Demétrio.


Escrito por Luis Nassif às 11h15

Candeia e o racismo

Do compositor e militante negro, Candeia

Em defesa de um ideal

  " Eu não sou africano

 Nem norte-americano

 Ao som da viola e pandeiro

 Sou mais o samba brasileiro"

 

  "...Negro, acorda, é hora de acordar

 Não negue a raça

 Torne toda manhã

 Dia de graça.

 Negro, não humilhe

 Nem se humilhe a ninguém

  Todas as raças

  Já foram escravas também... "


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 08h51

Caetano e o racismo

Do próximo CD de Caetano Velloso:

O Herói

Nasci num lugar que virou favela
Cresci num lugar que já era
Mas cresci à vera
Fiquei gigante, valente,
inteligente
Por um triz não sou bandido
Sempre quis tudo o que
desmente este país encardido
Descobri cedo que o caminho
Não era subir num pódio
mundial
E virar um rico olímpico
sozinho
Mas fomentar aqui o ódio racial
A separação nítida
entre as raças
Um olho na Bíblia,
outro na pistola
Encher os corações e encher
as praças
Com meu Guevara e minha
Coca-Cola
Não quero jogar bola
pra esses ratos
Já fui mulato, eu sou uma legião de ex-mulatos
Quero ser negro 100%.
Americano,
sul-africano, tudo menos
o santo
Que a brisa do Brasil beija
e balança


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 08h49

(continua)

E, no entanto, durante a dança
Depois do fim do medo e
da esperança
Depois de arrebanhar o
marginal, a puta,
o evangélico e o policial
Vi que meu desenho de mim
é tal e qual
O personagem pra mim
que eu cria que sempre olharia
com desdém total
Mas não é assim comigo
É como em plena glória espiritual que digo:
Eu sou o homem cordial
Que vim para instaurar a democracia racial
Eu sou o homem cordial
Que vim para afirmar a democracia racial

Eu sou o herói
Só Deus e eu sabemos como dói


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 08h49

06/09/2006

A radical social-democrata

Programas econômicos de candidatos têm apenas um interesse: avaliar quais as idéias que conquistaram corações e mentes da opinião pública. A diferença entre ter a idéia e colocá-la em prática é enorme. E o não cumprimento de promessas de campanha é comum.

Mas, quando um candidato dá ênfase à educação, ou à tecnologia, quando fala em reduzir juros para melhorar o câmbio, quando explicita conceitos de segurança, no fundo ele está refletindo aquelas idéias que já se tornaram consenso entre seus eleitores.

Nas diversas sabatinas de candidatos, mesmo com a radical Heloisa Helena do PSOL, observa-se que há consenso sobre diversos temas, como a melhoria da gestão, a introdução de políticas pró-ativas para estimular o desenvolvimento, o aprimoramento da política monetária (não o seu abandono), a manutenção da estabilidade acrescida, agora, de desenvolvimento.

Esses tipos de consenso são fundamentais para permitir futuros acordos políticos. Quatro anos atrás o PT propunha auditoria na dívida externa, revisão das privatizações. Hoje em dia, Heloisa Helena defende redução do pedágio, aumento da eficiência, aumento das exportações.

O Brasil mudou definitivamente.


Escrito por Luis Nassif às 19h44

A volta dos governadores

Nas sabatinas com candidatos ao governo do Estado, que a Agência Dinheiro Vivo ajudou a coordenar para a Associação Paulista dos Jornais (APJ), a posição explícita de Orestes Quércia e José Serra, a implícita de Aluízio Mercadante, mostra uma nova realidade para 2007: qualquer que seja o eleito, o governo federal não vai ter a moleza que encontrou com os governadores estaduais no primeiro mandato de Lula.

Quércia fala em renegociação da dívida acertada com a União no governo FHC –que consome 13% da receita líquida do Estado. Serra fala em trazer para os estados a arrecadação do PIS-Pasep. Mercadante fala em “cooperação” com o governo federal.

Seja o nome que se dê, assim como no segundo governo FHC, com as limitações para aumento de impostos, haverá uma disputa pesada entre estados e União. Principalmente porque, com novo governador, São Paulo poderá assumir a liderança na nova frente de governadores eleitos.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h30

O Outlook e o Gmail

Eu uso o Outlook. Falo mal dele, mas o utilizo há anos. É um programa enjoado, que trabalha com arquivos pesadíssimos, com inúmeros problemas de compatibilidade. A partir de certo tamanho começa a dar pepinos no Exchange –o sistema de rede no qual ele está integrado. Mas continuo usando pela única razão de que ele permite à minha secretária anotar meus compromissos a partir do Outlook dela, em rede; eu receber no meu, em rede. E, depois, sincronizar no meu ex-Palm –que estou prestes a trocar depois de seis meses penando feito um condenado com problemas no meu LifeDrive.

Até hoje não consegui quem configurasse adequadamente meu Outlook para atualizá-lo remotamente pela Internet. Vários técnicos pediram água ou então recomendaram a compra de aplicativos caros, que permitissem a sincronização.

Salto do Outlook para o mundo virtual.

Instalei uma extensão no Mozilla Firefox que permite trabalhar minha caixa postal do Gmail como um diretório virtual. É tudo integrado. Em uma janela coloco o diretório do notebook, na outra o Gmail e transfiro arquivos de um lado para o outro como se estivesse na minha rede ou no meu computador, de forma muito mais intuitiva e muito mais barata do que em rede.

Outro dia fui conferir o calendário do Gmail. Simples, leve, funcional como o correio eletrônico dele. Como é web, obviamente terei acesso em qualquer lugar do mundo a qualquer atualização que minha secretária fizer.

Hoje tenho acesso ao webmail do Exchange. Só que, nesse ambiente virtual, ele é mais desajeitado que jogador de basquete americano tentando fazer embaixadas. É desajeitado, feio, disfuncional, um besouro perto da aerodinâmica de beija-flor de um Calendário do Gmail.

Para compensar esse desastre, a Microsoft desenvolveu o Live Messanger que é um sistema bonito e prático. Seu único defeito é que me lembra o nome do LifeDrive, do meu ex-Palm, que me traumatizou.

Tem-se dois mundos, portanto. O das redes, em que predomina a dupla Exchange-Outlook e o da web, em que Google e Yahoo são reais e o MSN é vice.

No dia em que a comunidade Mozilla, ou a comunidade-empresa Google desenvolver um aplicativo que permita portabilidade ao calendário, isto é, eu poder baixá-lo, utilizá-lo off-line e sincronizar no ex-Palm, darei adeus ao Outlook, após muitos anos de convivência não tão pacífica.

Por isso mesmo, a próxima geração do Office encarará o maior desafio da sua vida, que será o compensar as inúmeras facilidades e funcionalidades dos novos aplicativos cem por cento web. No fundo, talvez represente o último suspiro dos sistemas de trabalho em rede, antes de serem engolidos pela rede maior, a web.

A saída de Bill Gates de cena, deixará uma indagação que se seguiu à morte de Ayrton Senna e à ascensão de Schumaker: no mano a mano, quem seria o maior dentro da nova ordem da web, ele ou a rapaziada do Google?


Escrito por Luis Nassif às 09h58

A competição bancária

Coluna Econômica - 6/9/2006

As medidas de aumento da competição bancária, anunciadas ontem pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), embora ainda incipientes, estão acenando para uma nova etapa na competição bancária.

Nos últimos doze anos ocorreram dois fatos novos no sistema bancário. O primeiro, a re-concentração do setor, com o desaparecimento de instituições menores ou mais frágeis. O segundo foi a entrada de grandes bancos internacionais, que apregoavam uma maior familiaridade com o crédito como uma vantagem competitiva contra os bancos já instalados no país.

A competição não ocorreu por falta de oferta de crédito, devido aos juros elevados. Então o sistema quedou em um acordo cômodo, anti-concorrencial, que garantiu grandes nacos de rentabilidade a todos.

O jogo começou a virar a partir do ano passado. Com o advento do crédito consignado e a redução relativa da taxa Selic pela primeira vez em muitos anos os bancos começaram a praticar a competição em cima de uma nova clientela.

Este ano os ensaios de competição se ampliaram. Bancos estrangeiros passaram a testar financiamentos habitacionais sem TR; pequenos bancos nacionais estão investindo em cima da parte mais sacrificada da estrutura de juros: os devedores de cheque especial e cartão de crédito. Passaram a oferecer a esses devedores taxas de 5% ao mês, contra 10% do mercado. Ganharão muito dinheiro e conquistarão muitos clientes.

É nesse ambiente que devem ser entendidas as medidas adotadas ontem pelo CMN. Todas elas lubrificam as engrenagens daqueles bancos que pretenderem, de fato, partir para a competição.

Nenhuma individualmente resolve a questão do “spread” –e não haveria mágica para tanto. Algumas medidas, neste momento, têm caráter meramente pedagógico. Por exemplo, isentar de CPMF e IOF a transferência de crédito é pouca coisa, comparado aos ganhos que o cliente tem, trocando financiamento de 10% ao mês por outro de 5%. Mas a medida funciona como um gatilho nas expectativas, acordando consumidores e demais bancos para o novo cenário de competição.

A questão da conta salário é outro ponto relevante. Até agora muitos bancos disputavam clientes Pessoa Jurídica, oferecendo vantagens que eram subtraídas, depois, dos funcionários da empresa, amarrados por inércia ou por custos de transferência aos produtos do banco. Agora, a disputa será nas duas frentes. A empresa terá que ter vantagens específicas para continuar no banco.

O cadastro positivo não terá muita utilidade para a relação atual entre o banco e seu cliente. O banco sabe quem é bom pagador e quem não é. E joga nas costas de ambos mais do que o necessário para cobrir a inadimplência. Mas o cadastro será um aliado importante para o banco que pretender tirar cliente do concorrente, pois saberá, através dele, quem é o devedor contumaz e quem passa por dificuldades momentâneas.

O toque final, para deflagrar o ambiente de competição, foi bater em cima dos bancos oficiais para que reduzissem taxas e “spreads”. É uma medida positiva não apenas para o país, mas para os próprios bancos oficiais, que poderão conquistar "market share" saindo na frente.

 


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Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 08h57

05/09/2006

A planilha do Ilan

Cunhei a expressão “cabeça de planilha” para me referir aos economistas que, em vez de fazer análises econômicas, procuravam adivinhar os resultados da “planilha do Ilan” – no caso, Ilan Goldfjan, diretor de política monetária do Banco Cental, e responsável pelo monitoramento das metas inflacionárias.

O sistema criou um modelo de auto-alimentação de expectativas que era entrópico. Teoricamente, o BC deveria se monitorar pela média das expectativas do mercado. Mas como o ganho ou perda de uma instituição não está em acertar a inflação ou o PIB do ano, mas em chegar perto do que o BC pensa sobre o tema, a amostra ficava viciada. Aliás, o fenômeno persiste até hoje. Na ocasião, Armínio Fraga me telefonou reclamando da matéria e sustentando que Ilan não era “cabeça da planilha”.

E não é mesmo. Prova disso é o artigo de hoje na página dois do Estadão (“A ‘mexicanização” da economia”). Ilan investe contra o otimismo em relação ao “grau de investimento” da economia brasileira. E alerta que, nada ocorrendo de grave no cenário econômico mundial, nada ocorrerá de bom na economia brasileira, que continuará marcando passo e exibindo índices pífios de crescimento por falta de consenso político sobre os passos a serem dados para retomar o desenvolvimento.

Discordo dele quando enfatiza que o exagero de um ano, nos juros, é a bonança no outro, porque o controle da inflação permite a redução dos juros. Como se exageros de um ano fossem passado a limpo no outro ano, e não deixassem como herança mais dívida e mais serviço da dívida consumindo mais recursos públicos.

De qualquer modo, é um economista que foge dos chavões e das simplificações.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 11h07

Contas de chegada

O Ribamar de Oliveira, em sua coluna de ontem no caderno de Economia do “Estadão”, fornece alguns bons exemplos de conta de chegada na elaboração do orçamento público.

Em geral, as despesas são previsíveis. Já as previsões de receita dependem das previsões de crescimento do PIB (que influi na arrecadação de impostos) e da inflação (que influi na receita nominal).

Como o Ministério do Planejamento não pode jogar mais com a inflação, por conta do sistema de metas inflacionários, se apega ao crescimento. Se o crescimento for de 4,5%, as despesas mantêm a mesma proporção em relação ao PIB (porque aumenta o numerador). Se for de 3,5%, elas aumentam como proporção do PIB. Basta mudar a hipótese de crescimento, para mudar a proporção.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 09h30

O etanol brasileiro

Coluna Econômica - 5/9/2006

O que o furacão Katrina tem a ver com o etanol brasileiro? Tudo. Graças aos estragos ocorridos em Nova Orleans que o governo de George W. Bush resolveu sair do isolacionismo nas questões ambientais, que levaram os Estados Unidos a não aderir ao Tratado de Kioto (que estabeleceu limites para a emissão de poluentes).

O estrago demonstrou que nenhum país do mundo está a salvo do efeito-estufa.

Com o gigante acordando, foi dada oficialmente a partida para a maior revolução econômica dos últimos cem anos, na opinião de Vilaj Vaitheeswaran, editor de Energia do “The Economist” e autor de um livro consagrado sobre o tema.

Sua palestra foi ministrada no seminário de lançamento do “Summit de Etanol” –encontro mundial sobre o tema, que ocorrerá em junho do ano que vem em São Paulo.

Não se vê possibilidade igual, diz Vilaj, desde que Thomaz Edison, há cem anos, inaugurou a iluminação elétrica, não por coincidência, na sede do J.P.Morgan.

A mudança do padrão mundial de energia trará, pela primeira vez, desde a invenção da iluminação elétrica, uma combinação inédita multi-setorial, com capital de risco encorajando a inovação, e o envolvimento de setores dos mais variados, do agronegócio à indústria petrolífera, das empresas de energia à indústria automobilística, redefinindo a geopolítica mundial das próximas décadas.

Por exemplo, a China está tentando adquirir ativos petrolíferos nos Estados Unidos. Sua estratégia em relação ao Oriente Médio é muito mais objetiva que a americana. Não está presa ao alinhamento automático com Israel, não tem restrições para fornecer tecnologia sensível de mísseis ao Irã, nem problemas com a não democracia da região. Enquanto Bush fala em “eixo do mal”, a China pensa em negócios.

No momento, há dois grandes players internacionais no campo da energia renovável, Brasil e o recém acordado Estados Unidos. A energia de milho, a única disponível atualmente nos EUA, não é competitiva. Mas há pesquisas relevantes na área de hidrogênio e, especialmente, de etanol celulósico.

Vilaj não vê muito campo para acordos binacionais entre os dois países, para desenvolvimento conjunto do mercado de biocombustíveis. Com a inestimável ajuda dos ambientalistas, será muito mais fácil entrar no mercado americano através da indústria automobilística, induzindo-a a adotar, nos Estados Unidos, os carros de motor flexível. Nos próximos dias haverá um plebiscito na Califórnia, visando aprovar leis que obriguem a indústria automobilística a adotarem combustíveis limpos.

É a criação desse mercado para automóveis que abrirá espaço para investimentos na infra-estrutura de distribuição do etanol.

 


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Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 09h12

04/09/2006

Planilha e o Mundial

“Planejamento, investimento, articulação entre as três esferas de governo são a chave do êxito”.

“Se almejamos o sucesso dos chineses, deveríamos imitar as características nas quais eles são fortes: saber planejar as coisas com antecedência é certamente uma delas”.

É um pássaro? É um avião? É um economista estruturalista? Não, é o economista Fábio Giambiagi dizendo coisas óbvias. Não era sobre economia, mas em defesa do planejamento para levar a Copa do Mundo de 2020 para o Rio de Janeiro.

O bom economista sabe tirar da gôndola o argumento que ajude na defesa da tese.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h12

Katrina e o cérebro de Bush

O que o furacão Katrina tem a ver com o etanol brasileiro? Tudo. O furacão Katrina não só destruiu Nova Orleans como conseguiu mexer com o cérebro do governo de George W. Bush, e do isolacionismo adotado nas questões ambientais, que levaram os Estados Unidos a não aderir ao Tratado de Kioto (que estabeleceu limites para a emissão de poluentes).

Com o gigante acordando, foi dada oficialmente a partida para a maior revolução econômica dos últimos cem anos, na opinião de Vilaj Vaitheeswaran, editor de Energia do “The Economist” e autor de um livro consagrado sobre o tema.

Sua palestra foi ministrada no seminário de lançamento do “Summit de Etanol” –encontro mundial sobre o tema, que ocorrerá em junho do ano que vem em São Paulo.

Em sua opinião, pelos desdobramentos multi-setoriais, geopolíticos, os movimentos em torno da mudança da matriz energética mundial –nos quais o Brasil tem papel dos mais relevantes por conta do biocombustível— serão os mais relevantes dos últimos cem anos, desde que Thomaz Edison inaugurou a iluminação elétrica na sede do J.P.Morgan.


Escrito por Luis Nassif às 16h10

A Dedini e o PIB potencial

Semanalmente, somos obrigados a ouvir os da planilha sustentando que o Brasil não pode crescer mais que 3% ao ano devido ao PIB potencial. Como não há investimentos, bate-se na capacidade instalada e produz-se inflação. E aí, tomem-se juros altos.

Os dados do IBGE sobre capacidade instalada não levam em conta a flexibilidade das empresas para aumentar a produção sem a necessidade de investimentos adicionais, seja pelo terceiro turno ou por adaptações na sua estrutura de produção.

Principal fabricante de usinas brasileiro, o faturamento da Dedini saltou de R$ 250 milhões para US$ 1 bilhão em três anos. Tem espaço para triplicar sua produção: bastará apenas ampliar o espaço da fábrica. Sem a demanda, oficialmente a empresa estava trabalhando com 30% de ociosidade em sua capacidade instalada. Logo, haveria espaço para crescer 42% (30% de 70%). Pintou a demanda, ela já cresceu 300% e pode crescer mais 600%, sem grandes investimentos adicionais.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h09

03/09/2006

Baden e Dulce Nunes

Um vídeo precioso, do jovem Baden Powell cantando e acompanhando Dulce Nunes em “Aos Pés da Santa Cruz”.

Dulce foi casada com o pianista Bené Nunes, depois com Egberto Gismonti. Uma das vozes mais bonitas e dos rostos mais lindos da bossa-nova. Soube dela através de um dos programas imperdíveis do Arthur da Távola. Clique aqui. Reparem o olhar de Baden, vidrado em Dulce.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h52

O vídeo clássico do "Tico Tico"

E aqui um vídeo com a gravação clássica da Carmen Miranda de “Tico Tico no Fubá” (clique aqui), a maior interpretação vocal das centenas que a música permitiu. Olha só que sincopado inacreditável, que maravilha de balanço!


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h38

O baião no YouTube

No Youtube achei essa gravação de Jackson do Pandeiro e Almira do “Baião”, de Luiz Gonzaga . Clique aqui. E um vídeo do belíssimo “Boiadeiro”, com o próprio Luiz Gonzaga (clique aqui)


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h28

Pedro de Sá Pereira

Outras duas preferidas de minha mãe tinham como compositor o grande Pedro de Sá Pereira, dos grandes autores do teatro de revista. A primeira é bem conhecida, “Chuá, Chuá”.

A segunda, só ouvi com minha mãe: “Casinha da Colina” (“você sabe de onde eu venho / de uma casinha que eu tenho / fica à beira de um pomar”), de Sá Pereira e de Luiz Peixoto. Foi gravado por Gastão Formenti, cantor de estilo pré-1930, mas dono de um notável repertório.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 22h01

As músicas da dona Tereza

Depois de mais um fim de semana trabalhando nos meus livros, no domingo à noite me permito mais algumas pesquisas e recordações.

Minha mãe, dona Tereza, tinha um repertório de músicas impagáveis, grandes gozações.

Uma delas era a maliciosa “Flauta de Bambu” (“eu ganhei uma flauta de bambu / dia e noite toco flauta, toco flauta prá xuxu”), que eu achava que era de Braguinha, porque muito parecida com o “Gato na Tuba”. Mas é de Nássara e Sá Roris, gravação de Jararaca.

Tinha a a gozadíssima “Pulga Mardita”. O tema era de domínio público. Francisco Malfitano aproveitou para compor uma versão de carnaval, gravado por Zilá Fonseca. Minha mãe cantava um pouco diferente dessa versão: “Olha como pula e como se agita / como é perversa essa pulga maldita”.

Outra divertida era o “Bonde Camarão” (“aqui em São Paulo o que mais me amola / são esses bondes que nem gaiola”), de Cornélio Pires e Mariano da SIlva, gravação de Caçula, Cornélio e Mariano. Inezita também tem uma ótima gravação da moda.

As três podem ser encontradas no acervo do IMS.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h43

Versões de Guacira

Dos maiores clássicos brasileiros, “Guacira”, de Heckel Tavares e Joracy Camargo mereceu muitas gravações. Nenhuma tão curiosa quanto com as “Singing Babies”, conjunto vocal feminino, com sotaque estrangeiro. A gravação é de 1935 e lembra os musicais americanos da época.

A primeira gravação, creio eu, foi de 1933, de Raul Roullien, cantor brasileiro que chegou a fazer carreira em Hollywood. Era um belo cantor, sem os arroubos dos cantores românticos da época. As duas gravações podem ser encontradas no acervo do José Ramos Tinhorão, no Instituto Moreira Salles. Recomendo também a gravação orquestrada de Radamés Gnatalli, uma beleza de colocar a sensibilidade à flor da pele.

Mas o meu clássico predileto -- a gravação em fita caseira do meu tio Léo -- só os da família têm.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h32

O anônimo Constantino

Aliás, o compositor Constantino Silva, autor de “Saudades de Sinhazinha”, tão ignorado hoje em dia, é parceiro de Antonio Almeida em “Helena, Helena”. Ele fez parte da turma do sincopado dos anos 40.

Outros sincopados deliciosos dele são “Dora meu amor”, dele e André Vieira, gravado pelos conjunto “4 Azes e 1 Coringa”; e “Parece Mandinga”, com Nelson da Silva, gravado pelo clássico duo Joel e Gaúcho.

Também compôs valsas, como “Três Badaladas”, gravada por Gilberto Alves, valsa bem rococó. E sambões embaladíssimos, como “Sofro por Querer”, com Célio Ferreira, interpretado por Dircinha Batista.

Aliás, meu amigo Lineu tem toda razão: Dircinha foi das maiores cantoras brasileiras.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h27

Marilu, moça bela

Uma das músicas preferidas de minha mãe era “Saudades de Sinhazinha” (“Sinhazinha, moça bela / filha de um fazendeiro / encontrei-a na capela / casando com um violeiro”), de Constantino Silva. Pouco tempo atrás localizei a música, interpretado por Marilú, cantora agradabilíssima, com a voz das nossas avós, que desapareceu no tempo.

Se quiser ouvi-la, siga o roteiro

1.      Entre em www.ims.com.br, o site do Instituto Moreira Salles.

2.      Clique em Acervo on line. Depois em Entrar.

3.      Quando aparecer os quatro itens do acervo, clique em Músicas.

4.      No campo de Intérprete, coloque Marilu. Seleciona a música "Sinhazinha". 

 


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h17

A voz das avós

Há um estilo de interpretação brasileiríssimo, que é o modo de cantar das nossas avós. Dona Ica Assad, a matriarca dos Assad, é típica representante desse estilo. Foi na turnê da família nos Estados Unidos e chegou a ser chamada pelo “Los Angeles Times” de a Billie Holliday brasileira.

Outra estupenda cantora, dentro desse estilo, é Amélia Rabello, irmã de Rapahel Rabello. Acabei de ouvir uma interpretação dela do “Velho Realejo”, na rádio MEC. Afinadíssima e com a voz firme-trêmula das nossas avós.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 21h12

O negro de Santa Rita

Era começo de 1965. Recém formado no ginásio, com 14 anos prestei vestibular na Escola Técnica de Eletrônica Sinhá Moreira, em Santa Rita do Sapucaí. Era o sonho de todo moleque sair formado com 17 anos, pronto para ser empregado na indústria eletroeletrônica, que experimentava grande desenvolvimento na época.

Passei no vestibular e meu pai me levou a primeira vez até a cidade para me colocar em uma pensão que um amigo dele de Poços tinha montado, com sua cozinheira, para que tomar conta do filho e de colegas.

Em pouco tempo enturmei, mudei para o Seminário, um antigo seminário transformado em pensão por um fazendeiro que tinha três filhas lindas. Logo em seguida, conheci a turma mais “barra pesada” do Instituto e aceitei me mudar para sua república, a WC.

Tinha o José Saia, de Itajubá, que ostentava marcas de navalhada no braço que dizia terem sido fincadas por Mineirinho. Tinha o Salário Mínimo, pequeno, frágil, de São José dos Campos, que me acordava toda manhã tocando “Subindo aos Céus” ao violão. Tinha o Ênio, de Itajubá também, e o Marcão, de Ouro Preto. O Marcão era negro, alto, bonito, cantor de bossa nova de primeiríssima, crooner do conjunto do Instituto.

Todos eram mais velhos do que eu e cursavam segundo e terceiro ano. Por isso mesmo o episódio que ocorreu na cidade eu soube por eles, não tive a ventura de testemunhar porque ocorreu no final do ano anterior à minha chegada.

O Clube local programou uma festa. A escola tinha quase tantos alunos quanto a cidade tinha jovens. E eles foram em peso para a festa. Quando chegaram, Marcão foi barrado, devido à cor. Quem tinha entrado, voltou; quem não tinha entrado, esperou. E, de mãos dadas, cercaram o clube e cantaram o Hino Nacional.

Saí de Santa Rita no meio do ano, por absoluta incapacidade de avançar além das soldas. Mas jamais me esqueci daquela cena que não testemunhei.

Até me dá arrepios se o racismo negro tivesse invadido o campus convivendo com o racismo branco.


Escrito por Luis Nassif às 17h48

Histórias de CPIs

Para os que ainda acreditam em CPIs: os dois principais nomes da CPI do Banestado eram o deputado petista José Mentor e o senador tucano Antero Paes de Barros.


Escrito por Luis Nassif às 13h36

A Banda B da opinião pública

Na discussão pública, até agora, existia uma Banda A (a opinião média midiática refletida na cobertura da grande imprensa). Agora, já ganhou corpo e influência a Banda B, esse imenso e, por enquanto, caótico universo de opiniões que emerge da Internet através dos comentários dos blogs.

São fascinantes as transformações pelas quais está passando a Internet no Brasil, refletindo o movimento mundial. Sugiro aos estudiosos uma análise das mensagens postadas na nota sobre o programa econômico de Geraldo Alckmin.

Percebe-se ali enorme diversidade, do motorista de táxi e micro empresário ao homem de mercado. Não tenho dados sobre os resultados do programa “PC Conectado”, mas é evidente que existe uma enorme massa de neo-incluídos no mercado de opinião através da Internet e dos blogs.

É curioso o contraste com outros ambientes que ainda não se deram conta desse fenômeno.

Nos jornais, é possível ler o ex-Ministro Pedro Malan anunciando a vitória final das idéias que defendia. Nos seminários técnicos, discursos reiterados de novas reformas da previdência e enxugamento do Estado. No Conselho de Economia da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o lado real da economia propondo cortes de gastos e redução do estado. É uma celebração de quem ainda não entendeu o novo mundo.

Quando se cai de cabeça no mundo da blogosfera se vê o reverso da medalha, uma opinião pública nova encarando com enorme suspeição esse discurso. Têm-se dois países, e não apenas o da Paulista e o dos grotões.

Já existe um conjunto sistematizado de posições consolidando o papel da Banda B como agente político. Ela também se move em torno de clichês (como o de que toda reforma do estado é por definição maléfica) da mesma maneira que os clichês da Banda A (a de que qualquer corte de despesa pública é virtuoso). Mas é assim que a opinião pública consegue influenciar a política.

E, aí, se percebem diferenças fundamentais entre Fernando Henrique Cardoso e Lula. FHC logrou recuperar o know-how de governabilidade de Campos Salles e sua política dos governadores. Montou um pacto político de craque, que garantiu a governabilidade. Mas não entendeu o novo que vinha por aí, e nem preparou o país para ele. Desmoralizou idéias legítimas, jamais dando atenção à gestão, não procurando legitimar o modelo de privatização, afastando-se da classe média por atos mas, sobretudo, por palavras, inebriado por sua entrada triunfal nos salões do poder –um deslumbramento que acomete alguns intelectuais que entraram na política brasileira, de Rui Barbosa e San Tiago Dantas aos economistas do Real.

Na inauguração do Instituto Fernando Henrique Cardoso, a maioria dos convidados estrangeiros, especialmente o guru espanhol Manoel Castels, falava sobre a emergência desses novos tempos. Mas FHC esteve no olho do furacão, pretendeu modificar os centros de pensamento mundial, e, enquanto ainda era ator relevante, não acordou para um dos maiores fenômenos sociológicos da história. É o que faz a diferença entre o intelectual e o estadista.

Por sua vez, Lula entrou totalmente inexperiente em termos de tecnologia do poder. Em vez de seguir os ensinamentos de FHC, de fechar com grandes partidos, resolveu partir para a cooptação individual de parlamentares, financiando partidos de fachada para esvaziar os grandes. Deu no que deu.

Mas, por outro lado, entendeu como ninguém a emergência da Banda B. E nem se venha com a idéia de que sua popularidade esteja apoiada apenas nos grotões. É só conferir os comentários no blog. Os ensaios de participação popular em alguns ministérios, ainda que por enquanto apenas retóricos, casaram com valores fundamentais dos novos tempos internéticos. O anacrônico tornou-se moderno. O assembleísmo, tenha o nome de concertação ou outro qualquer, é um dos pilares da nova ordem, e terá que ser aprimorado.

Esse país tão carente de déspotas esclarecidos, vai ter que aprender a conviver com a pluralidade ainda um tanto caótica da Banda B. Vai ser um desafio e tanto. Mas, enfim, viva a diversidade! E bem vindos à aldeia global.


Escrito por Luis Nassif às 13h01

A "Supertônica"

Imperdível o programa “Supersônica” de Arrigo Barnabé, às 11 horas de domingo na rádio Cultura FM (103,3) de São Paulo. Um show de criatividade, de informações inéditas.

Arrigo surgiu nos anos 80, trazendo um componente sinfônico para a vanguarda paulista, junto com outro craque, Itamar Assumpção. Seu “Clara Crocodilo” foi a melhor coisa produzida por essa vanguarda, ajudando a arejar um pouco a emepebecize que havia dominado a música paulistana.

Depois, descobriu a música brasileira tradicional e andou compondo em parceria músicas curtas de muita qualidade.

Não perdeu o ímpeto transformador.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 11h59

Estão conseguindo

Estamos chegando lá. O Brasil já importou dos Estados Unidos várias teorias mal-assimiladas à realidade nacional. O Banco Central é pródigo nisso. Agora, com o sistema de cotas raciais, chegamos lá. A reportagem do Paulo Moreira Leite hoje no “Estadão” – “UnB vive situação inédita de caça ao racismo” (clique aqui, para assinantes)— é um alerta para esse processo trágico de introdução do racismo, ao identificar alguns casos (não sei se generalizados) de intolerância.

Alunos comparecem às aulas armados de gravadores para captar supostas afirmações racistas de professores. Um deles foi “acusado” de chamar os negros de “crioulada” – mesmo o aluno que o denunciou admitindo, no e-mail enviado para ele, que era seu jeito brincalhão. Há o aluno reprovado no curso de pós-graduação que invocou o suposto racismo do professor para conseguir ser admitido.

Já tinha ficado chocado meses atrás quando o Ministro Patrus Ananias me fez uma visita acompanhado de uma assessora, negra retinta, linda, linda, que me contou que havia sido rejeitada por um dos blocos afro do carnaval baiano, por não ter sido considerada suficientemente negra.

Tempos depois de escrever sobre o “racismo negro” participei de um debate aqui em São Paulo com grupos do movimento negro incrustados na Universidade. Levei o meu amigo negão Almeida, crioulo Almeida, do alto de seus 70 anos participante ativo do movimento negro dos anos 60 – foi o primeiro a enfrentar o preconceito do clube Esperia, em São Paulo, que não admitia negros na piscina.

Saímos os dois chocados com o que vimos. Não havia Brasil, boteco, Paulinho da Viola, Ivone Lara ou samba no evento. Havia negros de nariz empinado, mencionando fundações americanas, usando termos americanos, abusando do “ok”.

O encontro era para debater um livro de uma dessas lideranças jovens, da Bahia, um amontoado de preconceitos contra homossexuais (porque o movimento gay insinuara que Zumbi tinha modos suaves), contra portugueses, contra europeus em geral.

O autor se apresentava como mártir do movimento por ter sido detido em 1996 na USP, após um happening que, para seu orgulho, saíra no “New York Times”. Motivo da detenção: foi pego por um delegado pixando prédio público, levado para a delegacia, onde recebeu uma carraspana e foi liberado.

Essa rapaziada que está introduzindo o racismo no país são todos classe média, tão vazios e internacionalizados quanto a classe média branca internacionalizada. Seu sonho de consumo são os carrões extravagantes de negros ricos americanos. Negro pobre, para eles, é álibi, ao contrário de lideranças negras mais consequentes que militam em outros setores. Aproximam-se dos “brancos” empinando o nariz e estufando o peito, do mesmo modo que negrões americanos agressivos.

Consideram-se todos descendentes de príncipes africanos e tratam a miscigenação como "estupro". Os mulatos são, todos, filhos do estupro. Ficaram um pouco chocados quando lhes disse que, na África daqueles tempos, chefes de tribo ganhavam a vida derrotando tribos rivais e vendendo os adversários como escravos. O maior traficante de escravos era negro.

No final do debate, no coquetel, um deles se aproximou, disse que só sendo negro para entender os problemas do negro. Rebati que só sendo pobre para entender os problemas dos pobres. Perguntei sua origem social. O pai tinha sido favelado, segundo ele. Disse-lhe que a pergunta era outra: qual a sua origem social, não a do seu pai. Quando nasceu, o pai já era funcionário público com emprego estável. E em que universidade estudou? Não tinha estudado no Brasil, porque só havia universidade vagabunda por aqui. E perguntou se eu conhecia o movimento negro em torno do Aristocrata Clube, nos anos 60.

Aí o negão Almeida estufou o peito e perguntou quem era seu pai. Disse o nome. Almeida deu-lhe uma aula sobre o clube, como integrante daquele movimento e companheiro do pai do moleque. E passou-lhe uma carraspana que, já de peito murcho, o rapaz aceitou de cabeça baixa.

Saímos de lá desanimados. Deixei o negão Almeida na sua casa, cheguei na minha e coloquei Candeias no computador, o grande Candeias, um dos primeiros líderes do movimento de afirmação negra dos anos 60, cantando: “Eu não sou americano / eu não sou africano / eu sou brasileiro”.


Escrito por Luis Nassif às 10h42