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Crônicas

17/09/2006

Fantasma o espírito-que-anda

Apesar do cinema, da televisão, apesar dos computadores e viedogames que surgiram nos últimos anos, tenho cá para mim que a maior influência cultural que a juventude do século 20 teve foram os quadrinhos. Nem me refiro aos infantis, que fizeram a glória de Disney e de Maurício de Souza, mas aos épicos, que vieram para substituir os livros de aventura dos séculos anteriores.

Dos gibis da minha infância, poucos tiveram a força e a fantasia de Fantasma, “o-espírito-que-anda”. Descendente de um náufrago branco, que quatro séculos antes veio dar em uma praia de Bengala, na África, depois que piratas mataram seu pai e afundaram o navio em que viajavam, o Fantasma dos anos 50 era o 21º da linhagem. Além do nosso personagem, vez por outra os quadrinhos falavam do 9º Fantasma, o mais forte de todos –uma lenda que se sobrepunha à outra--, do pai do Fantasma, que foi morto por um bandido e posteriormente vingado pelo filho.

Todos os Fantasmas, quando assumiam a titularidade, faziam um juramento sobre a caveira do assassino do primeiro deles, prometendo batalhar para destruir “todas as formas de pirataria, ambição e crueldade”.

Os símbolos e características do personagem eram fantásticos. Ele tinha dois anéis, um da caveira (com que marcava o queixo dos adversários com seus murros) e outro da paz, que deixava uma tatuagem que funcionava como um passaporte, respeitado em toda selva. Vivia na Caverna da Caveira, em plena Floresta Negra, cercado por uma corte de pigmeus, e era tratado como o homem que nunca morria. Conheceu Diana Palmer, filha do professor Davidson, antropólogo famoso, tornou-se seu namorado e vez por outra ia visitá-la na cidade, vestindo apenas uma capa, óculos escuros e um chapéu. Tudo para cobrir o uniforme mítico, roxo no original, mas que se transformou em vermelho na versão brasileira por problemas gráficos, e uma máscara que nunca tirava. Diziam as lendas que todo mundo que visse Fantasma sem a máscara morreria.

À paisana, nosso herói se transformava em Kit Walker, mas só se sentia bem quando voltava para a selva, onde era aguardado, já na estação de trem, por seu cavalo branco, Herói, pelo lobo Capeto e pelo chefe dos pigmeus, Guran.

Creio que nenhum dos personagens em quadrinhos, e poucos dos romances, reproduziu tão bem o mito do homem selvagem. Havia Tarzan, é verdade, algumas rainhas e princesas da selva, mas o Fantasma era imbatível. Tinha história, genealogia, tesouros fantásticos em uma caverna, o ritual de soberano da selva, era branco em um continente negro –o que suscitava críticas dos politicamente corretos--, mas só se sentia à vontade rodeado de seus pigmeus. Quando visitava a cidade, todos os símbolos da ”civilização” ficavam inexpressivos, sem história, perto do homem que vivia em uma caverna sem nenhum formalismo, mas que tinha, entre seus tesouros, a taça de vinho de Alexandre Magno e a coroa de Cleópatra.

Embora o quadrinho ainda não tivesse sido erigido à condição de arte, a molecada comentava ávida os diversos desenhistas que emprestaram sua caneta para compor o personagem. O criador do personagem foi Lee Falk, também “pai” do mágico Mandrake.

Dos desenhistas, o primeiro deles foi Ray Moore, um dos mais importantes da história em quadrinhos. Depois, veio Wilson McCoy, o que eu mais gostava, e, nos anos 60, Sy Barry, um clássico, e irmão de Dan Barry, um dos grandes desenhistas de Flah Gordon.

Um dos assistentes de Sy Barry tinha relação estreita com o Brasil. Era André LeBlanc, nascido no Haiti em 1921 e falecido nos Estados Unidos em 1998. São deles os desenhos inesquecíveis da edição das histórias infantis de Monteiro Lobato que herdei de meus pais.

Figura interessante esse LeBlanc. Além de ter ajudado Sy Barry em Fantasma, nos anos 40 foi assistente de Will Eisner, na série The Spirit, e também desenhou Flash Gordon.

Mais tarde mudou-se para o Brasil e ajudou a desenvolver a indústria de quadrinhos por aqui. É dele “O Guarani”, de José  de Alencar, que inaugurou a série “Clássicos Ilustrados”, da Edição Maravilhosa. Depois, quadrinizou quase todos os romances de José Lins do Rego e muitos outros da editora Ebal.

Naqueles tempos de moleque, só uma coisa me intrigava no Fantasma. Sendo ele tão forte, tão rápido que os sucessivos desenhistas sequer conseguiram captar seu murro, limitando-se a descrevê-lo com uma linha oval e depois mostrar o rival desmaiado com a marca da caveira no queixo, que história é essa de que o 9º Fantasma era mais forte? Sempre tive para mim que o 9º era típico exagero de histórias em quadrinhos.

 

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Escrito por Luis Nassif às 08h05

09/09/2006

A casa da minha infância

Tem certos dias em que a solidão convoca uma assembléia geral da minha vida. E corro para chegar à cidade antes que amanheça e que o sol espante a magia. Chego ao jardim, espreito os fantasmas que saem da bruma de da noite, e entro na casa que não mais havia.

Lembro-me do quartão do fundo, onde abrigava minha solidão de recém saído da infância buscando ansiosamente o mundo através das ondas curtas de um rádio de rabo quente. Lembro-me especialmente das festas de Natal, em que se juntavam nossa família e a da tia Rosita.

Num dia qualquer de 1974 mudou de mãos, passando para novos donos. Era mês de julho, deixei São Paulo, onde morava desde 1970, subi a montanha e olhei pela última vez a casa, vazia, sem móveis, sem vida, enquanto o caminhão levava a mudança e o desgosto de dona Teresa e seu Oscar rumo a metrópole.

Até alguns anos atrás, quantas noites atravessei com pesadelos, com aquela imagem da casa vazia, sem vida, me atormentando o sono.

Mas é nas sombras das árvores do jardim do Pálace que revejo a casa, meus mortos mais amigos, a minha afinidade mais constante. Vejo dona Teresa mais nova do que hoje sou, e seu Oscar, que deveria ter a idade que hoje tenho. E essa invasão das fronteiras do tempo mistura tudo. E relembro da angústia, da crise financeira da Farmácia Central, da impotência em não poder ajudá-lo mais do que metade do salário que ganhava.

Lembro-me de uns dez anos atrás, em que sonhava com ele, tentando aconselhá-lo a reestruturar a farmácia. E ele, no sonho, me dizendo angustiado que não podia dispensar o Rafael, a Neusa, o Januário. Depois, um tempo depois, encontrei o filho do Rafael que me disse que, pouco antes de morrer, sonhara com o antigo patrão angustiado, pedindo que o ajudasse a sair da crise.

Assim, vou dispondo as lembranças como minha mãe escolhia arroz com as mãos. E limpos o arroz, a alma e a mente, o coração explode finalmente, pacificando as emoções.


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Escrito por Luis Nassif às 20h57

02/09/2006

Cenas do Rio

Da leitora Memeca Moschkovich

Nossa, que saudade gostosa me deu esse texto. Meu pai era jornalista e convivíamos com vários personagens citados. Um deles era Lúcio Rangel, homem inteligentíssimo, bem humorado, com estórias incríveis. Uma que não esqueço é uma madrugada em que fomos acordados com um pedido de socorro. Lucio em determinado momento de alto teor alcoólico, adorava tocar um trombone imaginário. Morava no Jardim de Alah e não conseguia entender por que seu trombone incomodava os vizinhos a ponto de ser levado para a delegacia, aonde meu pai foi buscá-lo. Acontece que ele sentia prazer em tocar o trombone no telhado de seu prédio (acho que de 2 andares) completamente nu.

Beijos agradecidos.


Escrito por Luis Nassif às 15h35

O cronista do Rio

Quando retomei a biografia do embaixador Walther Moreira Salles, corri ao Rio atrás das últimas testemunhas. Conversei com José Luiz Bulhões Pedreira, Antonio Bulhões de Carvalho, que acabara de produzir uma belíssima canção de amor ao Rio, em três livros, e Maneco Muller, o Jacintho de Thormes. Quando telefonei, em sua casa avisaram que ele iria se internar na terça-feira. Na quarta ele morreu. E aí, me deu mais saudades do Rio que não conheci.

O grande salto do Rio ocorreu na Guerra, quando passou a abrigar os exilados do jet-set internacional. Os Guinle trouxeram para o Brasil o Barão Von Stucker que, em pouco tempo, revolucionou a vida noturna carioca criando o Vogue, a mais relevante casa noturna que o Rio conheceu.

Para abrilhantá-la, o Barão foi buscar na Europa duas figuras que se tornaram lendárias: o pianista Sacha Rubin, libanês metido a francês que tocava piano com um copo de uísque do lado e um cigarro invariavelmente estacionado no canto da boca; e o chefe de cozinha Gregoire Belinzanski, russo branco que introduziu três pratos clássicos na cozinha brasileira: o strogonoff, o frango à Kiev e o picadinho a brasileira.

Foi nesta mesma Copacabana que na casa do avô Lauro Muller, em 1923, nasceu Maneco, a mais perfeita tradução para o Rio internacional dos anos 40 e 50.

Em 1943, Prudente de Moraes Neto o levou para a “Folha Carioca”. Ficaram por seis meses apenas. A "Folha" virou getulista e Prudente mudou-se de mala e cuia para o "Diário Carioca".

O "Diário" era meio maluco, mas com uma força tremenda. Só tinha cronista. O secretário de redação era Everardo Guilhon. Epitácio Timbaúba fazia crônica policial. Castelinho, crônica política. Lúcio Rangel, crônica de música. Paulo Mendes Campos e Sérgio Porto eram cronistas cronistas mesmo. Vinicíus fazia crônicas poéticas, assim como Fernando Lobo. Prudente fazia crônicas de turfe, com o pseudônimo de Pedro Dantas e assessoria integral da esposa Inah Novaes, sua prima-irmã, com quem teve uma lua-de-mel que entrou para as lendas boemias da cidade. E todo mundo era bem humorado, como documentaram os jornalistas Tales de Faria e Sérgio Rodrigues, em uma monografia recente sobre o jornal.

Aí Prudente, o cronista de turfe, fez o convite a Maneco:

- Você vai ser cronista social.

O pequeno Maneco, de saúde frágil, mas de temperamento petulante, que se gabava de ser aluno de jiu-jitsi da família Gracie, não gostou.

- É coisa de veado.

Mas aceitou, porque o salário não era de jogar fora. Mas sem frescuras! Em lugar de crônicas floridas, Maneco foi buscar a receita no colunismo americano de Elza Maxwell, Nick Boker, Walther Nin e, especialmente, Cholly Knickerbocker, cronista de Nova York cujo nome verdadeiro era Igor Cassini, irmão de Oleg, o costureiro, e citado na canção inicial de “High Society”, cantada no ônibus por Satchmo. Notas curtas, com muito humor e maldade, mais humor que maldade, mais divertido que agressivo, afinal, era filho da sociedade local, e se exagerasse nos venenos ninguém receberia mais em casa "o filho da dona Negra".

E Maneco Muller, a esta altura Jacinto de Thormes, em sua coluna no "Diário Carioca", inaugura a palavra colunismo, e passa a trazer para o ofício o padrão estético da geração dos 40. O "in" passa a ser o despojamento, a simplicidade, o brasileiro.  Dá novo impulso ao "Baile das Debutantes", cria o concurso "Glamour Girl", mais aguardado que eleição presidencial.

O Rio esqueceu Jacintho. Os músicos o cultuam, através das críticas sociais de Miguel Gustavo, no samba choro “Café Soçaite”: “enquanto a plebe rude na cidade dorme / eu sonho com Jacintho, que é também de Thormes”.

 


“Todos os direitos reservados, sendo proibida a reprodução em meio impresso.”

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Escrito por Luis Nassif às 12h48

26/08/2006

O Senhor Juiz

Chego para meu encontro semanal com a crônica, e abro no e-mail do jovem procurador da Fazenda de Ribeirão Preto, indignado com minha demonstração de apoio ao empresário em dificuldades, que foi tratado como criminoso e condenado à prisão. Respondo-lhe que só a idade ou a sabedoria precoce torna as pessoas suficientemente sábias para ter o discernimento de separar o criminoso do homem sério em dificuldades.

Aí coloco no computador o “Regreso a La Tonada”, cantado por Mercedes Sosa e procuro na caixa postal o e-mail que me foi enviado pelo advogado Léo Iolovitch, colega de escritório do dr. Paulo Brossard. E reproduzo a história que me mandou.

Em setembro de 2003 foi procurado por uma amiga de infância que não via há muito tempo. Ela tinha uma confecção de roupas e com muito trabalho, cresceu. O marido, engenheiro especializado em informática, deixou a profissão e foi auxiliá-la na administração da empresa.

Então veio o Real, o câmbio foi apreciado, as importações inundaram o país, e começou o penoso caminho rumo à ruína. Cheque especial, factoring, agiota, e a escolha terrível: ou pagar salários ou recolher a contribuição previdenciária. Os salários foram pagos.

A empresa fechou, os empregos se acabaram, ficaram as dívidas. Não tiveram nem recursos nem ânimo para se defender dos processos criminais na Justiça Federal. O marido foi condenado a prestar serviços à comunidade em uma creche, em uma vila popular.

Teve início o duro recomeço, através de um concurso para cargo administrativo no Ministério Público Estadual. Foi muito bem classificado. Quando foi assumir o emprego, foi impedido. A condenação criminal havia suspendido seus direitos eleitorais.

O marido havia cumprido metade da pena. No final do ano seria publicado o tradicional indulto de Natal. Iolovitch procurou o presidente em exercício do TRE, falou com o Procurador Geral da Justiça, mas nada poderiam fazer ante o impedimento legal.

Sem alternativa, entrou com ação judicial pedindo a reserva da sua vaga. O juiz indeferiu. O advogado fez um agravo ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. O desembargador relator acolheu o pedido e deu despacho favorável, com prazo até 31 de dezembro para obter a negativa da Justiça Eleitoral.

Ocorre que o indulto daquele ano saiu diferente, dando o benefício para quem tivesse pena privativa de liberdade, mas silenciando sobre os que tiveram restritiva de direitos, como era o caso dele.

Iolovitch tentou o indulto, então, perante o Juiz das Execuções Criminais da Justiça Federal. Depois de algum tempo, veio a decisão favorável, uma aula de humanismo e de justiça:

"Infeliz do julgador ao qual apraz a imposição de sentença condenatória, apenas o fazendo por dever de oficio, quando a comprovação da prática da conduta delituosa o impele a tal solução processual.  Porém, feliz do magistrado que tem a possibilidade de assegurar a justiça por meio de sua decisão.".

Ao receber a sentença, Iolovitch chamou o cliente ao escritório. Leu a sentença a um homem que chorava intensamente o reinício da sua vida.

O advogado recebeu, como pagamento, a alegria daquela família e, no Natal, um mata-borrão para sua caneta tinteiro, e um tinteiro antigo, juntamente com um quadro encomendado a um calígrafo, agradecendo sua atuação.

Vou terminando a crônico, ouvindo os gritinhos das menininhas na chuva. Sempre que chove, a mãe deixa que se molhem. Acha que a chuva limpa a alma. No computador, Mercedes Sosa continua cantando.

E vou me dando conta que ando muito sentimental para um jornalista.


Escrito por Luis Nassif às 22h15

20/08/2006

A Herança das Geraes

Mais uma vez a noite chega e o iTunes do computador joga em meus ouvidos “Modinha”, de Tom e Vinicius, cantado por Elis Regina; depois, a “Modinha” de Francisco Mignone pelo violoncelo de Antonio Menezes.

Mais uma vez a memória e as sensações me jogam para uma vida anterior, uma vida pregressa acho, não tão longe mas já tão distante, de tantos vazios, de tantas noites insones, tantas elucubrações em torno de uma fantasia vã.

A casa era enorme. Eu ficava no terceiro pavimento, transformado em escritório, com estantes de jacarandá e, na escrivaninha, a companhia solitária de um computador. Nem mesmo o barulho das meninas conseguia me tirar daquele transe que começava na sexta à noite e se estendia até segunda de manhã.

Aí, acordava, ia andar nas ruas do condomínio, pensando em uma cortina de veludo que me separasse das lembranças de guerra fratricida recente, de feridas ainda não cicatrizadas. Com esse estratagema conseguia me libertar um pouco e sonhar, pensar em outras eras, em outros momentos, sentir saudades do futuro que nunca chegava, e completar a caminhada.

Como conseguia evitar o pânico, a depressão, a loucura, lá sei eu. Você começa a elaborar hipóteses, criar pequenas flores de fantasias no pântano, juntar raciocínios que idealizavam situações que, de cabeça fria, eram claramente inviáveis. Mas, com o mundo afundando ao meu redor, aqueles truques funcionavam como pequenas bóias, ajudando a atravessar a semana até a noite da sexta-feira seguinte, quando voltava a mergulhar na solidão do escritório.

Meu Deus, como são as armadilhas que a cabeça nos prega! Como Minas Gerais pesa! Tinha passado a vida com medo do acomodamento. Bastava um mínimo de perspectiva de estabilidade, para o vulto de meu pai aparecer em meus sonhos, com a longa agonia dos seus negócios, com sua perda de pique, sua luta solitária e incessante até ser derrubado por um AVC. E aí entrava em um medo pânico da morte, como se estabilidade significasse morte.

Quando cedi e procurei a análise, certa vez comentei com o analista meu receio de jogar muitas expectativas nos ombros das filhas. Ele me tranquilizou, me garantindo que era bom, pois sua mãe não criou expectativas para você? Criou, respondi-lhe. E ele falante e lampeiro perguntou quais? E eu lhe disse que ela me incumbiu de mudar o país. Ele ficou mudo e me olhou com ar de pena.

Foi quando a conheci, jovem demais, com uma paixão irrefreável pela vida. Em um primeiro momento, percebi a delicadeza sutil, escondida em uma falsa agressividade com os ectoplasmas que habitavam os primeiros programas de chat. Depois, descobri a delicadeza das canções que me sugeria, dos poemas que me enviava, de Cecília Meirelles, de Clarice, de Vinicius, de Bruno Tolentino. A cada dia, um poema que refletia, com pontaria certeira, meus sufocos de cada momento. E, mais surpreso ainda fiquei quando descobri que guardava aquelas jóias apenas para ela, nao compartilhava com namorados, os agroboys disponíveis para as mocinhas do interior.

Com ela aprendi a paixão, descobri todas as nunces da delicadeza, recebi aulas de carinho e lições de nobreza. Quase dez anos depois, me encanto a cada dia com cada gesto, cada ritual doméstico, quando coloca “anjinhos” no pescoço das meninhas, para que sonhem o sonho bom ou quando fica até tarde bordando camisetas com o apuro das jovens senhorinhas d’antanho, para presentear amigas, funcionárias. Quando levanta de manhazinha para preparar os cabelos das filhas, penteando, colocando fivelas.

Ou quando ensinou a mocinha evangélica da empresa a se enfeitar. Na sua festa de formatura, trouxe-a para casa e, com suas mãos mágicas fez tranças em seu cabelo, maquiou seu rosto magro, bordou bordados de rainha em seu vestido humilde, colocou sonhos de princesa em sua imaginação. Ou quando escreve cartas de pura magia, poesia pura como uma Clarice rediviva.

Na guerra diária, veste a armadura dos guerreiros e parte para a frente de batalha com o destemor de uma Joana D’Arc, enfrentando com fúria os que ousam ameaçar os seus. Depois, à noitinha me espera lendo e bordando, e se refugia nos meus braços contando seus feitos, repartindo seus receios, me inundando de paixão.

Em noites particularmente nostálgicas, quando ouço “Modinha” e a vejo, e as menininhas, quando percebo as grandinhas se firmando, me passa a sensação de que minha solidão permanente, agora, tem companhia.


Escrito por Luis Nassif às 01h01

19/08/2006

O marido de Ira

Do enciclopédico leitor André Araújo

Nassif:

Interessantíssima a matéria sobre o Baby Pignatari. Um adendo: o Principe Alfonso de Hohenole, que foi o primeiro marido da Ira de Furstenberg, também é um personagem muito interessante. Ele foi o descobridor da Costa do Sol espanhola, uma zona turística hoje de grande importância na Europa e onde ele foi o pioneiro. Estive em 989 no hotel dele , o Marbella Club, em Marbella, um lugar encantador. Acabam de sair na Alemanha as suas memórias. O Governo espanhol concedeu-lhe postumamente a mais alta condecoração pelo trabalho que fez em prol do turismo na Espanha.

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Escrito por Luis Nassif às 17h42

Baby, a celebridade esquecida

Um pequeno livro organizado por Alcy Cheuiche, traz alguns elementos sobre a vida do Hugh Hefner brasileiro, o mais famoso play-boy-empresário brasileiro de todos os tempos, Baby Pignatari.

Neto do Conde Francesco Matarazzo, o fundador das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, Baby foi um personagem singular na vida econômica e social do país.

No início da década de 1910, já industrial poderoso no Brasil, Francesco decidiu retornar à Itália, devido às suas ligações com o Banco de Nápoles. Lá, sua filha Lyidia conheceu o médico Giulio Pignatari. Casam-se em 1915. Em 11 de fevereiro de 1917, nasce Baby, na verdade Francisco Pignatari. Pouco depois, a Primeira Guerra traz a família Matarazzo de volta ao Brasil.

Giulio resolveu se virar por conta própria e, com o apoio do sogro, tornou-se dono da Laminação Nacional de Metais, empresa que cresceu rapidamente.

Durante o carnaval de 1937, perdeu o avô, no dia exato em que Baby completava vinte anos. Um mês depois, morreu o pai. Desde então, a boemia teve que conviver com o trabalho pesado.

Sua vida sentimental foi entremeada de grandes paixões e enormes galinhagens. A era das paixões foi inaugurada em 1939, quando conheceu Marina, a mulher mais bela da Ilha de Ischia, filha do proprietário da Vila Zavota, onde Garibaldi ficara em convalescença quando ferido na campanha pela unificação da Itália. Marina ganharia o apelido de “Mimosa” e lhe daria o único filho, Giulio Cesare, que teria uma vida trágica.

Por aquele tempo, Baby começara a fabricação dos famosos aviões Paulistinha, impulsionado por uma campanha de Assis Chateaubriand, de incentivo à criação de aeroclubes pelo país. Em 1942, foi convidado para uma conversa com Getúlio Vargas, que lhe ofereceu participação na recém-criada Companhia Brasileira de Cobre, para explorar as minas de Caçapava do Sul. Baby aceitou, depositou o valor correspondente à sua parte e tornou e seria, dali para a frente, o rei do cobre no Brasil.

Bem sucedido como empresário, Baby voltaria a investir na carreira de boêmio, tornando-se membro honorário do famoso Clube dos Cafajestes do Rio de Janeiro. O casamento com Mimosa havia acabado. Mas, logo depois, veio a segunda paixão, Nelita Alves de Lima. Para ela, prometeu a famosa casa na Chácara Tangará, depois adquirida pela Bunge para a construção do complexo Panamby. O casamento com Nelita durou até 1957.

Solto novamente, Baby retomou sua carreira de conquistador internacional, tendo um caso rumoroso com Linda Christian, ex-Tyrone Power. Foi um caso tumultuado, com direito a troca de sopapos em público e um fim de caso inesquecível: da suíte de seu apartamento, no Hotel Excelsior, em Copacabana, Linda é acordada por uma passeata de vinte táxis lotados de mendigos, portando cartazes onde estava escrito “Linda, Go Home”.

O grande caso de Baby, que chegarias a se rivalizar com as desventuras do casal Liz Taylor-Richard Burton, foi com a princesa Ira de Furstenberg, filha do Príncipe Tassilo von Furstenberg e de Clara Agnelli. Linda, casou-se muito jovem com o príncipe espanhol Alfonso von und zu hohenlohe Langenburg.

Baby acaba se separando poucos anos depois. Seu último casamento foi com Regina Fernandes, trinta anos mais moça, e que tinha apenas 18 anos quando se casaram.

O fim de Baby foi inglório. Com resistências no regime militar, enfrentou enormes dificuldades com sua mina de cobre em Camaçari, a abertura indiscriminada das importações de cobre. Depois, a doença que o matou com pouco mais de 60 anos.

Morto, a herança foi pilhada. O filho Júlio era dependente de drogas e interditado. Advogados conseguiram levantar a interdição e assumiram a sua guarda, praticamente desaparecendo com seus bens. Pela venda da Chácara Tangará, o filho recebeu o equivalente a um carro Aero-Willys.

Depois, morreu o filho de morte súbita, morreu Regina, de morte estranha, e morreram outros mais, em uma história policial que ainda não foi contada.


Escrito por Luis Nassif às 12h46

As Musas de Baby

Pela ordem:

1. Jackie Lane.

2. Jill Saint-John, disputada por dez entre dez playboys da época, e dando conta dos dez.

3. Linda Christian, a Jane do Tarzan de John Weismuller.

4. A princesa Ira Furstenberg, um sequestro no México.

5. Miiko Taka, par amoroso de filmes com Marlon Brando.

6. Tina Louise, modelo e atriz.

7. Soraya, que foi casada com o Xá do Irã.


Escrito por Luis Nassif às 11h46

13/08/2006

Feliz Dia dos Pais

Abri o baú de família. A produção do programa “Ensaio”, da TV Cultura, queria algumas fotos. Revi as fotos de minha mãe quando ela tinha a idade de minha filha mais velha; de meu pai, vinte anos mais moço do que agora estou. Casal bonito, ele elegante, sempre sorridente e charmoso; ela, linda, mas linda mesmo, com seus dentes alvos, o sorriso aberto.

Aí, fui almoçar com as menininhas, a Bibi e a Dodó, filhas de 7 e 8 anos, e a Cacá, neta de 7 anos. À noite, haverá o jantar familiar, de noivado da minha mais velha, a Mariana, por fora uma jovem guerreirinha contemporânea, por dentro, uma madaminha do século 19. Antes, a Luizinha, de 23 anos, me ligou comovida com a irmã mais velha, dizendo que raspou sua poupança para presentear a irmã com uma viagem de lua-de-mel.

Vendo as fotos antigas, de meus pais, meus avós, minhas tias e primas, vendo agora as menininhas e as meninonas, me dou conta de que consegui pegar a noção de família, que me foi passada pelos meus pais, e repassei para minhas filhas. Há algumas mudanças no conceito, dois casamentos, dois núcleos familiares, mas o conceito está cada vez mais consolidado, a ponto das menininhas considerarem “sobrinha” a irmã da Cacá por parte de pai, bem mais velha do que as três.

Por esses dias, estive com uma dama poderosa, com quem converso de vez em quando. Parte da conversa é sobre o Brasil; parte sobre família, mais especificamente sobre tias mineiras, uma instituição que tenho em alta conta, sobrinho que fui de dez tias, e ainda sou de sete.

Falamos do tempo, sempre rápido, cada vez mais rápido, cada vez mais voraz, Internet, placas de comunicação, blogs, webtv. Durante a semana, o tempo se conta em minutos. As celebrações familiares têm o ritmo do fim de semana, e a atemporalidade das lembranças.

Menciono que, entre meus deveres de pai, está o supremo sacrifício de assistir os ensaios das menininhas cantando e dançando como as Rebeldes (um intragável conjunto mexicano que virou febre).  A dama lembra que fazia o mesmo com os filhos, hoje grandes; e eu tinha que aturar a Xuxa com as filhas mais velhas.

E, de filho em filho, de tia em tia, de Minas em Minas, nos damos conta da importância cada vez maior da família nesses tempos contemporâneos, em que idéias, informações, conceitos se estilhaçam e se reconstroem na velocidade da Internet. Nada é eterno, nada é permanente, nem emprego, nem países, nem a rotina do dia anterior. Mas a família é.

Em fase muito pesadas, ia até Vila Maria, com minha avó ainda viva. Ela juntava algumas tias e eu passava horas ouvindo histórias de Poços, de São Sebastião da Grama. Mergulhava no tempo, como quem lava a alma no lago dos sonhos. Era como um mergulho no intemporal, passando por todas as eras, mas tão profundamente que mesclavam-se na conversa e na memória eventos do dia dos pais, eu ainda criança, eventos dos dias dos crianças, eu já pai e avô. E saía do mergulho revigorado, pronto para enfrentar as incertezas contemporâneas.

As lembranças voam para os adultos da minha infância, meu pai Oscar, meu avô Issa, meus tios Léo e João. Para nós, crianças, eram a garantia, a fortaleza. Quantos problemas enfrentaram, quantas lutas contra a instabilidade crônica da economia brasileira, pequenos empresários vulneráveis como uma casca de noz na tempestade. Mas suas fraquezas não chegavam até nós.

De repente, salto para o presente, vejo as minhas meninas e, agora, eu no papel de patriarca. Neste sábado, todas elas prepararam o presente do dia dos Pais, da caçula Dodó à primogênita Mariana. Não sei o que virá. Sempre que me pedem sugestão de presentes, não vario: quero cartas manuscritas, para guardar em uma caixinha, não em um HD, e que me acompanharão pelo resto dos meus dias, enquanto vejo minhas meninas ganhando asas.

Feliz Dia dos pais!

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Escrito por Luis Nassif às 01h06

05/08/2006

O homem que fez JK

Um dos personagens símbolos da época de ouro do Rio de Janeiro foi o empresário Horácio Carvalho Jr.. Elegante, amante da boa mesa e das mulheres bonitas, nos anos 40 dominou a cena do Rio, junto com sua esposa Lilly, com Walther Moreira Salles e Helene, Aloysio Salles e Peggy.

Cedo, se aproximou de José Eduardo Macedo Soares, até o advento de Carlos Lacerda e Samuel Wainer considerado o “príncipe dos jornalistas brasileiros”. Homem de coragem épica, Macedo Soares era homossexual, morava sozinho em um apartamento, e foi pai de Lotta Macedo Soares que, no governo Carlos Lacerda, faria grandes obras na cidade, como o aterro do Flamengo. Bem mais velho que Horácio, Macedo Soares o adotou como o filho que não teve.

Juntos, José Eduardo e Horácio deram início a uma empreitada jornalística que produziu um dos jornais mais influentes da República, o “Diário Carioca”. O jornal era francamente pró-Dutra e anti-Vargas. Quando Vargas foi reeleito em 1951, a dupla se desfez do jornal. Depois, o recomprou de Danton Jobim.

Horácio teve papel decisivo na eleição de Juscelino Kubitscheck. De JK, Délio Mattos (não confundir com o brigadeiro), executivo de empresas de Horácio, ouviu uma frase reveladora: “Eu devo a esse homem o governo de Minas e da República”.

Foram duas as contribuições de Horácio. JK tinha como vice-governador Clóvis Salgado, do PRM (Partido Republicano Mineiro), liderado pelo ex-presidente Arthur Bernardes. Se não houvesse acordo com o PR, JK sairia para a campanha presidencial deixando em seu lugar, no seu próprio estado, um adversário político.

Coube a Horácio costurar a aliança, que consistiu em JK apoiar a candidatura de Arthurzinho Bernardes (o filho do Arthurzão) para o Senado.

O segundo grande movimento de Horácio foi em uma conversa com Jango, que lhe comunicou que estava saindo para convidar Oswaldo Aranha para ser o candidato à presidência pelo PTB. Horácio foi incisivo:

-- Então você, como político do Rio Grande do Sul, estará liquidado, porque a liderança será do Aranha. Porque não se liga a JK?.

Jango respondeu não ter a menor intimidade com Juscelino. Horácio resolveu na hora:

-- Podemos marcar um encontro de você com ele. Vou ligar para Belo Horizonte e perguntar se Juscelino pode vir para cá imediatamente.

JK atendeu imediatamente ao chamado do amigo e, na seqüência, acertou a dobradinha com Jango, que lhe garantiu a eleição. JK deixou uma carta com Horácio, autorizando-o a compor com Jango o ministério que caberia ao PTB. Depois, ofereceu o Ministério da Agricultura e a embaixada de Paris para Horácio, que recusou ambos, alegando que a embaixada era cargo para gente rica.

Nos anos seguintes, se não era rico, rico Horácio se tornou. Junto com Raimundo Mello Vianna, adquiriu a Mineração Morro Velho, envolta em grandes problemas trabalhistas e, depois a CBMM. Foi um momento histórico, aquele da nacionalização de um símbolo nacional, a mina de ouro mais profunda do mundo.

Passado o governo Vargas, Horácio se voltou novamente para o “Diário Carioca”. Foi para a Europa, comprou uma rotativa alemã e abriu escritório na Avenida Rio Branco 25, Sobre Loja. Fez uma revolução, com uma equipe onde pontificavam Danton Jobim e Pompeu de Souza. Lançou o estilo das notas curtas, próprias para os novos tempos, em que as pessoas liam os jornais enquanto tomavam ônibus e bonde, lançou o Suplemento Literário e o Carioquinha, um suplemento infantil.

Quando veio a Revolução, constatou que o jornal não poderia sobreviver sem um clima de liberdade. Chamou Délio, mandou-o quitar todas as dívidas, pagar as indenizações, dispensar os funcionários e fechar o jornal. O DC tinha 35 mil assinantes espalhados por todo o Brasil.

No dia 31 de dezembro de 1966, data do fechamento do jornal, os jornalistas do Rio acorreram em massa à redação do jornal e choraram, juntos com os que saíam, a morte de parte da história da imprensa.

Horácio morreu em 1983.

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Escrito por Luis Nassif às 19h03

22/07/2006

A gentileza de seu Oscar

Recebo e-mail de Marcos Ritel Franco.

“Caro Luís Nassif,

Comecei a ler "Gustavino e o Culto da Gentileza" (clique aqui) e fiz uma viagem pelo tempo, por volta dos anos 70. Lembrei-me que, um dia, um menino de 13 anos entrou em uma farmácia, na rua Assis Figueiredo,deparou-se com um senhor e lhe pediu trabalho. Talvez o senhor nem estivesse precisando, viu no menino, entretanto, uma necessidade tamanha que não conseguiu dizer-lhe não. Após contrata-lo, percebeu logo que  este não realizava suas refeições no horário de almoço. A partir daquele momento até a venda da farmácia, na hora do almoço, dirigiam-se os dois para sua casa, ele, com o jornal embaixo do braço, e o menino, com as baguetes na mão. O menino passou a partilhar a mesa com a sua família, sem que houvesse, contudo, diferença alguma.

Não sei o porquê, mas ele sabia que, com o seu gesto, ele estava tirando um menino das ruas e dando a ele o sentido de família. O menino cresceu, virou industrial, fazendeiro e construtor, mas permaneceu, sempre em sua memória, o gesto de bondade daquele homem. Fica uma grande vontade de dar-lhe um forte abraço e dizer-lhe obrigado, meu grande amigo, Oscar Nassif”.

O e-mail me pegou meio de guarda baixa. Há tempos não me debruçava sobre as lembranças antigas, andava meio afastado do seu Oscar, que se foi em 1988.

Não cheguei a conhecer o Marcos. Em 1966 saí de casa para estudar em São João da Boa Vista, dali em 1970 para São Paulo. A farmácia foi vendida apenas em 1974.

O distanciamento de meu pai, forjado na minha adolescência, persistiu pelo resto da vida. Quando chegou em São Paulo, depois de ter perdido tudo em Poços, fiquei ao seu lado, antes e depois do derrame que o vitimou. Mas nunca houve a derradeira conversa, nunca soube muito mais do que minhas tias, suas irmãs me contavam, ou minha mãe deixava escapar.

Sabia que era generoso. Soube mais depois, quando me contaram que na esquina da Rua Rio de Janeiro com a Assis Figueiredo havia uma disputa para saber, entre ele e o velho Zé Prézia, quem era o mais generoso. Ninguém saía sem remédio da farmácia, mesmo não tendo dinheiro.

Minha mãe comentava às vezes sobre sua generosidade, mas com uma admiração contida, fruto de uma mal-disfarçada disputa que acomete casais nos quais as duas partes têm temperamento forte.

Comecei a recuperar a memória do seu Oscar depois da sua morte. Foi o Ari Bolão, amigo de infância do Mauro Ramos de Oliveira – o grande capitão da Copa de 62, também amigo do velho – quem me contou que meu pai o viu jogando bola menino ainda, pés descalços, trouxe-o para a farmácia como ajudante. Depois financiou todos seus estudos até a Universidade.

Anos depois, no Pálace Hotel o porteiro do balneário me contou que certa vez parou na frente da farmácia, e ficou vendo os brinquedos expostos na vitrine. Meu pai o chamou, perguntou se queria algum. Era véspera de Natal. Ele respondeu que queria dar de presente aos filhos, mas estava sem dinheiro. Seu Oscar respondeu que presente de Natal era mais importante que remédio. Mandou-o escolher os presentes e que pagasse quando pudesse.

Há uns dez anos, recebi um telefonema de um pipoqueiro que tinha ponto em frente o cine Gazeta. Me contou que mudou-se menino para Poços. Tinha um problema motor que o impedia de falar. Era início dos anos 70, meu pai já envolvido pela crise financeira que o vitimaria. Pois pegou o menino com seu carro, trouxe até a Beneficência, em São Paulo, pagou o tratamento e, depois que o menino melhorou, comprou para ele um carrinho de pipoca.

São incontáveis as histórias. E ele não contava para ninguém, sequer para os filhos. Ao mesmo tempo, tinha total incapacidade de lutar por seus direitos. Ficava esperando gratidão, reconhecimento das pessoas.

Hoje fico pensando em quantas pessoas, a exemplo do Marcos, ele conseguiu encaminhar apenas à custa de uma gentileza, de uma atenção ou, como no caso do Ari Bolão, de ajuda sistemática até a Universidade. E fico mais convencido que nunca da força irresistível da gentileza como agente transformador de pessoas.


Escrito por Luis Nassif às 23h53

16/07/2006

Tristes Meninas

Ah, meninas da moda, de rosto exangues, de pernas finas, com o ar triste de pássaros engaiolados, o que o mundo da moda fez com vocês? Tirou sua juventude, extirpou de sua expressão a alegria da adolescência, do seu olhar o frescor da juventude, a sexualidade jovem e sadia das outras meninas da sua geração, chupou o seu sangue de tal maneira que o corpo esquálido reflete apenas tristeza da celebração antecipada das purgações da vida adulta.

São estranhas criaturas, com o corpo cinzelado por sopros de anemia, esquálidas, indiferentes, não indiferentes, tristes mesmo, de uma tristeza extravagante, mais discreta que a dos jovens góticos que se estraçalham buscando diferenciações grotescas, mas igualmente tristes.

Aqueles expõem suas chagas, castigam-se por pecados que nem identificam; estas expõem seus ossos como se, nesse mundo do espetáculo permanente, qualquer outra forma de expressão humana já tivesse sido suficientemente banalizada.

Tristes meninas.

Fotos de Alexandre Schneider/UOL


Escrito por Luis Nassif às 11h55

15/07/2006

As mil histórias da Modinha

Prezado Luís Nassif,

Escrevo-lhe esta carta porque, ao contrário do que suas colunas supõem, as músicas não têm histórias únicas, lineares, enfeixadas em si mesmas. A riqueza da música consiste em que há uma história em cada interação, em cada vida pessoal, em cada paixão perdida, em cada saudade evocada, que tinha uma música para eternizar o momento.

Alguns anos atrás, você escreveu que considerava “Modinha”, de Tom e Vinícius, a música mais bela já escrita por Tom, e uma das mais belas da história. Se fosse contar a história da música, do modo tradicional, diria que ela foi composta nos anos 50, gravada por Elizeth Cardoso e Lenita Bruno, primeiro, por Elis Regina, depois. Poderia lembrar – como já o fez — do arranjo extraordinário de Léo Peracchi para o LP de sua esposa Lenita. Ou de Claus Ogerman, para o disco “Terra Brasilis”. E falar ainda da peça “Orfeu da Conceição”, em que os talentos de Tom e Vinícius explodiram de forma tão candente. Poderia lembrar da interpretação magistral do violão de Raphael Rabello, em 1986.

Se quisesse situá-la em contextos musicais, lembraria dos inspiradíssimos compositores que você vive citando e que, sob a paternidade absoluta de Villa-Lobos, aportaram de vários cantos do país ao Rio de Janeiro dos anos 30, 40, início dos 50, e criaram a canção brasileira, da qual Jobim foi o último representante.

Mas a “Modinha” é mais que isso: são milhares de histórias de amor, das quais a minha é apenas mais uma que certamente “Modinha” inspirou, mas que morrerão com os milhares de amantes escrupulosos, ou egoístas, que levarão só consigo sua história de amor.

A história começa na cidade do interior, onde nasci, com um amor de fim de adolescência, que se tornou impossível pelas armadilhas que nossas jovens cabeças politizadas nos armavam. Namorei, terminei em pouco tempo e curti minha dor-de-cotovelo ouvindo a “Modinha”, de Tom e Vinícius, na voz de Lenita Bruno. Depois, foram vinte anos carregando os fantasmas do tempo, e carregando à maneira dos poetas românticos do século 19, cumprindo o ritual dolorido de, uma vez por ano, na data em que os conterrâneos espalhados por todo o país combinavam o encontro no berço natal, cruzar com a musa, olhá-la uma vez, ela retribuir o olhar, e eu voltar para a contemporaneidade da faina desumana da grande metrópole onde me fixei.

Foram vinte anos entremeados de noites solitárias, em que abria a janela do apartamento, olhava a noite impessoal da grande cidade, e colocava “Modinha” ora no vitrolão, depois, no aparelho de CD. Apenas a tecnologia ia sinalizando a mudança das eras e dos tempos, porque a noite continuava fria e intemporal.

Vinte anos depois, em um momento de desatino, procurei a moça, agora mãe de família, um retrato na parede, apenas um retrato, mas que eu precisava exorcizar. Fui para sua cidade, também no interior, tivemos a última conversa. Ela falou das suas mágoas, eu falei das minhas, até que acordamos do sonho e nos demos conta que era uma fantasia, dolorida, porém fantasia. Voltei de sua cidade para uma casa de praia, ouvindo na fita cassete a voz sofrida de Elis Regina, fazendo da “Modinha” o seu réquiem pessoal. Durante quatro dias ouvi aquela fita obsessivamente, como quem crava um punhal na ferida. Depois de quatro dias, apazigüei.

Com a idade, os fantasmas do tempo vão se diluindo, as cicatrizes vão se fechando e cria-se um vazio no lugar da antiga ferida. E eis que, do nada, ou das brumas das novas tecnologias de comunicação, surge uma nova musa. E, conversa vai, conversa vem, fico sabendo que ela morava a dez metros do local onde se deu a conversa derradeira, que enterrou meus fantasmas do passado.

Hoje estamos juntos, temos filhos, criamos uma nova história, com novas músicas e novas emoções. “Modinha” não entra mais na história porque –e ninguém é perfeito— minha nova musa não aprecia a música, talvez por ciúmes da velha história.

Desculpe se fui prolixo ou o aborreci com minha história de amor. Mas foi apenas para enfatizar o que explicitei no início dessa carta. A minha “Modinha” certamente é diferente da sua “Modinha”.

De seu leitor.


Escrito por Luis Nassif às 20h29

05/07/2006

A Musa de São João

Em janeiro, Leilah Assumpção me liga para informar o falecimento de Lúcia Azevedo Costa. Vocês não imaginam quem foi ela. Morreu aos 90 anos em Mococa, para onde se mudou há dez anos, para morar com uma irmã. Voltou para ser enterrada em São João da Boa Vista.

Nos anos 30 a 60 não houve mulher mais cobiçada em São João, Poços, São Paulo e arredores. Quem me falou pela primeira vez dela foi o banqueiro Walther Moreira Salles. No auge do seu poder, um dos homens mais influentes do país, Francisco Campos, o Chico Ciência, pai da “Polaca” (a Constituição do Estado Novo) veio a Poços de Caldas a passeio. Rodando pela cidade conheceu Lúcia. Enlouqueceu. Imediatamente incumbiu seu chefe de gabinete, o jovem Aloysio Salles, de ir a São João com uma proposta irrecusável para Lúcia. Campos era casado com uma mulher com problemas mentais, não existia o divórcio no Brasil, mas ele assegurava que, se ela aceitasse casar com ele, promulgaria uma Lei do Divórcio. Qualquer outra mulher casaria até com um bode, para ser merecedora de tal demonstração de poder. Aloysio voltou com um sonoro NÃO na orelha.

-- Ninguém resistia à beleza da Lúcia, me dizia o embaixador Walther, completando o causo.

-- Nem o senhor?, provoquei.

-- Eu? Fiquei profundamente apaixonado, mas ela também não me quis.

Lembrava-se de Lúcia na minha adolescência em São João, nas rodadas musicais que fazíamos com as filhas e sobrinhas do Teófilo de Andrade. Ela já era uma senhora, bonita, atenciosa, mas já sem chamar a atenção. E eu sem sequer ter idéia da lenda que estava à minha frente.

Depois que o Dr. Walther me contou as maravilhas de Lúcia, fui atrás de minhas fontes poços caldenses para recolher mais histórias. Não existe melhor fonte que o professor Antonio Cândido. Que as poços caldenses não nos ouçam, mas o professor costumava dizer que as poços caldenses de seu tempo eram admiráveis, educadas, simpáticas, sabiam receber como ninguém. Mas a beleza das sanjoanenses era insuperável.

Em uma das conversas com ele, perguntei da deusa Lúcia. Ele me contou que, professor da Faculdade de Filosofia e Letras, certa vez foi entrevistar uma aula que se candidatava ao curso. Deu de cara com a Lúcia.

-- Para mim, foi uma revanche!, me contou o mestre.

Indaguei a razão, o que a deusa poderia ter cometido contra ele:

-- Me desprezou quando eu era adolescente!

Também o professor apaixonou-se perdidamente por ela, com um agravante: devia ser uns quatro anos mais novo.

Lúcia saiu de São João, fez Filosofia, Pedagogia, Psicologia. Escreveu um livro, o “Quem é Você”. Mas sua única paixão foi a Igreja e as obras sociais. Quando passou por São João Dom David Picão, um bispo revolucionário e bastante sedutor, tornou-se sua assistente quando foi transferido para Santos. Mas a sedução de Dom Picão foi para outras belas mulheres de São João. Para Lúcia, interessava apenas as obras sociais.

Trabalhou na Caetano de Campos e em inúmeras obras sociais e evangélicas vida afora.

Deixou uma multidão de fãs, de Plínio de Arruda Sampaio, cuja mulher Marieta era sua prima, ao prefeito de São Paulo José Serra.

Porque jamais se casou? Nos cursos que dava, Lucia deixava transparecer que casamento era responsabilidade muito grande. Cuidar do mundo, pelo visto, era tarefa mais leve.


Escrito por Luis Nassif às 21h08