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Economia

24/09/2006

Crimes da paixão

O Orkut tem sido utilizado para a apologia de crimes variados, de racismo e pedofilia à organização de linchamentos por torcidas organizadas. Com bela cobertura do “Globo” (clique aqui), policiais da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática prenderam a perigosa Michele de Araújo Nogueira, de 23 anos. A criminosa montou um grupo de discussão no Orkut ensinando os internautas a montarem “gatos” em TV a cabo.

Seu incitamento ao crime está à altura de um Bin Laden ou de um Marcola: “Esta comunidade se destina a todos os que adoram se divertir com os benefícios da TV a cabo, mas que odeiam pagar por ela! Viva a tecnologia! Viva a TV a cabo! E viva aquele dinheirinho que sobra no pagamento da Gatonet e que dá pra comprar pipoca para deliciar a programação! Ô vidinha mais ou menos”. A Bin Laden da Baixada Fluminense será indiciada por incitamento ao crime.

Sou assinante Net e testemunha de como melhoraram os serviços da empresa. Hoje em dia, tem um dos poucos serviços de atendimento ao cliente que funciona – embora outro dia tivessem me ligado de lá oferecendo 8 MB de linha até dezembro, e não tivessem retornado.

Mas, meu Deus!, tratar dessa maneira uma fã de carteirinha da TV a cabo, é demais. Cadê o foco no cliente, cadê a conquista do futuro cliente? Se eu fosse presidente da Net, sabe o que faria? Contrataria a Michele como “gerente de inclusão digital da Net”. Só se propõe o “gato” onde existe rede a cabo e clientes que não podem pagar ou não querem, por questão de princípio. Se existe a infra-estrutura pronta, e as limitações de renda para ampliar a freguesia, um trabalho inteligente ajudaria a juntar as duas partes.

Nesse papel, ela ajudaria, numa ponta, a identificar fanáticos pelo cabo que não conseguem pagar e usuários da rede “gato”, e trazê-los para a formalidade, com planos subsidiados, sim. Há vários modelos de negócio capazes de viabilizar essa proposta. Na outra ponta, a simpática “criminosa” ficaria incumbida de ampliar seu fórum de discussões no Orkut, para buscar alternativas para o “gato” e garantir sua pipoca.


Escrito por Luis Nassif às 10h07

23/09/2006

O Índice de Transferência Tecnológica


Escrito por Luis Nassif às 09h25

Os indicadores de tecnologia

Do leitor Camilo Telles

Prezado Nassif,

Olhe este post no blog do Paul Kedrosky. Ele comenta sobre um estudo de uma instituto americano que criou alguns índices para transferência de tecnologia e comercialização de propriedades intelectuais. O estudo inclui uma análise da america latina que começa na pag. 291. O Brasil ganha uma página no estudo.
No post do blog tem o link para o estudo, o ínicio dele basicamente é a descrição da metodologia. O estudo aborda a indústria de biotecnologia.

Você sempre comenta da necessidade de termos índices para acompanhar os resultados dos investimentos realizados, inclusive o Paul Kedrosky vai na mesma direção:

"Nevertheless, the key table is the following one. Maybe use it to decide how to direct your donations. Click on it for a larger version:

A entrada você encontra aqui

Acho que é uma contribuição interessante.


Escrito por Luis Nassif às 09h21

21/09/2006

A crise e o câmbio

Lá vem a história de crise política para explicar o dólar. Um ano e meio de tiroteio sem fim não mexeu com dólar. Porque mexeria agora, a uma semana das eleições em que Lula é favorito?

A razão óbvia da volatilidade do dólar foram os movimentos no mercado de commodities que provocaram a segunda maior quebra de fundo “hedge” da história. O resto é história. Só faltava depois de quatro anos prestando continência ao mercado, que a eleição de Lula pudesse inspirar alguma preocupação.


Escrito por Luis Nassif às 20h21

A TAM e a Matarazzo

Há algumas semanas alertei para os problemas que a TAM passaria a enfrentar, por ter perdido o foco no cliente e a visão estratégica. No auge do seu poderio e do seu faturamento, como conseqüência da quebra de Vasp, Varig e Transbrasil, a companhia está plantando as sementes da futura decadência, se não tratar urgentemente de montar um planejamento estratégico e retomar o foco no cliente como eixo central.

O alerta agora é de Emerson de Almeida, presidente da prestigio Fundação Dom Cabral (eleita pelo Financial Times uma das 25 escolas de negócio mais relevantes do mundo). Em entrevista a Ricardo Grinbaum do “Estadão” (clique aqui), ele vaticina que a TAM poderá ter o mesmo destino da Matarazzo e da Cofap.

Está em tempo de reverter a sina que assola empresas familiares brasileiras e preservar o grande legado do inesquecível Comandante Rollim.


Escrito por Luis Nassif às 15h39

20/09/2006

As associações de classe

Coluna Econômica - 20/9/2006

Um dos grandes problemas institucionais do setor privado brasileiro é a baixa representatividade e eficiência de associações setoriais.

Em uma economia cada vez mais integrada, em que as estratégias precisam ser definidas em nível de cadeia produtiva, as associações setoriais ou inter-setoriais teriam um papel relevante a desempenhar.

Caberia a elas levantar indicadores do setor, fornecer subsídios para ações conjuntas, fazer diagnósticos e propostas, criar ferramentas de bechmark. Mas, como regra geral, são organizações burocratizadas, que acabam sendo utilizadas para promoção pessoal de seus executivos ou para ações entre amigos, abrigando velhos companheiros do setor.

Volto ao caso da saúde suplementar, que comentei ontem. Nenhum operador ou hospital, individualmente, irá deflagrar ações preventivas de saúde, pelo receio de que seu investimento vá para o ralo se o cliente mudar de plano. É um pensamento anacrônico e demonstra profunda falta de visão estratégica desses operadores, de não saber como se tornar essencial para seu cliente. Se se limita a cobrir internações, o cliente muda de plano e não sente nenhuma diferença.

Mas o papel de associações inter-setoriais, existentes ou que venham a ser criadas, é essencial. Apenas uma associação que congregue os diversos agentes da cadeia da saúde teria possibilidade de levantar todos os indicadores, estabelecer diagnósticos, identificar pontos falhos e propor ações conjuntas.

Uma associação certamente facilitaria a criação de um cartão magnético único para as operadoras, um cadastro único de clientes, estatísticas unificadas do setor. E, se definisse padrões de qualidade para seus associados, se tornaria um fator de normatização e certificação do setor.

A partir desse levantamento prévio, poderia se constituir no local para a discussão integrada de novas formas de atuação do setor.

Em países com sistemas mais desenvolvidos de financiamento da saúde, o pagamento é feito por capitação (ou seja, o hospital, ou laboratório clínico ou laboratório farmacêutico recebe de acordo com a população atendida). Esse modelo torna todos os elos da cadeia solidários na redução de custos.

Por sua vez, a própria associação, ou a Agência Nacional de Saúde (ANS) tratará de definir pesquisas periódicas para avaliar o grau de eficiência de cada plano, se a economia não resultou em piora no atendimento. Esse é o modelo moderno de regulação pelo mercado.

Hoje em dia, fator expressivo de custo são pacientes que não seguem o tratamento e voltam, tempos depois, com a saúde em pior estado. Além do drama pessoal dele, há um tremendo impacto de custo sobre a operadora. Uma unificação de bancos de dados permitiria, por exemplo, o monitoramento individual de cada pacientes em tratamento, identificação de famílias com riscos potenciais de doença, empresas ou setores com índices relevantes de doença do trabalho, para serem alvos dessa ação preventiva.

Estou dando o exemplo da saúde porque me debrucei sobre o tema nos últimos dias. Mas esse tipo de papel da associação é essencial para a melhoria de cada setor e da economia em geral.

 

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Escrito por Luis Nassif às 08h01

19/09/2006

Os leitores e o biodiesel - 2

De Célio Mendes

Nassif,

a indústria automobilística e sua tecnologia evoluíram bastante desde o inicia da década de 1980 (época do Min. Aureliano) lembro que naquela época o que tornava viável o uso do álcool era o fato de ele trabalhar com uma taxa de compressão bem mais alta que a da gasolina, isto fazia com que mesmo tendo um menor poder calórico consegui-se compensar isso efetuando mais trabalho por ciclo do pistão, hoje com o advento dos microprocessadores pode-se contornar esse problema, estão ai os carros flex que não me deixam mentir, qualquer estudo feito na década de 1980 tinha uma realidade tecnológica diferente da que ora desfrutamos.

 

De Roberto,

Os leiloes de Compra de Biodiesel darao incetivos a implantacao de varias usinas de Biodiesel de alta rentabilidade, visto que esta usinas estao sendo orcadas entre 30 milhoes e 70 milhoes de reais com prazo para entrar em operacao de 1ano a 2 anos com uma producao entre 50a 110milhoes de litros anuais,sao fundamentais para dar suporte e garantir o investimento para melhorar a produtividade tanto no melhoramento genetico das oleaginosas,como na melhoriad os processos produtivos que permitam um maior aproveitamento na extracao do oleo e melhorias no rendimento dos motores que irao usar o Biodiesel.

De Carlos Alberto Pinto Gonçalves

Nassif,

o projeto de Biodiesel ainda tem que amadurecer, mas já temos outro projeto chamado H-Bio em que o petróleo e o óleo de soja brutos são misturados e refinados juntos, me parece que numa proporção de 90 % petróleo/ 10 % óleo de soja. Seriam aproveitadas as indústrias esmagadoras de soja econstruídas algumas outras. Com isso teremos uma alternativa muito boa para os próximos 20 anos até desenvolverem uma tecnologia adequada para o biodiesel. Como subproduto da soja, teremos principalmente farelo, que poderemos usar amplamente na alimentação bovina na época da seca, pois tem uma alta porcentagem de proteínas. Ainda de quebra resolveremos o problema de preços e estocagem da soja.

Do leitor Athos

Nassif,

tenho acompanhado seu blog. Considero muito sério, competente e bom. Parabéns! Quanto ao biodiesel é um grande erro porque não é necessário transformar óleo vegetal (OVN) em diesel para usá-lo como combustível. É possível usar OVN em motores diesel usando-se um kit adaptador, se não usar o adaptador pode-se misturar diesel com OVN (que tem sido feito em regiões no MT) ou ainda, existe um motor alemão (ELKO) desenvolvido por Ludwig Elsbett que funciona somente com óleo vegetal. Isto sim é fantástico Nassif, as implicações são enormes e você pode imaginar o porque e entender porque estas idéias são boicotadas ou consideradas coisas de visionários. Acesse o site www.fendel.com.br e avalie por você mesmo. Dê um desconto na forma como os textos são apresentados. O importante são as idéias.


Escrito por Luis Nassif às 13h01

Os leitores e o biodiesel - 1

De Carlos José Marques

Nassif,

ao que parece Biodisel (Ester Metilico ou Etílico) é uma etapa, tecnologicamente falando, transitória. Gasta energia na transformação, gera um monte de glicerina como sub-produto e mais alguns resíduos ambientais.

Ao que parece a coisa vai evoluir mesmo para processos/motores que usem puro Oleo vegetal, e da soja, que parece historicamente o mais barato.

De Fernando Magrello

Nassif

Não  vi nos argumentos nada impeditivo. Parecem argumentos antigos, não sei. (eg.: antigamente não dava para uma pequena propriedade rural se industrializar, mas a tecnoligia hoje tem permitido, como na cadeia do leite). Por outro lado, não tenho visto questionamentos na imprensa e nas Universidades, portanto, é sempre importante questionar.

A escala progressiva do Biodiesel é que parece vai ser o dinamizador do setor. Também  temos que lembrar que com a provavel (provavel mesmo) queda nos preços das commodities a soja poderá ser usada. Serviria como um estabilizador. De qualquer forma, repito, a discussão não-ideologica é valida.

De Celso Maggione

Nassif,

algumas colocacoes quanto a viabilidade ou nao do biodiesel: 1 - Petroleo e finito. 2 - Das 190 oleaginosas, escolhe-se as 3 ou 4 viaveis. 3 - Mamona tem aplicacoes nobres, mas basta aumentar a producao para se obter queda dos precos, inclusive das aplicacoes mais nobres. 4 - Pequenos produtores sao viaveis sim em cooperativas e desde que a usina tenha um percentual proprio de producao (vide citricultura). 5 - Capacitacao tecnica profissional dos empresarios e fornecedores. Os estudos precisam ser atualizados.

De Cleber Souza

Prezado Nassif,

sugiro que você dê uma expiada na experiência européia. Eles estão produzindo e utilizando biodiesel para melhorar o ar de suas cidades. Já desenvolvem tecnologias para a produção do ester sem perdas no processo e eles não tem insolação e nem grandes extensões agrícolas como o Brasil. Esse papo das oleaginosas seria melhor colocado sob o ponto de vista de sua produtividade e adequação regional. Sob o ponto de vista químico já há solução para os problemas que cada uma delas carregaria para o processamento, claro que com custos, mas nada que a teconologia não conserte e diminua os custos. É claro que quando sabemos que o custo de produção da Petrobrás é de US$6 o barril muita gente pode se perguntar "por quê biodiesel", ou ainda aqueles que estão excluidos do processo certamente são mais "críticos" do mesmo, mas eu tenho certeza que o Brasil ganhará muito com ele..


Escrito por Luis Nassif às 13h00

O caos da saúde complementar

Coluna Econômica - 19/9/2006

Um dos setores mais mal resolvidos do país é o de saúde suplementar. É um caos administrado por uma porta, a Agência Nacional de Saúde (ANS).

A cadeia produtiva do setor engloba planos de saúde, cooperativas médicas, hospitais, médicos, laboratórios clínicos e laboratórios farmacêuticos. O setor não se fala, não é solidário na administração de custos, não compartilha bancos de dados nem estatísticas, não valoriza a gestão.

O resultado é um caos. Os médicos prescrevem livremente, como se fôssemos um país europeu. Há uma lambança em pedidos de exame, sem avaliação adequada da relação custo/eficácia.

Sem estatísticas e sem metodologia, os planos se defendem da pior maneira. Na ponta do cliente pessoa física, se especializando em arrumar argumentos para não prestar o atendimento. Na ponta da pessoa jurídica, abolindo qualquer análise atuarial. Simplesmente constituem uma carteira de empresas. Se a empresa for superavitária para o plano (o que ela paga é inferior ao que o plano gasta com seus funcionários) é mantida; se deficitária, é afastada sem nenhuma contemplação, como é a prática da Amil, a líder do setor.

Operadoras e seguradoras mais organizadas ao menos tentam manter pequenas empresas em grupo, administrando a carteira e não individualmente.  Mas nenhuma investe em programas abrangentes de prevenção, por algumas razões, das quais a principal é o temor de, depois de investir, perder o cliente para concorrentes. A segunda razão é que não adianta uma empresa atuar em cima da sua clientela, mas o setor entender o universo de clientes como um todo unico.

Se o setor fosse minimamente organizado, a questão da prevenção seria trabalhada por todos os planos de saúde atuando de maneira coordenada. Haveria investimento em uma infra-estrutura comum, deixando para a competição o que faz a diferença para o cliente final.

Na relação planos-hospitais, ou planos-laboratórios clínicos, haveria a compra antecipada de leitos ou exames, pagando por capitação (pelo universo da população atendida) tornando quem atua na ponta (hospitais, médicos ou laboratórios) co-respnsável pela administração de custos. E administrar custos não significa meramente reduzir exames, mas conseguir a melhor combinação custo-resolutibilidade. O paciente que não é curado no primeiro atendimento, volta pior e mais caro.

O grande órgão articulador deveria ser a ANS. Caberia a ele providenciar a unificação dos bancos de dados, das estatísticas, criar “ratings” para premiar as boas operadoras e punir as más. Mas é um órgão apático, medroso, incapaz de fiscalizar e incapaz de bloquear as dezenas de operadoras aventureiras que entram e saem do mercado a todo momento.

Agora, como passo final dessa descoordenação, operadoras de planos de saúde começam de novo a verticalizar, a montar hospitais, laboratórios, na contramão da história e do bom senso.

A única saída, em determinado momento, será permitir a entrada de capital externo, que traga conhecimento para a montagem de parcerias e articulação dos diversos atores da cadeia produtiva.


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Escrito por Luis Nassif às 08h28

18/09/2006

Dúvidas sobre o biodiesel

Amanhã tento trazer mais dados. Mas hoje conversei longamente com um técnico que participou de um grupo de estudos criado pelo ex-Ministro das Minas e Energia, Aureliano Chaves, para analisar o biodiesel.

A conclusão foi que a produção seria inviável, por várias razões. A primeira, é que existem 190 oleaginosas no país, e cada uma é única. Homogeinizar as moléculas é processo bastante oneroso que inviabilizaria economicamente a produção.

O segundo problema é que existem aplicações muito mais nobres para o óleo de mamona e o dendê, que agregam mais valor, custam mais, o que inviabilizaria sua utilização para um fim pouco nobre, de queimar no motor. No caso da soja, as avaliações de preços levam em conta o preço da saca de soja em grão. Mas a produção de soja gera um conjunto grande de derivados, também nobres, que acabam por aumentar substancialmente o custo para efeito de comparação.

Finalmente, é impossível, segundo esta fonte, apostar em agricultura familiar fornecendo mamona, dendê ou palma. Nos anos 80, o senador Alexandre Costa (sogro de Edemar Cid Ferreira) conseguiu com Sanrney a implantação de uma usina para explorar o óleo de babaçu no Maranhão. O fornecimento da matéria prima seria de pequenos produtores. A produtividade era incompatível com a escala industrial da usina.

Segundo ele, todos esses estudos foram produzidos pela Embrapa. Por isso mesmo, não consegue entender a posição de técnicos do órgão, sustentando a viabilidade do biodiesel.


Escrito por Luis Nassif às 21h40

O rebaixamento do Brasil

O rebaixamento do “rating” do Brasil pela Goldman Sachs, no grupo dos BRICs é mais uma prova de que o crescimento entrou na ordem do dia dos bancos de investimento e agências de risco.

A partir de ontem, o “rating” do Brasil passa a ser inferior aos da China, Rússia e Índia.

Porque não caiu antes, se há doze anos a economia está estagnada? Simplesmente porque os bancos e agências de risco analisam as economias nacionais sob o prisma dos investidores. Com juros altos, e garantia de pagamento, o Brasil era bem avaliado.

Agora que os juros vão cair inexoravelmente, em função da falta de álibis do Banco Central, as alternativas de investimento vão para a economia real. E cadê o crescimento?


Escrito por Luis Nassif às 21h31

17/09/2006

A saúde privada desarticulada

Acabei de dar uma palestra em Comandatuba para a área de saúde privada. É um setor completamente desarticulado. Planos de saúde, hospitais, laboratórios clínicos, indústria de equipamentos, médicos, não têm a menor ação articulada para se conseguir reduzir custos sem reduzir a eficácia do tratamento.

Não há informações sistematizadas sobre esse universo de clientes dos planos, não há troca de informações, não há compartilhamento de bancos de dados. Com essa falta total de sintonia, os operadores privados estão começando a verticalizar, montando hospitais e laboratórios, o que é uma loucura disfuncional e dispendiosa, a que se recorre quando o setor não tem nenhuma capacidade de articulação entre seus agentes.

Dento de algum tempo vão surgir novos personagens no setor, novas empresas com modelos de atuação capazes de articular as ações dos diversos agentes do setor, que vão acabar dominando a área.

Vou começar a escrever mais sobre o tema, aproveitando as idéias que desenvolvi à tarde para a palestra. Depois, vou colocando aqui para receber críticas e observações.


Escrito por Luis Nassif às 22h14

Sofismas econômicos

Há dois sofismas econômicas que vivem sendo repetidos a torto e a direito. Na sexta passada, quase me atraquei com o ex-Ministro Maílson por conta disso.

O primeiro é que enquanto o Brasil não melhorar a infra-estrutura e reduzir o custo Brasil, não poderá baixar juros. Não há a menor relação de causalidade. É evidente que o custo Brasil precisa ser melhorado. Mas, quando é ineficiente, essa ineficiência determina um patamar de preços mais alto. Ocorre que inflação não é patamar de preço, mas variação de preço. O fato de se ter uma economia ineficiente eleva os preços (em relação a uma economia eficiente) mas não provoca inflação. O que Maílson propõe é que se espere a economia ser eficiente, para então reduzir os juros, que só então liberará recursos para investir em infra-estrutura e deixar a economia eficiente.

Nem comento nada minha reação quando ele disse que se a taxa Selic cair para 10% a inflação irá explodir, o capital externo irá fugir e o mundo irá acabar.

O segundo sofisma é a idéia de que o país precisa atrair capital externo para investimento ou para financiar a dívida pública. Não há o menor sentido nisso. O Brasil não tem moeda conversível. Quando o capital externo entra, é convertido em reais. Em seguida, o Banco Central compra os dólares para impedir maior apreciação do câmbio –o que tem um enorme custo fiscal. Depois, os reais que entram na economia são enxugados para evitar expansão monetária indevida. Conclusão: cada um dólar que entra na economia deixa como saldo um dólar a mais de endividamento interno, e um dólar a menor de poupança interna.


Escrito por Luis Nassif às 22h10

Juros e saúva

Meu colega e amigo Celso Ming vem batendo em duas teclas em sua coluna no “Estadão”. A primeira, que seria absurdo fixar metas de crescimento do PIB. A segunda é que a insistência na redução dos juros lembraria o famoso bordão dos anos 30, “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. E sugere acabar com a idéia fixa nos juros.

Dois pontos para o Celsão considerar em suas análises.

O primeiro, o fato de, na prática, o BC trabalhar com tetos de metas de crescimento. Essa loucura do PIB potencial é o quê? O BC monitorando indicadores de crescimento e puxando os juros cada vez que a economia ameaça decolar, mesmo que não haja impacto no índice de preços. Ou seja, uma das famílias de indicadores na qual o BC se baseia para não baixar os juros são os níveis de atividade e de capacidade ociosa da indústria, por conta dessa superstição do “PIB potencial” (que diz, com base em alquimia, que o Brasil não pode crescer mais do que 3,5% ao ano).

A outra é a analogia entre saúvas e juros. Existem três preços fundamentais na economia: juros, câmbio e salários. Além de ser um dos três, a taxa de juros influencia o segundo, que é o câmbio. E ambos influenciam o terceiro, que são os salários. Sem considerar os impactos fiscais.

Até dá para minimizar os efeitos da saúva, não o dos juros sobre a economia.


Escrito por Luis Nassif às 14h10

O voto de Palocci

O apoio de Palocci para que o presidente do Banco Central Henrique Merelles seja Ministro da Fazenda (clique aqui) tem tanta relevância quanto o meu voto para a indicação do diretor-geral do FMI. Depois que descobriu que Palocci o enganava com a história de que Ministérios tinham recursos e não sabiam gastar, Lula não aceita receber sequer telefonemas de seu ex-czar da economia.

A esperteza da dupla Palocci-Paulo Bernardes consistia em jogar recursos em programas de baixa viabilidade dos ministérios (por exemplo, aqueles com problemas ambientais) e depois, quando o Ministro reclamava da falta de verbas, tentar mostrar para Lula que havia dinheiro que o Ministério não sabia gastar.


Escrito por Luis Nassif às 08h35