UOL Blog
Blog

16/09/2006

O caso Brasil-Bolívia

Desde o começo, achei que o governo agiu corretamente no caso Brasil-Bolívia. O lado Petrobrás bateu duro; o lado Itamarati foi paternal.

É relevante levar em conta o grau de desenvolvimento institucional e diplomático da Bolívia. É um país atrasado, sem a menor experiência em fóruns internacionais, que foi profundamente espoliado ao longo dos anos. É eleito o primeiro presidente índio, Evo Morales, rústico, uma espécie de Heloisa Helena com penas, precisando reativar a auto-estima nacional, mas sem ter a menor idéia sobre como proceder, e com um arco de apoio amplo e heterogêneo, que vai de populações indígenas a radicais nacionalistas.

Sem coesão interna, provavelmente apenas com diagnósticos difusos sobre a realidade do país, tendo que enfrentar uma eleição constituinte, era natural que saísse dando cabeçadas. Se, na primeira cabeçada, o Brasil partisse para a defesa da “honra nacional”, o teria encurralado, deixando-o em uma sinuca de bico. Dali para identificar no Brasil o inimigo externo seria um pulo.

A segunda investida do governo Morales, esta semana, recebeu uma resposta mais dura do governo brasileiro –inclusive porque em período eleitoral. O resultado foi a queda do Ministro dos Hidrocarbonetos e Energia, Andrés Solíz Rada, um intelectual que, a exemplo dos muitos intelectuais que freqüentam o PSDB e o PT, gosta de radicalizar sem pensar nas conseqüências para o país.

A manutenção dos laços diplomáticos com Morales, da compreensão com suas cabeçadas, permitiu que o episódio depurasse o governo boliviano, expelindo Solíz, e fortalecendo setores mais moderados e pragmáticos.

O que teria acontecido se o governo tivesse ido defender a honra nacional contra o “rato que ruge”? Certamente teria fortalecido a banda radical que cerca Morales.

Poderão ocorrer outros incidentes, devido ao caráter volátil do governo Morales. Mas, até agora, o modo como o governo brasileiro tratou o caso foi correto: a Petrobrás bate, o Itamarati assopra.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 10h19

O rei do juri

Leio, em uma notícia sobre a morte do coronel Ubiratan, que o marido da advogada Liliana Prizivalle (mãe de Carla, ex-namorada do coronel) é o desembargador aposentado Alberto Marino Jr.

Para quem não se lembra, Marino Jr foi promotor de Justiça e considerado o “rei do júri” em São Paulo, com centenas de casos em que se sagrou vencedor.

Para os músicos, é mais conhecido como o filho de Alberto Marino, o compositor da melodia de “Rapaziada do Braz” e como autor da letra: "Lembrar / deixei-me lembrar / meus tempos de rapaz no Braz".


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 09h47

Os heróis sem nenhum caráter

A maior CPI da história, como foi alcunhada por alguns, a CPI dos Sanguessugas deu nisso. De chefes de quadrilha, os Vedoins recorreram à delação premiada e, como se está em período eleitoral, se tornaram donos de uma credibilidade de poder fulminar qualquer parlamentar meramente denunciando-o.

E agora? Incriminaram deputados, ampliaram a delação, depois recuaram, agora envolvem políticos da própria oposição, como o ex-Ministro José Serra. Mais: vendendo dossiês e informações por preço caro. Quer uma acusaçaozinha aqui? É só pagar.

E porque conseguiram cobrar tão caro pelo dossiê? Porque dois eméritos picaretas foram transformados em heróis sem caráter por parlamentares sem discernimento. A oposição joga sujo; agora a situação joga sujo. E quem se recusa a entrar nesse jogo de lixo acusatório, de delações premiadas e de manchetes furadas, ainda tem que suportar patrulhamento.


Escrito por Luis Nassif às 00h22

15/09/2006

Facundo y Ramirez

Dos CDs que recebi esta semana, além de Ariel Ramirez, ganhei o de Facundo Ramirez, filho de Ariel, interpretando peças do pai.

Também é um senhor pianista, que herdou o estilo do pai, de entremear pancadas secas no piano, com jorro de notas. Há peças preciosas de Ariel, como “O Provinciano”, de 1939, tratando com um requinte inigualável o folclore argentino – que só mais recentemente, com Daniel Barenboim e Martha Argerich, chegou à nossa mesa.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 18h28

Falta de povo

Mário Covas passou uma lição importante para Geraldo Alckmin, quando foi prefeito. Todo sábado, ele saía para visitar o povo. Nenhum compromisso, solenidade ou evento, apenas ter contato com o povo.

Alckmin considera que esse tipo de comportamento é fundamental para todo político. Primeiro, para não perder a perspectiva do povo. Segundo, para servir como exemplo para toda a administração.

Diz que ele seguiu os ensinamentos de Covas e que Lula também faz isso. Na conversa que tive com ele, acha que esse falta de povo ajudou a comprometer algumas gestões no país.


Escrito por Luis Nassif às 18h13

Viagens e viagens

Mil perdões se passar uns tempos sem responder aos comentários. Estou indo agora para uma palestra em São João da Boa Vista. Amanhã palestro em Campos do Jordão, no encontro do DNA. E domingo em Comandatuba. As respostas serão nos intervalos das viagens.

Mais do que do Blog, vou sentir falta das minhas menininhas e meninonas.


Escrito por Luis Nassif às 16h38

O som de Ariel Ramirez

Escrever sobre música traz uma vantagem fantástica: os músicos passam a procurar-nos. Acabo de receber, pelo correio, um CD com 23 gravações do grande pianista argentino Ariel Ramirez, que me foi enviado por sua filha. Deixa resolver a questão do player do Blog para poder disponibilizar essas preciosidades para vocês.

Ela, aliás, é amiga da Maria Thereza Arida, prima do Pérsio, que está morando atualmente em Nova York, mas foi dona do melhor restaurante de comida árabe que já passou por São Paulo.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 16h37

O consignado e o Banco Santos

De um especialista em balanços bancários, leitor do Blog:

1. O crédito consignado cresceu por causa do Banco Santos. O Bacen abriu os depósitos compulsórios dos bancos de pequeno porte, totalizando R$7 bilhões, que foram por eles direcionados ao consignado. Foram tão eficientes que ficaram sem liquidez. Os bancos grandes tiveram que concorrer para não perder clientes, em alguns casos com funding aos bancos médios e pequenos;

2. O risco internacional - na verdade o spread internacional para o Brasil, que não media o risco, avaliado pelo JPMorgan - era elevado por causa da taxa de juros elevada interna, e não ao contrário. Aberração econômica.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 15h10

Heloisa Helena e Palocci

Maílson criticou Heloisa Helena, acusando-a de praticar um esquerdismo pré-capitalista, do século 19. Concordei. Mas lembrei que a política monetária nossa (livre fluxo de capitais para uma moeda inconversível; todo o controle da liquidez transferido para o detentor de moeda estrangeira) é a mesma praticada no início do século 20, de Joaquim Murtinho até 1930.

Nada tão anacrônico quanto o discurso dessa modernidade à brasileira.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h49

A Bolsa Família

Mas foi interessante a avaliação de Maílson sobre a Bolsa-Família – aliás, em linha com o que pensam os defensores do “focalismo” (o grupo que diz que as políticas sociais precisam ter foco, com o uso de indicadores e identificação dos grupos mais necessitados).

Maílson considerou o projeto como de ponta e rebateu os que criticam a falta de uma porta de saída. Para ele, garantir renda aos miseráveis não pressupõe porta de saída. A saída mesmo só virá com a segunda geração, através de uma melhoria no ensino fundamental. O papel central da Bolsa Família é ensinar o miserável que a miserabilidade não é uma inevitabilidade.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h42

Maílson e a Inglaterra

Participei agora de manhã de um debate com o ex-Ministro Maílson da Nóbrega, em um encontro do setor imobiliário. Bom, discordei de quase tudo o que Maílson disse. Especialmente quando, num rasgo de otimismo, sustentou que o Brasil está chegando ao padrão da Inglaterra no século 18, quando criou instituições que reduziram o poder de arbítrio do rei. E foi esse modelo que permitiu que ela se tornasse potência no século 19.

É a tática das análises seletivas. É evidente que o institucionalismo ajudou. Mas a Inglaterra se tornou potência com um protecionismo escancarado à produção local, antes de se tornar potência industrial. Depois, através do controle do comércio marítimo, da prática escancarada do subfaturamento da exportações e do contrabando. Finalmente, depois que se tornou potência, da articulação do grande capital em torno de Bancos Centrais europeus e do predomínio ideológico sobre países mais fracos.

Não se pode reduzir todo o sucesso inglês a um ângulo apenas. Uai!


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h40

A velha e a jovem Microsoft

O colunista do “Estadão” Ricardo Anderaos prevê que, com o lançamento do Zune, a Microsoft aplicará sobre o iTunes a mesma estratégia vencedora que adotou contra a Apple nos anos 80, contra o Netscape nos anos 90 (clique aqui).

É uma boa discussão. De minha parte acredito que os tempos sejam totalmente diferentes, assim como a velha Microsoft de hoje é totalmente diferente da Microsoft de Bill Gates.

Até os anos 90 havia um modelo gerencial campeão, um estrategista fantástico, Bill Gates, o poder de monopólio do Windows, um sistema de participação em resultados e uma estratégia de copiar as melhores práticas, e depois pagar as indenizações no Tribunal, que só funciona para empresas em expansão. A curva de crescimento sustenta os empregados que trabalham com participação e torna economicamente viável a estratégia de copiar, crescer, e depois pagar a indenização.

O que se tem agora? Primeiro, a empresa tornou-se gigante, tendo que trabalhar programas cada vez mais complexos. Depois, perdeu seus quadros mais criativos no final da bolha da Nasdaq. As sucessivas demandas judiciais fizeram-na abrir a caixa preta do Windows, e o avanço da Internet criou uma portabilidade extraordinária dos programas. Com isso, as comunidades de software aberto ganharam uma condição de competitividade que não tinham antes.

As sentenças judiciais, além disso, restringiram sua capacidade de copiar antes e fazer acordo depois.

Hoje a Microsoft tem uma curva de crescimento de empresa madura, o que torna mais difícil a aposta dos talentos nela. Além disso, o mundo caminha para ser online. Por mais que a Microsoft consiga avançar em algumas áreas, sua alma, a sua essência, a fonte principal de seus lucros é offline. E essa briga interna entre o novo e o velho é imobilizante.

Anderaos menciona que a única derrota da Microsoft foi para o Google. E o Firefox? Não só está comendo mercado do IE, como a versão 7 do Explorer não conseguiu se aproximar dele –apesar de copiar inúmeras funcionalidades.

No campo dos tocadores de MP3, não dá para comparar a disputa da Microsoft com a Netscape (uma idéia sem nenhuma gestão) com a disputa com uma empresa consolidada como a Apple, tendo à frente um gênio do entretenimento como Steve Job.

Em suma, a Microsoft vai continuar grande, mas será cada vez mais lenta.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 14h20

A rota da coca

Uma família internacional e curiosa é a de Santo Domingo, ex-proprietário da Avianca, companhia aérea colombiana. Um dos herdeiros, Júlio Mário Santo Domingo, tem o banco Alpha, em Genebra.

Nos anos 40 o pai se mudou para o Rio, casou-se com a ex-esposa de Benjamin Vargas, tornou-se incorporador imobiliário que ajudou na construção da Cinelândia, e na construção do Hotel Serrador.

Há alguns anos, a Avianca começou a ser pressionada por traficantes colombianos para transportar as drogas. Santo Domingo resistiu um tempo mas, depois, quando um diretor foi assassinado, decidiu sair do negócio. A empresa era redonda, com uma forte presença nas viagens internacionais da Colômbia. Mas os donos não colocavam os pés no país com medo de atentado.

Foi o que o levou a vender a companhia para German Efromovich, também dono da Ocean Air.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 00h08

Os economistas de Alckmin

Os dois economistas que estão diretamente envolvidos com os planos de governo de Alckmin são Yoshiaki Nakano e José Roberto Mendonça de Barros. Dois senhores economistas.


Escrito por Luis Nassif às 00h06

A graça das Garças

Não sei se o episódio foi contado na época. Convidado a conhecer a Casa das Garças, Alckmin foi recebido por um plantel de ex-Ministros e ex-presidentes do Banco Central. Na reunião ouviu três conselhos: cortar benefícios da aposentadoria, não reajustar o salário mínimo e não dar aumento para funcionários públicos.

Terminadas as explanações, Alckmin agradeceu: “Vocês acabam de me dar a fórmula completa para perder eleições: tirar dos velhinhos, dos pobres e dos funcionários públicos”.


Escrito por Luis Nassif às 00h06

O estilo Aécio

A popularidade de Aécio Neves em Minas é, primeiro, um fenômeno mineiro. Pela primeira vez, desde JK, o estado tem um político de estatura nacional. Mas é um fenômeno brasileiro, no campo da gestão. A bola da gestão ficou quicando oito anos na área de Fernando Henrique e quatro anos de Lula. Mas foi Aécio quem chutou.

Depois de colocar as contas do estado em dia, reuniu os prefeitos e pediu que cada um definisse uma obra essencial na sua cidade. Depois, o estado entrou financiando todas elas. Ganhou apoio até de prefeitos petistas.

Na Segurança Pública, conseguiu articular ações das Polícias Militar e Civil com uma decisão de bom senso. Havia uma divisão geográfica distinta para cada uma, o que causava freqüentes conflitos de competência. Ele unificou as regiões, ampliou o número de regiões militares no Estado.

A grande diferença entre Aécio e Alckmin, no fundo, estava nos seus quadros de confiança. Enquanto o motor do governo Aécio era seu Secretário do Planejamento Anastásia, o de Alckmin era o Chefe da Casa Civil Arnaldo Madeira.


Escrito por Luis Nassif às 00h05

Cena mineira

O neto de Zezinho Bonifácio aluga um apartamento em Juiz de Fora, Itamar Franco sendo prefeito. Itamar marca uma visita para ensinar-lhe os meandros da política da região.

Chega ao apartamento, na parede havia dois séculos de quadros da árvore genealógica dos Andrada. Itamar jantou, mas, prudentemente, se esquivou de passar as lições.


Escrito por Luis Nassif às 00h05

A estrela dos vices

Elizeu Rezende, ex-Ministro de Itamar, ex-candidato ao governo de Minas, passou Newton Cardoso na última pesquisa de votos para o Senado. Minas nem pode comemorar. Ele está bastante alquebrado pela idade e seu suplente é Clécio Andrade – político tão polêmico quanto Newton Cardoso.


Escrito por Luis Nassif às 00h04

Um mundo chamado Minas

A política de Minas Gerais é um mundo à parte. Em nenhum outro lugar a política e os “causos” são tão saborosos.

No comício de Geraldo Alckmin em Juiz de Fora, conheço dois netos do Zezinho Bonifácio de Andrade, político forte e folclórico do regime militar, descendente do Patriarca da Independência.

Nos meus tempos de adolescência, as disputas entre ele e Biezinho (Bias Fortes, filho de um governador de Minas) transcendiam Barbacena e viraram assunto nacional.

Me conta o neto que, em uma eleição, o avô foi até a estrada, parou um caminhão com eleitores de Biezinho e comunicou ao motorista que, para evitar brigas entre eleitores, ele e Biezinho fizeram um acordo que, naquele dia, só os eleitores de Bonifácio poderiam votar. No dia seguinte, seria a vez dos eleitores de Biezinho.

Biezinho ainda está vivo, mas muito doente.


Escrito por Luis Nassif às 00h04

14/09/2006

Combate à corrupção

Coluna Econômica - 15/09/2006

Em geral, programas de governo são um amontoado genérico de mesmices, uma relação de boas intenções, um check list sobre o que fazer, pouco sobre o como fazer. Dessa sina não escapam os planos de governo de Lula e de Geraldo Alckmin.

Mas a cartilha “Combate à Corrupção”, de Alckmin –lançada ontem em Juiz de Fora—contem uma sistematização interessante de práticas contra a corrupção, algumas delas já foram implementadas no governo federal, outras no estado de São Paulo.

O primeiro ponto é a chamada fiscalização prévia, prática já adotada em algumas fiscalizações do Tribunal de Contas da União. A proposta é fortalecer uma nova classe de funcionário público, o Gestor de Contratos Públicos, vinculado ao Ministério do Planejamento, que atuariam como uma auditoria preventiva.

O segundo é a criação de instrumentos que permitam à sociedade acompanhar todo o processo de gastos públicos. A idéia é que todo pagamento a fornecedores seja eletrônico, através dos sistemas SIAFI/SIASG (sistema informatizado que controla o orçamento público). Seria criada uma Unidade Gestora em cada município para administrar todos os contratos com fornecedores pagos com recursos da União. Outra providência “ovo de Colombo” é utilizar a estrutura administrativa de avaliação acompanhamento  de projetos das instituições financeiras federais.

A terceira medida é a integração de todos os órgãos federais envolvidos no combate à corrupção. Esse trabalho de integração já foi instituído pelo Ministro da Justiça Márcio Thomas Bastos, juntando Receita, Banco Central, Polícia Federal, Ministério Público.

A quarta é ampliar o combate à lavagem de dinheiro, fortalecendo a a COAF (Comitê de Controle das Atividades Financeiras).

O quinto, menos relevante, é criar mais um setor interno na Advocacia Geral da União, incumbido da recuperação do dinheiro desviado, além de promover as sentenças condenatórias do TCU.

O sexto é reduzir ao máximo os casos em que se admite a dispensa de licitação.

O sétimo é mudar a lei para permitir a demissão rápida do funcionário público acusado, resguardado o amplo direito de defesa.

O oitavo é a criação de um sistema para medir e avaliar gastos públicos, dotando o Estado de um acompanhamento permanente de fornecedores, serviços e produtos. Além disso, condicionar a participação dos fornecedores à inscrição e cadastramento no banco de dados do Estado. Foi esse modelo, instituído por Mário Covas, que permitiu uma redução significativa nos contratos de serviço do Estado.

O nono é o uso do Pregão e da Bolsa Eletrônica em todas as compras governamentais de produtos padronizados.

O décimo é o fim da Comissão Mista do Orçamento, além de um orçamento mais realista.

Finalmente, impor contratos de gestão para empresas públicas ou sociedades de economia mista, fazendo-as trabalhar com metas. No governo de São Paulo o governador não atuou assim, permitindo a manutenção de instituições sem um pingo de transparência, como é o caso da Fundação Seade.

Na sensaboria da campanha, é um documento relevante, como sistematizador de idéias.

 


“Todos os direitos reservados, sendo proibida a reprodução total ou parcial por meio impresso.”

Se quiser receber por e-mail clique aqui.


Escrito por Luis Nassif às 23h51

A "TR travada"

Pelas minhas contas, no caso de haver manutenção da queda da inflação, com a TR em 2% ao ano nos próximos 2 anos, depois 1,5%, o financiamento com “TR travada” só seria vantajoso para financiamentos normais com taxas acima de 12,7% ao ano (o máximo permitido é 12%).

No caso de uma maxidesvalorização que jogue a TR para 15% no terceiro ano, e depois seja reduzia para 7%, 5%, 3% e 2%, a “TR travada” seria vantajosa para todos os financiamentos normais com taxas superiores a 9,29% ao ano.

 

Dados do financiamento, com maxi

Financiamento    100.000    

Prazo                 120 meses

                          Com TR   Sem TR

Juros ano              9,27%      14,91%

Juros mês             0,74%      1,17%

PMT inicial           1.261         1.551

PMT final             1.896         1.551

Saldo                                     0,00

 


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 13h46

O vaidoso e o inteligente

Depois da má repercussão da sua carta ao PSDB, Fernando Henrique Cardoso começa uma turnê de entrevistas para sair da defensiva. Hoje tem duas muito boas, uma para a “Folha”, para o belo jornalista Sérgio D’Ávila, e uma outra entrevista ao surpreendente repórter Júlio Maria, “Jornal da Tarde”, reproduzida hoje no “Estadão” (clique aqui), de uma qualidade que há muito não via em entrevistas.

O grande problema é que o intelectual FHC, que nos anos 80 conquistou o PSDB para suas idéias, terá um grande embate se quiser reconstruir o partido: matar a herança do ex-presidente FHC.

Quando assumiu o governo, FHC tinha massa crítica de conceitos e diagnósticos sobre a economia. Tinha a legitimidade para empalmar bandeiras de modernização, até para avançar sobre a previdência social. O PSDB tinha quadros para aprimorar várias áreas, na reforma administrativa, na modernização da gestão, na visão de um Estado enxuto e pró-ativo.

Grande parte dessas bandeiras foi jogada fora, por conta de um movimento puramente ideológico de abertura da conta capital, de construção de um país internacionalizado, oligopolizado, totalmente descomprometido com o país real e de uma gestão totalmente passiva de políticas públicas. FHC desdenhou os valores da gestão, desdenhou o povo, desdenhou conceitos primários de planejamento estratégico, abortou a reforma administrativa.

O modelo implantado por ele permitiu a internacionalização do capital nacional, mas não o canalizou para investimentos. Multiplicou o grande capital nacional, mas o colocou a salvo da Receita, protegido pelo Banco Central , pelo CADE –caso Ambev, por exemplo. Foi um modelo que permitiu o crescimento apenas dos setores oligopolizados e dos grandes grupos que se formaram na informalidade, ao preço de matar um projeto de país.

O presidente voltou as costas para o país, tratou com desdém as idéias contrárias, contribuindo para a criação desse clima surreal, em que suas idéias são tratadas pela mídia como clichês da revista “Caras”. FHC é “in”; seus críticos são “out”.

Em dezembro de 1994, escrevi que havia dois FHCs, o vaidoso e o inteligente, mas temia que o vaidoso vencesse. Na época, ele respondeu que o inteligente era suficientemente inteligente para permitir a vitória do vaidoso. Ali, já estava claro que o vaidoso seria vencedor.


Escrito por Luis Nassif às 12h45

A prestação sem TR

Do leitor M.K.

Caro Nassif,

Além da análise que você fez na sua coluna de hoje, gostaria de discutir um outro aspecto, este mais ligado à blitzkrieg propagandística do governo e aos perigos cada vez maiores dessa postura do Governo Lula.

O Ministro Mantega, no lançamento do pacote, afirmou que a não-cobrança da TR faria reduzir a prestação, permitindo assim o acesso a mais mutuários. Ha aí dois erros crassos, que só podem ser explicados em função da finalidade eleitoral do lançamento das medidas.

O primeiro é dizer que não haverá a cobrança da TR. Haverá, sim, a cobrança, pois a MP nº 321, de 13 de setembro de 2006, em seu parágrafo único - https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Mpv/321.htm

estabelece que

"na hipótese da celebração de contrato sem a cláusula de atualização mencionada no caput, ao valor máximo da taxa efetiva de juros de que trata o art. 25 da Lei nº 8.692, de 28 de julho de 1993, poderá ser acrescido, no máximo, o percentual referente à remuneração básica aplicável aos Depósitos de Poupança, anualizado conforme metodologia a ser estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional."

O problema é pré-fixar, para um contrato de até 20 anos, com base em uma média de curto prazo, um índice que vigerá para tão longo prazo. Do ponto de vista prudencial isto é um suicídio. Cria-se um descasamento desnecessário e potencialmente desastroso no futuro.

O segundo é dizer que isso poderia reduzir a prestação inicial, o que permitiria a entrada de novos mutuários com menor renda. O que acontece é exatamente o contrário. Financiamentos indexados, ao contrário dos pré-fixados, têm a vantagem de oferecer prestações iniciais mais baixas (que vão subindo ao longo do tempo, à medida que o poder de compra do mutuário vai subindo pari passu). Isso é trivial na literatura de finanças. Financiamentos pré-fixados de longo prazo têm a vantagem da segurança de se saber de antemão o valor nominal da prestação, mas, em compensação, exige-se uma prestação inicial maior - o que é óbvio.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 12h33

O fechamento de capital

Um fenômeno novo começa a ganhar corpo nos Estados Unidos: o fechamento de capitais de empresas, especialmente as de tecnologia, em função dos custos elevados decorrentes da aplicação da Lei Sarbanes-Oxley, que coíbe a corrupção. Preste atenção porque esse tema, da tendência de fechamento de capitais de empresas poderá começar a ganhar vulto nos próximos meses. Principalmente porque deverá ocorrer um novo período de concentração no setor de tecnologia. Assim, a lógica do negócio passaria a ser investidores assumirem o controle de empresas, fecharem o capital para terem mais liberdade e ganhos na venda para empresas maiores. Confira parte da história nessa matéria do Guia Financeiro (clique aqui).


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 08h34

Multi brasileiras e AL

A América Latina é a porta de entrada para a internacionalização das empresas brasileiras. Hoje em dia, o Brasil fica atrás apenas da China e da Índia em número de empresas se internacionalizando. Veja o mapa dos investimentos brasileiros na América Latina no Guia Financeiro da Dinheiro Vivo (clique aqui).


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 08h29

13/09/2006

O financiamento sem TR

Coluna Econômica – 14/09/2006

Alguns exercícios matemáticos permitem avaliar como será o comportamento dos bancos com a possibilidade de conceder financiamentos habitacionais sem correção da prestação pela TR.

Como se sabe, os bancos são obrigados a aplicar em financiamento habitacional parte dos recursos da caderneta de poupança. A caderneta paga TR mais 6,17% de juros ao ano. Nos financiamentos pelo SBPE os bancos cobram de 8% a 12% ao ano mais TR, dependendo do valor do financiamento.

Pelo pacote imobiliário, os bancos poderão oferecer financiamentos à TR do dia, anualizada e fixa até o final do contrato, mais o máximo de 12% ao ano. Com isso, as prestações também serão fixas até o final do contrato. Na verdade, não se acaba com a TR, mas se utiliza a chamada “TR travada” –ou seja, o banco pode “travar” a TR do dia, e utilizá-la até o final do contrato.

Os bancos farão uma projeção de quanto será a TR no decorrer do contrato, e, em função dessa aposta, fixarão os juros dos contratos com “TR travada”, de maneira a minimizar seu risco.

Se a TR explodir, os bancos terão que remunerar a poupança pela TR real, e continuarão recebendo do mutuário pela “TR travada”. Se, pelo contrário, a TR cair mais ainda, eles pagarão menos pela poupança, e receberão mais pelo financiamento com a “TR travada”.

Como os bancos poderão escolher os financiamentos para oferecer o novo contrato, no fundo trabalharão com uma boa margem de garantia para minimizar seu risco.

Vamos a alguns exemplos para quantificar o pacote.

Suponha um financiamento de R$ 100.000,00 por 120 meses, pelo qual o banco cobre 10% ao ano mais TR. Pela Tabela Price, a primeira prestação sairá por R$ 1.298,00. Com a “TR travada”, a prestação inicial seria de R$ 1.551,00.

A partir do segundo mês, a prestação com TR será corrigida pela TR mensal. No final de 12 meses estará em R$ 1.330,00. Já a prestação com “TR Travada” continuará nos mesmos R$ 1.551,00.

Aí, haverá dois cenários:

Cenário Otimista – suponha que a inflação continue sob controle e a TR caia para 2% ao ano no segundo e no terceiro ano e, depois, para 1,5% ao ano. Nesse exemplo, no final do contrato, apenas a partir do 69º mês a prestação com TR superará o valor da prestação com “TR travada”. Sobre os R$ 100.000,00 emprestados, o banco terá tido um lucro líquido de R$ 26 mil sobre o contrato convencional, descontada a TR do período.

Cenário Pessimista – agora suponha que haja uma maxidesvalorização do câmbio que jogue a TR para 15% no terceiro ano, depois caindo sucessivamente para 7%, 5%, 3% e 2% ao ano. Nesse caso, no final do contrato, o banco terá ganhado R$ 6.570,00 a menos do que no contrato convencional, se considerar a TR do período. E, a partir da 35º prestação, o mutuário do contrato convencional passará a pagar mais do que o mutuário do contrato com “TR Travada”.

Apenas para faixas maiores de financiamento, que pagarão 12% ao ano mais TR, valerá a pena optar pela “TR Travada”. No fundo, a única vantagem para o mutuário será ter a segurança de que a prestação não explodirá se a inflação voltar e a TR aumentar novamente. Mas o preço poderá ser alto.

 


“Todos os direitos reservados, sendo proibida a reprodução total ou parcial por meio impresso.”

Se quiser receber por e-mail, clique aqui.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 23h38

Convergência e regulação

O advogado Floriano de Azevedo Marques mostrou um quadro sintético muito bom sobre a maneira como é a regulação da convergência digital em oito países. A apresentação estará disponível no site do Projeto Brasil (www.projetobr.com.br) a partir da noite, ou de amanhã de manhã.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h27

A animação brasileira

Hoje em dia pelo menos 50 brasileiros em posição de destaque nos estúdios internacionais de animação. Um pólo de animação em Campina Grande com capacidade para virar um grande pólo global.

Hoje em dia, maior parte dos videogames para celulares no Brasil, produzidos internamente.


Escrito por Luis Nassif às 15h48

Mercado e indústria cultural

Um dos pontos relevantes do Funcine (o fundo de investimento em cinema) é o contato que tem permitido entre gestores de recursos (como a Rio Bravo) e os empreendedores culturais. Esse contato com o mercado financeiro tem proporcionado uma mudança na cabeça dos gestores culturais, e um conhecimento da lógica do setor pelos gestores de recursos.


Escrito por Luis Nassif às 15h32

A revolução do Wimax

Uma antena de wi-fi gera acesso a 50 metros. O Wimax a 50 quilômetros. Se o leilão do Wimax for realizado ainda este ano, até 2010 o país poderá ter mais 3 milhões de pessoas acessando banda larga através do Wimax. Informação de Sérgio Sá Leitão. Novas tecnologias estão barateando a produção e aumentando a escala.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 15h21

Banda larga alcança o cabo

A Webtv ganhou a maioridade. Hoje no Brasil tem tantos usuários de banda larga como de TV a cabo. Um canal via IP já pode ser do tamanho da TV a cabo, 4,5 milhões de pessoal. Essa realidade cria condições para que todas as formas de produção de áudio e vídeo já podem entrar na net, com um público similar ao da TV a cabo.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 15h19

O iTunes já tem MPB

As gravadoras independentes brasileiras assinaram ontem contrato com a iTunes Store. Conseguiram que a música brasileira tivesse sua própria categoria, em vez da categoria World Music ou Latin Music. A informação é de Sérgio Sá Leitão, que informou em primeira mão no Seminário do Projeto Brasil.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 15h17

O BNDES vai apoiar audiovisual

Sérgio Sá Leitão, assessor da presidência do BNDES, no Seminário "Indústria da Cultura e Convergência Digital", do Projeto Brasil:

O BNDES vai divulgar programa de apoio à cadeia produtiva do audiovisual, indo além do cinema. A idéia é mudar esse enfoque conceitual, que até agora foi determinante das políticas públicas.

O conceito de audiovisual significa obras de produção independente, feitas em suportes variados, usando plataformas de distribuição das mais variadas.

Trabalhando também com conceito amplo das empresas do setor, para que permita apoiar inclusive empresas que ainda venham a ser criadas.

O banco irá trabalhar com uma cesta de garantias, que seja adaptada a qualquer situação. E as condições financeiras serão as mais vantajosas, porque é um setor que precisa ser mensurado pelo seu potencial.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 15h06

Cai demanda por cursos de informática

Do professor Eduardo Morgado, do Departamento de Computação da UNESP:

Cursos de computação, evasão de 68%. Procura cai por 20%. Candidatos pr vaga em 2005 foi de 2,2. E há déficit de 50 mil profissionais de informática.

Professores acomodados e ensinando tecnologias velhas. Escolas com equipamentos antigos.

Com os dados de analfabetismo funcional, os cursos de educação à distância atuais são completamente desatualizados, porque baseados na leitura. Vai ter que se desenvolver outros mecanismos.

As Universidades, além de equipamentos desatualizados, ensinam softwares livres, e as empresas se baseiam em sistemas Microsoft, Java.

Programa PC Para Todos chegou a 240 mil computadores vendidos e provou que renúncia fiscal não significa perda fiscal. Com 9% de renúncia fiscal aumento de arrecadação de 33%.


Escrito por Luis Nassif às 14h41

Miro Teixeira, o Ministro

Tem homens públicos que passam pelo poder sem deixar marcar e só defender interesses. A rápida passagem do Ministro Miro Teixeira pelo Ministério das Comunicações mostra o que se pode conseguir, com vontade política.

Sua decisão de investir R$ 50 milhões na constituição de uma rede de pesquisadores brasileiros, para analisar a TV digital, é um marco na história reecente da tecnologia e das telecomunicações brasileiras.

Tê-lo trocado por Hélio Costa é um dos grandes erros do governo Lula.


Escrito por Luis Nassif às 12h30

Trabalho em rede no cinema

Paulo Pons, da Pax Filmes, está apresentando uma proposta sumamente interessante no Seminário “Indústria da Cultura e Convergência Digital”.

A Pax é uma produtora que estará fazendo seu primeiro longa metragem sem incentivo fiscal, devido à dificuldade de se chegar às fontes de incentivo. Passou a apostar na tecnologia digital, e no barateamento da produção e da distribuição.

Montou projeto para produzir dez longas metragens em 18 meses a um custo de R$ 50 mil cada para ser exibido em cinema e outras plataformas. Com câmeras DVD, favorece novas formas de fazer filme, também para exibição e distribuição, especialmente com explosão da banda larga e do vídeo na Internet,

Através da Internet, procuraram grupos em diversos estados para formar núcleos, cada qual desenvolvendo seu próprio projeto, roteiro e montagem de equipe.

A partir de cada projeto v"ao atrás dos recursos e convergência de produção. Novo cineasta vai trabalhar muito mais com TV digital e Internet que cinema.

É a tentativa de trabalho em rede para a produção de filmes.


Escrito por Luis Nassif às 11h58

A Suprema Corte e a troca de músicas

Informação de Pedro de Paranaguá Moniz, da Faculdade de Direito da FGV-RJ

No ano passado, decisão da Suprema Corte americana (sobre o Morpheus, de troca de arquivos em rede), em segunda instância entendeu que peer-to-peer reduz custo de distribuição das obras. Decisão foi de que não importa a porcentagem de pirataria. A tendência será aumentar a pirataria. Precisa dar tempo para mercado se adaptar à nova tecnologia. Deixa evoluir a tecnologia, depois se avaliar suas conseqüências.

Mas sustentou que se houver intenção de infringir direitos autorais, produtor da tecnologia deve ser responsabilizado. Como desenvolvimento é em rede, não tem como identificar o desenvolvedor.

Conclusão: não se pode barrar tecnologia só porque ela poderá vir a ser utilizada para fins ilícitos.


Escrito por Luis Nassif às 11h44

A carta de FHC e o Clarin

A BBC Brasil traz reportagem do jornal “Clarin”, de Buenos Aires, sobre a carta de Fernando Henrique Cardoso (clique aqui). O jornal é rigoroso com FHC. Segundo a nota:

“Cardoso não pode conter sua língua venenosa e sugeriu (ainda que de forma indireta) que homens do governador Neves estavam envolvidos na suposta ‘podridão política’ que se desatou, segundo Cardoso, com o governo Lula”, afirma o texto, sobre a carta publicada por Fernando Henrique na internet na semana passada”.

O jornal observa que o ex-presidente cria inimigos no próprio partido, incluindo Aécio Neves e o ex-governador Geraldo Alckmin, em sua tentativa de emplacar o ex-prefeito de São Paulo José Serra, seu preferido, como candidato presidencial em 2010”.

“O ex-presidente parece decidido a conservar a maior cota de poder mesmo às custas de destruir sua organização”, diz o jornal. “A sensação que deixou é que se trata de um ex-presidente encurralado: sua meta é manter uma presença política que se extingue à medida que avança em idade. O que falta analisar agora é que oposição política Lula terá que enfrentar em um segundo mandato.”


Escrito por Luis Nassif às 11h37

TV digital e telefone móvel

Ainda segundo Sicsú:

Televisão móvel, para equipamentos portáteis:

1.      Ano passado, número de celulares que captavam sinais de TV aberta 300 mil, basicamente na Coréia.

2.      Em 2009, de 1 bilhão de celulares vendidos no mundo, 130 milhões recebendo TV.

Não se tem certeza sobre qual será o tamanho. Até dois meses atrás, de 3 polegadas só tinha baixa resolução, 120 a 200 linhas. Agora começando a ser disponibilizados sistemas VGA com resolução de 480 linhas, equivalente às TVs fixas.

Não haverá um padrão só de transmissão para celular.


Escrito por Luis Nassif às 11h36

Computador popular e conectividade

Posições de Benjamin Sicsú, vice-presidente da Samsung:

"Nos últimos dois anos cresceu violentamente venda de computadores no Brasil. De 4 milhões dois anos atrás para 8 milhões agora.

Primeira tentativa de computador popular era otimizar rede de telefonia. Se deu mais acessibilidade ao cidadão com computador popular, mas não viabilizou a conectividade.

Acho que a conexão móvel deve prevalecer com entrada do wimax”.


Escrito por Luis Nassif às 11h17

As três formas de convergência

Ainda segundo Martini:

Convergência tecnológica mexe com tripé da sociedade da informação:

1.      Modelo tecnológico, que já está dado.

2.      Modelo de serviços: fusão de diferentes serviços

3.      Modelo de negócios: maneira de viabilizar economicamente processo.

Ainda não se sabe onde irá parar, porque no meio do processo.

O que se pode dizer é que a tecnologia tem a capacidade de transformar o homem. Não é apenas ferramenta. É algo que transforma e modifica profundamente o homem nas suas relações na sociedade.


Escrito por Luis Nassif às 11h14

A convergência digital

As várias formas de convergência digital, segundo Renato da Silveira Martini, do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação.

Convergência tecnológica:

1. Na tecnologia da informação, é a união de tecnologias de TI

2. Nas redes: convergência de redes numa rede IP (TVD, dados, comunicação, streaming de vídeo). Antes a Internet no domínio da mídia telefônica. Agora, satélite, rede móvel, redes elétricas, wi fi). No futuro a rede sem fio deverá ser vitoriosa.

3. Na convergência de meios: computadores, telecom, rádio, editoras e gravadoras eram negócios bem delimitados. Hoje territórios começam a se confundir. O que é Amazon, Google, Youtube?


Escrito por Luis Nassif às 11h04

O MINC de Gil

Segundo Gilberto Gil, a herança que pretende deixar ao Ministério das Comunicações é a do compartilhamento.

“O MINC deve juntar esforços gerais, dentro de uma visão múltipla, sociológica, antropológica, econômica. Não poder continuar sendo pequeno balcaozinho, onde se pegam os parcos recursos do orçamento e ficava distribuindo para velhos e costumeiros realizadores de projetos culturais em uma área convencional. Tem que ser do tamanho do Brasil, da demanda, da alma global internacional”.


Escrito por Luis Nassif às 10h51

As cotas raciais

Gil é a favor das cotas raciais na Universidade. Rebateu Caetano Velloso, que chamou de modismo importado dos Estados Unidos. “Se importamos tanta coisa dos Estados Unidos, porque não uma que deu certo?”.

Para mostrar o preconceito que ainda grassa, lembrou conversa recente com Zeca Pagodinho, vítima de matérias na imprensa dizendo que ele tinha quebrado um camarim. Zeca nem estava lá, e desabafou: “É o preconceito contra sambistas. Se fosse o Chico Buarque, a imprensa nem levaria a sério”.


Escrito por Luis Nassif às 10h10

A Cultura, segundo Gil

Marca da gestão Gil, segundo ele, foi a ampliação do escopo da cultura, tirar dos salões e identificar a nova inteligência global e novos interlocutores. Prioridade é extensão do conceito da cultura, com mais abrangência sociológica e mais diversidade cultural. Máxima de Adam Smith foi adotada no MINC: “a riqueza das nações está na cultura dos seus povos”.

Lei Rouanet: percentual de 4% muito rígido. É preciso flexibilização para que setores médios da economia sejam estimulados também a investir em cultura. É preciso flexibilizar a lei. Deve prever mecanismos de compartilhamento comum dos produtos criados pelo mecanismo da renúncia fiscal. Poderiam ser aproveitados pelo Ministério da Educação para funções pedagógicas.


Escrito por Luis Nassif às 10h07

Querer o que não sabe

Frases do compositor Gilberto Gil, repetidas pelo Ministro Gilberto Gil na abertura do Seminário “Indústria da Cultura e Convergência Digital”, promovido neste momento pelo Projeto Brasil:

“o podo sabe o que quer / o povo que o que não sabe”.

É o ponto central de qualquer política de inovação. Esse é o problema central de produtos – como o próprio jornal – que se baseia em pesquisas freqüentes de opinião para monitorar o que o leitor quer. Cria-se um círculo vicioso que impede a renovação: fica-se sabendo o que o leitor quer naquilo que ele sabe; mas não se mostra ao leitor o que ele não sabe.


Escrito por Luis Nassif às 09h39

Sofismas em torno do câmbio

Coluna Econômica - 13/09/2006

Um dos piores vícios da discussão econômica no país é a perda de foco. O analista tem interesses a defender e vai desenvolvendo argumento em favor das suas idéias. Em determinado momento os argumentos ganham vida e se despregam da realidade, deixam de considerar aspectos fundamentais da própria ciência econômica.

É o caso da discussão apreciação versus desvalorização do real. Há um grande conjunto de economistas contra a desvalorização, porque significaria perda para os investidores e tomadores de empréstimos em dólares. Então, tratam de conseguir argumentos em favor da apreciação do real, que acabam atropelando princípios básicos de bom senso.

Como se sabe, quando o real se aprecia os produtos brasileiros ficam mais caros em comparação com os estrangeiros. Fica mais difícil para a empresa brasileira não apenas exportar como competir com os produtos importados.

Mas a apreciação traz vantagens também. O sofisma é não comparar adequadamente o peso dos argumentos contra e a favor da apreciação.

Um dos argumentos a favor é que a apreciação aumenta a capacidade de compra dos salários. De fato, com o real apreciado pode-se comprar produtos estrangeiros, ou mesmo viajar para o exterior gastando menos reais.

Mas esse benefício é de curto prazo. Se a apreciação tira o dinamismo das exportações e da produção interna, em um segundo momento haverá redução do lucro das empresas e dos empregos que proporciona.

Um segundo argumento a favor da apreciação do real é que a desvalorização produzirá inflação. Trata-se de mais um sofisma. Inflação é um processo continuado de aumento de preços. Quando ocorre uma desvalorização cambial, em um ambiente econômico não indexado (como é atualmente a economia brasileira) em um primeiro momento há uma mudança no patamar de preços dos produtos importados e exportados. Depois do primeiro salto, se houver uma condução eficiente da política monetária, não haverá a continuidade do processo de reajustes.

O terceiro argumento é que, com o real valorizado, fica mais barato para as empresas importarem máquinas e equipamentos e ampliar sua capacidade de produção. Ora, um equipamento é caro ou barato em função do faturamento que a empresa irá obter com ele. Se a desvalorização cambial aumenta o preço do equipamento, em reais, mas aumenta o faturamento da empresa, a comparação a ser feita é entre o novo poder de pagamento da empresa e o novo preço da máquina. Se uma empresa não encontra espaço para aumentar sua produção, não terá porque adquirir máquinas, estejam elas mais caras ou mais baratas.

O quarto argumento é que, em vez de ficar pensando em câmbio, o país deveria melhorar as condições de infra-estrutura, tributação etc. É evidente que o preço final de um produto exportado corresponde ao preço interno corrigido pelo câmbio. Ocorre que, se você não tem objetivamente, condições internas mais competitivas, não tem infra-estrutura adequada, tributação competitiva, acesso a crédito, a única compensação é através do câmbio. Se, em cima de todos esses problemas, ainda se tem um real apreciado, a empresa morre.

Mas pouco importa para o analista. A realidade que se adapte ao seu argumento.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 08h14

12/09/2006

O "velho" senducação

Dora Kramer, em sua coluna de hoje no “Estadão”, toma as dores de Fernando Henrique Cardoso, e chama Cláudio Lembo de “sem educação” por “depreciar” o ato de escrever e usar a expressão “coisa de velho”.

Ora “coisa de velho” seria uma inominável grosseria se partisse de um jovem. A delícia da ironia de Lembro é que partiu de um “velho” assumido – como ele próprio se define. E é evidente que ele não está contra o ato de escrever. Sua ironia é que, no período atual, todo mundo escreve pela Internet.

Adaptando Che, há que ser duro, porém sem perder o humor.


Pessoa, andei suprimindo alguns comentários meio ofensivos à Dora. Ela é uma grande jornalista, que tem suas preferência e as exerce de forma clara e legítima.


Escrito por Luis Nassif às 09h32

Uma guerra paulista

Coluna Econômica - 12/9/2006

A carta que Fernando Henrique Cardoso divulgou no site do PSDB, tentando declarar guerra ao governo Lula, é reflexo de uma guerra exclusivamente paulista. A carta foi divulgada no momento em que FHC participava de um encontro em Bariloche, promovido pelo empresário João Dória Júnior. É um encontro ao qual só comparecem CEOs que se valem dos recursos das empresas para montar redes de relacionamentos e promoção pessoal.

Os dois grandes símbolos de deslumbramento recentes da sociedade brasileira eram a Daslu e os encontros de Dória. No início da sua campanha de candidato a candidato a presidente, Alckmin se deixou fotografar na Daslu e transformou Doria em porta-voz. Não foi de graça que grande maioria dos leitores passou a considerá-lo como descompromissado com o povo.

É nesse no trafega FHC e onde o sentimento anti-Lula ganhou tons de guerra. Não é mais no ambiente partidário, nem no intelectual. O exército de FHC se limita aos executivos de grandes corporações, a um grupo restrito de amigos intelectuais tucanos –que travam guerra ideológica mortal contra o patrulhamento petista nas Universidades--, e ao espaço que lhe concede parte mais radical da mídia.

É evidente que a sucessão de escândalos que assolou o governo provoca indignação nos adversários de Lula. Assim como provoca indignação no PT todas as ficções que se tentaram somar aos fatos reais, na campanha anti-Lula.

Quando se confere essa dupla indignação, se entra em um terreno previsível. Nenhum adversário de Lula será eleito propondo a guerra. No momento, há dois candidatos à presidência em 2010: Aécio Neves e José Serra. Aécio montou um arco de aliança invejável em Minas Gerais. Tem baixíssima resistência não apenas no PMDB ou PFL como no próprio PT. É exemplar seu relacionamento com o prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel.

De seu lado, Serra tem um amplo leque de aliados em todos os partidos que cultivou ao longo de sua vida política. É um grupo de amigos que vai de César Maia, governador do Rio a Jarbas Vasconcellos, de Pernambuco; do deputado verde Eduardo Jorge, em São Paulo, a Márcio Fortes, no Rio; de industriais paulistas a sindicalistas; de intelectuais a funcionários públicos.

Seu leque alianças é muito mais amplo do que FHC, sua trajetória de vida muito mais coerente, seu sentimento de lealdade muito mais concreto. Só que Serra não consegue se desvencilhar de FHC. A relação entre os dois amigos um dia ainda será tema de alguma tese sobre confronto de personalidades na vida pública.

Eleito presidente, FHC tratou de manter o amigo perto o suficiente para que não explicitasse as críticas contra sua política econômica; longe o suficiente para que não participasse do processo de decisão. Agora, garante a Serra espaço em alguns setores que o viam com desconfiança. Mas a que preço? O de levar a desconfiança em setores que sempre admiraram sua coerência?

Enquanto não conseguir se libertar do fernandismo e passar a assumir o serrismo, Serra não conseguirá acompanhar os passos rápidos de Aécio, que está crescendo em cima de duas bandeiras objetivas: gestão e pacificação.

 


 “Todos os direitos reservados, sendo proibida a reprodução total ou parcial por meio impresso.”

Para receber por e-mail, clique aqui.


Escrito por Luis Nassif às 09h15

11/09/2006

Das analogias improváveis

Em sua coluna mensal no jornal “O Valor”, Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti mostram as semelhanças entre o câmbio no Brasil e no Chile (clique aqui).

Como sempre são artigos bem escritos, racionais que, justamente por serem racionais, permitem identificar pontos de discussão.

Pastore quer provar duas coisas:

1.      Que a apreciação do câmbio é fruto do movimento de contas correntes.

2.      Que a apreciação não é a responsável pela desaceleração do PIB.

Para tanto, ele recorre a uma das armas do arsenal retórico do mercado: o das analogias com outras economias. A partir de uma analogia consistente, deriva para outras, que podem não ser adequadas.

O país para comparação é o Chile. Pastore mostra que o Chile tinha todos seus fundamentos em ordem; o Brasil ainda não. No entanto o fenômeno da apreciação cambial ocorreu com os dois. O que tinham em comum? O fato de manter a conta de capitais aberta. Logo é a conta de capitais que explica os dois movimentos de apreciação.

Aí, deriva para a atividade econômica. No Brasil, ocorreu desaceleração do crescimento da economia, no Chile muito menos. Se ambos sofreram o mesmo processo de apreciação cambial, e os efeitos sobre o PIB foram diferentes, logo não é a apreciação cambial que provoca a desaceleração, mas a falta de um ambiente para investimentos.

É fantástico! O professor pegou um ângulo em que a comparação era permitida (a apreciação do câmbio via conta capital) e derivou para outro em que as realidades são totalmente diferentes. O Chile é um produtor de commodities, em um período em que as cotações se comportaram bem. O Brasil tem uma estrutura industrial complexa, um tecido econômico muito mais amplo –com muito mais setores suscetíveis à influência do câmbio.

O fato de eu calçar 42 não autoriza nenhuma comparação a mais com Mike Tyson, só porque ele calça 42.


Categoria: Economia
Escrito por Luis Nassif às 16h53

Surpresas em final de campanha?

Pesquisas internas, contratadas por um grande banco brasileiro, indicam que na última semana Geraldo Alckmin teria ganhado 3 pontos junto ao eleitorado, e  Lula teria perdido 3 pontos.

A conferir com as próximas pesquisas Datafolha e Ibope.


O banco em questão é o Bradesco e a pesquisa só circulou internamente.


Escrito por Luis Nassif às 11h12

10/09/2006

Um gozador emérito

Nesse jogo de cena que é a política, o governador Cláudio Lembo, o breve, será lembrado para sempre por seu humor e pela dessacralização do cargo. Sem ambições políticas, Lembo pode se dedicar ao seu esporte predileto: desmistificar a hipocrisia política brasileira.

Das suas inúmeras tiradas, nenhuma supera o humor com que tratou a última carta de Fernando Henrique Cardoso. Lembo desnuda toda a solenidade do manifesto, com uma observação hilária: "As pessoas na minha idade, na idade dele [FHC] ainda escrevem cartas. Quando eu deixar o governo, no dia 1º de janeiro, escrevo uma carta também, já que sou velho."

Fernando Henrique, que é um mestre da ironia, não vai dormir. As contingências da política obrigaram-no cumprir com esse ritual da solenidade vazia. Se fosse outro qualquer, amigo ou inimigo, não seria poupado de seus sarros.

Agora, ter que abdicar da posição de gozador, e se expor para um mestre da ironia, como Lembo, é de tirar o sono.


Escrito por Luis Nassif às 19h04

O maestro brasileiro

Este ano completam dez anos da morte do maior maestro da história da música erudita brasileira, Eleazar de Carvalho. Vou recolher material para uma coluna sobre o maestro na próxima semana. Quem quiser contribuir com informações, escreva para luisnassif@uol.com.br ou luisnassifonline@uol.com.br

Eleazar foi para a regência o que Villa-Lobos para a composição brasileira. Nos anos 40, precisando passar pela Marinha para completar a formação, Eleazar foi na cara e na coragem para Boston e se apresentou ao grande maestro Sergey Koussevitzky, no Berkshire Music Center (Massachusettts). Com cinco minutos de conversa, ganhou o maestro.

Koussevitzky tinha dois alunos brilhantes. Um, o cearense de família pobre, que juntou o dinheiro para ir para os EUA tocando no Cassino da Urca; outro, Leonard Berstein, de família judia rica, filho dileto da sociedade de Boston.

Quando elogiavam Berstein para Koussevitzky, ele retrucava: “Precisam ouvir o brasileiro, que é melhor ainda”.


Atenção: este ano completa cem anos Braguinha, um dos formadores da música popular brasileira. Está vivo e lúcido.


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 11h06

Barrios, o mestre maior

Quase todo sábado reúno músico em casa. É porta aberta. Aparecem violonistas, cavaquinheiros, acordeonistas, trombonistas, pianistas, cantoras, compositores, na grande confraternização em torno da música brasileira.

Em alguns momentos, o violão baixa no terreiro da sala. Interrompe-se o som e os grandes da história do violão ressurgem nos casos e lendas transportados através dos tempos pelos atuais violonistas que ouviram de seus mestres que também ouviram de seus mestres até chegar aos mestres maiores. Aí se mergulha nos acordes do tempo e se chega ao uruguaio Isaías Sávio, a João Pernambuco, Américo Jacomino, a Levino Conceição, é claro, a Villa Lobos. E, depois de se chegar a todos, chega-se ao pai de todos, dos violonistas clássicos e dos populares que transformaram o Brasil na pátria do violão: o paraguaio Agustín Barrios Mangoré.

A confraria dos violonistas brasileiros o conhece desde os primeiros acordes de violão. O resto do mundo passou a conhecê-lo de alguns anos para cá, depois que o inglês John Williams, na época o mais talentoso violonista em atividade, o classificou de “o melhor de todos” para violão, mais importante que Sor e Guiliani e mais importante compositor para guitarra que Villa Lobos. Aí exagerou, mas tudo bem.

Não é pouco. Até pouco tempo atrás o espanhol Segóvia era considerado o maior nome do violão do século 20. Barrios antecipou o trabalho que Segóvia realizaria, de criação de um repertório para violão, inclusive adaptando os clássicos para o violão, Bach (cuja influência ele estenderia a Villa Lobos), Schuman e Choppin. Mas foi mais que isso. Foi um compositor iluminado. Se Segóvia ajudou a consolidar a escola de violão espanhola, vindo de uma tradição já existente, de Sor e Tárrega, Barrios fundou aquela que se tornaria a maior escola de violão contemporâneo: a brasileira e latino-americana. Segóvia sabia tanto do valor de Barrios que o boicotou em uma excursão européia, que Barrios começou pela Bélgica.

Na noite recheada de histórias, em minha casa, Fábio Zanon, considerado recentemente pelo Times um dos violonistas da década, toca e chora Barrios. Com as unhas quebradas, Marcelo Khayat, um dos maiores intérpretes de Barrios, recorda-se de uma apresentação sua em uma cidade do mais longínquo rincão do Pará. Um senhor velhíssimo foi cumprimentá-lo e contou que ele não tinha sido o primeiro grande violonista a visitar o local. Muitas décadas antes por lá passou Barrios.

Em meados da década de 1910, o violão brasileiro ainda era tímido, utilizado para acompanhamento nas modinhas, e começando a se aprimorar nos bordões de acompanhamento, que seria sua marca registrada. A primeira apresentação brasileira de Barrios foi em 1916. Em pouco tempo mudou o curso do violão brasileiro, passando a levar o novo som para todo o país.

Barrios nasceu em 5 de maio de 1885, de família numerosa, quinto de sete irmãos, na pequena cidade de San Bautista de las Misiones, no sul do Paraguai. Estudou filosofia, teosofia e violão. Em 1898 iniciou estudos de guitarra clássica com Gustavo Sosa Escalada.

Depois, saltou de país em país. De Assunção foi para Argentina, Uruguai, passou pelo Chile e chegou ao Brasil. No trajeto foi incorporando todos os ritmos latino-americanos, misturou com a influência espanhola, especialmente de Tárrega, jogou um molho especial de Bach e criou a mais divina música que o violão produziu no século 20.

Passou a desenvolver novas técnicas, desvendando caminhos jamais antes percorridos, arpejos, escalas, modulação, harmônicos e trêmulos. O século não viu coisa igual no violão. A “Valsa Número 3”, a “Valsa Número 4”, que Khayat interpretou melhor do que ninguém, “La Catedral”, talvez a maior peça de violão clássico do século 20, “Choro da Saudade”, que Paulinho da Viola relançou,  “Las Abejas”, que nada fica a dever a Bach, “Una Lismona por el Amor de Dios”. Talvez só Villa-Lobos o tenha superado.

Em 1930 mudou o nome para Agustín Barrios Mangoré, em homenagem a um chefe guarani que enfrentou os conquistadores espanhóis. Depois, saiu do Brasil, passou pela Venezuela, onde sua influência foi decisiva para transformar o maestro Antonio Lauro em um dos grandes compositores de violão das Américas, com suas valsas venezuelanas.

Sua caminhada terminou em El Salvador, em contato com a natureza, da qual era religiosamente seguidor. Morreu em 1944, deixando na alma brasileira e de toda a América Latina a sua presença eterna.

 


Categoria: Minhas Músicas
Escrito por Luis Nassif às 09h08